
O Blog da BVPS publica hoje resenha escrita por Gabriel Martins da Silva (PPGLCC/PUC-Rio) do livro Uma crítica cult: Em memória de Eneida Maria de Souza (2023), organizado por Roberto Said e Walter Melo Miranda. O texto aborda os artigos e as linhas de força que compõem o livro em homenagem à intelectual mineira.
Como destaca Silva, o livro gira em torno de dois eixos paradigmáticos da trajetória intelectual de Eneida: a crítica biográfica e a obra de Mário de Andrade. A resenha ressalta ainda o pensamento aberto, inquieto e multifacetado dessa crítica cult, que pode ser observado pela diversidade de vozes e perspectivas que prestam tributo a uma de nossas mais importantes intelectuais.
Aproveitamos para lembrar do lançamento do livro no Rio de Janeiro, que ocorrerá no dia 20/09, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo.
Boa leitura!
Os fragmentos dos fragmentos dos cacos: um livro-carta para Eneida Maria de Souza
Por Gabriel Martins da Silva (PPGLCC/PUC-Rio)
As palavras finais deste texto da memória não selam nenhum compromisso com a morte, tampouco funcionam como epitáfio de uma vida acadêmica passada a limpo. Acenam, ao contrário, para a esperança que ficou retida no fundo da caixa de Pandora […]. O exemplo do restaurador de vasos, aprisionado à sua própria obra por excesso de onipotência, volta agora como alerta para se repensar a questão de um texto que, no lugar de libertar seu autor, o prenderia no fascínio de sua própria imagem. A única saída seria quebrar novamente o vaso e ir, pacientemente, recompondo os fragmentos dos fragmentos dos cacos espalhados pelo chão.
(Eneida Maria de Souza, Tempo de pós-crítica).
Ao final do prefácio de Sade, Fourier, Loyola, Roland Barthes coloca a seguinte questão: “[…] se eu fosse escritor, já morto, como gostaria que minha vida se reduzisse, pelos cuidados de um biógrafo amigo e desenvolto, a alguns pormenores, a alguns gostos, a algumas inflexões, digamos: ‘biografemas’, cuja distinção e mobilidade poderiam viajar fora de qualquer destino e vir tocar, à maneira dos átomos epicurianos, algum corpo futuro, prometido à mesma dispersão […]”. As duras e estranhas palavras de Barthes, ao imaginar, após sua morte, a escrita de sua biografia pelas mãos de um amigo, compõem um quadro metodológico diferente do imaginário comum em torno do significado de uma biografia. Quer dizer, ao invés dos calhamaços que se propõem a narrar a vida dos indivíduos extraordinários, descobrindo as minúcias de suas peripécias pessoais e suas conquistas públicas, o programa do biografema barthesiano aposta numa espécie de incompletude sistemática da própria prática biográfica, cujas características constitutivas são a dispersão e a fragmentariedade.
A noção de “biografema”, retrabalhada em textos autobiográficos do próprio Barthes, aponta para os pequenos causos, os detalhes aparentemente irrisórios da vida do biografado, que, por sua vez, servem como uma espécie de metonímia para toda a vida. Algo dessa forma, mesmo que apropriado à sua maneira, pode-se entrever na noção de “crítica biográfica”, aparato teórico-metodológico elaborado por Eneida Maria de Souza para tratar o texto literário. É também verdade que algo desse movimento biografemático pode ser encontrado no livro-homenagem Uma crítica cult: Em memória de Eneida Maria de Souza (2023), organizado por Roberto Said e Wander Melo Miranda. Os dois amigos de Eneida, em um gesto arguto de curadoria dos textos e de proposta editorial, disponibilizaram ao público interessado uma espécie de livro-homenagem-biografemático, pois, pelas mãos de seus amigos, Eneida tem sua vida intelectual passada a limpo, a partir de ensaios, poemas, cartas e artigos que tanto atravessam diversos de seus temas de pesquisa quanto recobrem pequenos detalhes. Recortado em biografemas da vida partilhada, os textos formam um tipo de biografia gauche, centrada na menor unidade biográfica possível, disposição coerente com a trajetória intelectual e o gosto teórico da autora.
Em seu memorial para professora titular, Eneida usa a imagem do “artesão de costuras miúdas” para caracterizar seu próprio trabalho ao analisar Macunaíma, de Mário de Andrade, objeto de sua tese de doutorado. A imagem remete a uma lente de aumento atenta aos detalhes, de modo a ampliar o tecido e o corpo do texto, aspecto que se aproxima do uso biografemático de Barthes. Ou ainda, poderíamos lembrar a expressão criada por Guimarães Rosa, outro escritor de preferência da autora, em um pequeno texto-fragmento de Tutaméia: “acronologia miúda”. A expressão destaca a pequenez dos detalhes e sua proposital desorganização temporal, outro dado que nos remete à obra de Eneida, sobretudo em seus últimos escritos, informados por autores como Aby Warburg e George Didi-Huberman.
A seção “Painéis críticos” é aberta por um texto de Wander Melo Miranda, um dos organizadores do livro, que, num panorama geral da obra da autora, percorre desde o primeiro texto, de 1971, publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, sobre a canção “Construção”, de Chico Buarque, até o último projeto de pesquisa da professora, submetido ao CNPq, que trataria da relação entre Mário de Andrade e os indígenas. O panorama, altamente contaminado pela proximidade entre Wander e Eneida, deixa um registro da ampla e diversa carreira da pesquisadora, dos temas em que mergulhou e dos diferentes projetos que desenvolveu junto aos colegas da universidade.
Logo depois, no texto da xará Eneida Leal Cunha, Eneida Souza é lida como uma intérprete do Brasil, como uma autora empenhada em investigar “algo inapreensível como totalidade e fixidez: o imaginário brasileiro” (p. 79), cujos esforços críticos formaram uma imagem caleidoscópica, que logo ressalta sua “disposição para embaralhar fragmentos e oferecer ao leitor composições inusitadas de textos, imagens, arquivos, autores […]” (p. 79). A armação escolhida por Cunha é a de textos ligados à música, menos mencionada na crítica sobre Eneida Souza, como, por exemplo, os que discutem a figura de Carmen Miranda. A cantora brasileira, estigmatizada como produto alienante e de mau gosto, é reabilitada criticamente, de modo a deslocá-la para o debate, em alta à época, das relações assimétricas entre países “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”, no imbróglio da dependência cultural e da influência norte-americana nas culturas do “terceiro mundo”
Ambos os textos, de Eneida Cunha e de Wander, assim como os outros da seção, são escritos em diálogo com a experiência pessoal com a homenageada, produzindo um misto de ensaio e testemunho, encarnados e balizados por cacos biografemáticos, para usarmos a expressão de Myriam Ávila (p. 117), no qual a matéria crítica se vê implicada na dimensão biográfica e pessoal dos autores.
O livro gira em torno, a princípio, de dois eixos: a crítica biográfica e os estudos sobre a obra de Mário de Andrade. Esta é a divisão temática, em termos teóricos, mais evidente na homenagem a Eneida. É simples entender os motivos que norteiam tal escolha curatorial e editorial. Primeiro, pelo pioneirismo da autora na formulação da própria ideia de crítica biográfica, esse misto de método e olhar crítico sobre a vida e obra, métier consagrado em diversos trabalhos ao longo de sua trajetória. Segundo, graças ao seu outro pioneirismo na leitura de Mário de Andrade, iniciada, de fato, ainda em solo estrangeiro, na sua tese de doutorado defendida na Universidade de Paris VII sobre Macunaíma, colocando-o devidamente no radar dos debates sobre intertextualidade.
Na seção sobre Mário de Andrade, para além de uma sistematização do trabalho de Eneida em torno da obra do escritor paulista, que vai desde seus trabalhos nos anos 1970 até o seu último livro publicado em 2021, atestando uma continuidade dos estudos sobre esse autor ao longo de todo sua carreira, podemos visualizar a força de sua reflexão dentro da vasta fortuna crítica sobre Mário.
A partir do título da tese de doutorado da autora, A pedra mágica do discurso, publicada no Brasil em 1988, Raul Antelo destaca a palavra “pedra”, significante que persegue através de diversos escritos para pensar a contribuição de Eneida. Assim, diante das diversas modulações que a noção mineral e metafórica da pedra ganha, por exemplo, nas análises que Eneida faz das reverberações míticas de Macunaíma, aos textos de Roger Caillois, ou ainda na própria dimensão morfológica da geologia, Antelo pensa o estatuto pétreo da reflexão da autora, como aquilo que tudo vê e que se estende no tempo, mas também daquilo que não fala, num mutismo que hesita em se revelar. Entre a fixação e a estabilidade, a pedra apreende a vida através de vestígios, como lembra Antelo, mas, a partir de sua condição fóssil, aponta também para perspectivas futuras, tornando-se “cifra temporal que permite traçar a divisão entre a vida e o vivido” (p. 220). O talismã cósmico de Macunaíma, o muiraquitã, fala de uma indeterminação própria da escritura das pedras, aquilo que poderíamos aproximar da forma do ensaio, rubrica de preferência de Eneida, como nos lembra Rachel Esteves Lima em seu texto, essa forma do fragmento que, por sua vez, não se reduz ao “ecletismo frouxo” (p. 91), mas acaba sendo consequência de um dispêndio de pesquisa exaustiva da vida e da obra de autores e objetos artísticos.
Adiante, vale ressaltar a importância do ensaio de Roniere Menezes, que retoma o trabalho ainda inédito de Eneida sobre O banquete de Mário de Andrade, monografia desenvolvida na França em 1979, que lhe garantiu o Diplome d’Etudes Approfondies (D.E.A). Após abandonar seu projeto sobre literatura de cordel, Eneida continua, de certa maneira, com inquietações vizinhas, como a relação entre cultura erudita e cultura popular, demovendo o campo dos estudos literários para as urgências do presente. Assim, aos poucos, migra para o estudo da obra de Mário de Andrade, sobretudo a partir da sua interface com a cultura popular. Não à toa, o objeto escolhido é a reunião de textos sobre música do autor paulista, escritos na década de 1940. A monografia de Eneida, intitulada O Banquete de Mário de Andrade: a deglutição de uma cultura, confirma sua argúcia ao trabalhar o texto andradiano em relação com a antropofagia e o tema da deglutição, antenada nos debates em torno da dependência cultural, típicos dos anos 1960-1970 no Brasil e na implicação sempre problemática do contato entre a cultura nacional e os objetos artísticos internacionais. Dessa maneira, no complexo quadro de textos e reflexões em torno de Mário de Andrade, podemos ver uma autora empenhada no debate franco entre modernidade periférica, tradição literária e cultura brasileiras, além dos diversos registros críticos que alimentam a intelectual em formação à época, como a intertextualidade, o formalismo russo, o estruturalismo e o pós-estruturalismo.
Já nos dois textos de Marília Rothier Cardoso e Nádia Battella Gotlib, vemos um esforço de sistematizar o pensamento de Eneida em torno da noção de “crítica biográfica”, que envolve tantos os textos teóricos, que versam sobre o tema, como os que pensam objetos propriamente literários, como no livro Pedro Nava: o risco da memória, no prefácio à edição da correspondência de Henriqueta Lisboa e Mário de Andrade e em O século Borges, este último publicado antes da elaboração da própria noção de crítica biográfica, como lembra Marília Rothier (p. 131). Nesses três estudos matriciais, vemos uma autora dedicada no emaranhado entre vida e literatura, pensando os rastros da biografia na composição das obras, na dupla implicação entre essas dimensões, com olhar minucioso sobre os pequenos detalhes da vida, num processo de constante metaforização do vivido, gesto que logo nos remete ao biografema barthesiano. No texto de Nádia Gotlib, atravessamos diversos momentos da obra de Eneida, marcado pela disposição formal do próprio ensaio, quer dizer, dividido em tópicos datados respectivamente como 1991, 1995, 1996, 1998 e 2010-2019, apresentando, de maneira ampla, a contribuição de Eneida na elaboração do tópos biográfico, desde sua primeira incursão no tema até seus últimos textos publicados. No texto de Marília, o arsenal crítico de Eneida serve como aparato metodológico para pensar quatro figuras do modernismo brasileiro: Oneyda Alvarenga, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e a própria Henriqueta Lisboa. Todas essas personagens, de forte relação com Mário de Andrade, são discutidas a partir de suas próprias obras, ressaltando suas complexas interfaces com os grupos modernistas, numa visada feminista de análise das obras.
O livro-homenagem é aberto com uma série de textos, heterogêneos em si, que, de certa maneira, rememoram o contato de cada autor com Eneida, produzindo uma espécie de arquivo das relações pessoais e profissionais (para não dizer afetivas e teóricas) entre esses pesquisadores e pesquisadoras. A seção “Endereçamentos” se inicia e se encerra com dois poemas-missiva, o primeiro de Ana Chiara e o último de Rafael Lovisi Prado, que logo depois encontrará ressonância no texto de Eliane Marta – este, sim, uma “carta” à autora –, que também converge para o gesto pessoal e afetivo de Ana Lúcia Almeida Gazzola, num ensaio-testemunho que atravessa seu contato com Eneida. Seria injusto, aqui nesta resenha, circunscrever o caráter pessoal e afetivo dos relatos a apenas essa parte do livro, já que o tom emotivo e de testemunho parece atravessar o livro como um todo. Exemplo disso são os textos finais de André Botelho e Silviano Santiago, que, como sugere a montagem do livro, trazem a autora na dedicatória. Quer dizer, textos em diálogo com as propostas de debate de Eneida, seja com a obra de Pedro Nava, como no caso de Botelho – com um post-scriptum que relata o contato pessoal deste sociólogo com a Eneida leitora e estudiosa da obra de Nava – , ou ainda sobre os processos de criação literária, como é o caso de Santiago.
Como sabemos também a partir do texto de Marcos Antonio de Moraes, “Linhas de força de uma crítica epistolográfica”, que propõe um inventário dos escritos de Eneida sobre epistolografia, a autora se debruçou, ao longo de muitos de seus estudos, sobre as cartas trocadas entre intelectuais e escritores, chegando a organizar e prefaciar o importante volume da correspondência entre Mário de Andrade e Henriqueta Lisboa. A partir desta rubrica do livro-carta, gostaria de pensar a homenagem a Eneida desde essa disposição da escrita para um além, que, sem encontrar a autora, carrega, em si, a força de um diálogo impossível, deixando evidente, ainda, a condição paradoxal e, por isso mesmo, interessante do fenômeno epistolográfico. Como lembra Jacques Derrida em La carte postale, em resposta a Jacques Lacan, a constante possibilidade da não resposta, do extravio e do desgarre assombra a dimensão escritural das cartas. Assim, elas podem não chegar, podem se perder, podem não ser respondidas…
É justamente nessa dimensão da correspondência, de uma sempre possível impossibilidade, que o livro parece se apoiar. Sabemos que as cartas enviadas – sejam elas cartas de fato, poemas ou ensaios – não serão respondidas; porém, a simples organização delas, apontando para o gesto afetivo da homenagem e da rememoração, faz o projeto ganhar sobrevida. É difícil não se emocionar na leitura dos diversos relatos de convivência com alguém que atravessou tantas instituições, tantos ambientes de debates, tantas salas de aulas e tantos encontros festivos; alguém que não pode mais responder às homenagens, mas que se torna pública para o mundo.
O tom eminentemente pessoal dos diversos relatos apresenta uma intelectual empenhada na formação universitária, na diversidade metodológica e teórica e na generosidade com seus pares, traço fundamental da vida acadêmica, por vezes em falta e com exemplos que se multiplicam nas pequenas salas de aula, nos corredores da universidade e nos intermináveis chopps – ou copos de whisky, como era de preferência de Eneida (p. 159) – após seminários. Que o livro seja uma carta ao mundo acadêmico, que possa, a partir dos testemunhos, cultivar a memória de uma autora singular e inspirar novas gerações, a partir da sua fragmentação biografemática, como também quis Roland Barthes, podendo tocar “[…] algum corpo futuro, prometido à mesma dispersão”.