
Na oitava dupla de posts da série Modos de narrar a sociologia brasileira, que se propõe a contar uma história mais plural, descentrada e contingente dessa área do conhecimento a partir de excertos de memoriais acadêmicos selecionados pelos próprios autores-atores que a praticam, trazemos os relatos de José Maurício Domingues (IESP/UERJ) e Richard Miskolci (UNIFESP).
José Maurício Domingues revisita sua aproximação e inserção na área de teoria sociológica, delineando os principais pontos que a dinamizava nas décadas de 1980 e 1990, e indicando como suas inquietações em relação a diversas abordagens correntes, aliadas a uma leitura crítica de diferentes autores, culminaram na formulação do conceito de “subjetividade coletiva”. Além disso, observamos como, a partir do Brasil e da América Latina, Domingues traz uma série de contribuições à sociologia política. Já no percurso acadêmico de Richard Miskolci, acompanhamos as aventuras do pesquisador pela sociologia e pela literatura, em particular a alemã. Sua perspectiva aguçada e inquieta o levou a explorar diversos temas relacionados às diferenças e desigualdades, tornando-se um dos principais expoentes da discussão sobre masculinidade, branquitude e as regulações de gênero.
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Desejamos a todas e todos boa leitura!
Memorial (2020)
Richard Miskolci (UNIFESP)
O homem não vive somente sua vida individual como indivíduo, mas, consciente ou inconscientemente, participa da vida de sua época e dos seus contemporâneos.
(Thomas Mann, A Montanha Mágica)
Preâmbulo sobre memória e trajetória intelectual
Com a idade, a memória amplia cada detalhe e o apresenta com a melhor nitidez.
(Sándor Márai, As Brasas)
Um memorial acadêmico é um convite à memória e à sua análise. Em tempos anti-intelectuais, talvez este possa contribuir como contraponto aos fascismos identitários que ameaçam por dentro a universidade brasileira. Parte de uma geração que lutou por um ensino superior mais inclusivo e democrático, chego à defesa da titularidade em uma verdadeira trincheira: sob o fogo cruzado do obscurantismo de hordas externas e da questionável afirmação identitária que se espalha internamente.
Cria dos estudos sobre diferenças, em especial os de gênero em uma perspectiva queer, proponho, a quem lê este ensaio, acompanhar minha trajetória intelectual iniciando com uma memória de infância. Ao relatar cada passo em minha carreira, selecionei reflexões teóricas e conceituais para analisá-las na contramão do tempo. Se aprendi algo no caminho que me trouxe a este memorial, é que sou o resultado contextual de uma história maior e minha experiência pode ser compreendida não como o ápice de uma carreira profissional, mas, antes, como ponto de partida para refletir sobre algo que me excede e do que sou apenas parte: membro de uma geração acadêmica brasileira.
Inicio com um breve relato de minha infância ao qual retorno sem intuito individualista tampouco nostálgico, mas porque serve como interrogação curiosa sobre injustiça e desigualdade em múltiplos sentidos. Uma vivência que me interpelou como sujeito sem que eu tivesse as ferramentas para interpretá-la e, por isso, em diversos momentos de minha trajetória intelectual foi retomada para a reflexão. Assim como a vida coletiva nos apresenta desafios analíticos, nossa experiência nela tampouco é transparente. Esboço um memorial reconhecendo este fato sociológico e psicanalítico que nos apresenta os limites do que vemos convidando à dúvida e ao árduo trabalho de pesquisa.
Em uma era que premia as certezas dos que se exprimem a partir de um suposto local de fala que os aloca na fixidez de uma identidade transparente, seguirei outro caminho: o de quem estranha esse apanágio e reconhece nele o outro lado do autoritarismo que mais uma vez nos espreita.
Formação até o doutorado
Todas as escolas são ruins e a em que estudamos sempre a pior se não abre os nossos olhos.
(O Náufrago, Thomas Bernhard)
Ainda recordo como, ao acordar, colocava o uniforme e seguia para a escola. Era o final da década de 1970 e vivíamos sob o governo do General Figueiredo. No pátio, tínhamos que formar filas: duas para cada sala de aula, uma de meninos e outra de meninas. Começavam aí as “brincadeiras”, nas quais os meninos mais robustos empurravam os mais frágeis para a fila feminina, espaço desqualificado em si. Só paravam diante do sinal para o hasteamento da bandeira cantando o Hino Nacional. Depois, entrávamos na sala, de forma ordenada, marchando feito soldados em miniatura. Nela, a professora rabugenta e conservadora ameaçava usar uma régua de madeira contra os indisciplinados. Ainda pior eram as ameaças dos valentões no banheiro e na saída, espaços liminares do perigo entre a escola e o lar.
Tinha apenas sete anos, daí não perceber que a minha turma concentrava os estudantes mais privilegiados economicamente e, não por acaso, era uma sala massivamente branca. Ali, naquele ambiente autoritário organizado para inculcar os valores da ditadura militar instaurada pelo Golpe de 1964, o estudávamos como tendo sido uma “revolução”. Vivíamos sob a sombra de uma ordem política e social que girava em torno do poder masculino e a masculinidade se confundia com a violência em um jogo injusto e cruel para as meninas, mas também para os meninos que, como eu, não gostavam de futebol tampouco queriam emular o comportamento dos adolescentes que, com 18 anos, adentravam a vida adulta em seus uniformes do serviço militar obrigatório.
Cresci em uma época autoritária e violenta, por isso reconheço suas marcas tanto naqueles que saíram como “esperado” quanto nos que se desviaram das expectativas sociais. A fronteira entre a normalidade e o desvio me fascinou. Na universidade, essa linha tênue se tornaria balizadora de minha produção acadêmica, daí reconhecer nessa lembrança uma das aproximações possíveis entre meu presente e meu passado e da própria sociedade brasileira.
Foi no ano seguinte à queda do Muro de Berlim e da eleição de Fernando Collor para a presidência que entrei na Universidade Estadual Paulista (UNESP), Campus de Araraquara, para cursar Economia. Era uma época de mudanças históricas profundas, de reconstrução da democracia brasileira e do otimismo após a promulgação da Constituição de 1988. Na universidade, nossos professores nos falavam sobre uma crise dos paradigmas teóricos, conceituais e analíticos. O terreno movediço que os abalava a nós se apresentava como teríamos que trilhar nosso próprio caminho. (…)
O contato com a obra de Max Weber nas disciplinas de História Econômica inspirou a ideia para uma pesquisa de iniciação científica: estudar um tema comum a Max Weber e Thomas Mann: a elite alemã. Foi assim que comecei a me aproximar da Sociologia. Mann é uma espécie de versão literária de Weber, ambos filhos desgarrados da burguesia alemã: um pela arte e outro pela ciência. A despeito de gostar de Economia – e ela ter sido a primeira ciência social –, sua ênfase na estrutura me parecia insuficiente e eu ansiava por conhecimentos que pudessem também lidar com agência e subjetividade. Nessa direção, contei com a orientação do historiador José Leonardo do Nascimento. De certa forma, minha monografia de conclusão do curso – “Um estudo sobre a elite”– foi uma ponte entre a Economia e a Sociologia que só pude atravessar por meio da literatura.
(…) Optei por uma carreira acadêmica e entrei no mestrado no início de 1994, aos vinte e dois anos, sob a orientação de uma antropóloga suíça radicada no Brasil, apaixonada por literatura, Silvia Maria Schmuziger de Carvalho. Minha pesquisa sobre Thomas Mann me aproximou da Teoria Crítica e problemáticas embrionárias que só passaria a explorar em profundidade no doutorado, como as dinâmicas emocionais da vida coletiva. (…)
Minha dissertação de mestrado foi uma análise de A Montanha Mágica, um romance social em que a formação de um jovem por meio da doença e da fascinação pela morte serve de guia para discussões políticas que marcaram a Belle Époque. (…) Foi um trabalho de juventude em que comecei a explorar uma abordagem sobre a experiência e a memória como formas alternativas da história e do conhecimento social inspirado pela Escola de Frankfurt e pelas críticas nietzscheanas ao historicismo alemão. Como anexo à dissertação, traduzi o prefácio de Thomas Mann para A Montanha Mágica, apresentado em Princeton, em 1939, e que permanecia inédito em português. Publiquei-a, precedida de um curto ensaio, na Perspectivas – Revista de Ciências Sociais, da UNESP, em 1996.
À luz da experiência acumulada com os anos, talvez minhas primeiras investigações tivessem em comum o interesse em compreender os elementos menos óbvios da formação em contextos autoritários marcados pela masculinidade hegemônica. Contextos em que os principais aprendizados talvez não estivessem nos conteúdos escolares ou nas discussões intelectuais, antes nas regulações de gênero e sexualidade e formas de desigualdade que iam além das de classe social. (…)
Findo o mestrado, criei um projeto sobre o artista e a doença na obra de Thomas Mann, com o qual fui aceito no doutorado em Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) no final de 1996, na época com vinte e quatro anos. Meu orientador, José Carlos Bruni, introduziu-me à leitura de Michel Foucault, ao mesmo tempo que me iniciei em discussões sobre as relações entre Psicanálise e História em uma disciplina de Irene Cardoso que marcou minha trajetória acadêmica. (…)
Bruni me incentivou a buscar um especialista em questões de diferenças e, ao ler Kafka: the Jewish Patient,do historiador cultural norte-americano Sander L. Gilman, decidi concorrer a uma bolsa sanduíche do CNPq para estudar sob sua supervisão na Universidade de Chicago. Lá participei do grupo de estudo “Medicine and Culture”.(…) os debates que mais me valeram naquele momento foram as discussões que envolviam o que hoje definiria como a hegemonia histórica de compreensões patologizantes sobre diferenças étnico-raciais, de gênero e sexualidade durante o século XX. (…)
Além do contato contínuo com Gilman e seu criativo grupo de investigadores, na Universidade de Chicago também frequentei cursos sobre Direitos Humanos, Filosofia Feminista, Pensamento Social e Literatura, além de ter tido aulas especiais e palestras com professores pioneiros dos Estudos Pós-Coloniais e Teoria Queer. (…) Associando pesquisa em arquivos históricos, a fortuna crítica sobre o autor e uma perspectiva cada vez mais influenciada por Foucault, redigi minha tese “Thomas Mann, o artista mestiço”.
Reconstituí historicamente e analisei em termos sociológicos o contexto cultural e político que criou as condições em que o autor alemão podia compreender a si próprio e sua arte, no caso, como um desvio patológico da vida burguesa. O centro da tese é a análise de Doutor Fausto, o acerto de contas artístico e político de Mann com sua nação. Esse trabalho sobre uma obra que retrata a ascensão do nazismo marca a emergência de um tropo em minhas investigações: as dinâmicas emocionais da vida coletiva. Para Mann, o nazismo não pode ser compreendido apenas elencando fatos racionais, exigindo atenção aos fantasmas e temores da época, tese coerente com a de Adorno e Horkheimer em “Sobre a teoria dos fantasmas”, posfácio ao Dialética do Esclarecimento.
A adesão coletiva a linhas políticas autoritárias e violentas com relação ao que hoje compreendemos como diferenças só pode ser compreendida por meio de uma perspectiva sociológica que incorpore as dinâmicas emocionais da vida social. Na perspectiva de Mann e dos citados frankfurtianos, temores de elites dirigentes sobre mudanças culturais e políticas definem o horizonte de possibilidades de uma sociedade reprimindo alternativas. A projeção de riscos e temores em grupos sociais minoritários os transforma em bodes expiatórios de sociedades que recusam reconhecer sua heterogeneidade interna. O medo do futuro arrasta a vida política para algo regressivo, algumas vezes para o culto e a defesa de um passado que nunca existiu.
Defendi minha tese em maio de 2001, portanto, no final do governo Fernando Henrique Cardoso, período de raros concursos para docente nas universidades públicas, que viviam um momento muito difícil depois de uma onda de aposentadorias, corte de verbas e desvalorização salarial e de bolsas. (…) Paralelamente, fui convidado por Lucila Scavone e Eliana de Melo e Souza a concorrer a uma Bolsa Recém-Doutor do CNPq para atuar como docente no Departamento de Sociologia da UNESP de Araraquara. Redigi um projeto que buscava transferir para a realidade brasileira discussões sobre diferenças com as quais travara contato em Chicago. A proposta de trabalho envolvia a investigação “Ciência e Loucura na obra de Machado de Assis” e a atuação como docente na Graduação em Ciências Sociais e no Programa de Pós-Graduação em Sociologia.
Início da carreira docente: do desvio às diferenças (2001-2005)
Pois alguns por necessidade seguem caminhos errados porque para eles não existe, de maneira alguma, um caminho certo.
(Tonio Kröger, Thomas Mann)
Em fevereiro de 2004 fui aprovado no concurso público para Professor Efetivo do então Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A banca foi presidida por Maria da Gloria Bonelli e contava como membros externos: Maria Aparecida Moraes Silva, Ilse Scherer-Warren, Leila da Costa Ferreira e Antonio Sérgio Guimarães. Fiz prova escrita sobre movimentos sociais e dei uma aula sobre poder e dominação, na qual lembro ter buscado reconstituir as fontes weberianas sobre o tema chegando aos seus desdobramentos na Escola de Frankfurt e em Foucault. Meu projeto de investigação envolvia as relações entre medicina e a patologização das diferenças.
Na UFSCar, criei um grupo de pesquisa que passou a se reunir quinzenalmente para discutir obras que abordavam diferenças e desigualdades sob uma perspectiva queer. Registrado no diretório dos grupos de pesquisa do CNPq, ele continua atuante até hoje na UNIFESP como Quereres – Núcleo de Pesquisa em Diferenças, Direitos Humanos e Saúde (www.quereres.sites.unifesp.br). Aconselhado a adaptar minha pesquisa para a realidade brasileira e dar continuidade aos meus estudos envolvendo romances, dei prosseguimento às investigações históricas com o projeto “Ciências, Literatura e Nação”, o qual passou a agregar estudantes de Graduação e Pós-Graduação à minha pesquisa sobre o papel do desejo na formação da República brasileira do final do século XIX até as primeiras décadas do século XX. (…)
A problemática racial que comecei a abordar em meu doutorado e mantive em minha pesquisa sobre Machado de Assis se aprimorou neste período inicial na UFSCar, quando também me engajei nos debates e na defesa das ações afirmativas no ensino superior público. Os diálogos com colegas como Valter Roberto Silvério, além do contato com estudantes que se envolviam nas atividades no Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), como Priscila Martins Medeiros, contribuiu para que eu reconhecesse a importância de abrir a universidade a segmentos sociais historicamente afastados da formação superior e aprimorar o currículo.
Passei a atuar como docente na Graduação em Ciências Sociais, oferecendo disciplinas obrigatórias como Metodologia das Ciências Sociais. (…) Desde o início ofereci duas disciplinas por semestre, sempre com prioridade para a Graduação. Lecionei a citada Metodologia das Ciências Sociais (originalmente chamada Pesquisa Social) por quase uma década para estudantes do primeiro ano, uma disciplina que considerava fascinante e fazia parte da chamada “espinha dorsal” do curso da UFSCar, cujo projeto, desde sua criação por José Albertino Rodrigues, era o de formar pesquisadores. Nela, estudávamos As regras do método sociológico e O Suicídio,de Durkheim, como aproximação à vertente estrutural da Sociologia para, em seguida, após uma aula sobre O inconsciente, de Freud, adentrarmos em A objetividade do conhecimento nas ciências sociais e A ética protestante e o espírito do capitalismo,de Weber, para conhecer a vertente da ação social.
Na Pós-Graduação em Ciências Sociais, ofereci disciplinas obrigatórias e a optativa mais frequente foi Sociologia das Diferenças, disciplina em que discutia autores queer, feministas e pós-coloniais. (…) [A] partir de uma mesa que organizei no congresso da Brazilian Studies Association (BRASA) com Margareth Rago e Marcos Cesar Alvarez, editei o dossiê “Normalidade, desvio, diferenças” para a revista Teoria e Pesquisa,da UFSCar, no qual publiquei o artigo “Do desvio às diferenças” (2005), em que faria a transição definitiva das discussões sobre desvio para as sobre diferenças.
“Do desvio às diferenças” descreve como as abordagens sociológicas sobre o desvio mantinham a problematização social hegemônica sobre os comportamentos recusados e classificados como anormais até que – em meio às transformações políticas da década de 1960 e à emergência dos chamados novos movimentos sociais – pesquisadores como Becker, Goffman e Foucault inverteram a perspectiva analítica para as dinâmicas e processos sociais que rotulavam e/ou criavam os desviantes/anormais. A partir dessa inflexão, com a emergência dos saberes insurgentes a partir da década de 1970 e 1980 – como os feminismos, a Teoria Queer e os estudos pós-coloniais –, surgiram abordagens teóricas e conceituais afeitas a uma analítica da normalização não apenas nas práticas sociais, mas também na própria epistemologia hegemônica nas Ciências Sociais e Humanas. (…)
Pouco a pouco, consegui criar um conjunto coeso de orientandos/as enquanto me aproximava do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da UNICAMP e da interlocução com Mariza Corrêa, Adriana Piscitelli e Iara Beleli. (…) O feminismo então ainda encontrava resistência por parte da academia, e os estudos de gênero estavam em ascensão dentro dele enquanto as pesquisas sobre sexualidade ainda se desenvolviam predominantemente na esteira das preocupações com a AIDS. Com as exceções de Guacira Lopes Louro e jovens pesquisadoras/es como Karla Bessa, Berenice Bento e Pedro Paulo Gomes Pereira, quase não se mencionavam fontes queer ou, quando muito, pesquisadoras mais estabelecidas buscavam incorporá-las em um enquadramento disciplinar. (…)
Teoria Queer e outras dissidências (2006-2009)
Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar e refletir.
(História da Sexualidade II, Michel Foucault)
A perspectiva crítica com relação aos ativismos e investigações identitários causou mal-entendidos, mas também abriu caminhos para que pudesse contribuir com a ampliação de temáticas e de quadros analíticos na esfera dos estudos de sexualidade brasileiros. Um convite para participar de um dossiê gerou a demanda de eu escrever um artigo sobre casamento gay. Depois de pronto, o texto foi recusado porque era crítico (ainda que não se opusesse à demanda política do movimento social), enquanto os demais defendiam o casamento. (…)
Mariza Corrêa, ao ler o artigo, enxergou nele o cerne de uma outra perspectiva para os estudos de sexualidade e me convidou para organizar o primeiro dossiê queer brasileiro. Mariza propôs que trabalhasse com Júlio Assis Simões, professor de Antropologia da USP. Encampamos o desafio de articular essa nova vertente de estudos sem deixar de reconhecer a tradição de pesquisas em sexualidades já desenvolvida no Brasil. Surgia, assim, em 2007, “Sexualidades Disparatadas”, dossiê publicado no volume dos Cadernos Pagu, batizado de Quereres por Iara Beleli, compilação de estudos que teve impacto na área de sexualidade brasileira e recebeu, no ano seguinte, o Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade. (…)
Em 2008, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) me concedeu uma Bolsa de Pesquisa no Exterior, o que permitiu que trabalhasse com David M. Halperin, historiador da sexualidade norte-americano. (…) Foi por essa época, e graças a este período no exterior, que redigi o artigo “A Teoria Queer e a Sociologia: o desafio de uma analítica da normalização”, que seria publicado no ano seguinte na revista Sociologias e é meu texto mais citado até hoje. (…)
Em minha leitura, os estudos queer questionam as bases do identitarismo político e de seu braço investigativo assentado na defesa, afirmação ou luta por uma identidade. Ainda que nas décadas finais do século XX não estivessem claros os vínculos entre a identidade e a reemergência do autoritarismo, os nascentes estudos queer emergiam afastando-se dessa linha de pesquisa e ativismo que, na década de 2010, alcançaria o centro da vida política e intelectual em nosso país. Portanto, este artigo extensamente citado, mas pouco compreendido, posiciona-se criticamente contra o identitarismo que ascendia e, em versões celebradas pela mídia especializada e acolhida por segmentos acadêmicos, se casaria com a afirmação neoliberal de um empreendedorismo de si e na mercantilização do conhecimento, quer seja na construção de uma carreira universitária, quer no segmento dos intelectuais midiáticos.
De volta do período em Michigan, fui convidado a me tornar pesquisador associado do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da UNICAMP, e membro do Comitê Editorial da revista Cadernos Pagu. (…)Larissa Pelúcio e eu, baseados em seu doutorado sobre o modelo preventivo de AIDS e minha pesquisa inicial com usuários de internet homossexuais e inspirados pela perspectiva crítica de Perlongher, publicamos na Sexualidad, Salud y Sociedad – Revista Latinoamericana, o artigo “A prevenção do desvio: o dispositivo da aids e a repatologização das sexualidades dissidentes” (2009), no qual defendemos a tese de que – ao contrário do que afirmava a maior parte da literatura disponível sobre o tema – a homossexualidade não fora despatologizada a partir da sua retirada do CID, em 1973, quando deixou de ser classificada como doença mental. A partir do pânico sexual do auge de mortes da epidemia de AIDS na década de 1980, as homossexualidades foram repatologizadas em novos termos, desta vez epidemiológicos, transformando a recusa social à homossexualidade que focava em indivíduos vistos como anormais/loucos em uma rejeição a um “perigo” que passou a ser visto como “infeccioso” e, portanto, uma ameaça à toda a coletividade. (…)
O Curso Gênero e Diversidade na Escola (2009-2014)
Em 2009, participei do grupo que criou o Departamento de Sociologia da UFSCar. Éramos apenas seis docentes, dentre os quais, de longe eu o mais jovem. Foi um grande desafio que envolveu esforço de trabalho redobrado para oferecer mais disciplinas para o campus e forte envolvimento institucional. Neste contexto, aprofundei minha atuação como representante do novo Departamento no Conselho de Extensão. Vivíamos o segundo mandato de Lula na presidência, no qual ganharam fôlego iniciativas voltadas para a promoção dos direitos humanos.
Anete Abramowicz, da área de Educação da UFSCar, desenvolvia um projeto de formação de professores sobre relações étnico-raciais com Valter R. Silvério e me convenceu a propor um outro projeto de curso para a SECAD (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade), o qual lidaria também com gênero e sexualidade. Assim, no final de 2008, fiz a proposta de um curso de aperfeiçoamento voltado para docentes do ensino básico e médio: o curso Gênero e Diversidade na Escola da UFSCar. A proposta foi aprovada e o curso – a distância – oferecido para 1.440 educadores/as em todo o país. (…)
De 2009 a 2014, coordenei três edições do GDE-UFSCar atingindo mais de dois mil cursistas. Nesse período, organizei dois livros voltados para a disseminação dos temas nele abordados na área educacional: Marcas da Diferença no Ensino Escolar (2010) e Diferenças na Educação: outros aprendizados (2014), este último com Jorge Leite Júnior. O sucesso do GDE da UFSCar e do material que ele produziu me trouxe o convite para uma aula magna em um curso de aperfeiçoamento em direitos humanos na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). A aula foi transcrita e publicada, em 2012, como o livro Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças, o qual já se encontra na terceira edição (2017).
Ao criar a aula magna que se transformaria em livro, me inspirei na discussão feminista sobre experiência, em especial a da historiadora Joan W. Scott, segundo a qual não são sujeitos que têm experiências, mas sim as experiências que constituem os sujeitos e, por isso, devem ser objeto de investigação. Em vez de partirmos do que somos, devemos pesquisar o que nos trouxe aqui, as circunstâncias culturais e históricas que nos constituíram como sujeitos. (…)
Continuei a oferecer disciplinas obrigatórias para o curso de Ciências Sociais – como Metodologia das Ciências Sociais e Sociologia Contemporânea – e voltadas para outros, entre os quais decidi me concentrar na Introdução à Sociologia para cursos da área de saúde: Enfermagem e Gerontologia. Tal decisão aproximar-me-ia pouco a pouco dessa área, geraria convites para bancas na Saúde Coletiva e – no futuro – seria fundamental para meu pedido de redistribuição para o Departamento de Medicina Preventiva da UNIFESP.
Por essa época, me engajei com Jacqueline Sinhoretto, Jorge Leite Júnior e André Ricardo de Souza na criação da Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar.Buscamos criar um periódico científico com identidade própria, aberto a temas e abordagens inovadoras nas Ciências Sociais, com foco na relação entre diferenças e desigualdades. (…)
Em meio a todos os afazeres, buscava dar prosseguimento à minha pesquisa individual, a qual recebeu apoio da FAPESP, permitindo que fizesse visitas contínuas durante dois anos nos arquivos no Rio de Janeiro. A pesquisa foi publicada em livro como O desejo da nação: masculinidade e branquitude no Brasil de fins do XIX. (…) O objetivo da obra era explorar as alternativas históricas que assombraram a sociedade estabelecida como forças então classificadas como subversivas e perigosas, em particular o desejo fora das prescrições morais vigentes. Na esteira dos já mencionados Adorno e Horkheimer, assim como da socióloga norte-americana Avery F. Gordon, associei a pesquisa histórica e fontes psicanalíticas para desenvolver uma análise sociológica afeita a fenômenos como os pânicos morais e sexuais que costumam emergir em períodos de rápidas ou profundas transformações nas hierarquias sexuais e de gênero. É um livro sobre a imaginação de nossas elites da virada do século XIX para o XX analisada por meio de seus limites exteriores constitutivos, ou seja, seus fantasmas.
O Desejo da Nação e Teoria Queer (2012): reflexões sobre experiência, “local de fala” e regulações de gênero
Meu intuito ao evocar uma memória escolar no final de O desejo da nação: masculinidade e branquitude no Brasil de fins do XIX e no início de Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças não era autoetnográfico; antes, situa histórica e socialmente minha reflexão sociológica e queer sobre a educação, nosso país e seu passado autoritário. Não por acaso, outro evento evocado nos dois – meu alistamento militar obrigatório – une a data da proclamação da República com seu centenário, portanto, o biográfico só foi evocado por seu significado coletivo, por assim dizer, de base empírica, para a reflexão sociológica situada.
A lembrança tampouco demandava a autoridade de um suposto “local de fala” compreendido como uma identidade; convidava, outrossim, à recusa a toda forma de autoritarismo, inclusive a pretensão de deter a verdade sobre si próprio. Leitor do ensaio O subalterno pode falar?, de Gayatri Spivak desde meu doutorado sanduíche na Universidade de Chicago, sei que a questão da pesquisadora indiana radicada nos Estados Unidos foi inspirada pela posição de intelectuais como Michel Foucault e Gilles Deleuze sobre o papel do intelectual e de sua produção em meio às disputas com o poder. (…)
A resposta à questão-título do ensaio é não, o subalterno não pode falar e, na polêmica com Foucault e Deleuze sobre o papel do intelectual, Spivak afirma que ele não pode apenas prover ferramentas para que os subalternos falem/ajam por si próprios. Spivak nos apresenta uma análise “inconveniente” no Brasil da década de 2010. Ao contrário de interpretações correntes, sua posição é a de que cabe aos intelectuais da periferia do mundo rever criticamente o conhecimento produzido sobre nós e esse saber situado terá que ser apresentado em favor dos subalternizados.
O subalterno não tem como falar a partir da sua experiência compreendida como evidência do que é, já que sua condição de subalternidade demanda um trabalho investigativo – o qual pode e muitas vezes é – feito não por ele próprio, e sim por aqueles que se “identificam” com sua subalternidade e se voltam contra as condições que a criaram: a experiência daqueles e, sobretudo, daquelas cuja subalternização os relega à vulnerabilidade, à desigualdade e até ao extermínio não fala por si só. (…)
O ensaio de Spivak prova que as relações de poder não são “transparentes” e compreendê-las envolve pesquisa e análise especializadas e – ao fazer isso – quase inevitavelmente, intelectuais estarão representando/falando por subalternizados. Daí a espinhosa constatação de que o trabalho intelectual não pode ser substituído e de que o/a investigador/a acadêmico/a se manterá em uma relação de representação – mesmo que não queira – em relação àqueles cuja condição pesquisa. (…)
Foi nesse sentido que parti de uma lembrança escolar como meio para refletir sobre o que nela me excedia e compartilho com a sociedade brasileira as regulações que vivemos juntos – quer saíamos como esperado, quer sejamos rotulados como desviantes, diferentes ou estranhos.
Em outras palavras, a lembrança que evoquei nessas obras-irmãs serviu não para afirmar o que eu supostamente sou tampouco me autorizar a falar, antes como leitmotiv para investigar a gramática da diferença – e, por conseguinte, da desigualdade – que nos trouxe ao presente e ao que somos no Brasil contemporâneo. Sem o trabalho intelectual investigativo do sociólogo, aquela lembrança seria individualizada, usada como evidência de uma identidade ou mera validação de uma fala como autoridade. Dessa forma, ela tangenciaria a principal tarefa de qualquer cientista social: investigar em favor da coletividade, mesmo que os resultados alcançados coloquem em xeque a si próprios, suas crenças e valores. (…)
Na contramão do que começava a se passar nos eventos e adentrar os estudos de gênero e sexualidade nacionais, esses livros buscaram identificar e analisar regulações de gênero e experiência como constitutivos da sociedade em que vivemos, afetando-nos a todos e todas em relações de poder desiguais e injustas, cujos meandros só podemos reconhecer quando as exploramos em suas especificidades nacionais e em suas expressões relacionais. Portanto, os livros argumentam que estamos inseridos em relações de poder mais sofisticadas do que a mera repressão e que compreendemos apenas quando a análise extrapola a perspectiva individual, reconhecemos as mediações das experiências e a contextualidade das identidades, frágeis e fadadas à contínua interpelação pelo tempo e pela cultura. (…)
Mídias digitais: das Jornadas de Junho à Cruzada Moral
(…) obtive uma Bolsa de Pesquisa no Exterior da FAPESP para fazer um campo comparativo em San Francisco, já que a cidade californiana é tanto conhecida pela comunidade gay como centro de criação e difusão das novas tecnologias comunicacionais e informacionais. Fui Visiting scholar no Departamento de Estudos Feministas da Universidade da Califórnia Santa Cruz (UCSC), epicentro de boa parte da produção feminista norte-americana e berço da Teoria Queer. (…)
Neste período, aprofundei a amizade com Celi Scalon, que também fazia um estágio de pesquisa na Califórnia e com quem, nos anos seguintes, passaria a desenvolver mais atividades. Recordo-me até hoje a forma como acompanhamos – a distância – as Jornadas de Junho de 2013 buscando entender o que se passava. (…) Em contraste com análises otimistas que corriam no Brasil, saltava aos nossos olhos o perigo da ausência de pauta de reivindicações, o impulso antipolítica e anti-institucional e a apologia irresponsável da ação direta. A disseminação das TICs (Tecnologias de Comunicação e Informação) por meio do barateamento dos smartphones e do acesso à internet via celular colaborou para impulsionar os protestos de 2013 e moldar sua gramática. O uso dos serviços de rede social incentivou uma espécie de privatização da política que reduz questões coletivas e só passíveis de transformação estrutural a interpretações individualizadas em que a defesa de interesses pessoais dá vazão a impulsos anti-institucionais e à recusa às mediações que caracterizam a vida política.
As redes sociais não criaram, mas potencializaram um fenômeno mais amplo já observado por diversos sociólogos, como Anthony Giddens: a crescente busca de soluções individuais e biográficas para problemas coletivos. Nessa direção, instituições e seus representantes passam a ser vistas como obstáculos a uma gramática política assentada no voluntarismo e até encarnáveis em um líder populista. (…)
Passei a dedicar-me inteiramente à vertente de pesquisa contemporânea sobre os usos das TICs, buscando compreender as transformações sociais trazidas pela disseminação do uso de smartphones e a consequente formação de uma Sociologia Digital. As relações mediadas em rede apresentam um universo investigativo densamente emocional afeito à disseminação de temores coletivos, minha via predileta para a compreensão da vida social em seus conflitos e negociações normativas. (…)
Considero que minha formação em Economia e o trabalho por cinco anos na coordenação do GDE me prepararam para lidar com a Pós-Graduação e, a partir do início de 2015, começar a atuar com Celi Scalon na Coordenação da Área de Sociologia da CAPES. (…) O trabalho como coordenador adjunto da área de Sociologia foi intenso desde o início, um aprendizado que me permitiu conhecer a área viajando pelo Brasil, visitando programas e, sobretudo, por meio do trabalho em Brasília. A parceria com Scalon foi excelente graças à nossa sintonia na perspectiva sobre a Sociologia, seus desafios e conquistas. (…) fomos reconhecidos como interlocutores em discussões sobre o desenvolvimento de planos estratégicos para a pós-graduação brasileira como um todo, além de participarmos da análise e acompanhamento de programas internacionais. (…)
Membro da Sociedade Brasileira de Sociologia desde sua refundação, no congresso de Porto Alegre, em 1998, fui frequentador assíduo de seus encontros, apresentando trabalhos no grupo sobre sexualidade e participando das discussões da associação. Passei a aprofundar esse envolvimento quando comecei a coordenar, com Miriam Adelman (UFPR), o Grupo de Trabalho (GT) Novas Sociologias [e, a partir de 2017, o de Sociologia Digital.] (…)
Na trincheira: entre a extrema direita e os ativismos identitários
Aquele que luta contra monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro.
(Para além do bem e do mal, Friedrich W. Nietzsche)
Aproximando-se do final deste memorial, retomo a metáfora inicial da trincheira em que eu, como outros colegas na universidade, pareço estar vivendo desde meados da década de 2010. Em um campo de batalha, entre dois exércitos ao qual não pertencemos. Talvez seja esta mesma a condição do intelectual que luta para preservar o espírito crítico em meio a uma era de anti-intelectualismo e adesão cega a blocos políticos polarizados. (…)
Nas redes sociais, as milícias identitárias já transformavam discussões acadêmicas e políticas complexas em vigilância comportamental, atuando como polícia a perseguir todos que não seguissem sua cartilha. A codificação do que deveria ser reflexivo em um código de conduta disseminou uma visão caricatural e negativa das discussões sobre gênero, sexualidade e raça no Brasil. Problemáticas históricas e culturais de raiz estrutural e que, portanto, demandam mudanças coletivas, foram traduzidas nas redes sociais e na grande mídia como o “politicamente correto”.
Nessa perspectiva individualista de política, passou-se a crer que mudanças no vocabulário e nas atitudes teriam poder de mudança social, incentivando uma vigilância comportamental generalizada afeita a gerar conflitos e polarizações. Ao invés do convite ao diálogo e ao engajamento em lutas que podiam ser coletivas, delimitaram-se monopólios de fala que definiam o poder de proferir julgamentos de superioridade moral. Ao invés de se demandar justiça social, espalhou-se a prática da denúncia e do linchamento visando – consciente ou inconscientemente – a vinganças. Nossa sociedade punitivista incorporara as demandas de reconhecimento em violentas disputas identitárias. (…)
Tal movimento continua até hoje e, nas universidades, profissionais que estudam esses temas passaram a viver sob vigilância, censuras e ataques – não só da extrema direita ou de conservadores – mas daqueles que poderiam ser aliados em um projeto emancipatório comum. O sonho autoritário – pesadelo dos subalternizados – volta a ser sonhado por novas gerações, inclusive por aqueles que, ao invés de questionar as condições desiguais que partilhamos, optam por demandar seu quinhão empreendendo trajetórias identitárias para disputar autoridade com quem produz conhecimento. Na afirmação essencialista do que são, usam a experiência exatamente como refutou Joan W. Scott: a evidência de si como sujeito. (…)
Infelizmente, na área dos estudos de gênero, percebo que as milícias identitárias calaram com suas perseguições vozes críticas e inovadoras. Daí eu ter saído das redes formadas em defesa de um campo cuja própria dinâmica interna espelha o autoritarismo e a violência que só reconhece em seus opositores externos. Sem críticas contundentes ao identitarismo, ele continua a contribuir para a disseminação de uma versão distorcida, populista e autoritária de meritórias teorias, conceitos e projetos políticos de igualdade.