Série Modos de Narrar a Sociologia Brasileira | Josefa Salete Barbosa Cavalcanti

Iniciamos hoje a série Modos de narrar a sociologia brasileira dedicada à publicação de memoriais – em excertos selecionados pelos autores – de sociólogas e sociólogos brasileiros. A iniciativa é uma parceria do Grupo de Trabalho de Pensamento social da Anpocs com o Comitê de Pesquisa da mesma área da SBS.

Requisito fundamental para obtenção da titularidade na carreira, embora pouco conhecidos por seus pares, os memoriais acadêmicos desempenham um papel crucial como registros históricos da sociologia brasileira, capturando não apenas as trajetórias profissionais dos pesquisadores, mas também, por meio delas, as sequências contingentes de desenvolvimento e as transformações da disciplina e das instituições que a rotinizam ao longo do tempo. Embora se concentrem nas experiências individuais, os memoriais são reveladores das dinâmicas coletivas – de cooperação e competição – e das redes de colaboração que moldam a área. São a seu modo também dispositivos singulares de exercício da imaginação sociológica que figuram, em regime narrativo próprio, a questão perene da sociologia da relação indivíduo e sociedade, e nos ajudam a “compreender a história e a biografia e as relações entre ambas, dentro da sociedade”, como diria Wright Mills.

Documentos escritos meditados e intencionados que carregam e produzem, por meio de lembranças mas também de esquecimentos, interpretações variadas e por vezes divergentes sobre os contextos da disciplina, a sociedade também escreve a si mesma nas teias desses textos-práticas de si. E nas suas entrelinhas, o social se faz autor e ganha voz – através de seus ditos, não ditos, entreditos, interditos e até mesmo indizíveis. Sem deixar de buscar os fios que entrelaçam diferentes momentos de uma trajetória, o que se deixa ver nos memoriais coligidos é um exercício reflexivo de narrar experiências vividas em que escolhas e conquistas, mas também contingências e acasos condicionados por estruturas de limites e oportunidades, espiralam as jornadas, por vezes vazando a coerência e linearidade do ato discursivo. Esse esforço de síntese permite uma compreensão mais profunda e nuançada do desenvolvimento acadêmico, reconhecendo a importância tanto dos momentos planejados quanto dos imprevistos, bem como das próprias disputas narrativas que vão modelando diferentes versões da história intelectual da disciplina. Ao contarem suas histórias de formação e atuação, as sociólogas e sociólogos contam também muitas outras histórias compartilhadas.

Cada memorial constitui, portanto, uma peça em que os personagens – que frequentam e fazem múltiplas histórias – encenam um enredo maior comum e público, figurando tendências, debates e mudanças teóricas, metodológicas e cognitivas da área, mas também os laços e conflitos que ligam gerações, conformando uma comunidade acadêmica. Esperamos, assim, que a perspectiva histórica delineada nos memoriais publicados na série sirvam de registro dessa história viva e plural, e, sobretudo, que as gerações mais jovens possam encontrar neles momentos constitutivos de suas próprias trajetórias e reconhecer o legado construído por seus predecessores, o que numa sociedade improvável como a brasileira em que a vida intelectual parece recomeçar do zero a cada geração, como afirma Roberto Schwarz, não é trivial. Afinal, é através desse trabalho coletivo e ininterrupto de comunicação intergeracional que, numa espécie de corrida de revezamento, se realiza o sentido cumulativo, embora cronicamente não consensual, da prática da sociologia que lhe concede o “dom da eterna juventude”.

Abrimos a série com os relatos das sociólogas Elisa Reis (UFRJ) e Josefa Salete Barbosa Cavalcanti (UFPE), em cujas notáveis trajetórias se combinam o local, o regional, o nacional e o global, fazendo delas figuras exemplares e pioneiras da sociologia brasileira.

Agradecemos às colegas e aos colegas que gentilmente aceitaram publicar trechos de seus memoriais como parte dessa ação e a André Botelho pelo estímulo na organização dela. Os posts sairão sempre às quintas-feiras e em duplas, de modo a provocar o diálogo em torno dos diferentes modos de narrar a prática desta disciplina compartilhada e disputada.

Maurício Hoelz & Lucas Carvalho


Memorial (2010)



Josefa Salete Barbosa Cavalcanti (UFPE)

Claro está que não há como colocar um ponto final neste memorial, aqui apresentado apenas pelo recorte das atividades de formação superior, que contribuíram para que eu me tornasse professora e pesquisadora da UFPB e da UFPE ao longo de quase 50 anos de trabalho.

Formação universitária

Fiz o exame vestibular em 1967, quando foram aprovados apenas uns quatro ou cinco candidatos ao curso de Sociologia e Política da Faculdade de Ciências Econômicas de Campina Grande (FACE) da Universidade Federal da Paraíba, que, até então, abrigava os dois únicos cursos da área de Humanidades: Economia e Sociologia e Política. Este último foi, posteriormente, reconhecido como bacharelado em Ciências Sociais. Minha turma absorveu depois os excedentes, uma categoria que se mobilizou para ocupar as vagas remanescentes daquele ano. Foi ali que iniciei minha carreira acadêmica.

A graduação: tempos e movimentos

O período do curso de graduação seria, em geral, menor, considerando-se a programação rotineira da vida acadêmica. Ele me pareceu muito longo. Isso aconteceu como uma decorrência da conjuntura social e política do país naquela época, um dos períodos mais instigantes e (por que não dizer?) eletrizantes da minha vida. Em 1967, existiam ali quatro turmas de Sociologia e o mesmo número de Economia, num ambiente organizado segundo os critérios definidos pelo seu diretor, que permaneceu na função por vários anos.

Convivi com as determinações do regime militar e também com a efervescência da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Vários professores participavam do corpo técnico da SUDENE e vinham, a cada semana, do Recife para ensinar várias disciplinas, principalmente as de economia. O meu primeiro professor dessa área não concluiu o ano letivo, porque foi afastado por força maior; outro assumiu o seu lugar. O conteúdo da disciplina passou, então, de uma visão mais crítica de base marxista para uma mais ajustada às expectativas de desenvolvimento econômico, privilegiadas pelo novo modelo político de modernização do país de então. Foi assim que, na expectativa de mudança da ordem constituída e melhoria das condições acadêmicas, integrei-me ao movimento estudantil e fui eleita para a direção do Diretório Acadêmico (DA). Essa agremiação foi fechada, posteriormente, por força das novas medidas e dos atos institucionais (AI) que tolheram a vida acadêmica nacional. Somente essa parte da história requereria um relato nos seus próprios termos.

Esses limites políticos e institucionais foram, no cotidiano da universidade, suplantados pela ação de um grupo de professores abnegados e comprometidos com a produção do conhecimento e a possibilidade de uma educação transformadora. Ali, encontrei vários com os quais aprendi a não temer os desafios e contribuir para a construção de instituições. Faço uma homenagem aqui a todos que se tornaram importantes, pela mensagem de transformação social e política em favor de uma universidade comprometida com os desafios do seu tempo.

Destaco, especialmente, a professora Ruth Almeida, formada pela Universidade do Brasil (UFRJ) e com especialização em Antropologia e Arqueologia no Brasil e no exterior. Os seus ensinamentos, nos quatro anos de graduação, me possibilitaram a ampliação dos horizontes acadêmicos permitindo que me preparasse para a vida profissional; com ela aprendi também o valor dos intercâmbios e parcerias interinstitucionais.

O professor José Lopes de Andrade, autor de Sociologia das secas, igualmente, me ensinou o valor da dedicação ao ensino e à pesquisa, demonstrado sempre pelo seu trabalho cotidiano no planejamento institucional e na necessidade e importância dos construtores de instituições sólidas.

Uma FACE da minha vida

Na FACE, encontrei mestres excepcionais. Eles me levaram a desenvolver o senso crítico, o rigor acadêmico e a vislumbrar outros mundos e saberes. Como havia poucas traduções de textos clássicos de Sociologia, Antropologia e Psicologia, requeria-se e estimulava-se o aprimoramento das leituras em inglês, francês e espanhol. Tive professores formados na antiga Universidade do Brasil, nos cursos de Direito da UFPE, em universidades francesas e de outros países. Os docentes de Economia e Direito Internacional residentes no Recife foram, infelizmente, retirados precocemente da sala de aula pela ditadura militar.

Participei do movimento estudantil e integrei a direção do diretório acadêmico no cargo de tesoureira. Nessa gestão, participei da luta por melhores condições de ensino e desenvolvemos, especialmente, a organização da resistência à situação política nacional. O diretório foi cassado no pós-1968. Vários dos colegas, inclusive o presidente e o vice do nosso grupo, foram impedidos de participar das atividades acadêmicas.

Participei de uma peça de teatro, Nossa Cidade, escrita em 1940 por Thornton Wilder. Trata-se de uma história de uma pequena cidade e seus personagens. O espetáculo foi dirigido por Milton Baccarelli (1932-1994), importante personalidade teatral do Recife e fundador, em 1975, do curso de Educação Artística e Artes Cênicas do CAC, conforme o registro na página do Centro de Artes, CAC/UFPE.

Junto a estudantes de outros cursos universitários de Campina Grande, além dos de Economia e de Engenharia da Escola Politécnica, experimentamos alguns minutos da glória de nos apresentarmos no moderno Teatro Severino Cabral, inaugurado naquela época. Fizemos, posteriormente, novas exibições em outras cidades da região.

Mencionando esse fato, me pergunto hoje como seria patrocinada a ida do professor Milton Baccarelli a Campina Grande. Esse professor sempre me exortava, durante os ensaios, a ocupar o centro do palco, mas eu não ficava muito confortável com as exposições em público. Na verdade, organizei, enquanto professora primária, apresentações de danças e teatro com as minhas turmas, mas somente com muita insistência da direção das escolas eu permitia incluí-las na agenda das sessões gerais e públicas. Penso que, ainda hoje, custa-me bastante ser o centro das atenções e isso se repete na elaboração deste memorial.

Por paradoxal que possa parecer, não me furto às apresentações em congressos e seminários, apesar do desconforto no trajeto até o palco, e sinto-me confortável em sala de aula. Acredito que os meus estudantes e as classes estão inclusas no campo das construções coletivas; portanto, nessa performance do ensinar não há apenas um indivíduo, mas muitos que se envolvem no processo de aprendizagem. Eu inclusive…

Durante o curso universitário, ia também a vernissages, principalmente de arte moderna e abstrata. Devíamos discutir, pois isso era a máxima do momento, para demonstrar erudição e sensibilidade artística às obras e a seus desdobramentos na perspectiva moderna. Aí, era necessário discutir o sentido da obra para o autor, a inteligência dos que tinham a coragem de emitir uma opinião. Um tormento e uma disputa de saberes, mas muito divertido! Entrevistas de pintores contemporâneos, entretanto, me deixaram por vezes perplexa, quando afirmavam pintar por pintar! Mas tal constatação tiraria parte do nosso encantamento e do sucesso entre os colegas. Uma boa coleção dos impressionistas que pude adquirir, depois, dava-me um pouco mais de informação sobre esse mundo da arte. Picasso, Rubens, Gauguin… Em minhas raras visitas a Paris, nunca deixei de visitar a Place du Tertre em Montmartre, pelo que esse espaço me pudesse falar da vida dos seus pintores e também das tintas com que colori minhas lembranças. Aquele espaço foi por vezes revisitado e também reinventado, porque por lá caminhei com alguém que me fazia sentir mais fortes as batidas do coração. Também íamos ao Clube dos Estudantes Universitários (CÉU). Eu levava comigo minhas irmãs e primas. Ao embalo das músicas dos Beatles, Roberto e Erasmo Carlos, além de Chico Buarque, circulávamos e encontrávamos os nossos pares.

Desafios e possibilidades

Vivenciei os acontecimentos de 1968, participando das manifestações públicas contra o governo militar e dos ensaios Pra não dizer que não falei das Flores de Geraldo Vandré. O encontro com a polícia nas ruas e o temor das represálias pareciam não influir na nossa impulsividade de jovens. Foram tempos difíceis, e exacerbados os controles sobre os aguerridos membros da academia.

No final do curso, em 1970, alguns dos nossos colegas foram reintegrados aos seus cursos, outros não voltaram. Em represália, a nossa turma decidiu não participar das solenidades de colação de grau, o que causou constrangimento ao diretor da FACE. Em 1971, quando colei grau na secretaria da faculdade, contei com a presença de alguns dos colegas que foram, graças aos movimentos, reintegrados à universidade.

Durante o curso universitário, interessei-me por várias matérias. Encantaram-me a Antropologia, a Sociologia e o Direito Internacional. Apreciei também a Psicologia e Economia, disciplinas das quais vim a ser monitora nos anos de faculdade. Cursei todas as disciplinas da Antropologia, desde a Antropologia Física às modernas correntes do pensamento antropológico naquela época. Fui me encaminhando, então, para essa área estimulada pela minha professora de Antropologia, que organizara um museu de cultura popular na faculdade. Fiz um estágio teórico-prático em Etnografia durante um mês no Museu do Unhão em Salvador, Bahia, com o seu diretor, professor Renato Ferraz, que possuía uma coleção especial de cerâmica do Nordeste e em particular do Recôncavo Baiano.

No Museu do Unhão, estudei um aspecto particular da obra de Marcel Mauss. Tratava-se de um trabalho sobre os métodos da observação, das técnicas, dos lugares e das especificidades dos objetos, valores, expressão dos direitos, produção, distribuição e consumo. Era um exemplar mágico pela enorme tarefa destinada aos estudiosos da Etnologia. Naquele espaço, que é hoje conhecido como Solar do Unhão, sentada numa das janelas banhadas pelas ondas fortes do mar da Bahia, eu observava as cerâmicas que procediam do interior baiano e indagava sobre os seus significados para os mestres e artesãos, como também sobre os seus vínculos com a admirável construção de objetos e significados que os homens e mulheres das sociedades conhecidas se permitiram realizar.

Desdobrava-se minha curiosidade a respeito desses objetos e sujeitos, que me mantêm até hoje enlevada, não apenas pelos seus aspectos estéticos, mas por causa da necessidade de desvelá-los em suas significações e potencialidades para a compreensão da sociedade atual.

Minha situação particular de estudante de uma universidade pública que ofereceu uma pequena ajuda monetária para custear esse estágio e o fato inusitado de deslocamento de estudantes de graduação, especialmente do sexo feminino para realizar estágio fora da sede, levaram o diretor da faculdade, sócio do Rotary Club, a informar aos seus companheiros da capital baiana sobre minha presença naquela cidade. Qual não foi a minha surpresa quando recebi um convite dessa agremiação para participar de um dos seus jantares. Minha primeira reação foi recusar, porque julgava que era um clube para os mais adultos e da elite. Lendo atentamente o programa que me enviaram para aquela noite, observei que estava prevista uma palestra do professor Thales de Azevedo, um membro da equipe da UNESCO que investigava a tese da democracia racial no Brasil (Azevedo,1975), ressaltada nas críticas aos trabalhos de Gilberto Freyre.

Que oportunidade! Convite aceito, fui apresentada ao antropólogo Thales de Azevedo, falecido em 1995, e assisti deslumbrada à sua palestra acerca da Cultura e Situação Racial no Brasil, em que ele enfocava as aproximações sobre a contestação da tese da democracia racial no país.

Além disso, em Salvador, visitei o Museu Nina Rodrigues e outros que falavam da história das populações negras e sua resistência. Morei com uma família baiana – Burgos de Lima, que me acolheu como filha e com a qual mantenho relações especiais até hoje. Minha mãe diz que eu tenho facilidade em encontrar mães onde eu estiver.

O meu interesse pelos estudos do parentesco garantiu-me, no ano seguinte a esse estágio na Bahia, uma permanência de três meses no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Brasília, dirigido, naquele tempo, pelo professor Roque de Barros Laraia. Entendendo as condições da vida acadêmica e a necessidade de aprimoramento dos professores e estudantes locais, a professora Ruth Almeida, que não se curvava às limitações da vida acadêmica numa cidade do interior do Nordeste, convidou o professor Roque de Barros Laraia para oferecer um curso de especialização em Campina Grande, acerca de Organização Social e Parentesco (Laraia; Damatta, 1978). Falou-lhe também de duas estudantes de graduação (eu e minha colega Marlise Pedrosa) que demonstravam gosto pelos estudos do parentesco. Dada a surpreendente descoberta, Laraia nos aceitou nesse curso, cujas atividades práticas abrangiam uma visita aos índios Tabajara da Baía da Traição. Após o curso, o professor Laraia nos informou que nós, as duas estudantes, estávamos convidadas a fazer um estágio na UnB.

Brasília, a UNB, a cidade, a vida acadêmica e novas sociabilidades

A grande oportunidade de conhecer Brasília, há 40 anos, como também de nos inserirmos nas atividades acadêmicas, no ano de 1970, abriu-nos um campo amplo de oportunidades para um passo a mais na nossa trajetória acadêmica. Ficamos hospedadas no Bloco D da Colina, que era, naquela época, ocupada por estudantes da universidade. A acomodação foi cedida nos meses de janeiro a março, reservados às férias dos alunos normalmente matriculados, o professor Júlio César Melatti (1978) foi o nosso tutor. Seguindo sua orientação, li Bronislaw Malinowski, E. E. Evans-Pritchard, A. R. Radcliffe-Brown, Max Gluckman, Marcel Mauss, Claude Lévi-Strauss, George Murdock, entre outros. A sistemática adotada era a de tutorias. Ao final de cada tarefa, havia a arguição pelo professor Melatti e uma aula sobre história da Antropologia. Foi uma experiência de convívio acadêmico das mais agradáveis e frutíferas. Tal experiência, realizada nos primeiros meses do último ano de curso de graduação, estimulou-me a prosseguir. No último semestre do curso, entre o trabalho monográfico de conclusão da disciplina de Sociologia do Desenvolvimento, com o exame dos debates sobre o trabalho de Walt Whitman Rostow e suas fases de desenvolvimento, e uma pequena incursão nos debates sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento, dependência e subdesenvolvimento, ministrada pelo professor Cornelio van der Poel, de origem holandesa, fui preparando minha candidatura ao mestrado do Programa de Antropologia Social do Museu Nacional, com a colega que havia participado comigo do estágio em Brasília. Infelizmente, ela não se candidatou ao curso, pelos limites impostos nas relações de gênero daquele tempo, acredito. Foi uma grande perda, creio, para a academia, considerando sua competência e potencial para as atividades intelectuais. No meu caso, a história particular de minha família de valorizar a educação e ser filha de uma professora era muito diferente. Minha mãe repetia milhares de vezes que a liberdade é um bem que só podemos compreender quando a temos perdido. Além disso, havia minhas experiências anteriores, encorajando-me a romper com os padrões da época. É claro que, apesar dos movimentos feministas e conquistas das mulheres no mundo do trabalho, romper com tais padrões ainda constitui um desafio[1] para as mulheres na contemporaneidade, especialmente.

Como estava decidida a estudar Antropologia, acompanhei o curso sobre Estruturalismo, a corrente mais festejada do momento, ministrado por David Maybury-Lewis no Mestrado de Sociologia da UFPE, que recebera apoio da Fundação Ford, graças à sensibilidade do professor Heraldo Souto Maior, que coordenava o convênio Ford Foundation/UFPE. No final de 1970, fiz minha inscrição na seleção para o Mestrado em Antropologia Social do PPGAS da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A primeira fase constava de uma entrevista que realizei em Recife, por ocasião da visita do então diretor do PPGAS da UFRJ, professor Roberto Cardoso de Oliveira, à UFPE. Isso evitava meu deslocamento ao Rio de Janeiro nessa fase preliminar do concurso. Incorporei essa flexibilidade, de certo modo, na minha vida e nos hábitos acadêmicos, ao atender estudantes de outros estados, em processo de redação de teses, em salas dos aeroportos do país. A segunda fase da seleção, ocorrida no Rio de Janeiro, tornou-se especial. Ali, eu estava concorrendo com candidatos com formação e publicações reconhecidas.

Pós-Graduação: vivenciando os instigantes tempos da sua institucionalização no país

Rio de Janeiro: o mestrado em Antropologia Social no PPGAS

Vários desafios a enfrentar, entre eles o de morar fora de casa, longe da família e o fato de ser a primeira do grupo a sair. O Rio de Janeiro continuava lindo, como na canção, mas assustador! Um calor de 40 graus, amenizado pela presença das Pioneiras Sociais (criação de Sarah Kubitschek), a que recorri para resolver uma iminência de desmaio, devido ao forte calor. As provas, realizadas em seis semanas, ocorreram no Centro Latino-Americano de Ciências Sociais.

Aprovada para iniciar o curso em 1971 e definido um lugar para morar, graças à apresentação feita, por uma de minhas colegas de turma, ao Colégio Sion, fui morar no Cosme Velho, que era um espaço tradicional de pensionato/internato de famílias de classe média alta. Oferecia, então, vagas para estudantes de pós-graduação, respondendo à nova demanda gerada pela recente institucionalização desse nível de formação no país. Lá encontrei várias amigas originárias de estados do Nordeste, Sul e Sudeste do país, que realizavam o mestrado em outros campos do saber, pois o Rio de Janeiro era, naquele momento, o centro intelectual. No campo da Antropologia, além do curso do Museu Nacional, estavam em formação os cursos da Universidade de Brasília e da Universidade Estadual de Campinas. Havia ainda o da Universidade de São Paulo, que, naquela época, era um centro de formação à moda antiga.

O curso do PPGAS/UFRJ acolhia sua quarta turma. Suas promoções eram muito bem recebidas pela intelectualidade carioca, especialmente pela novidade dos seminários sobre estruturalismo que atraíam também psicanalistas e linguistas, entre outros. Os próprios professores tinham trajetórias brilhantes. O Museu Nacional e o PPGAS, como retratam seus fundadores em vários momentos, ficaram imunes aos controles da ditadura, porque se dedicavam a temas considerados menos perigosos, de índios, mais precisamente, considerados em vias de integração ou desaparecimento.

Encantava-me encontrar autores que eu havia conhecido apenas por livros. Tremia a cada apresentação. Além de Roberto Cardoso de Oliveira, estavam ali Roberto DaMatta, Moacir Palmeira, Otávio Guilherme Velho, Luís de Castro Faria, Francisca Keller, Gilberto Velho e Alcida Rita Ramos. Frequentei também aulas de uma disciplina eletiva ministrada por uma professora do IUPERJ, Neuma Aguiar, sobre Durkheim. Acompanhei alguns seminários de Antropologia Urbana dirigidos por Gilberto Velho. Além das disciplinas do curso, precisávamos cursar também Estudos de Problemas Brasileiros, obrigatória naqueles tempos.

Nessas disciplinas, acompanhávamos o debate sobre os autores clássicos e os modernos enfoques sobre estruturalismo, sociedades camponesas, estruturas tribais latino-americanas, antropologia econômica, antropologia urbana, identidades sociais, etc. O curso ministrado por Cardoso de Oliveira, Indivíduo e Sociedade, com ênfase em situações de contato interétnico, levou-me à realização de uma pesquisa na Casa do Índio no Rio de Janeiro, sob sua orientação. O professor nos fazia retomar as bases teórico-metodológicas da disciplina como questão básica para os enfrentamentos com a realidade empírica. Das aulas com Roberto DaMatta (1973; 1976; 1981) e David Maybury-Lewis fomentava-se o gosto pelo estruturalismo, como hoje se diz. Sob tal perspectiva, publiquei depois o artigo sobre alguns mitos de origem do Homem Branco (Cavalcanti, 1983).[2]

Nesse ambiente acadêmico e intelectual, descobri novos caminhos do fazer científico e fortalecimento de base para enfrentar os desafios que estavam por vir. Desenhava-se um campo de interesses que se estendia da compreensão do local[3] através dos estudos das sociedades camponesas, suas lógicas, bem como das relações de produção e reprodução social. Ao mesmo tempo, criticavam-se as ideias da desvinculação da lógica das unidades familiares de produção, dos avanços tecnológicos da modernização e de seus efeitos nas empresas da sociedade industrial. Surgiu daí um trabalho que redigi para uma disciplina ministrada pelo professor Castro Faria sobre o lugar das unidades familiares nas grandes empresas capitalistas. Entre os colegas de classe, debatíamos também os trabalhos de Erving Goffman – abordando internados, instituições totais e estigma – que anunciavam a emergência da etnometodologia com suas técnicas de observação, como também os movimentos da contracultura de Howard Becker.

Os cursos de Gilberto Velho ofereciam oportunidades para esses debates e eu os acompanhei como ouvinte. Além dos livros da biblioteca do Museu Nacional e das bibliotecas particulares dos professores do Programa[4], tínhamos a sorte de contar com os da Livraria Leonardo da Vinci, que importava livros da Europa e dos Estados Unidos. Eu os comprava à prestação.

Foi um Rio que passou em minha vida…

O Rio era uma cidade atraente e não perdia os seus encantos, mesmo em tempos de repressão. Participei dos concertos na PUC com Chico Buarque, cuja performance reduzia-se a apenas dedilhar em seu violão as músicas de protesto, acompanhado das vozes da plateia que, emocionada, dava o seu recado aos opressores de plantão. Também os ensaios da Escola de Samba Portela, a minha preferida. Uma de nossas colegas fazia um estudo sobre as escolas de samba; por isso, tínhamos facilidade para participar dos ensaios. Uma noite, entre outras, pelo menos, no famoso Cordão do Bola Preta, usufruímos com o grupo de colegas e às vezes de professores. Entre os colegas, havia também alguns argentinos que, ao final do Mestrado, dadas as condições políticas do seu país de origem, foram ficando no Brasil e se integraram a várias instituições universitárias. Das apresentações das escolas de samba, em tempos pré-sambódromo, chegávamos a ver apenas o final, ao amanhecer do dia. Somente anos depois, experimentei participar com amigos do tempo de mestrado de um bloco que desfilou no sábado de Carnaval naquela passarela. Uma glória, mas fugaz, pela diminuta extensão da passarela!

As normas do Colégio Sion definiam a última hora de entrada, nos dias comuns, às 23 horas e à meia-noite nos feriados. Recebi apoio de colegas que me convidavam para pernoitar em suas casas, em dias da semana ou nos sábados e domingos, para que aproveitasse melhor da sociabilidade e dos espaços lúdicos da cidade. Também tive a oportunidade de assistir a obras de teatro e aos concertos de música clássica em apresentações dirigidas pelo Maestro Isaac Karabchewsky. Nas imagens do tempo, esse Rio e as emoções pelas quais o meu coração se deixou levar: os amigos, os amores, os descobrimentos, os novos sonhos…

A dissertação de mestrado

Dadas as condições e a novidade da formação em nível de Mestrado, não havia apoio para os que estavam realizando pesquisa. Procurei concentrar as aulas para me permitir um final de semana ampliado no campo de pesquisa escolhido, como também as férias e feriados passados numa comunidade de negros localizada no sertão da Paraíba denominada Talhado.

A disciplina Sociedades Camponesas, que realizei durante o curso de mestrado, tratava da necessidade de estudar as características básicas dessas sociedades e suas complexas relações com os setores e sujeitos que lhes dominam, através do tempo. Textos de Teodor Shanin (1987) e dos pesquisadores da Escola Marxista Francesa de Antropologia eram lidos na disciplina Sociedades Camponesas que cursei no PPGAS, ministrada pelos professores Otávio Guilherme Velho (1972; 1976) e Moacir Palmeira. Dos anos 1970 aos anos 1980, esse debate superou a tese da inexorável presença dos agentes do capital no campo e dos confrontos capital/trabalho inspirados nas contribuições de Caio Prado Jr., a tônica dos estudos realizados no Brasil. Os debates internacionais focalizavam, então, a resistência e persistência de formas camponesas.

Minha dissertação de mestrado é construída em torno dessa premissa. Realizei um trabalho de campo para estudar uma forma particular de comunidade camponesa. O modelo teórico usado me permitiu responder e demonstrar como a complementaridade entre agricultura e cerâmica, trabalhos realizados por homens e mulheres, respectivamente, contribuíam para manter o grupo e impedir a migração dos seus membros. Estava ali o limite teórico-metodológico de um estudo, conforme avalio, pelo desconhecimento do debate e dos avanços das teorias feministas, que poderiam ser significativos na análise do trabalho realizado pelas mulheres. O debate sobre a divisão sexual do trabalho, nos seus primórdios, surgiu timidamente nos anais da SBPC de 1975, com os resumos apresentados por Heleieth Saffioti (1978), Neuma Aguiar e Maria Aparecida Moraes, estando restrito a uma área de estudos de gênero esboçada no interior dos estudos da Sociologia. Fossem aqueles outros tempos, permitiriam indagar também sobre as condições e situação dos negros no contexto nacional ou regional, embora isso tenha sido timidamente esboçado, quando tratei da sociabilidade dos negros do Talhado e do seu lugar nas feiras e festas da sede do município no qual se localizavam, apesar do quase-isolamento. Dessa contribuição, fico a dever, ainda, após as muitas cópias que fiz para enviar aos interessados na comunidade do Talhado, uma longa introdução que pretendo ainda escrever, na oportunidade de divulgar de forma impressa a dissertação concluída, como me está sendo demandado por estudiosos de populações quilombolas (O’Dwyer, 1995). O título, inclusive, segundo minha apreciação, mereceria ser revisto para dar conta da temática principal abordada.

Manchester: o doutorado em Sociologia

Ao participar da polêmica reunião da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), em 1978, no Recife, encontrei o professor Peter Worsley, antropólogo de formação, especialista na China e no Terceiro Mundo em geral. Ele me foi apresentado pelo professor Guilhermo Raul Ruben, da UNICAMP, que, naquele tempo, era meu colega na UFPB. Conversamos, então, sobre o projeto que iria desenvolver na França com Maurice Godelier (1967). O professor Worsley (1978) interessou-se pelo projeto e ofereceu as instalações do Departamento de Manchester, caso necessitasse visitar aquela instituição[5]. O professor Worsley desligara-se com outros colegas do Departamento de Antropologia de Manchester, devido a divergências e tensões relativas à ampliação do foco das pesquisas para outras partes do mundo, além das tradicionais áreas da África. Eles consolidaram o Departamento de Sociologia, na mesma Universidade, ampliando seus temas com a participação de alguns antropólogos e sociólogos – entre esses, o Professor Bryan Roberts, que veio a ser o meu orientador, em substituição ao professor Peter Worsley, após sua aposentadoria.

Finalmente, cheguei a Manchester em abril de 1979.[6] Manchester é cidade-símbolo da Revolução Industrial, reminiscência da pujante era econômica, sede do UMIST, do Teatro Royal Exchange, dos Museus e da Escola de Música da Universidade. Os concertos, ao meio-dia, da Escola de Música e apresentações de algumas das peças aplaudidas na capital, Londres, pareciam de tamanho adequado para uma vida acadêmica, ao tempo em que nos inspirava, ao deixar à vista o seu passado de moinhos e indústrias têxteis. O seu Museu de Ciência e Tecnologia e a arquitetura das Cottages falavam do seu passado industrial, dos marcos do fechamento dos campos, expropriação dos camponeses e a marcha para a cidade. Caminhos de Engels, exemplar do turismo local e incluído nos programas de boas-vindas aos estudantes, nos incitava a reconhecer indícios, processos e reflexos de um tempo singular na história do Reino Unido e da transformação das condições da existência, dos usos da máquina a vapor aos usos da energia elétrica e, finalmente, da singularidade dos arranjos comandados pelo capital para transformar insumos e matérias-primas das suas ex-colônias em mercadorias para o mundo. As marcas desses processos no corpo dos trabalhadores foram retratadas por um dos seus famosos pintores, Lowry, que registrou em suas telas cenas desse passado de trabalhadores talhados conforme a rotina da fábrica e semelhantes em suas expressões de submissão.

No Departamento, havia uma efervescência de debates relativos aos camponeses, às questões de gênero e ao lugar das mulheres no movimento dos trabalhadores em geral. Eram duas tendências do movimento feminista (Stanley, 1990). Lembro-me de um cartaz exposto no departamento em que se lia: A exploração das mulheres passa também pelo trabalho doméstico. Embora eu não tenha enveredado, naquela época, pelos estudos de gênero, essas questões foram retomadas em trabalhos posteriores e se tornaram objeto de dissertações e teses que orientei. Os camponeses ressurgiram nas agendas dos cientistas sociais nos anos 1970. Estimulados pelas análises dos efeitos da Guerra do Vietnam e a resistência camponesa do Norte, como examinados por Scott (1976) e Shanin (1987), os estudos sobre os camponeses voltavam à tradição acadêmica. Estudávamos Lenin, Shanin e outros autores, como Chayanov (1986), Turner e sua contribuição aos estudos de fronteiras, que era explorada por Velho (1972). Debatíamos também as implicações desse modelo para entender as possibilidades de fortalecimento do campesinato em situações políticas e históricas particulares. Esse debate se impôs até os anos 1980, apoiado nas discussões sobre as estratégias de sobrevivência do campesinato e, de certo modo, por uma certa crise do marxismo. Mas, também, pela revisão dos estudos de Kautsky, Lenin e Chayanov, a partir das contribuições de Teodor Shanin (1980) e outras leituras de ex-alunos de Manchester. Desses seminários também participou Boguslaw Galeski (1972), sociólogo polonês, exilado à época, com suas análises sobre a questão agrária na Polônia e participação nos tempos do Solidariedade e outros movimentos de independência no seu país.

Os debates estimularam a realização de um seminário permanente sobre Desenvolvimento em Manchester, organizado por Teodor Shanin e Hamza Alavi, especialista em estudos sobre o pós-colonialismo. Os Development Seminars, realizados às quartas-feiras, constituíam sessões que reuniam todos os estudantes do doutorado, oriundos de países de todas as regiões do planeta. Eram instigantes debates sobre camponeses no mundo, as propostas de modernização, os limites impostos, as formas de resistência. Discutiam-se as estratégias de sobrevivência, o papel do Estado e o lugar dos Projetos de Desenvolvimento Rural Integrado, apoiados pelo Banco Mundial e o FMI. Interessante observar que o meu projeto de doutorado estava associado, em seus pressupostos, às preocupações de outros colegas do Paquistão, Índia, Colômbia, Venezuela, México, entre outros. Esses fatos expunham uma das faces desses modelos de desenvolvimento apoiados pelo Banco Mundial: o de fazer apenas pequenos ajustes para implementação em realidades nacionais particulares, pouco sensíveis às realidades locais.

Participávamos de uma sociedade internacional que congregava os estudantes da Universidade. As festas realizadas na International Society aproximavam os estudantes de países e regiões do planeta que, em suas cores, crenças e concepções políticas, davam charme e alegria às festas com suas músicas e coloridos dos vestuários. Aos encontros dessa sociedade, compareciam famílias locais, interessadas em compartilhar aspectos da cultura e do bem viver. Por haver me inscrito num projeto de conhecer famílias inglesas, fui convidada por pelo menos três famílias às suas casas. Eram todos, como bem analisa Giddens (1998), de classe média baixa, professores do ensino primário e secundário, secretárias e agentes dos serviços de saúde comunitários. Compartilhei com essas famílias momentos do cotidiano e de amizade que continuaram por anos, através de correspondência trocada, especialmente por ocasião do Natal. Havia também cartas mais detalhadas sobre a vida de cada um dos membros da família durante o ano.

Em função da efervescência do debate, da crise dos modelos de desenvolvimento e da inquietação a respeito do alcance do modelo marxista de desenvolvimento do capital, principalmente, foi realizada, na Universidade de Manchester, uma mesa redonda sobre acumulação primitiva, reunindo teóricos os mais distintos. A principal preocupação era com o caso inglês e as características do desenvolvimento do capitalismo. Alguns dos estudantes do doutorado foram convidados a participar, na qualidade de ouvintes, do debate. Uma oportunidade! Maurice Godelier, Paul Sweezy, Terence Ranger (1983), Perry Anderson (1998), além de Shanin, Worsley e Alavi (1983) fizeram ali um debate dos mais ricos a que tive a chance de comparecer. A revisão do modelo de desenvolvimento do capitalismo e das condições da acumulação primitiva na Inglaterra com releituras de Marx sobre a Rússia levou esses profissionais (antropólogos, sociólogos, historiadores e outros) a discutir, à luz de novas análises, o estudo do caso inglês e suas especificidades em confronto com outras experiências.

Participei de alguns seminários no Departamento de Antropologia, sendo um deles apresentado por Meyer Fortes, um dos autores usados na construção da minha dissertação de mestrado. Estava ali um exemplo da convivência e respeito acadêmico após a polêmica pública Worsley/Fortes sobre o modelo de análise dos Talensi, confrontando estruturalismo e marxismo.

Após as sessões dos Development Seminars, seguiam-se as sessões nos pubs da Universidade, muitas vezes com a presença dos professores, inclusive do professor Shanin. Ainda em torno da sociabilidade, havia festas e ceias nas casas dos professores. Lembro da primeira vez que comi uma salada com abacate na casa do Peter Worsley, naturalmente uma invenção mexicana apropriada pelos ingleses, aceita graças à minha formação antropológica.

Manchester, contrariamente ao que se critica da comida inglesa ou, talvez, exatamente por isso, era um centro de gastronomia: restaurantes chineses, indianos, italianos e uns poucos franceses. Há, hoje, muito mais ali, seduzindo residentes e visitantes. Parte da sociabilidade passava pela comida; por isso, desenvolvi lá meu gosto pela culinária. Diziam que isso era a consequência natural de quem vivia num país que não teve o tempo de se esmerar na cozinha. Mas a sofisticação e tradição estavam presentes nos jantares lindamente preparados com comida indiana e paquistanesa, na casa de Hamza Alavi, David Morgan (1992) e nas festas de Carnaval na residência de Bryan Roberts. Sua mulher, Susan Roberts, uma californiana das mais animadas, adorava o ritmo brasileiro e os latinos de modo geral.

Tais evidências da sociabilidade em Manchester levaram-me a compreender que, ao lado de uma aparente flexibilidade de um curso de doutorado, que não exigia participação formal nas disciplinas, era possível construir um currículo que se desvelava nas formas diárias da convivência acadêmica.

Eu estava confortavelmente instalada, pois vivia numa das residências para estudantes das mais modernas, destinada a estudantes de graduação, sendo que apenas 2% dos seus apartamentos estavam destinados aos da Pós-Graduação. Tive a oportunidade de conviver com aqueles estudantes, compreender melhor o sistema universitário inglês e o cotidiano da juventude nacional. Os brasileiros que viviam em Manchester me consideravam um caso excepcional de adaptação e me encaminhavam qualquer dos compatriotas que, por acaso, estivesse inadaptado ao sistema inglês para que eu falasse dos aspectos positivos do viver ali. Não foi difícil viver na Inglaterra. Acredito que, como não era minha primeira experiência fora de casa, apesar da primeira vez morando fora do país, minha adaptação foi mais fácil. Eu gastara todas as minhas surpresas e meus estranhamentos no meu próprio país, quando vivia no Rio de Janeiro… Adorava a pontualidade inglesa, um alívio para quem sempre chegava, no Brasil, cedo demais aos encontros marcados com antecedência.

Minha tese de doutorado foi escrita nesse contexto.

Aproveitei o ambiente do basement do Departamento de Sociologia, onde tínhamos nossas salas de estudo, da Coupland Street. Hoje, está internamente renovado, sendo o prédio principal da Universidade.

Essa parte da sociabilidade, naquela universidade, me fazia compreender que, apesar da aparente flexibilidade, era possível construir um currículo que se desvelava nas formas diárias da convivência acadêmica, sempre atentos à máxima repetida por Shanin que era necessário subir nos ombros dos gigantes para ver melhor! Aproveitei as benesses do sistema e construí o meu lugar naquele espaço acadêmico.

Segui regularmente os seminários de Métodos e Técnicas de Pesquisa, de Gênero e Sociologia Médica. Este último era ministrado por Worsley que discutia da medicina chinesa às dimensões da divisão sexual do trabalho em instituições americanas e russas, demonstrando que, a despeito da conjuntura política desses países, as mulheres eram a maioria dos trabalhadores, mas estavam em desvantagem em relação aos homens, num e noutro caso. Reconhecido por seus estudos sobre família, David Morgan (1992), diretor dos cursos de pós-graduação, dava suporte à emergente área de gênero com Liz Stanley, de cujo debate nos seminários de GENDER, surgiu o seu livro Discovering Men. Fiz resenha desse livro e discuti nos seminários do grupo FAGES, coordenados por Russel Parry Scott e Judith Hoffnagel na UFPE.

A sobrevivência camponesa. Nesse ínterim, veio a público o livro de Goodman e Redclift (1981), que ilumina o teor desse debate. Ao discutirem as perspectivas da persistência dos camponeses e dos agricultores brasileiros, vis à vis as tendências da proletarização dos sujeitos dos ejidos mexicanos, os autores questionam a tese da inexorabilidade da dissolução do campesinato. Exploram-se os limites da resistência camponesa e o lugar dessa categoria na estrutura social. Aqui está, talvez, uma pergunta a ser feita, nos anos recentes, em contextos vários e também pelo status acadêmico da categoria camponês, quando as grandes narrativas e os modelos perdem o seu apelo[7].

Naturalmente, o livro de Shanin, The Awkward Class, estimulou o debate sobre a pertinência ou relevância das teses de Lenin e Chayanov (1986). Macfarlane (1980), no seu livro sobre as origens do individualismo inglês, estimulou a retomada dos estudos de caso e da história.

A conjuntura apresentava novas políticas para o campo, com base nos PDRIs ou DRIs para ampliação do uso das tecnologias da Green Revolution, aplicadas aos campos do Terceiro Mundo, após tentativas frustradas de seu uso nos Estados Unidos (Cochrane, 1981). Esses projetos representam um novo avanço do capital para submeter os campos e os camponeses aos seus desejos de ampliação dos lucros. O Banco Mundial e agentes do Estado estão associados em seus propósitos de transformar a base da produção e os espaços de autonomia dos agricultores (Shanin, 1987). O projeto aprovado para o doutorado propunha-se a esclarecer os meandros do que torna possível, o que engendra as bases da sobrevivência camponesa. Aborda agricultores familiares do Brejo Paraibano, apoiados por esses PDRIs, discute a lógica e racionalidade de suas estratégias, assim como o lugar do Estado no engendramento das estratégias familiares e, por fim, os indícios da diferenciação social (Cavalcanti, 1982). A tese foi realizada sob a orientação do Professor Bryan Roberts.

O debate foi reconhecido como pertinente também no Brasil. Escrevi um artigo sobre a relação entre sobrevivência camponesa e políticas públicas, com base nos resultados de minha tese. Ele foi bem recebido pelo GT Agricultura e Sociedade da ANPOCS, originalmente coordenado pela professora da Universidade de Brasília, Wilma Figueiredo (1989). Após sua apresentação numa das reuniões da SBPC, fui abordada pela Professora Maria Isaura Pereira de Queiroz, num gesto de generosidade da grande estrela da Sociologia Brasileira a uma recém doutora. Ela me convidou a submeter o trabalho à Revista Ciência e Cultura que foi publicado em 1985 (Cavalcanti, 1984 e 1985).

Pós-Doutorados e intercâmbios principais

De 1987 a 1988, realizei estágio pós-doutoral na University of Wisconsin-Madison, apoiada por Bolsa CAPES/Fullbright. Agreguei-me ao Departamento de Sociologia e de Sociologia Rural, que funcionavam em prédios diferentes, mas formavam um só departamento, para efeitos acadêmicos e burocráticos. O departamento era chefiado, respectivamente, por Archibald O. Haller, Gene Summers e Doris Slesinger. Além de participar da equipe liderada por A. Haller, sobre o Brasil e estratificação social, integrei-me aos seminários organizados pelas pesquisadoras que estudavam a história das mulheres agricultoras em Wisconsin. Elas discutiam o livro de Rosenfeld (1985), Farm Women: Work, Farm, and Family in the United States. Participei também do grupo sobre agricultura familiar, liderado por Eugene Wilkening que, com Boguslaw Galeski, escreveu Family Farming in Europe and United States (Galeski; Wilkening, 1987). Finalmente, considerando-se o lugar da discussão sobre agricultores familiares e dos camponeses, propus um curso para o qual fui contratada como Associate Professor. A disciplina foi intitulada Peasant Societies: 945 e absorveu alunos de mestrado e doutorado. A turma era formada por alunos oriundos de várias partes do mundo, especialmente da África, América Latina e dos Estados Unidos. Os estudantes americanos queriam analisar a crise das family farms. Estavam aí em debate, igualmente, os temas da internacionalização da agricultura, das migrações internacionais e das análises das especificidades de comunidades e grupos étnicos particulares na preservação da terra, das tradições e da reprodução da família. Apoiada pela Fulbright e pelas universidades que me convidaram, dei palestras na Mississipi State University e Cornell University; em Cornell trabalhei com Fred Buttel (1990; 2001), de saudosa memória, do qual vim a publicar um artigo em livro organizado (Cavalcanti; Neiman, 2005).

De 1998 a 1999 realizei pós-doutoramento no Reino Unido, com financiamento do CNPq. Participei de atividades no Department of City and Regional Planning na Cardiff University com o professor Terry K. Marsden e também no centro Theory, Culture and Society da Nottingham Trent University, com Mike Featherstone (1995). Outras parcerias e estágios de pós-doutoramento foram realizados em outras universidades: Universidade Livre de Berlim, Universidades de Manchester e de Southampton, nas quais atuei na qualidade de professora visitante, e na Sam Houston State University, com Alessandro Bonanno (Bonanno; Cavalcanti, 2011). E alguns livros foram publicados em parceria em 2009 (Cavalcanti; Weber; Dwyer, 2009; Welch et al, 2009). Numa das reuniões da Associação Latinoamericana de Sociologia Rural (ALASRU), em 1976, encontrei a Professora Mónica Bendini (de saudosa memória) da Universidad del Comahue, da Patagônia Argentina, e realizamos inúmeras atividades de intercâmbio e publicações (Bendini et al, 2003; Bendini; Cavalcanti; Lara, 2006), entre outras que permanecem.

À guisa de conclusão

Em uma escola pública de um município atualmente chamado de Roliúde Nordestina, onde estudei, havia apresentações solenes de poesias que as crianças da escola se esmeravam em preparar. Em uma dessas ocasiões, declamei o poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. Esse poema voltou-me muitas vezes à memória quando eu me encontrava distante de casa, da Paraíba ou do Brasil. O sentimento de um lugar para regressar, e a certeza de que o Brasil era o país para onde eu voltaria sempre, compunham meu universo de que eu tenho um país, uma casa, amigos e uma família. Aliás, a ideia do sabiá daquela poesia, que povoou minha imaginação infantil, foi complementada pela canção Sabiá lá na gaiola[8]. Minha família diz que, aos cinco anos, eu a cantava sempre estimulada pelos sorrisos do meu pai.

No desenrolar de minha trajetória profissional, encontrei pessoas excepcionais pela sua capacidade de trabalho, pela dedicação à família, pelo desempenho acadêmico e, especialmente, por serem éticas, companheiras e solidárias. Essas pessoas, homens e mulheres, preenchem os meus dias e eles e elas me perguntariam, aliás, “e sobra ainda tempo e espaço para tal”? Faço aqui, no entanto, um registro especial àquelas mulheres de todas as idades e lugares do planeta, dos mais locais aos mais globais, se é possível ainda falar assim, que, abertas às trocas, aos abraços, aos choros pelas conquistas e pelas perdas, aos reencontros, nos retornos e voos seguintes, me fizeram reconhecer que o lugar, o local, é onde se encontra alguém com o qual o coração bate mais forte e há carinho e aconchego, porque somente dessa forma continuamos a nossa conversa iniciada, talvez, nalguma atividade lúdica ou numa mesa de trabalho, mas que permanece atual, para muito além dos horizontes que possamos alcançar. A cada retorno, o se sentir de novo em casa, num ou noutros continentes, aqui como lá. O sabiá que voa, que foge e que volta. Seria esse talvez o mote para expressar minha viagem ao mundo globalizado da academia e minha simpatia pelas trajetórias de migrantes que se mobilizam mundo a fora em busca de um lugar, para ir e para voltar. Seria descobrir, portanto, um lugar no mundo! Que pretensão para a menina que, como o sabiá, realiza tantas partidas e regressos, com a certeza de voltar ao país das palmeiras e do sabiá…



Notas

[1] Ver Abott; Wallace, 1997; e Hirata, 2002.

[2] Este artigo parte um trabalho iniciado ainda no curso de Mestrado. Engavetado anteriormente, foi publicado por insistência do colega Xavier Totti, hoje professor da CUNY.

[3] Ao combinar etnografias de comunidades e aquelas do capitalismo, fui pouco a pouco formando o meu campo de investigação, que inclui o local e o global como elementos das instigantes relações da contemporaneidade.

[4] Distante dos avanços da internet, as bibliotecas dos professores nos levavam a mundos inimagináveis, segundo os avanços tecnológicos do período.

[5] No projeto inicial apresentado, eu havia incluído Manchester como a outra opção. Nessa reunião da ABA, definiu-se assim uma parte da minha trajetória profissional.

[6] Ali fui recebida, por apresentação do meu colega, Antônio Greco Rodrigues, da UFPB, pela família do seu irmão Anielo e Suzana, com a qual mantenho até hoje relação de amizade.

[7] Dessa tarefa tratamos em trabalho recente em Welch; Malagodi; Cavalcanti; Wanderley, 2009.

[8] Música de Hervé Cordovil e Mário Vieira, de 1950, cantada por Carmélia Alves. Nascida no Rio de Janeiro e filha de cearenses, desde cedo entrou em contato com a música do Norte e Nordeste, nas reuniões de repentistas que seus pais promoviam em casa.

Referências

ABBOTT, Pamela; WALLACE, Claire. (1997). An introduction to Sociology: Feminist Perspectives. London: Routledge.

ABRAMOVAY, Ricardo. (1992). Paradigmas do capitalismo agrário em questão. São Paulo: Hucitec, Estudos Rurais, 12.

ALAVI, Hamza; SHANIN, Theodor (Eds.). (1983). Introduction to the sociology of developing societies. Londres: MacMillan.

ANDERSON, Perry. (1998). The Origins of Postmodernity. London, New York: Verso.

AZEVEDO, Thales de. (1975). Democracia Racial: ideologia e realidade. Petrópolis: Vozes.

CAVALCANTI, J.S.B. (1982). The Making of Peasant Survival. Continuity and Change in Rural Northeast Brazil. The Brejo Paraibano Case. University of Manchester. Ph.D. Dissertation. Orientador: Bryan Roberts.

CAVALCANTI, J.S.B. (1984). A preservação do campesinato no Brejo Parai­bano: a lógica interna de reprodução das pequenas unidades agrí­colas e os programas governamentais de desenvolvimento. Cadernos de Difusão de Tecnologia, Brasília, v. 1, p. 53-69, jan./abr. Também publicado em Ciência e Cultura, São Paulo, v. 37, n. 1, p. 16-24. 1985.

CAVALCANTI, Josefa Salete Barbosa. (1983). A Origem do Homem Branco: Uma Tentativa de Análise Estrutural de Mitos Kayapó. Raízes. Campina Grande Paraíba: v.02, n.2-3, p. 109-125.

CHAYANOV, A. V. (1986). The theory of peasant economy. Madison: University of Wisconsin. 

COCHRANE, Willard W. (1981). The development of american agriculture: a historical analysis. Minneapolis: University of Minnesota.

DAMATTA, Roberto. (1973). Ensaios de antropologia estrutural. Petrópolis: Vozes (Antropologia, 3).

DAMATTA, Roberto. (1976). Um mundo dividido: a estrutura social dos índios Apinaye. Petrópolis: Vozes (Antropologia, 10).

DAMATTA, Roberto. (1981). Relativizando: uma introdução à Antropologia Social. 2. ed., Petrópolis: Vozes.

FIGUEIREDO, Vilma (Coord.). (1989). Estado, sociedade e tecnologia agropecuária. Brasília: PAX.

GALESKI, Boguslaw. (1972). Basic Concepts of Rural Sociology. Manchester University Press.

GALESKI, Boguslaw; WILKENING, Eugene (Eds.). (l987). Family farming in Europe and America. Boulder: Westview (Rural Studies Series).

GIDDENS, Anthony; PIERSON, Cristopher. (1998). Conversations with Anthony Giddens. Making Sense of modernity. Oxford: Polity Press.

GODELIER, Maurice. (1967). Racionalidade e irracionalidade na economia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro (Biblioteca Tempo Universitário, 9).

GOODMAN, David; REDCLIFT, Michael. (1981). From peasant to proletarian: capitalist development and agrarian transitions. Oxford: Basil Blackwell.

HIRATA, Helena. (2002). Nova Divisão Sexual do Trabalho? Um olhar voltado para a empresa e a sociedade. São Paulo: Boitempo.

RANGER, T.; HOBSBAWN, E. (Eds.). (1983). The Invention of Tradition. New York: Columbia University Press.

LARAIA, Roque de Barros; DAMATTA, Roberto. (1978). Índios e castanheiros: a empresa extrativa e os índios no médio Tocantins. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra (Estudos Brasileiros, v. 35).

MACFARLANE, Alan. (1980). Família, propriedade e transição social. Rio de Janeiro: Zahar. (Biblioteca de Ciências Sociais).

MELATTI, Julio Cezar (Org.). (1978). Radcliffe-Brown: antropologia. São Paulo: Ática (Grandes Cientistas Sociais, 3).

MORGAN, David H. J. (1992). Discovering men. Londres: Routledge (Critical Studies on Men and Masculinities).

O’DWYER, Eliane Cantarino (Org.). (1995). Terras de Quilombos. Rio de Janeiro. ABA e PPGAS/Universidade Federal de Santa Catarina.

SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. (1978). Emprego doméstico e capitalismo. Petrópolis: Vozes (Sociologia Brasileira, 9).

SCOTT, James C. (1979). The moral economy of the peasant: rebellion and subsistence in Southeast Asia. New Haven: Yale University Press.

SHANIN, Teodor. (1987). Peasants and Peasant Societies. Oxford/New York: Basil Blackwell.

Deixe uma resposta