
No Dia do Orgulho LGBTQIAPN+ o Blog da BVPS traz uma pequena série de trechos do romance Stella Manhattan, de 1985, de Silviano Santiago. Pioneiro na ficcionalização do universo trans, o livro continua sexy e potente em suas dobras ou intersecções da sexualidade com a política. Eduardo/Stella/o Brasil da Ditadura militar: nossos antepassados? Nossos contemporâneos?
([…] Percebo que – apesar do pedido de ajuda – a sua desconfiança com relação a mim persiste, e ela transparece na forma como pouco a pouco vai querendo eliminar da frase que joga no papel este seu amigo retórico e inútil para que as suas experiências pessoais – uma tarde de verão nova-iorquino em que você estava deitado na cama ao lado de David – se entreguem nuas ao papel.
“Nuas!? Você perdeu o pudor?” – grito um grito de quem se afoga.
Você, com remorso, já está disposto a me salvar da morte.
Vira-se para mim e diz que na verdade sou eu quem tem razão e que você realmente não gosta de narrativas autobiográficas. Ficção é fingimento blá-blá-blá, o poeta quem diria? É um fingidor. El poeta qua-quaquaqua-quá es un jodedor, eso si. A fucker. A motherfucker. Fode tão somente pelo prazer de escrever. Por isso é tão fodido. The novelist is a fucker who fucks only to be fucked. El novelista es un jodedor que fode só pelo prazer de escrever) Silviano Santiago, Stella Manhattan, 1985.
| Imagem: Jean Cocteau (1889-1963). “Les amoureux”, 1952.