Série Mitomanias/mitologias | Apresentação de André Botelho, João Victor Kosicki e Onildo Correa


Novidades na BVPS! Conheça a nova série Mitomanias/Mitologias, organizada por André Botelho, João Victor Kosicki e Onildo Correa. E também a nova identidade visual do Blog que, dialogando com a ideia de redes da primeira identidade, se materializa em elementos concretos, afinal, já contamos com 900 posts publicados!

A arte é da ilustradora Joana Lavôr, a quem deixamos nossos melhores agradecimentos! A proposta é a de que os elementos que integram a composição do painel de abertura sejam destacados um por um nos posts. Assim, na repetição com diferença, eles serão marcos de itinerários plurais de leitura e também companhias para leitores e leitoras.

Viva a BVPS! E viva Roland Barthes, homenageado na nova série sobre … símbolos!

Neste post, você conhece a apresentação da série Mitomanias/Mitologias. As postagens serão sempre às segundas-feiras.


Mitomanias/mitologias

André Botelho (UFRJ)

João Victor Kosicki (USP)

Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ)

Barthes combina o fantasma com uma ambição etnográfica: sua descrição do cotidiano ultrapassa também o projeto formal: corresponde a um gosto pelo próximo, pelo acontecimento comum.
Tiphaine Samoyault, Roland Barthes, 2015

A vida não é um romance. Pelo menos é o que você gostaria de acreditar. Roland Barthes sobe a Rue de Bièvre. O maior crítico literário do século XX tem todas as razões para estar no auge da angústia.
Laurent Binet, Quem matou Roland Barthes? Romance, 2015

Dos padrões de beleza às viagens ao fim do mundo, a cultura de massas e seus desdobramentos nos inundam em repetições de figuras, símbolos e sentidos, tecendo as tramas inconscientes de nossas práticas sociais diárias. Quer chamemos cultura de massa ou indústria cultural – um debate ao mesmo tempo atual e antigo –, o fato é que nosso cotidiano está composto de diversas simbolizações que tematizam e investem de sentido práticas naturalizadas cujo significado profundo por vezes ignoramos.

Símbolos que se inscrevem e modelam ações e desejos, atravessando e sendo atravessados pela expressão do corpo físico e da linguagem. Nos rejubilam porque justificam nossa presença no contemporâneo, esse tão obscuro objeto. Queremos atender aos seus chamados, satisfazê-los plenamente.

Publicado em 1957, o livro Mythologies de Roland Barthes (1915-1980) enfrenta esse desconhecimento ao aplicar a uma série de fenômenos cotidianos – entre publicidades, filmes, moda e elementos diversos da cultura popular – as ferramentas da semiologia no desvelamento de seus significados subjacentes, promovendo um mapeamento dos signos da cultura francesa do pós-guerra. Uma cultura em conflito entre signos e vivências populares tradicionais e a vertiginosa ascensão da comunicação de massa que passava, então, a lutar pelos mesmos portadores sociais.

Em curtos ensaios, publicados originalmente entre 1954 e 1956 na revista francesa Les Lettres Nouvelles, Barthes trata os produtos da cultura como signos, com suas dimensões significantes e com seu significado. Do seu sentido mais direto – denotativo – é derivado o sentido profundo – conotativo.

Por exemplo, quando pensamos em “vinho” não nos vem à mente ser um álibi “tanto ao sonho quanto à realidade” (Barthes, 2001: 51), ou que para um trabalhador francês ele seja uma qualificação profunda já que permite trabalhar com ânimo, enquanto, para o intelectual, atue como o corte necessário com o mundo aristocrático no sentido de igualá-lo ao proletário. Não compreendemos o lugar análogo à arte e ao pensamento que a bebida assume, posto que sua prática se dá enquanto fim em si mesma: “a bebida é sentida como um prazer que se alastra e não como uma causa necessária de um efeito procurado” (Barthes, 2001: 52).

Para o entendimento do mito representado pelo vinho na sociedade francesa, Barthes nos revela que saber beber vinho é uma técnica nacional que qualifica o francês, impingindo o estigma de viciado, enfermo e doente àqueles que não compartilham de sua prática universal. A bebida representa o fundamento de uma moral coletiva que está associada a todos os cenários do cotidiano francês: da refeição frugal à festança; da conversa em cafés ao discurso em grandes banquetes. Toma-se no frio, na canícula, no enfado, na fome, no exílio. Sem compreender esse papel na sociedade francesa, não entendemos o que perfaz a mitologia do vinho e sua cruel ambiguidade: é um produto que participa profundamente do capitalismo francês, envolvendo desde o pequeno produtor do interior do país aos grandes colonos argelinos numa grande rede de expropriação e exploração, ofuscada pela simpatia da bebida e pela “universalidade” da prática.

O mesmo talvez se pudesse dizer da nossa “cervejinha” no Brasil. Fato é, contudo, que seja a cerveja ou o vinho, há na sociedade práticas e símbolos que atuam como mito, comunicando seu sentido oculto e profundo em sua circulação. E, nesse movimento, operam-se naturalizações de sentido, hierarquias e valores, tornando as construções sociais que emolduram o real em natureza.

Todavia, como se trata de uma atividade de desestabilização de sentidos sedimentados na vida social, Barthes, talvez incrementando e dando seu toque muito pessoal ao marxismo com que todos flertavam no momento, não se limitou aos produtos da cultura. Esses são apenas o ponto de partida para desvelar todo um mundo de significados. Assim, antes, Mitologias é uma espécie de prospecção dos modos de produção de sentido de comunicação de massa na contemporaneidade.

Justamente por isso podemos trazer Barthes, com todo o cuidado que tal empreendimento requer, para pensar a vida social brasileira na terceira década do século XXI. Da sociedade francesa para cá, o que mudou? Os mitos são os mesmos? Seus mecanismos de produção de subjetividade e objetividade permanecem? No que as novas tecnologias da Web e a inteligência artificial, por exemplo, inovam exatamente?

Perguntar pelos modos de produção de sentido na sociedade é tarefa de todos os tempos. Uma semiologia ativa, na língua e na fala do cotidiano é inspiradora. O signo é relacional e histórico, não uma verdade absoluta, em Barthes. Seu caráter imperativo é que lhe confere uma significação natural e eterna, tornando-o aparentemente espontâneo, inocente, indiscutível, despolitizado. O jogo astuto da burguesia que busca se ocultar na sociedade burguesa, mantendo-se fora de cena para que sua visão de mundo não seja confrontada.

Não é o caso de considerar a sociedade francesa dos anos 1950 de Barthes mais simples do que as contemporâneas, incluída a brasileira de 2024, embora diferenças sejam fundamentais. No nosso caso, uma sociedade mais heterogênea, de matriz colonial perpassada por estruturas de desigualdades duráveis, da esfera pública ao universo da intimidade. A violenta pulsão pela “unidade” e pela “pureza” (segundo as categorias de Silviano Santiago), que marca a sociedade brasileira como sociedade colonial em permanente transição à nação, mesmo hoje em tempos globalizados, conferiu lugar não apenas subalterno, mas funcional à cultura dominante.

Brechas sempre existiram e até mesmo, segundo interpretações que se repetem no tempo, deram lugar a verdadeiras inversões na estrutura social, conferindo papel dominante na engenharia social de uma nação domesticada a determinadas culturas de grupos nela socialmente dominados. O samba, o futebol, a feijoada, a baiana, símbolos nacionais.

A democratização da cultura em décadas recentes conheceu incrementos que, para os mais otimistas, estão levando a sociedade brasileira a novos patamares de reconhecimento e integração, diferentes dos conhecidos do século XX. Tanto na esfera pública quanto no mercado de bens simbólicos, é inegável a ampliação da representatividade, do efeito de presença e, talvez, do sentido político de memórias, histórias, subjetividades e interesses de grupos sociais dominados. Todavia, as desigualdades sociais não apenas permanecem intocáveis, como se reproduzem, se intensificam.

Isso coloca desafios cruciais a uma atividade inspirada na semiologia barthesiana. Como fica o velho jogo de esconde-esconde da burguesia francesa por ele destrinchado no Brasil de hoje?

Evidentemente, respostas a perguntas como essa fogem do escopo da nossa iniciativa, mas ela, a pergunta, tem papel mais do que meramente retórico. A tendência dos sistemas de valores sociais passados e contemporâneos de criar mitos pode ser até mesmo melhor qualificada diante da complexidade social assumida pela relação entre cultura e sociedade no nosso contexto. Em meio ao desacoplamento do Estado e da nação, estamos vivendo uma fragmentação do “nacional” numa miríade de “culturas” e “identidades” que, no contraste com a “nação” violentamente fabricada, se querem, enfim, “autênticas”. Mas, estas, por sua vez, independente, ou de modo relativamente independente da posição no espectro ideológico, não parecem ainda por demais embaraçadas (ou presas?) àquelas ideias de “unidade” e “pureza”?

Perguntas como essas devem nos levar a olhar com mais atenção, não para o fenômeno ideológico com lentes já amplamente conhecidas e desgastadas, mas para as formas de seleção e controle das mudanças culturais na sociedade contemporânea. O que é socialmente selecionado no processo de democratização da cultura, e por quê? Nossa iniciativa pretende ser mais um passo nessa direção. A semiologia histórica de Barthes mostra aqui seu valor, nos parece surpreendentemente potente para nos lançarmos ao desafio de decifrar o jogo social do esconde-esconde.

Uma galeria de mitos rodeia o cotidiano, impregnada na linguagem e nas imagens. Esses mitos são reproduzidos como se fossem universais, inevitáveis ou mesmo naturais. Assim, ao repor a estranheza dessas construções, ao indagar com a navalha os valores que reproduzem, os sentidos que encerram, Barthes nos expõe as estruturas simbólicas que fazem a sociedade ter o rosto que tem, as divisões que opera e os significados que esconde.

A operação de descoberta dos mitos, isto é, de descoberta dos sentidos naturalizados é a parte instigante de sua obra e a centelha que inspira nossa presente coleção de textos. Reunimos diversos autores e autoras para refletir sobre os significados que povoam o contemporâneo, que apaziguam ou reproduzem desigualdades, que revelam estruturas e desajustes em nosso cotidiano, em nossos corpos e em nossos sentimentos.

Ajuntamos, além, a palavra “Mitomania” para dar conta não apenas do sentido de repetições obsessivas patente na cultura cotidiana, ou da “mania” enquanto estado eufórico, ativo e impulsivo, mas também do seu sentido de estado de êxtase e fervor, próprio dos rituais mágicos (Mauss & Hubert, 2003). A eficácia simbólica desses mitos nos evoca estruturas e signos em sentimentos coletivos, quando aquilo que nos parece mais próprio e profundo é justamente o que nos liga à máquina do mundo.

Coube aos organizadores, que assinam essa apresentação, junto à equipe do Blog da BVPS, selecionar alguns temas e autorias para essa nova série de publicações: Mitomanias/Mitologias. São textos inéditos, salvo uma exceção, em grande medida, inspiradora da série. Optamos também por autoras e autores bem jovens, em final de formação pós-graduada e início de carreira acadêmica. Ainda, assim, não pudemos deixar de fora alguns nomes consagrados das ciências sociais e literatura, frentes principais da nossa atividade que, em geral, tem como segredo, justamente, procurar misturar perspectivas.  

Se buscamos por temas e especialistas, deixamos autoras e autores livres para decidirem a forma dos seus textos. Alguns optaram por relatos mais pessoais, outros mais analíticos; mas, em geral, ambas as dimensões estão contempladas em cada um e no conjunto que formam. Nossa orientação editorial voltou-se mais para a atenção que deveriam dar à forma do que para o conteúdo dos mitos e manias narrados. A proposição de Barthes de que cabe ao crítico não estabelecer uma verdade, mas empreender uma luta entre diferentes linguagens – a sua e a dos temas estudados – esteve presente em nossas conversas e numerosas trocas de e-mails e mensagens de WhatsApp.

Para todas as leitoras e leitores, deixamos aqui nosso cordial convite e adiantamos que podem esperar por textos tão tematicamente diversos como o próprio mundo que nos rodeia. Afinal, essa série é um esforço coletivo pela desnaturalização do nosso mundo social. Das realidades e dos fenômenos que, em alguma medida, dizem respeito a todos nós, inevitavelmente.

Da música sertaneja à depressão medicalizada, da democracia aos filmes infantis, do futebol às salas de espera, passando por tornozeleiras eletrônicas, celebridades, tatuagens ou empreendedorismo, semanalmente, sempre às segundas-feiras, refletiremos juntos sobre o vasto horizonte de vivências e expectativas, símbolos e significados que compõem o nosso cotidiano.

Ao questionar o que parece ser autoevidente e descrever experiências compartilhadas, cada autor e autora revelará, pouco a pouco, os processos subjacentes que nos atravessam e modelam a realidade tal como a conhecemos. Ou não é verdade, por exemplo, que a cultura empresarial impacta nossas condutas e aspirações, que as séries de televisão influenciam nossos imaginários e conversas, ou que as redes sociais estão transformando nossa maneira de consumir ou produzir arte? Os mitos e manias não apenas existem como algo externo; nós também existimos através deles.

Com essa nova série, a BVPS dá mais um passo em sua missão de formação e divulgação da comunicação pública acadêmica, de editores e leitores, procurando desarrumar um pouco os quadrados a que nós mesmos, a rigor profissionais da desnaturalização (somos três sociólogos de diferentes gerações na organização), temos nos habituados como destino. A comunicação pública é o meio pelo qual se pode irritar domínios distintos e supostamente autônomos no mundo hiper-racionalizado contemporâneo. Dobremos a aposta.


Referências

BARTHES, Roland. (2001). Mitologias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil

MAUSS, Marcel & HUBERT, Henri. (2003). Esboço de uma teoria geral da magia. In: Marcel Mauss. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, pp. 47-181.

Sobre os organizadores

André Botelho é professor de sociologia da UFRJ. Livros recentes: A sociedade dos textos (Relicário, 2022), Glossário MinasMundo (Relicário, 2024).

João Victor Kosicki é doutor em Sociologia (USP/EHESS) e editor-assistente na Editora da Universidade de São Paulo. Defendeu em 2023 a tese “A Disciplina do Instinto: Machado de Assis entre a crítica literária e a sociologia” e publicou recentemente “Não fosse isso e era menos / Não fosse tanto e era quase: Paulo Leminski, o poeta de Curitiba” (Sociologia & Antropologia, 2022).

Onildo Correa é doutorando em Sociologia no PPGSA/UFRJ e editor-assistente na BVPS. Publicou recentemente o artigo “Um pouco do debate teórico-metodológico da Sociologia da Literatura contemporânea” (Sociologias Plurais, 2024).

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