
Publicamos hoje a resenha de Adriane Garcia sobre o novo livro de Ricardo Aleixo, Tornei de Luanda um kota. A obra será lançado hoje, 24 de agosto, das 11h às 15h no Kitutu – Território de Aquilombamento (Rua Arão Reis, 469A, Centro – Belo Horizonte).
Na resenha, a autora destaca a expertise técnica da obra, bem como a variedade de temas e a reflexividade presente em cada um dos 59 poemas de Ricardo Aleixo. Segundo ela, a nova obra de Aleixo traz a apresentação de um mundo, o do poeta, “que se tornou sem fronteira no sujeito, a partir das cisões violentas geradas pela diáspora africana”. É um belo convite para acompanhar o processo de envelhescência do poeta.
Desejamos uma boa leitura!
Tornei de Luanda um kota, de Ricardo Aleixo
Por Adriane Garcia
Abrindo os trabalhos, Exu, “o que estoca/ silêncio/ e esperdiça/ palavra” aparece no início deste primoroso Tornei de Luanda um kota, livro de Ricardo Aleixo, composto por 59 poemas, sendo que até as dedicatórias são dadas em versos. O título, Tornei de Luanda um kota, remete ao processo de envelhescência (conceito que o poeta tem utilizado) e ao acontecimento de descobrir-se um kota entre os kotas de Luanda. A palavra significa “senhor”, “velho”, “meu velho”, no sentido mais respeitoso do termo. Ali, o poeta se reconhece kota: “com tempo de vida/ e presença inteira / e sabedoria / bastantes/ para serem chamados / kotas”. O poema que dá nome ao livro fala dos kotas à mesa e nele a poesia flagra a paz, a comunhão em um país que esteve por dezessete anos em guerra civil: “Luanda é uma mesa farta/fraterna”.
Tornei de Luanda um kota faz a apresentação de um mundo (mundo do poeta) que se tornou sem fronteira no sujeito, a partir das cisões violentas geradas pela diáspora africana. Muitos elementos, visíveis em diversos poemas, demonstram um eu-poético que, antropofágico, deslocou-se no espaço-tempo “a transformar/ merda/ em / ouro”. O poema “A bordo do Minas Gerais” expressa essa consciência do tempo-inteiro, o hoje e o ontem a bordo de um navio com o nome da capitania mineradora — ligando o descendente aos seus ancestrais. O sentimento predominante no poema é a raiva. Já no poema “Duas rezas” o sentimento predominante é o medo, e também a coragem. Toda essa poesia cheia de responsabilidade histórica faz pensarmos na epigenética, a área da biologia que estuda as mudanças na expressão gênica que podem ser herdadas apesar de não alterar a sequência do DNA. É sabido que a experiência de racismo afeta os estados de saúde — inclusive pelo estímulo excessivo de determinadas emoções — e estes são transmitidos entre as gerações. No poema “Breu”, Ricardo Aleixo dá uma aula de síntese: dezoito versos contendo séculos de história do Brasil, expondo a denúncia de toda a violência contra os grupos espoliados e oprimidos.
Bem marcado pela maturidade, Tornei de Luanda um Kota mostra não só uma poesia reflexiva, com toda a conhecida expertise técnica de Ricardo Aleixo, como oferece uma variedade de temas que enriquecem seu eixo. Assim, há, por exemplo, referências — muitas delas homenagens — a diversos artistas e pensadores que compuseram o caminho cultural e afetivo do poeta, com destaque especial para o papel que a música ocupa em sua vida. Destaco a emocionante homenagem a Lima Barreto, a Guilherme Mansur (o “Batuque para Mansur” que na organização do livro é inteligentemente seguido pelo batuque feito em um cajón, instrumento de percussão originário do Peru e utilizado no ritmo panalívio), a Jimi Hendrix, a Caetano Velloso, a Alaíde Costa, a Nina Simone e a José Celso Martinez (o dionisíaco: “o/bode/berra”).
A consciência crítico-política que pode ser notada em todos os trabalhos do poeta se apresenta. Em “Anotações para um poema que talvez eu nunca escreva”, para além do título metalinguístico, Aleixo nos lembra de que nunca tivemos a coragem de dar o “calote” grego da dívida pública (“Nos inspiraríamos/ na insubmissão da Grécia”), calote imaginário, já que a dívida brasileira fora paga diversas vezes, em juros e mais juros sem uma auditoria, extorquindo grande parte da tributação brasileira em prol de banqueiros e rentistas. Ricardo Aleixo também trabalha com os conceitos de masculinidade tóxica, por meio da desnaturalização da palavra masculinidade. Em “Podrido amarelado” o poeta denuncia o comportamento de manada e a prática fascista de nossos tempos (fascismo aqui entendido no seu componente de negar o direito à existência do outro, de usar quaisquer meios para destruir o outro, eleito como o inimigo), os cancelamentos e linchamentos virtuais, a leviandade, as calúnias capazes de destruir não só a reputação do sujeito, mas o próprio sujeito. No poema “Por isso” Ricardo Aleixo desmascara a inação, a omissão e o falatório que nada resolve e que se amplifica nas redes sociais. Também há o registro das jornadas de junho de 2013, em “Gregor Samsa no Brasil em junho de 2013”. Quanto ao papel da poesia na sociedade brasileira, ao fazer referência direta ao poeta Augusto de Campos em “A poesia não”, Ricardo Aleixo coloca uma discussão sobre o lugar, ou melhor, sobre o não-lugar da poesia no Brasil.
O amor comparece de forma direta e indireta, às vezes de forma declarativa, às vezes na forma de amor frustrado, no aparecimento do rival. As filhas e filho do poeta são homenageados em muitos momentos. A mulher amada recebe a analogia com o gigante Argos, cem olhos espalhados pelo seu corpo, uma mulher que tudo vê, mesmo dormindo. Não falta e não poderia faltar em sua poesia o amor aos seus pais, Íris e Américo. O menino é cantado na envelhescência: quanto mais velho fica, mais se aproxima do encontro com seus mortos amados. Em todo o livro há uma carga de sensibilidade muito grande, uma capacidade de tocar a emoção de quem lê. No conjunto, para quem conhece a obra do poeta, sua poesia se mostra ainda mais observadora, como em “Manhã aberta”, mais descritiva e contemplativa. A palavra ovo se liga mais de uma vez à palavra vento, esses dois símbolos para o nascimento, o novo e o fluir; de certa forma Ricardo Aleixo está sempre em direção contrária à velocidade feroz: “alheia ao feroz troar do mundo”, há um elogio da lentidão e uma ideia de que o melhor revide está ligado à plenitude, à felicidade. Uma envelhescência criativa e sábia.
Com humor e ironia, muitas vezes, a poesia de Ricardo Aleixo apresenta uma variedade de nuances e, neste sentido, ela nos surpreende verso a verso. Neste Tornei de Luanda um kota, a página é pensada na sua potência visual. Os poemas ultrapassam a logopeia e se fazem imagens para além das imagens mentais. Um poeta “(que/ projeta)/ o/ poema/ enquanto/ espaço”, inspirado na arquitetura, enquanto cita Lina Bo Bardi ou Peter Zumthor. Chama a atenção o uso de paradoxos e antíteses e a forma como o poeta reúne no poema concreto a força temática. Em “Cont”, contornar o corpo ganha um novo sentido e passamos a compreender o ornamento de uma outra forma. Um dos elementos da melhor poesia é o desfazimento das ideias usuais, a desmecanização dos sentidos e das próprias palavras. O poema “Qrer”, por exemplo, é um poema que se realiza na transformação temático-fonética-visual. Essa ideia de transformação está contida até mesmo no título do livro, quando o poeta não escolhe o verbo voltar, mas o verbo tornar. Finalizando Tornei de Luanda um kota, há uma carta do antropólogo e professor de filosofia Dénètem Touam Bona para Ricardo Aleixo. O diálogo enriquece o livro no sentido de ponte afro-atlântica, ponte anti-diaspórica entre autores que possuem tanto a experiência ocidental quanto a ancestralidade africana vivificada no encontro espaço-tempo, afinal Exu continua matando um pássaro ontem, com uma pedra que jogou hoje.
Um urubu malandro
(de avant-gard)
sobrevoou
a casa onde
eu
ainda hoje
moro
e cagou
na minha sorte.
Foi aí que
aprendi
a transformar
merda
em
ouro.