
Iniciamos hoje a série Modos de narrar a sociologia brasileira dedicada à publicação de memoriais – em excertos selecionados pelos autores – de sociólogas e sociólogos brasileiros. A iniciativa é uma parceria do Grupo de Trabalho de Pensamento social da Anpocs com o Comitê de Pesquisa da mesma área da SBS.
Requisito fundamental para obtenção da titularidade na carreira, embora pouco conhecidos por seus pares, os memoriais acadêmicos desempenham um papel crucial como registros históricos da sociologia brasileira, capturando não apenas as trajetórias profissionais dos pesquisadores, mas também, por meio delas, as sequências contingentes de desenvolvimento e as transformações da disciplina e das instituições que a rotinizam ao longo do tempo. Embora se concentrem nas experiências individuais, os memoriais são reveladores das dinâmicas coletivas – de cooperação e competição – e das redes de colaboração que moldam a área. São a seu modo também dispositivos singulares de exercício da imaginação sociológica que figuram, em regime narrativo próprio, a questão perene da sociologia da relação indivíduo e sociedade, e nos ajudam a “compreender a história e a biografia e as relações entre ambas, dentro da sociedade”, como diria Wright Mills.
Documentos escritos meditados e intencionados que carregam e produzem, por meio de lembranças mas também de esquecimentos, interpretações variadas e por vezes divergentes sobre os contextos da disciplina, a sociedade também escreve a si mesma nas teias desses textos-práticas de si. E nas suas entrelinhas, o social se faz autor e ganha voz – através de seus ditos, não ditos, entreditos, interditos e até mesmo indizíveis. Sem deixar de buscar os fios que entrelaçam diferentes momentos de uma trajetória, o que se deixa ver nos memoriais coligidos é um exercício reflexivo de narrar experiências vividas em que escolhas e conquistas, mas também contingências e acasos condicionados por estruturas de limites e oportunidades, espiralam as jornadas, por vezes vazando a coerência linear do ato discursivo. Esse esforço de síntese permite uma compreensão mais profunda e nuançada do desenvolvimento acadêmico, reconhecendo a importância tanto dos momentos planejados quanto dos imprevistos, bem como das próprias disputas narrativas que vão modelando diferentes versões da história intelectual da disciplina. Ao contarem suas histórias de formação e atuação, as sociólogas e sociólogos contam também muitas outras histórias compartilhadas.
Cada memorial constitui, portanto, uma peça em que os personagens – que frequentam e fazem múltiplas histórias – encenam um enredo maior comum e público, figurando tendências, debates e mudanças teóricas, metodológicas e cognitivas da área, mas também os laços e conflitos que ligam gerações, conformando uma comunidade acadêmica. Esperamos, assim, que a perspectiva histórica delineada nesta série sirva de registro dessa história viva e plural, e, sobretudo, que as gerações mais jovens possam encontrar neles momentos constitutivos de suas próprias trajetórias e reconhecer o legado construído por seus predecessores, o que numa sociedade improvável como a brasileira em que a vida intelectual parece recomeçar do zero a cada geração, como afirma Roberto Schwarz, não é trivial. Afinal, é através desse trabalho coletivo e ininterrupto de comunicação intergeracional que, numa espécie de corrida de revezamento, se realiza o sentido cumulativo, embora cronicamente não consensual, da prática da sociologia que lhe concede o “dom da eterna juventude”.
Abrimos a série com os relatos das sociólogas Elisa Reis (UFRJ) e Josefa Salete Barbosa Cavalcanti (UFPE), em cujas notáveis trajetórias se combinam o local, o regional, o nacional e o global, fazendo delas figuras exemplares e pioneiras da sociologia brasileira.
Agradecemos às colegas e aos colegas que gentilmente aceitaram publicar trechos de seus memoriais como parte dessa ação e a André Botelho pelo estímulo na organização dela. Os posts sairão sempre às quintas-feiras e em duplas, de modo a provocar o diálogo em torno dos diferentes modos de narrar a prática desta disciplina compartilhada e disputada.
Maurício Hoelz & Lucas Carvalho
Memorial (1998)
Elisa Pereira Reis (UFRJ)
Preliminares
Minha iniciação escolar, em Ibiá, Minas Gerais, foi voltada para as humanidades como acontecia em geral com as escolas de interior para meninas na época. Os meninos aprendiam matemática enquanto nós nos exercitávamos na prática da redação e outros refinamentos. Estudei em colégio de freiras e cresci em ambiente que via com desconfiança a escola pública. Quando merecia alguma reprimenda diziam – para minha grande humilhação – que meu comportamento parecia típico de “meninos de grupo escolar”. Além de uma educação religiosa severa e eivada de Velho Testamento, tínhamos aulas de etiqueta (na verdade chamadas de aulas de civilidade!), canto orfeônico, teoria musical e outras tantas finesses, além das disciplinas convencionais. O francês enquadrava-se em ambas as classificações e era motivo de honra das freiras habilitar as alunas a manter uma conversa sofisticada com “Ma Mére”, a madre superiora que vinha nos visitar todos os anos. A sofisticação da conversa se media por nossa capacidade de entreter a visitante com poemas franceses ou brasileiros traduzidos, travar um breve diálogo sobre questões religiosas, ou mesmo cantar em latim modinhas de nosso folclore.
Metade dócil, nesse ambiente tirei ótimas notas, aprendi piano e ensaiei sem muita perseverança escrever um romance que se passava, à propos, na França ocupada! Metade rebelde, li nessa época literatura condenada pelas freiras, recebi punições pelo que diziam ser meu orgulho e que quase sempre era alguma recusa a obedecer ordens e cometi o sacrilégio máximo de recusar o super seletivo convite para ser filha de Maria. No index que eu desafiava figuravam não apenas autores malditos como Zola, mas todos os escritos que não tinham passado pela censura prévia delas, aí incluídas naturalmente revistas laicas de qualquer natureza. Quando meus pais foram instruídos a cortar assinaturas de revistas para impedir que eu as lesse meu “orgulho” chegou ao máximo.
Rebelde, recusei o modelo de menina que o colégio formava. Causou certo escândalo minha rejeição explícita do curso normal oferecido pelas freiras e cuja reputação atraía filhas de fazendeiros de municípios distantes. Recusei-me a ser uma normalista e assim se tornou imperativo deixar Ibiá. Contudo, não precisei levar a rebeldia a ferro e fogo: meus pais concordaram sem dificuldade com minha opção de mudar para um colégio laico e misto quando terminei a quarta série ginasial. Aos quatorze anos saí de casa para estudar em Uberaba. Aí fiz a opção que me levaria às ciências sociais, decisão que dois anos mais tarde me traria para Belo Horizonte.
A formação inicial em Ciências Sociais
Tornei-me cientista social pela razão “banal” de que queria mudar radicalmente o mundo. Como para centenas de outros jovens brasileiros na primeira metade dos anos sessenta, estudar ciências sociais inicialmente significava para mim uma forma privilegiada de engajamento no processo revolucionário brasileiro. Saíra de Ibiá pensando em me preparar para estudar engenharia, mas já nos primeiros meses do curso científico a questão da justiça social tinha me arrebatado e comecei rapidamente a mudar de rumos.
Findo o primeiro ano científico passei ao segundo clássico trocando, feliz, Química e Física por História e Filosofia. Na História, embora eu tivesse sempre apreciado a disciplina, o que me seduziu então foi a descoberta da possibilidade de interpretar os problemas sociais do presente como consequências de amplos e longos processos. No caso da Filosofia, meu deslumbramento maior surgiu da descoberta da lógica. Eu me rendia fascinada à clareza e simplicidade de raciocínio do Manual de Filosofia. Troquei também com entusiasmo a fé religiosa estrito senso pelo apelo da ideologia. A revelação do Manifesto Comunista e um engajamento ainda que tímido na política estudantil secundarista aos quinze anos abriram-me trilhas que post-factum teimam em se representar como rotas contínuas e lineares. Embora saibamos todos que os caminhos contínuos e lineares só existem porque a memória oculta múltiplas encruzilhadas, escolhas mais ou menos trágicas, e acasos irrefletidos.
Como quer que seja, minha conversão às ciências sociais repete o processo psicossocial de parte de uma geração de brasileiros – aliás, com equivalentes entre jovens de tantos outros países – que naquela década apostaram no ativismo político. Compartilhávamos a crença de que a ciência social seria o instrumento privilegiado que nos ajudaria a passar da crítica à ação social. Essa crença nos marcaria definitivamente e eu diria que ainda hoje a questão do ativismo tem peso considerável entre os dilemas que nossas ciências sociais confrontam.
Contudo, como o uso do cachimbo entorta a boca, hoje eu caracterizaria a jovem que prestou vestibular em 1964 como uma migrante rural-urbana atraída pelo “pull factor” da educação superior na capital do estado de Minas Gerais: aspirações modernizantes, rejeição do papel “tradicional” de professora primária reservado às moças bem-comportadas que, com a ajuda das memórias de Simone de Beauvoir, ensaiavam repudiar o machismo e ao mesmo tempo se engajar no projeto de uma grande transformação social.
O golpe militar de 64 viria afetar de forma dramática esse projeto político. Ele selou o fim da inocência para muitos, tornou mais explícita a tensão entre ciência e ação, e depois converteria tristemente alguns em heróis. Para mim, que ingressei na vida universitária em março de 1964, ele significou uma terrível frustração, uma introdução ao medo e à prática dolorosa do auto-cerceamento da liberdade. A ocupação da Universidade por parte do exército foi o rito introdutório que marcou meu primeiro dia de aula. Os soldados estavam lá fardados, sinalizando o início de uma era de suspeitas, de queima de livros, de censura de ideias.
Por que lembrar aqui essas tristes experiências, que já são história, tal como experimentadas por uma adolescente ignorante e romântica? Porque o esquecimento é traiçoeiro e nos leva a ignorar componentes centrais na experiência universitária de uma geração de brasileiros. E porque essa lembrança ajuda a entender nossas trajetórias profissionais, nossas questões de pesquisa, nossos desafios intelectuais e existenciais.
O curso que escolhi, o de Sociologia e Política da Universidade Federal de Minas Gerais funcionava de forma totalmente independente do curso de Ciências Sociais que existia na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Junto com Economia e Administração ele integrava a Faculdade de Ciências Econômicas. O ambiente intelectual da FACE/UFMG no período é ainda hoje considerado por muitos como algo legendário. Algumas iniciativas da Direção tais como a introdução pioneira do sistema de bolsa por concurso para alunos da graduação, um investimento ousado em livros e periódicos e o funcionamento intensivo das salas de leitura da biblioteca frutificaram rapidamente. O Diretório Acadêmico implantou também seu próprio sistema de bolsas e o bom desempenho acadêmico era tão valorizado quanto a atividade política. Foi na biblioteca da Faculdade que, sem saber formular direito as questões, mergulhei fundo na leitura das bibliografias das diversas disciplinas, buscando respostas. Nem sempre a leitura era muito produtiva, mas foi um longo período de ingestão de ideias.
Logo no primeiro ano começamos a consumir intensamente os clássicos da sociologia. Havia muitos exemplares das obras desses autores disponíveis na biblioteca, seja em português, espanhol ou francês e o treinamento recebido no curso secundário nos habilitava plenamente a essas leituras. Quando ingressamos na teoria contemporânea, a hegemonia anglo-saxônica, introduzida por um grupo de jovens professores treinados no Chile, nos forçou à intimidade com o inglês. Pessoalmente esse foi um passo mais penoso, mas nada que me inibisse o prazer da descoberta de novos autores.
No âmbito específico da ciência política, líamos os clássicos da teoria e muita literatura sobre political development produzida naquela década. Também central ao curso de Sociologia e Política eram disciplinas de antropologia, psicologia social, economia, planejamento, finanças públicas, história do pensamento econômico, história política, e algumas cadeiras de direito. Integravam ainda o currículo cadeiras básicas de matemática e estatística. Intencionalmente ou não, o mix de disciplinas fornecia uma formação humanista, ao mesmo tempo que expunha os alunos às bases lógicas e metodológicas de procedimentos sistemáticos de pesquisa.
É verdade que esse elenco de disciplinas terminava por conferir feição bastante generalista ao perfil do graduado em Sociologia e Política pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Mas, nesse período de assimilação intensiva de ideias, não tínhamos instrumental para questionar nosso perfil. Todo nosso empenho estava voltado para a absorção intensiva de ideias. O esforço que nos era cobrado em provas semestrais era apenas ordenar de forma lógica e sistemática o conhecimento que nos fora transmitido.
No contexto institucional descrito acima, minha formação na graduação foi bastante variada: Marx, Durkheim, Weber, Gurvitch, Merton e Parsons eram moeda corrente. Em retrospecto, vejo que constituíam uma espécie de mínimo denominador comum entre os velhos e novos professores. Mannheim, Toennies, Mead, Malinowsky, Merton, Easton, Almond, Huntington, Apter, e tantos outros, foram parte de contínuas descobertas! O mundo das ciências sociais se insinuava como uma infinidade de possibilidades analíticas, múltiplos jogos de armar cujas lógicas aos poucos substituíam o sonho da praxis revolucionária.
Além das teorias, os chamados métodos quantitativos sinalizavam nas ciências sociais brasileiras os novos tempos do empirismo, o funcionalismo, o positivismo e outras bestas feras mais ou menos “nocivas” que demarcavam uma outra clivagem: “reacionários” e “revolucionários”. Em retrospecto, creio que uma curiosidade exagerada me salvou do patrulhamento, da pressão reinante no ambiente para escolher entre velhos e novos, reacionários e revolucionários. Tinha sim minhas preferências, mas essas sequer eram lá muito estáveis.
Vivendo sozinha na cidade grande, sem laços afetivos tradicionais, fazia da Faculdade “minha casa”: entrava às 7:00 da manhã quando as portas se abriam e ia embora quando por volta das 11:30 da noite a biblioteca fechava. Ali se exercia grande parte de minha vida intelectual e afetiva. Era ali que eu estudava, encontrava amigos, fazia minhas refeições. Em uma das duas amplas salas de leitura disponíveis tinha mesa cativa. Naquela mesa me sentei diariamente, durante quatro anos, para ler, discutir questões teóricas, existenciais e estéticas, comentar os filmes, quase sempre vistos na própria universidade, fazer planos para o futuro, sonhar.
Foi ali também que no último ano da graduação ensaiei escrever meu primeiro artigo. Por iniciativa própria elaborei um trabalho, intitulado “O comportamento político de esquerda no Brasil”, que foi publicado pelo Centro Acadêmico. O título era equivocado já que o que eu examinava era a orientação política difundida pela liderança operária durante a República Velha e não comportamento político. Meu objeto era o discurso dessa liderança nas publicações operárias. O setor de periódicos da biblioteca da FACE dispunha de uma boa coleção de revistas do período e foi esse material que usei. Apesar do título equivocado, não chego a me envergonhar do artigo. A interpretação que sugeri ali para a inclinação anárquica daquelas lideranças ainda hoje me parece plausível.
Mencionar alguns dos professores que me socializaram na disciplina nessa fase formativa inicial talvez revele mais que meu empenho narrativo. Nesse sentido, creio que a ilustração mais eloquente é lembrar que durante quatro semestres fui exposta à Sociologia Estrutural e Dinâmica tal como vista por Fábio Wanderley Reis, em aulas que tinham lugar quatro vezes por semana! Por mais que eu tenha diversificado as experiências formativas posteriormente, não há como superestimar a marca desse aprendizado. Lembro também o empenho com que Antônio Otávio Cintra demarcava o espaço da Ciência Política, o ceticismo que Edmundo Campos insinuava ensinando Sociologia do Conhecimento, ou mesmo seu tratamento sisudo da Sociologia das Organizações. Igualmente decisivos em minha formação foram tantos outros professores da graduação que me abstenho de citar por parcimônia.
Ainda no último ano da graduação, tive minha primeira experiência de magistério: lecionei Introdução à Sociologia para uma problemática turma de excedentes de Ciências Sociais do vestibular de 1967 da Faculdade de Filosofia da UFMG. A timidez e o nervosismo me faziam confundir o cigarro com o giz, gaguejar o conteúdo exaustivamente preparado das aulas, e, provavelmente, confundir os já atordoados alunos excedentes que brigavam por seu espaço na universidade. Registro aqui minha dívida de gratidão com aqueles que de forma dócil ou agressiva se prestaram a meu exercício prematuro de ordenamento de ideias.
Também nesse último ano de faculdade, através de concurso, tive a oportunidade de atuar como pesquisadora em estágio realizado na reitoria da UFMG. A importância dessa experiência foi sobretudo me propiciar trabalhar de forma bastante autônoma, buscando uma forma de colher e organizar dados que caracterizassem o perfil socioeconômico dos funcionários da Universidade.
Os anos de Pós-Graduação
A certeza de não estar preparada para o mercado de trabalho, muito mais que um projeto acadêmico claro, me levou a aceitar com grande alívio um convite casual para fazer um curso de pós-graduação no Chile em 1968. Embora a ideia de programas de mestrados e doutorados fosse ainda praticamente desconhecida na América Latina, a reputação do Chile como um centro avançado de produção em ciências sociais circulava amplamente nos corredores da UFMG. Minha expectativa de que ali teria oportunidade de amadurecer intelectualmente para enfrentar o mercado de trabalho levou-me a aceitar o convite do Instituto Latino Americano de Doctrina e Estudios Sociales (ILADES) para ingressar em seu programa acadêmico. Ali obtive um diploma de licenciatura em Sociologia del Desarrollo, além de atuar como assistente de ensino no curso de graduação e formação de líderes do mesmo instituto.
Viver com a bolsa do ILADES que correspondia ao salário mínimo vigente no Chile à época exigia certa ginástica. Apesar da tradição sindical no país, posso dizer com segurança que era dura a vida dos operários chilenos. A minha nem tanto, pois contava com uma rede de solidariedade que provia preciosos recursos afetivos e às vezes até mesmo materiais. Lembro, sobretudo, as colegas com quem partilhava a moradia: Vânia Drumond, hoje de volta a Minas Gerais, Orlandina de Oliveira, respeitada socióloga do Colegio de Mexico, e a saudosa Maria das Graças Grossi, que atuou sobretudo na Argentina como cientista política. Também valioso foi o estímulo intelectual e o apoio afetivo que recebi nessa primeira experiência de auto-exílio do filósofo Paulo Menezes e de meus amigos sociólogos Regina e Vilmar Faria, Gláucio Soares e Julio Salas.
Em Santiago passei o ano de 1968, estudando e discutindo intensivamente com um grupo inflamado e pluralista de latino-americanos e europeus que pareciam ver nas ciências sociais um viveiro de alternativas teóricas e de políticas competitivas. Pierre Bigo, Franz Himkelammert, Paulo Menezes, Gonzalo Arroyo, Eugenio Maffei, foram alguns dos professores que ajudaram a moldar minha visão da teoria social e da sociedade latino-americana. Entre os colegas, as discussões sempre muito estimulantes apaixonavam muitos hoje diretamente envolvidos na condução política de seus respectivos países. Com um grupo restrito de orientação mais teórica, mergulhei fundo no estudo dos clássicos, tendo mesmo sido escolhida assistente de ensino nessa área. Nesse contexto redigi um conjunto de anotações de leitura –“Estudios sobre Max Weber” – que circulou como publicação interna do ILADES.
Eram épocas de grande efervescência intelectual no Chile. Além do ILADES, a FLACSO, a ESCOLATINA, a CEPAL eram centros ativos de debates e polêmicas que atraiam jovens de toda a América Latina. Tendo como pano de fundo as reformas democrata-cristãs que o país experimentava, disputávamos argumentos teóricos com uma paixão que se pretendia prática. Em retrospecto, vejo que naquele período de ascensão do student power pelo mundo afora, a versão do processo que vivi em Santiago foi totalmente intelectualizada.
Foi através das polêmicas acadêmicas, dos debates fomentados seja pela “revolução althusseriana”, seja pela reforma agrária em curso no Chile que participei da mobilização estudantil do período. Voltar ao Brasil logo após a decretação do AI-5 foi viver uma mudança brusca e dramática de ambiente. A ditadura que amordaçara o país levava diversos de meus antigos colegas de faculdade a se desesperarem das ideias. Muitos se tornaram clandestinos e alguns terminaram tragicamente suas vidas.
Retornando ao Brasil, fixei-me no Rio de Janeiro. Levando-se em conta a radicalização política do período e a opção ativista de tantos de meus companheiros da FACE/UFMG, poder-se-ia dizer que ao fim e ao cabo eu aceitava o papel de moça bem-comportada ao me tornar professora de Teoria Sociológica na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Vivendo fora do Brasil em 1968, não vi de perto o processo que conduziu colegas e amigos queridos à opção pela luta armada. Mas acompanhei com medo e tristeza o mergulho deles na clandestinidade. Entre o final daquela década e os começos dos anos 1970 alguns estariam mortos ou no exílio.
Em muitos sentidos eram certamente outros tempos: eu podia decidir por conta própria mudar para o Rio de Janeiro que mal conhecia e onde não tinha contatos e buscar trabalho como socióloga. Tinha 22 anos quando, com o aval de outro egresso da FACE, Bolivar Lamounier, me apresentei à Helena Lewin, chefe do Departamento de Sociologia da PUC e me ofereci como professora. A disciplina que ela me confiou se chamava de fato Evolução do Pensamento Sociológico. Rebatizei-a por conta própria como Teoria Sociológica para escapar àquela referência evolucionista explícita que me incomodava. Esse trabalho propiciou-me oportunidade decisiva de me concentrar no estudo da teoria social.
Nos três anos que ensinei teoria clássica e contemporânea na PUC, a insegurança e a ignorância forçavam-me a dedicar a maior parte de meu tempo ao estudo de teoria. Dessa época resultaram volumosas notas de leitura dos clássicos, e um esforço ingênuo de sistematizar para mim mesma a teoria contemporânea. Também dessa época data um texto sobre “Política e sociedade na ótica de Michels” que o Departamento de Sociologia divulgou em coletânea de publicação interna. Sou grata a meus ex-alunos da PUC, muitos deles hoje meus colegas, pelo desafio que constituíram para mim. A necessidade de aprender para ensinar-lhes foi dos grandes estímulos que experimentei na profissão.
Em 1969 trabalhei também no Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (IBRADES), primeiro como assistente de ensino do professor Hélio Jaguaribe nas disciplinas de Desenvolvimento Político e Sociologia do Desenvolvimento e depois ministrando meus próprios seminários nessas áreas. Tinha aí uma clientela tão desafiante como na PUC, mas de caráter menos acadêmico, já que o curso se voltava para a formação de lideranças sociais. O IBRADES se inspirava no ILADES chileno e guardava muito do clima intelectual desse último. Tanto nos debates acalorados com os alunos, como nos seminários que Padre Fernando Bastos Ávila promovia para seu corpo de professores e seletos intelectuais convidados, tive a oportunidade de aprender e de guardar matéria para reflexão.
Do IBRADES passei ao Instituto Brasileiro de Relações Internacionais em 1970. Ali fui assistente de pesquisa do professor Simon Schwartzman em um grande survey sobre treinamento de profissionais brasileiros no exterior. O projeto integrava um estudo muito mais amplo, patrocinado pelas Nações Unidas (UNITAR) em cerca de vinte países. Além de participar da amostragem, perfurar cartões, tabular dados, e outros procedimentos ensinados nas disciplinas de metodologia, fui incentivada a “misturar” teoria e dados empíricos, estímulo que tornava a prática da sociologia muito mais interessante.
Gláucio Soares, que eu conhecia do Chile, ao me apresentar a Simon Schwartzman, possibilitou-me uma convivência profissional que viria a ter influência decisiva em minha formação. Nos anos seguintes trabalharia com Schwartzman na Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP/FGV) e viria também a tê-lo como orientador no programa de mestrado do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ).
Entre 1970 e 1972 cursei o programa de Mestrado em Ciência Política do IUPERJ (o Programa de Pós-Graduação em Sociologia só surgiria no final daquela década). Minha turma foi a segunda admitida ao programa recentemente criado. Éramos um grupo pequeno. Muito poucos tinham bolsa, quase todos dependíamos de nossos trabalhos como professores ou pesquisadores. Não era fácil conciliar o programa de mestrado com a atividade profissional, mas a convivência estimulante com um corpo de professores bastante jovem e bem treinado, e com colegas saudavelmente competitivos, tornava o esforço prazeroso.
Durante o programa de mestrado, além de reforçar alguns dos conhecimentos obtidos na graduação e na pós-graduação no Chile, fui exposta a novos desafios teóricos, novas técnicas de pesquisa, e, sobretudo, à prática de formular minhas próprias questões de investigação. Tanto nas discussões em sala de aula como na redação dos trabalhos de curso isso se fazia evidente. Professores como Amaury de Souza, Peter MacDough, Hélio Jaguaribe, Wanderley Guilherme dos Santos, Simon Schwartzman, Edmundo Campos e Carlos Hasenbalg me fizeram ver que mais importante que encontrar as respostas era saber fazer as perguntas. E que perguntas novas estimulam novas maneiras de se buscar respostas.
A escolha de um tema de tese de mestrado e a conversão dele em objeto de pesquisa factível foi um duro aprendizado. Só anos depois soube apreciar devidamente o impacto salutar desse exercício solitário de eleger um tema e a partir dele formular questões. Se como orientador Schwartzman me deixou só com a escolha do tema, ele foi depois um interlocutor tanto mais estimulante quanto menos convencido da pertinência de minhas perguntas e da adequação das respostas que eu ensaiava. Era sobretudo no exercício da discordância que ele me oferecia o estímulo para avançar.
O que me propus investigar como tema de tese de mestrado foram as relações entre o estado brasileiro e os produtores de café, na primeira metade do século XX. A princípio o que me interessava era entender como os interesses agrário-exportadores lograram afirmar sua hegemonia no interior do Estado e como progressivamente a perderam. Defini para mim mesma que realizava um estudo de economia política, dialogando com autores que tinham discutido especificamente a política cafeeira, como Delfim Netto, Pelaez e, sobretudo, Edmar Bacha, que integrou minha banca de tese.
As explicações pessoais e subjetivas para a eleição desse tema particular seriam fáceis, mas supérfluas nesse contexto. Prefiro salientar aqui que foi só quando repeti a experiência de escolher um objeto de tese que as preocupações teóricas que orientaram minha tese de mestrado se tornaram mais claras para mim mesma. Já no programa de doutorado, ao adotar novas questões de investigação, dei-me conta de que, quando elegera o estudo das relações entre cafeicultores e Estado, a problemática teórica da construção do Estado era uma preocupação central minha. Da mesma forma, as relações entre história e teoria, assim como a articulação entre constrangimentos estruturais e escolhas políticas constituíam já objeto de minhas preocupações, embora eu só lograsse explicitar isso claramente muito a posteriori.
Ao rememorar essa etapa de minha formação acadêmica, eu me pergunto por que tais questões quando a dependência e a marginalidade social eram as perspectivas de análise mais recorrentes? Visto em retrospecto, as questões que eu privilegiava insinuavam a influência da proximidade com os economistas na FACE/UFMG e da leitura intensiva do Economia y Sociedad de Weber. Insinuavam também que eu tinha aprendido com Schwartzman a tratar “o político” como uma variável independente, como se dizia na época.
Durante o programa de mestrado a perspectiva do doutorado no exterior tornou-se para mim primeiro uma possibilidade e depois um projeto. Eu não tinha muita clareza sobre a importância do doutoramento. Já era professora de dois cursos de graduação então considerados dos melhores do Rio de Janeiro – o de Sociologia da PUC e o de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas – e não havia doutores entre meus colegas de docência. Contudo, era consciente de que precisava conhecer muito mais sobre as ciências sociais. Ainda muito marcada pela politização dos ambientes intelectuais que vivera até então, resistia bastante à ideia de estudar nos Estados Unidos e considerava a França, talvez a Inglaterra, como opções. Rendi-me à opção americana depois de longos debates domésticos. Uma vez mais emulando de certa forma o papel de moça bem-comportada, eu agora conciliava meus planos com os de meu marido.
Em setembro de 1972 iniciei meu programa de doutorado no Departamento de Ciência Política do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge. Se para a maior parte de meus colegas americanos viver ali constituía a realização de um sonho acalentado de longa data, devo confessar que ignorava a mística da Cambridge da Nova Inglaterra, como de resto também a da Velha. O que vivi a princípio foi certo temor frente ao poder de sedução das ideias difundidas no “centro imperialista”.
Devo admitir que fui mesmo seduzida. A experiência de estudar no MIT marcaria profundamente minha formação intelectual, me incutiria padrões de desempenho e me proporcionaria modelos de teorização. Como aluna de Sola Pool, Alker, Suzanne Berger, Lerner, Pye, além de outros, discuti temas, questões e sociedades que me eram até então totalmente desconhecidos. Na vizinha Harvard não era apenas a monumental biblioteca que me atraía. As presenças de Barrington Moore, Deutsch, Huntington, Hirschman, e tantos outros, me levaram a seguir cursos adicionais e ampliaram minha curiosidade intelectual.
Com relação à experiência no MIT, devo ressaltar ainda dois outros aspectos: primeiro, o trabalho como assistente de pesquisa do professor Wayne Cornelius que não apenas me permitiu me exercitar na profissão, mas me propiciou mais fácil integração no Departamento. Em segundo lugar, a participação frequente em atividades acadêmicas paralelas, eventos sociais e comitês acadêmicos me asseguraram um sentimento de pertencimento e integração que além de agradável era também produtivo.
Em diversos sentidos a experiência do MIT foi uma oportunidade privilegiada que a vida me ofereceu. Interagir com colegas de culturas tão diversas, ser exposta a seminários e conferências que dariam origem a grandes polêmicas intelectuais, ouvir especialistas de outras disciplinas, e mesmo conhecer pessoalmente alguns mitos da bibliografia especializada, era excitante e estimulante. Lembro, por exemplo, como Daniel Lerner se empenhava explicitamente em expor seus jovens alunos aos “grandes nomes” das ciências sociais. Aos domingos, em sua bela casa de subúrbio, ele nos convidava às vezes para ouvir um quarteto de cordas, outras para conhecer algum de seus amigos e colegas famosos. Lembro-me, por exemplo, do entusiasmo com que nos trouxe para conhecer o velho Lasswell, que veio vê-lo em Boston.
No MIT dos anos 1970 fui introduzida à filosofia de Habermas, vi de perto Chomsky combater a guerra do Vietnã e defender os direitos humanos dos palestinos com o mesmo ardor que defendia sua posição na linguística, ouvi, sem entender, prenunciar-se a revolução da informática. Entre setembro de 1972 e maio de 1975 vivi uma experiência intelectual fascinante em que tanto as re-leituras como o contato com novas teorias, com os modelos matemáticos de Alker, a estatística de Hibbs, ou a introdução ao PL-1 e ao SPSS nos terminais do Departamento constituíam grandes desafios e também great fun.
Voltei ao Brasil em meados de 1975 e aqui permaneci até meados de 1978, quando retornei ao MIT para concluir meu programa de doutorado. Nesse intervalo de três anos no Rio de Janeiro vivi intensamente minha profissão: fui professora na EBAP/FGV, exerci ali cargos de chefia de departamento, fiz extensa pesquisa para meu projeto de tese de doutorado, e fui professora visitante no IUPERJ. Foi um período difícil, marcado pela angústia solitária de encarar uma tese por fazer, a nostalgia de estar longe do ambiente que a inspirara, longe dos seminários de tese em que meus colegas de doutorado relatavam seus progressos, expunham teses recém concluídas e se exercitavam para entrar finalmente no mercado de trabalho americano.
Eu preferiria ter feito grande parte de minha própria pesquisa de tese em Cambridge mesmo, usando os recursos de biblioteca e arquivos disponíveis lá. Contudo, por razões familiares e também por pressão da EBAP, retornei ao Brasil. Reconheci depois que, além dos custos, houve também ganhos claros nessa opção: foi importante estar de volta no Rio de Janeiro não apenas porque pude me valer da Biblioteca Nacional e da Biblioteca da Embrapa, mas também porque o diálogo com os colegas brasileiros estimulou e orientou em muitos sentidos meu trabalho. Teria, certamente, terminado muito mais rapidamente meu programa de doutorado se tivesse permanecido nos Estados Unidos até a conclusão da tese. Contudo, vivendo no Rio entre 1975 e 1978 pude absorver muito do debate brasileiro do período e, provavelmente, o que produzi ao final foi mais afinado com o ambiente acadêmico nacional.
Como quer que seja, a dificuldade de redigir uma tese à distância levou-me a retornar ao MIT em agosto de 1978. Ali, por questão de sobrevivência, trabalhei durante seis meses intensivamente como assistente de pesquisa, desta vez em projeto sobre imigração ilegal do Caribe para os Estados Unidos. Se é verdade que o drama pessoal de tantos migrantes clandestinos me comovia e se o esforço de entender um processo clandestino constituía desafio estimulante, não posso negar que a gratificação intelectual que eu auferia nesse trabalho de pesquisa decorria sobretudo da possibilidade de refletir sobre questões de cidadania e identidade nacional. Também me recordo como as discussões que no interior da equipe de pesquisadores travávamos então sobre as políticas nacionais de controle da imigração já nos permitiam antever um progressivo recrudescimento de hostilidades xenófobas no primeiro mundo.
Entre fevereiro e novembro de 1989 redigi no MIT minha tese de doutorado. Como na experiência do mestrado, a eleição de um tema e sua transformação em projeto de pesquisa fora uma tarefa lenta e árdua. Eu considerara a princípio um estudo comparado sobre modernização da sociedade rural no México, Peru e Brasil. Trabalhando como assistente de pesquisa de Wayne Cornelius tinha mergulhado no estudo do êxodo rural-urbano no México e no Peru e daí surgira a vontade de comparar o destino dos camponeses daqueles países com o dos trabalhadores rurais no Brasil. Na conjuntura do governo Alvarado no Peru, eu apostava no poder transformador de sua reforma agrária e queria cotejá-la com aquela que Cardenas tinha levado à frente no México. Olhar para outras sociedades me parecia uma estratégia adequada para lançar luzes sobre o processo histórico brasileiro.
Parte desse investimento no tema das migrações eu tinha já divulgado em dois artigos: um deles, “Migração rural-urbana e políticas públicas na América Latina”, foi publicado na DADOS em 1976. No outro texto, escrito em parceria com Simon Schwartzman e apresentado no Congresso Mundial da International Political Science Association em 1976, tratei de “Spatial Dislocation and Social Identity Building in Brazil”. Esse seria publicado em 1978 no International Social Science Journal.
Contudo, as dificuldades práticas de realizar um projeto envolvendo pesquisa em três países me levaram a redefinir o tema de tese. A transformação da ordem rural persistiu como o foco, mas eu me concentraria no Brasil e usaria análises paradigmáticas sobre a Alemanha e os Estados Unidos para traçar contrastes e paralelos com a experiência brasileira. Também se insinuava mais e mais claramente para mim, como para tantos outros doutorandos dos anos 1970, que a esfinge a ser decifrada era a persistência do autoritarismo no Brasil. Entre professores e colegas que naquela década exploraram alguns dos muitos ângulos dessa problemática, lembraria Fábio Wanderley Reis, Bolívar Lamounier, Simon Schwartzman, Wanderley Guilherme dos Santos, Amaury de Souza, Helgio Trindade, Werneck Vianna, Eli Diniz, Renato Boschi.
Seja por medo de questionar o presente, seja pela já antiga e confortável intimidade com a perspectiva histórica weberiana, propus-me a buscar as raízes históricas do autoritarismo no Brasil. Sem o contato com a obra de Barrington Moore sobre As origens sociais da ditadura e da democracia, teria certamente formulado de forma inteiramente diferente minha questão de pesquisa. Atraída, como tantos outros, pelo brilho e a fertilidade de seu estudo macro-histórico sobre os caminhos políticos alternativos da modernização, decidi trabalhar com sua sistematização mais elaborada, aquela sobre a via liberal-democrática de modernização, como um modelo teórico quasi-formal.
Usando esse modelo como termo de referência e confrontando o Brasil ora com o Alemanha, ora com os Estados Unidos, explorei três dimensões de análise: as relações entre proprietários de terra e sua mão de obra; as relações entre esses mesmos proprietários e o poder público; e o processo de construção do estado-nacional. A eleição desse desenho de pesquisa teve a influência sutil, mas decisiva, de Suzanne Berger, minha orientadora. Formada na tradição dos Western European specialists de Harvard, ela me cobrava explicações e explicitações de mil e um pressupostos brazilianistas. Devo a ela, além disso, a cobrança constante da lógica implícita nas interpretações da economia política, bem como a obsessão pela clareza e elegância do texto.
Trilhando os caminhos analíticos que acabo de mencionar, fui bastante estimulada pelas discussões no interior do Joint Seminar in Political Development (JOSPOD) que reunia professores de Harvard e MIT. Como membro-convidado, no período 78-79 participei mensalmente de encontros que incluíam cocktails e jantares em torno da discussão com os autores de pesquisas ou livros em andamento. Ali travei contato com a primeira versão de States and Social Revolution de Theda Sckopol, que como eu discutia proposições teóricas de Barrington Moore. Huntington, Wiener, Berger, Eisenstadt, Sabel, Ferguson, e muitos outros discutiram conosco, em primeira mão, seus trabalhos e me propiciaram a oportunidade de testar algumas ideias que explorei na tese.
Foi também em parte essa experiência que me atiçou a vontade de experimentar uma inserção profissional na academia americana. Assim, já prestes a defender a tese, candidatei-me ao cargo de professora-assistente na Clark University, na área de Boston. Tendo me submetido a uma série de entrevistas naquela universidade, onde competia com diversos outros candidatos, foi me oferecido o cargo. Com muita hesitação, rejeitei a oferta por razões de caráter familiar, agora sim, plenamente consciente da intrincada teia que articula as escolhas voluntárias de um ator social e os constrangimentos impostos por seu ambiente empírico e ideológico.
O exercício profissional pleno
Defendi minha tese de doutorado em dezembro de 1979, retornei ao Rio de Janeiro e em fevereiro de 1980 fui contratada pelo IUPERJ como professora do programa de Sociologia. Daquela data até fins de 1995 ensinei ali regularmente e meu compromisso com a orientação de alunos daquele Instituto só terminou recentemente quando a última tese de doutorado sob minha supervisão foi defendida. Simultaneamente ao IUPERJ trabalhei durante os anos de 1988 e 1989 no Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV) e, no período 1990-1994, no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ). Em meados de 1995 ingressei na UFRJ como professora-adjunta do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais.
Em linhas gerais, minhas atividades de ensino e pesquisa em todas essas instituições revelam uma grande concentração nas áreas de teoria sociológica e sociologia política macro-histórica. Ocasionalmente, porém, ensinei outras disciplinas mais diretamente atreladas às temáticas mais específicas de pesquisa do momento. Devo ressaltar que desde sempre minha opção pela área de teoria trouxe atrelado um esforço sistemático de relacioná-la com a reflexão sobre questões sociais concretas. Sempre vi na teoria um recurso para pensar a realidade e não a história do pensamento de um teórico ou de uma tradição teórica. Igualmente constante em minha trajetória tem sido o interesse pelas questões macro-históricas que demarcam o escopo da sociologia política. Assim, as questões referentes à formação e à evolução mais recente do estado-nacional, às relações entre burocracia e política, e à extensão da cidadania perpassam grande parte de minhas pesquisas e publicações.
Realizando um balanço precoce, identifico em meu perfil as marcas de cada uma das diversas instituições que me abrigaram. E certamente não me refiro apenas àquelas onde estudei e pratiquei ainda quando estudante o exercício do ensino e da pesquisa. Ao me deter nessas memórias, vejo com clareza como o aprendizado acadêmico é um processo contínuo e permanente. Assim, se não há dúvida que minha experiência institucional mais longa e duradoura, onde mais me forjei socióloga, foi o IUPERJ, também é claro que trago em mim os traços da convivência com os colegas do CPDOC, do IMS e os recém-descobertos do IFCS. Com colegas dessas instituições tenho compartilhado preciosas concordâncias e discordâncias que dão vida e sentido à prática intelectual. É porque tenho tido o privilégio de integrar, com colegas estimulantes e generosos, uma comunidade acadêmica que usufruo na prática dos frutos do pluralismo e da tolerância.
Ao evocar a participação na comunidade acadêmica e salientar o impacto decisivo que essa tem na conformação de uma vocação profissional, é forçoso reconhecer que tal comunidade não se restringe às fronteiras disciplinares ou nacionais. Além da interação rotineira com sociólogos e cientistas políticos, tenho me beneficiado intensamente da convivência com outros cientistas sociais, particularmente com economistas, antropólogos e historiadores. Afinidades eletivas de natureza diversa constituem o pretexto para trocas intelectuais que cimentam amizades e colaborações intelectuais.
Mais além do cenário nacional, muitos colegas têm contribuído para meu trabalho. Nesse sentido, os estágios de pós-doutorado que realizei como bolsista da Fulbright, nos Estados Unidos, em 1983, e como bolsista do Consiglio Nazionale delle Ricerche, na Itália, em 1985, foram excelentes oportunidades de integração em redes internacionais de pesquisadores. Na primeira oportunidade tive um período de 3 meses para escrever um artigo e participar de diversos seminários com pesquisadores de Harvard e MIT. Em 1985, seis meses privilegiados em Florença permitiram-me interagir com os colegas do Instituto de Ciência Política da Universidade de Firenze que ainda hoje tem me rendido frutos. Nesse contexto registro minha dívida de gratidão para com o saudoso professor Alberto Spreafico, incansável defensor do diálogo com os cientistas sociais latino-americanos.
Ainda em Firenze, a oportunidade de conviver com o grupo estimulante de professores e visiting fellows do Instituto Universitário Europeu propiciou-me uma bela condensação das ciências sociais européias no magnífico cenário da colina de Fiesole. Sou grata a Philippe Schmitter por ter me aberto as portas da imponente Abadia que abriga a Universidade Européia, e por ter me introduzido a tantos intelectuais de seu círculo europeu. Sou também muito grata a Maureen Cain, socióloga inglesa notabilizada por sua produção em sociologia jurídica, com quem dividi a room with a view. À janela de nossa sala de jantar, tendo ao fundo o magnífico perfil do Palazio Vechio, discutimos tanto estética quanto sociologia.
Também muito fértil tem sido meu círculo de convivência mais íntima no interior da International Political Science Association, assim como da International Sociological Association. No caso da primeira, desde 1976, ainda como estudante de pós-graduação, tenho tido intensa atuação. Foi no contexto da IPSA que travei contato pessoal com tantos autores que aprendera a admirar através de bibliografias de curso. Ali sigo tendo interlocutores interessados, parceiros de pesquisa e de projetos editoriais. Entre 1988 e 1994 (dois mandatos consecutivos) fui eleita para o Comitê Executivo de 17 membros que junto com a Presidência conduz a Associação. Essa experiência foi sem dúvida das mais estimulantes em minha trajetória. Seja estreitando laços com colegas de longa data admirados, abrindo-me as portas da academia na Ásia, ou criando oportunidades de projetos conjuntos, a IPSA tem sido uma arena central à minha atuação profissional.
Ainda no interior da IPSA tenho compartilhado com colegas de diversos países interesses de pesquisa típicos da sociologia política. O artigo incluído na coletânea recentemente organizada por Eva Etzioni-Halevy é ilustrativo desse aspecto. No mesmo sentido vai o foco nas relações entre política e burocracia que é o tema do livro que organizei em 1996 em parceria com o saudoso H.K. Asmerom, da Universidade de Amsterdã, companheiro de outros projetos acadêmicos e editoriais. Dentro e fora da IPSA, tenho interagido com pesquisadores que fazem desse tema oportunidade de empreender reflexões teóricas e, simultaneamente, pesquisar questões substantivas que emergem de nossas respectivas inserções nacionais.
Da mesma forma, através da ISA a comunidade internacional de sociologia tem sido minha referência mais estimulante na reflexão teórica. Integrante do Research Group em Teoria Sociológica desde suas origens, no interior desse grupo tenho encontrado incentivo constante para publicar fora do Brasil. Prezo a oportunidade que a Associação Internacional Sociologia me propiciou de iniciar o diálogo com Jeffrey Alexander, Piotr Sztompka, Bryan Turner, Hans Joas, Ron Eyerman e tantos outros teóricos polêmicos e estimulantes.
Graças aos recursos da Internet nos anos mais recentes, minha colaboração com colegas estrangeiros se tornou mais estreita. Assim é que no momento desenvolvo a pesquisa comparada sobre percepções das elites quanto à pobreza e às desigualdades sociais com Abram de Swaan da Universidade de Amesterdã, James Mannor de Sussex, e Else Oyen da Universidade Bergen na Noruega. Lideramos um time de pesquisadores que vem trabalhando no Brasil, na Índia, na África do Sul e em Bangladesh, e que provavelmente se ampliará para incluir outras sociedades.
Outra dimensão importante de minha inserção na comunidade internacional diz respeito à interação com estudantes de outros países. Como professora visitante na University of California at San Diego, ou simplesmente proferindo palestras para estudantes na Europa, nos Estados Unidos ou na Ásia, tenho aprendido muito e creio que tenho logrado, ainda que em escala mínima, simular um diálogo entre esses e meus alunos brasileiros, apostando sempre nos benefícios da comparação e da troca de experiências.
Linhas de pesquisa, publicação e orientação
Na discussão das minhas linhas de pesquisa e publicação, bem como das teses que orientei, defronto-me com um dilema: enveredar por uma longa e enfadonha descrição de tópicos, interpretações e achados de pesquisa, ou optar por um exercício de síntese e abstração. Talvez pela minha própria inclinação ao raciocínio teórico, opto pelo segundo caminho.
Parece-me adequado classificar minha produção em três grandes conjuntos. Dois deles, até certo ponto superpostos, se evidenciam nos dois livros que tenho no momento em preparação. Tendo relutado por razões pragmáticas, mas também “ideológicas”, a produzir livros ao longo de tantos anos, capitulei recentemente à pressão afável de editores e colegas para reunir alguns de meus textos sob a forma de coletânea. Em um deles, a ser publicado pela EDUSP, sob o título Ensaios de sociologia política brasileira, reuni uma dezena de ensaios. Todos eles dão ênfase tanto à discussão teórica quanto à consideração de processos históricos brasileiros.
Uma segunda coletânea, intitulada A prática da teoria, ora em fase de finalização pela Contra Capa Editores, reúne outra dezena de textos nos quais o foco teórico é o mais saliente, mas onde, quase sempre, a discussão de questões da dinâmica social e política brasileira é igualmente relevante. De fato, a produção que vejo como pertencente ao conjunto de teoria inclui desde os “Estudios sobre Max Weber” que redigi aos 22 anos, até o artigo que está para sair na coletânea da Sage organizada por Jeffrey Alexander sobre Real Civil Societies. Entre esses dois trabalhos produzi diversos artigos, publicados seja em revistas, seja em livros, que se enquadram nessa categoria de textos voltados para a discussão teórica.
Conforme indiquei acima, dentro do conjunto de artigos que rotulo como mais propriamente de Sociologia Política o peso da discussão teórica é também sempre muito acentuado. Entretanto, eles se distinguem do conjunto anterior, já que nesses trabalhos se explicitam mais claramente as relações que estabeleço entre a teoria sociológica e a sociologia política. Dentre esse conjunto de publicações, destacam-se três características: (a) a preocupação com a relação entre teoria e história; (b) o recurso à distinção analítica entre sociedade e Estado, mercado e autoridade, papeis burocráticos e papeis políticos; e (c) o recurso analítico à comparação macro-histórica.
Além das teses de mestrado e doutorado, incluiria aqui meus diversos textos sobre construção do estado no Brasil, sobre questões de cidadania e identidade nacional, sobre a penetração da autoridade pública no mundo rural, e aqueles sobre a questão da democracia no Brasil. Sob esse último rótulo, incluo na verdade pesquisas e publicações sobre três grandes questões que, sobretudo nos anos mais recentes, estão no fulcro de minhas atenções. São elas, (a) a dimensão política da cultura; (b) as bases sociais da política; e (c) a questão da exclusão social, que enquadro no tema mais amplo da desigualdade e suas implicações sobre a solidariedade. Enquadro aqui meus artigos sobre burocracia e democracia, sobre a percepção da desigualdade entre as elites e sobre o impacto da exclusão na propensão ao associativismo. É também aqui que incluo as duas pesquisas a que me dedico no momento: (a) o estudo comparado, mencionado anteriormente, sobre a percepção das elites quanto à pobreza e a desigualdade que coordeno juntamente com três colegas estrangeiros; e (b) o projeto que recém iniciei em colaboração com os professores Maria Hermínia Tavares de Almeida e Leandro Piquet Carneiro da USP, sobre “Democracia, Administração e Governo Local”.
Os textos sobre o ensino e a pesquisa em ciências sociais constituem um terceiro conjunto em minha produção intelectual. Eles são quase sempre respostas a solicitações específicas para discussão no interior da comunidade acadêmica brasileira. Refletem naturalmente minha própria experiência profissional, meus bias e minha avaliação crítica do exercício da profissão. Atuando ao longo dos anos como professora e pesquisadora, como consultora de órgãos de fomento ao ensino e à pesquisa, como integrante de corpos editoriais, como membro ativo na administração de associações científicas, é natural que cobrem minha visão das ciências sociais no Brasil e fora dele, meu diagnóstico de problemas substantivos e formais que o ensino e a pesquisa enfrentam entre nós. Nesse rol devo incluir uma série de artigos que tratam de temas como interdisciplinaridade, condições sociais da produção do conhecimento, o pós-desenvolvimentismo nas ciências sociais.
Por fim, as duas dezenas de teses que orientei me propiciaram a oportunidade de aprender sobre uma grande variedade de temas e questões. Em retrospecto, o núcleo de minha orientação concentrou-se na consistência teórica e na coerência entre as questões de investigação e o desenho da pesquisa. Isso transparece, por exemplo, nas teses dos cinco alunos que no Instituto de Medicina Social da UERJ trabalharam sob minha supervisão. Apesar do caráter aplicado dessas teses, minha orientação foi sempre no sentido de assegurar a consistência teórica e metodológica para lançar luz sobre a dinâmica de políticas de saúde, dos processos particulares de institucionalização da pesquisa médica, ou das relações entre administração e resultados em hospitais.
Minha insistência com esses e com todos os que tenho orientado é que as teses se fazem sobre questões, sejam essas teóricas ou substantivas, não sobre acontecimentos ou pessoas. Essa postura norteou, por exemplo, a pesquisa de tese de Maria das Dores Campos Machado (melhor tese de doutorado de 1994 no Concurso Ford-ANPOCS) sobre evangélicos e carismáticos. A ideia de explorar o impacto da adesão religiosa sobre a divisão de papeis dentro da estrutura e familiar, através do recurso à comparação entre fieis de duas crenças distintas, ilustra bem como o tema da religião pode merecer um tratamento canônico, típico da teoria sociológica básica.
Outros alunos que trabalharam sob minha orientação permaneceram mais próximos a meus próprios problemas de pesquisa. Lembro, por exemplo, o estudo de Gilberto Hochman (melhor tese de doutorado de 1996 no Concurso Ford-ANPOCS) sobre as origens históricas da política de saúde no Brasil. Ressalvadas a originalidade e a criatividade inegáveis do autor, seu trabalho se insere claramente na tradição de pesquisa em sociologia política a que tenho me dedicado, aquela que privilegia a abordagem macro-histórica. Da mesma forma, mais recentemente, a tese defendida por Maria Eliza Linhares sobre as relações entre as elites agrárias e o poder público em Minas, ou a de Fábio Mendes sobre o processo de recrutamento militar enquanto dimensão de state-building, revelam nas perspectivas teóricas com as quais dialogam e nos caminhos analíticos que trilham sua adesão à tradição da sociologia política.
À guisa de conclusão
Nessas últimas páginas peço licença para breves observações de caráter idiossincrático já que dizem respeito a uma auto-interpretação de minha trajetória profissional. Da reflexão empreendida aqui alguns traços emergem como recorrentes no amplo painel que esbocei para comentar mais de três décadas de convivência com as ciências sociais. É possível que eles não convençam os leitores, seja porque meu texto é fragmentado, seja porque talvez o sentido que encontro seja muito pessoal. Permito-me, porém, concluir essas páginas empreendendo um balanço pessoal.
Saliento três aspectos que embora nada tenham de originais são peculiares à minha trajetória: o primeiro deles é minha profissionalização precoce na Sociologia. Nas páginas anteriores, a dificuldade em isolar experiências discentes, publicações, atividades de ensino e pesquisa, decorre do fato de que desde a graduação as oportunidades e as escolhas pessoais me levaram a misturar esses capítulos. Ainda que muitas vezes a multiplicidade de papeis e demandas tenha me criado problemas, considero que fui privilegiada no que diz respeito a oportunidades de profissionalização precoce. Por um lado, tive a sorte de entrar no mercado de trabalho em uma conjuntura acadêmica dinâmica que criava novas oportunidades profissionais. Por outro lado, tendo deixado meu ambiente familiar muito cedo, em função de um projeto intelectual, vi-me inteiramente mergulhada nesse projeto. Em outras palavras, as circunstâncias objetivas e existenciais propiciaram-me condições ideais para mergulhar fundo na construção de uma vocação.
O segundo aspecto que me parece constituir elemento definidor de minha trajetória é essa identidade híbrida de socióloga e cientista política que abracei desde os tempos do curso da graduação em Sociologia e Política. Sem pretensões, talvez possa me considerar uma espécie de “tipo ideal” produzido pelo curso de graduação em Sociologia e Política da UFMG, eu que fui da última turma diplomada antes da extinção do programa que foi absorvido pelo curso de Ciências Sociais.
A atração que sempre senti pela perspectiva weberiana da Sociologia Política atuou no sentido de preservar essa dupla vinculação que adquiri desde os tempos da graduação na FACE/UFMG, vi se fortalecer progressivamente quando das experiências de pós-graduações no Chile, no IUPERJ, no MIT, e levei à frente tanto nas instituições onde trabalhei como no interior de meus grupos de referência nacionais e internacionais. Identifico alguns traços bastante diferenciados na institucionalização da Sociologia e da Ciência Política como disciplinas autônomas, considero saudável e produtiva a especialização disciplinar. No entanto, não me parece incoerente minha dupla inserção, na medida em que identifico na Sociologia Política uma perspectiva analítica solidamente lastreada na tradição teórica. Em terceiro lugar, considero que o mix nacional e internacional que mantenho desde o início de minha trajetória profissional é algo que confere características peculiares à minha produção. Sem falsa modéstia, considero-me bastante atuante no âmbito da sociologia nacional, conheço de perto a realidade dos programas de pós-graduação e pesquisa no Brasil. Da mesma forma, considero-me bastante integrada a grupos internacionais de pesquisa, publico regularmente em outros países, faço conferências para públicos estrangeiros, integro corpo editorial de periódicos de diferentes línguas. Em resumo, a comunidade acadêmica nacional e a internacional constituem ambas referenciais decisivos a meu desempenho profissional.
Também quero usar o contexto dessas reflexões e observações pessoais sobre minha trajetória intelectual, para expressar meu reconhecimento a meu cúmplice e parceiro mais íntimo, mais antigo e mais duradouro. Refiro-me a Eustáquio Reis, meu marido. Por timidez censurei essa referência em meu esforço de redigir um memorial em 1994, cometendo assim um ato flagrante de ingratidão. Como omitir alguém que tem sido meu interlocutor privilegiado desde aquela mesa da biblioteca da FACE/UFMG referida em minhas primeiras páginas? Como relevar que temos sido parceiros intelectuais desde meu último ano de graduação, que juntos cursamos nossas respectivas pós-graduações, que já ensinamos juntos e escrevemos artigos a quatro mãos, e que hoje trocamos nossas experiências de coordenar grupos de excelência apoiados pelo PRONEX? Mais ainda, reconheço que seu apreço à profissão acadêmica tem sido uma ajuda valiosa. Não apenas porque compreende minhas ausências às vezes longas, mas porque ele tem sido meu crítico mais feroz, aquele cujo rigor lógico e metodológico tento emular. Muitas vezes invejo a elegância e o grau de formalização de seus modelos econômicos e econométricos, mas sei da paixão que ele tem pela realidade das questões que a sociologia política privilegia.
Nessas observações finais vou também me dar o luxo de ressaltar algumas das razões pelas quais me orgulho de minha trajetória profissional além das que já deixei sugeridas nas páginas anteriores. É motivo de orgulho para mim constatar que praticamente em todas as instituições de ensino e pesquisa do Rio de Janeiro, e também em muitos outros estados, estão ativas pessoas que ajudei a formar. Talvez muitos deles sejam críticos quanto a meus ensinamentos. Mas mesmo (ou sobretudo) disso um intelectual deve se orgulhar já que nosso papel é exatamente formar espíritos críticos.
Ter sido secretária da Sociedade Brasileira de Sociologia é outra lembrança que me envaidece. Foi uma época de muito trabalho e poucas glórias aquela em que nos esforçamos para reviver a antiga SBS. Entretanto, foi estimulante lutar junto de tantos colegas queridos que apostaram no valor do associativismo para vitalizar o ethos profissional. Ver a SBS hoje cada vez mais ativa e presente me faz feliz e esperançosa.
Também seria ocultar a verdade não reconhecer o grande orgulho que tenho em presidir a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. Ser escolhida por meus pares para essa tarefa é para mim uma prova definitiva de legitimidade na profissão. Considero um privilégio estar à frente dessa comunidade de scholars cuja vitalidade e dinamismo é reconhecida muito além de nossas fronteiras geográficas e disciplinares. Outro aspecto que alimenta hoje minha vaidade é coordenar o Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdade (NIED) que tem o apoio do Programa de Núcleos de Excelência do Ministério de Ciência e Tecnologia (PRONEX). O NIED significa em certo sentido o coroamento de minha aposta nas vantagens de interagir com outras disciplinas sem implodir as fronteiras disciplinares. Nosso núcleo integra antropólogos, cientistas políticos, economistas e sociólogos em torno de questões que dizem respeito às causas e conseqüências das desigualdades sociais, políticas de combate a desigualdades várias, e viabilidade política dessas policies.
Considero um privilégio trabalhar com tantos excelentes colegas da minha e de outras disciplinas para estudar um problema central do Brasil contemporâneo. Quero crer que lograr privilegiar na pesquisa nossos imperativos éticos é das dimensões mais gratificantes da prática das ciências sociais. No caso particular dos objetivos do Núcleo que coordeno é também uma forma privilegiada de lançar luz sobre questões clássicas da sociologia política.
Há também gratificações mais tópicas que atuam como contrapesos das muitas dificuldades e frustrações que, como meus colegas dedicados à vida acadêmica no Brasil hoje, experimento no dia a dia. Tais contrapesos incluem tanto ver florescer meus bolsistas de iniciação científica, como receber a solicitação do International Social Science Journal para republicar no número comemorativo dos 50 anos da revista um artigo de minha autoria.
Finalmente, eu diria que esse memorial resume a atuação de uma socióloga profundamente brasileira nas preocupações temáticas, na multiplicidade de papeis profissionais assumidos, no empenho de combinar a análise do processo histórico com os desafios do presente, ou o clássico e o contemporâneo na teoria sociológica. Uma socióloga ao mesmo tempo deliberadamente voltada para a comunidade acadêmica internacional, pela própria aposta feita na república da ciência e na comunidade das ciências sociais. Uma socióloga apaixonada pelo seu trabalho, paixão que implica o esforço deliberado de manter sob controle, contida sob a forma de um discurso seco, a tentação sentimental. Que esse controle tenha às vezes se perdido ao longo dessas páginas, é obra e graça da memória que nos prega peças, reacendendo afetos, vaidades e emoções.