
O Blog da BVPS publica hoje texto de Antonio Herculano Lopes, pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, sobre a morte do ator, dramaturgo e diretor teatral José Celso Martinez Corrêa (1937-2023).
Um dos artistas mais revolucionários da história do teatro brasileiro, Zé Celso faleceu no último dia 6 de julho, vítima de um incêndio em seu apartamento em São Paulo. A partir deste trágico episódio, Antonio Herculano apresenta um sensível obituário pela partida desse imenso homem do teatro.
Como bem ressalta o autor, o teatro de Zé Celso, além de ser marcado por uma concepção “dionisíaca”, é também “apolíneo”, pois ele era um criador de rigorosa racionalidade e busca pela perfeição estética. E ao mesmo tempo que propunha uma intensa vivência do presente, o diretor teatral também se voltava para os aspectos políticos e sociais da história. É na ambivalência de sua natureza e de sua arte que nos (re)encontramos com a grandeza desse artista, ainda tão vivo entre nós.
Boa leitura!
Zé Celso, a título de obituário
Por Antonio Herculano Lopes
Quando soube da morte de Zé Celso, depois de um momento de abatimento, comentei com um amigo, com um humor que, creio, teria agradado ao querido diretor: “O céu nunca mais será o mesmo…”. Meu amigo, com maior acuidade, contestou: “Ou o inferno!”. Isso me fez pensar na profunda ambivalência desse personagem, que saiu de cena num ato trágico e inesperado, consumido pelo fogo, quase sugerindo uma autoimolação. Celebradíssimo e pranteadíssimo post mortem, o fato é que Zé Celso era um gênio reconhecido enquanto tal, mas de muito difícil deglutição. Não era incomum se ouvir de frequentadores habituais de teatro que não iriam assistir à “última loucura do Zé”, porque não queriam se expor a uma atriz ou ator que viesse sentar em seu colo, dar-lhes um beijo na boca ou arrancar a sua roupa. Associado a palavras como xamânico e dionisíaco, seus atos exigiam do espectador sair, quando não, ser arrancado, de sua posição de voyeur e participar de forma plena do ritual de celebração da vida. Este não se limitava a um hedonismo, pois era sempre essencialmente um ato político. Lembro-me da ocasião em que, recém retornado do exílio em Portugal e Moçambique, o encenador incendiava multidões ao lhes propor que para inverter um alfabeto “colonialista e derrotista”, que anunciava as vogais na sequência “A… E… I… O… U…”, deveríamos adotar a sequência “U… O… I… E… A…!”. Emitia a primeira sequência com um gestual que partia de uma grande expansão corporal e terminava numa postura deprimida, condizente com a vogal fechada. Em oposição, a segunda sequência passava da depressão para a plenitude de um A aberto para o cosmos. O que a muitos parecia um mero chiste tinha um sentido revolucionário. Seguindo um de seus mentores intelectuais, Oswald de Andrade, Zé Celso retomava com força redobrada a proposição “A alegria é a prova dos nove”. Zé era um nietzscheano que se opunha às apropriações políticas de um irracionalismo entregue a si mesmo. Para além do rótulo (assumido por ele, mas redutor) de dionisíaco, ele era um criador profundamente racional, e mesmo com uma dimensão apolínea, em busca da forma perfeita, da beleza suprema. A ambivalência era constitutiva de suas criações. O ano teatral de 1968, com o crescente fechamento do regime militar e seus choques com um meio intelectual e artístico predominantemente de esquerda, costuma ser lembrado pela versão “anárquica” do diretor para a peça Roda viva, de Chico Buarque, inclusive pela forte repercussão popular e pelas reações violentas de grupos de extrema direita. Fala-se menos da estreia de Galileu Galilei, de Brecht, verdadeiro hino à ciência e à racionalidade, estreado poucos dias antes da decretação do AI-5. A coincidência das datas não era fortuita e anunciava o aprofundamento das trevas e a plena força do obscurantismo, que ainda dominaria o país por mais de uma década. Na versão zecelsiana, representava-se um cientista profundamente humano, com suas contradições, seus medos e sua busca dos prazeres. A cena do coro de carnaval trazia para o palco as tensões internas ao próprio Oficina entre uma postura mais ortodoxamente política e a explosão anárquica do “povo-coro”. Depois de ser preso e torturado, Zé Celso, com uma parte do Oficina, partiu em 1974 para um autoexílio em Portugal, onde o grupo pôde vivenciar a experiência de uma aliança entre artistas e trabalhadores, em plena Revolução dos Cravos, algo que no Brasil era impossível. Entre 1975 e 1976, estendeu essa vivência com o processo revolucionário moçambicano. O retorno ao Brasil, na virada dos anos 70 para os 80, se deu num contexto em que não era o horizonte de uma construção socialista que se colocava, mas o de uma reconquista da democracia. Com a própria classe operária menos mobilizada por uma ideia de revolução social, o artista voltou a dar ênfase à revolução cultural, e a troca de Prometeu por Dioniso, no dizer dele próprio, voltou a dar a tônica de seu fazer teatral, num Oficina então rebatizado de Uzyna-Uzona. No início de 1982, ele “importou” de Brasília um diretor e coreógrafo igualmente xamânico, o uruguaio Hugo Rodas, com o seu Grupo Pitu, que deveria ser responsável pelo coro de O homem e o cavalo, de Oswald de Andrade. Mas o conflito com Silvio Santos e as dificuldades financeiras e burocráticas acabaram por impedir uma parceria que prometia ser explosiva. Foi sobretudo a partir dos anos 90 que Zé Celso pôde retomar uma regularidade em suas produções e o Teatro Oficina, repaginado pelo belíssimo projeto de Lina Bo Bardi, foi palco de espetáculos memoráveis, como Ham-let, As bacantes e Cacilda!, culminando com as cinco partes de Os sertões, montadas entre 2001 e 2006. Diretor maduro e pacificado com suas próprias contradições, apresentou sua visão síntese de uma arte que combinava o apolíneo e o dionisíaco, a arte e a vida, a razão e a emoção. Seu ato mais pessoal, e igualmente político, se deu trinta dias antes do “sacrifício” final, quando se casou com seu companheiro de 37 anos, Marcelo Drummond. Não creio (nem descreio) em destino e não estou chamando de sacrificial o trágico evento por imaginar qualquer intenção por trás dele, mas que o genial criador da cena tenha sido levado pelo fogo um mês após sua cerimônia mais singela de celebração do amor e da vida é algo que se envolve de um simbolismo que o coloca num patamar sobre-humano – sorry Nietzsche.
Rio de Janeiro, 15 de julho de 2023.
Imagem: Eduardo Simões.
O texto é lindo, informativo e comovente!