Série Modos de Narrar a Sociologia Brasileira | Adalberto Cardoso

Na nona dupla de posts da série Modos de narrar a sociologia brasileira, que se propõe a contar uma história mais plural, descentrada e contingente dessa área do conhecimento a partir de excertos de memoriais acadêmicos selecionados pelos próprios autores-atores que a praticam, trazemos os relatos de Adalberto Cardoso (IESP/UERJ) e Horácio Antunes (UFMA). 

Adalberto Cardoso nos guia por sua trajetória, revelando uma intrincada rede de pessoas e instituições que moldaram seu percurso. O leitor é gradualmente imerso em um panorama de pesquisas individuais e coletivas que, combinando empiria e rigor teórico, foram se consolidando ao longo do tempo em uma ampla e inovadora agenda dedicada a desvendar os mecanismos persistentes das desigualdades sociais em nossa sociedade. Horácio Antunes, por sua vez, situa seu memorial no contexto da iminente pandemia da Covid-19. Ao evocar a maior crise sanitária recente, ressalta os rumos catastróficos da relação entre sociedade e meio ambiente, campo no qual é especialista. Horácio demonstra como sua incursão na sociologia ambiental se entrelaça com aspectos de sua formação pessoal e com os desafios de tomar o Maranhão como ponto de observação para elucidar as contradições da modernidade brasileira e, como nos faz lembrar a pandemia, do mundo.

Para conferir a apresentação e demais posts da série clique aqui.

Desejamos a todas e todos boa leitura!


Memorial (2023)

Adalberto Cardoso (IESP-UERJ)

Apresentação

Este texto é um excerto do memorial que defendi em 2023 no IESP-UERJ, para obtenção da Titularidade em Sociologia. Agradeço os membros da banca examinadora: Nadya Guimarães, José Ricardo Ramalho, Roberto Véras de Oliveira, Carlos Antônio Costa Ribeiro e Luiz Fernando de Paula, com suplência de Ruy Braga, pela generosidade e o carinho na arguição.

Escrever o memorial (de 75 páginas em espaço 1,5) exigiu verdadeiro esforço de desapego. Imagine-se selecionar dele 15 laudas em espaço 2… Mas fi-lo com prazer, ciente da responsabilidade que é construir narrativa aceitável sobre a vida compartilhada com tantas pessoas e instituições.

Escrevi em outro lugar que as instituições servem, dentre outras coisas, para alargar os horizontes temporais de seus membros. Elas oferecem as condições e os parâmetros de nossas escolhas cotidianas que, ao final, nos vinculam quase que imperceptivelmente. Não raro nos espantamos com nosso presente, resultado contingente de escolhas que nos escaparam. Ao escrever este memorial, dei-me conta de que isso vale ainda mais perfeitamente para as pessoas.

E, de fato, “as instituições são feitas de pessoas”, ouvi certa vez de um representante de uma agência de fomento internacional em visita ao CEBRAP, nos idos de 1987. Nada mais verdadeiro. Em minha trajetória, descobri que instituições aparentemente muito sólidas desaparecem, e que sua permanência em conjunturas muito críticas depende da energia, da solidariedade e da ação de seus membros e de todas as redes tecidas por eles em suas próprias histórias de vida, redes que terminam por se mostrar essenciais aos desenlaces vividos. Refiro-me ao próprio CEBRAP, onde vivi meus primeiros 15 anos como pesquisador, e que era qualificado por seus membros como “um besouro”, porque, como o inseto, desafiava todas as probabilidades e leis da física para levantar voo, mais ainda para seguir voando, sendo incapaz de pousar sem se esborrachar. Por todos os anos de minha permanência no Centro, ele esteve ameaçado de fechar as portas, e sempre conseguiu se manter e se renovar devido à energia, à solidariedade e à ação de seus membros e suas redes.

Mas refiro-me muito especialmente ao IUPERJ que, fundado em 1969, desapareceu em 2010, também contra todas as probabilidades. Lembro-me de uma conversa com Reginaldo Prandi sobre a crise do Instituto, que, naquele momento, já se tornara pública. Estávamos na Avaliação Trienal da CAPES de 2003, quando os programas do IUPERJ foram promovidos à nota 6 (Sociologia) e 7 (Ciência Política). Ao ouvir de mim, então Diretor de Ensino do Instituto, que havia o risco de a instituição desaparecer, Reginaldo tripudiou: “o IUPERJ? Desaparecer? Você está é doido, uma instituição como essa não desaparece”.

Ele tinha razão. O IUPERJ eram as pessoas que o povoavam e lhe davam vida, os professores, os alunos, os funcionários, instituição sustentada por uma mantenedora em crise. O invólucro, ou o nome fantasia desse grupo de pessoas, desapareceu, ou melhor, sobreviveu na Universidade Cândido Mendes (UCAM) como uma casca de ovo, um nome. Mas os programas e suas energias, sua presença destacada nos debates acadêmico e público, sua existência real e sua excelência, transferiram-se para outro invólucro, a UERJ, e nela o Instituto criado para levar adiante o espírito do IUPERJ, o IESP-UERJ, encarnou-o. Esse destino não estava escrito nas estrelas, não era uma necessidade. Estamos aqui por acaso. Mas um acaso construído longamente por inúmeras pessoas e instituições.

Como precisei ser seletivo, no memorial e ainda mais neste excerto, sei que terei cometido injustiças e deixado de fora muitos nós das redes de sustentação de minha trajetória. Mas trago todos e todas na memória e no coração. Permitindo-me caminhar por terreno muitas vezes movediço, de minha escolha, impediram tropeços irreparáveis e escolhas irrecorríveis. São, todos e todas, corresponsáveis por meus sucessos, e sou grato à sua condescendência com meus fracassos.

Decidi apresentar um pequeno trecho de minha trajetória, cobrindo a primeira década do novo milênio. Dez anos de dedicação ao IUPERJ, onde cheguei em 1997 a convite de Maria Alice R. de Carvalho (então coordenadora da área de Sociologia) e do Diretor Executivo do Instituto, Renato Lessa.

No IUPERJ, ao longo de 1999 e 2000, beneficiei-me da interlocução com Marco Aurélio Santana, Marcelo Jorge Paixão, Luis Antônio Cardoso, Rosana A. Ribeiro, Claudio Salm, Valéria Pero, Márcia Costa e Felícia Picanço, grupo que se reuniu com regularidade no Instituto sob minha coordenação, com o propósito de formular um projeto de pesquisa sobre o mundo do trabalho no Rio de Janeiro. Convidamos colegas para debates internos (Marcio Pochmann e José Ricardo Ramalho entre eles), lemos ampla bibliografia nacional e internacional sobre crise econômica, mercado de trabalho, inflação, crise dos Estados de bem-estar, sindicalismo, reestruturação produtiva e outros temas. Discutimos as teses em andamento de Felícia, Marcelo, Márcia, Luís Antônio e Rosana. E realizamos um seminário de dois dias com os estudiosos do trabalho do Rio de Janeiro. O projeto fruto desse esforço, “Trabalhar no Rio de Janeiro”, foi encaminhado à FAPERJ, mas, aprovado no mérito, não foi implementado por restrições orçamentárias.

Embora não aprovado, as leituras associadas ao projeto foram importantes na elaboração de outro, também para a FAPERJ, no âmbito dos “Institutos Virtuais” lançados pela Fundação em 2001. Coordenado por Carlos Hasenbalg e nomeado “O Estado Social da Nação”, ajudou a financiar parte das pesquisas que me ocupavam. Outra parte do financiamento veio de outro Instituto Virtual sediado no IUPERJ, “Os três poderes e a democracia no Brasil”, coordenado por Luiz Werneck Vianna. Coube-me, nesse projeto, estudar a Justiça do Trabalho, e realizei uma pesquisa inovadora para a época nas varas do trabalho do Rio de Janeiro, levantando o conteúdo das demandas trabalhistas que, naquele momento, atingiam mais de dois milhões de casos por ano no Brasil e chamavam a atenção dos pesquisadores (e dos críticos) da justiça trabalhista. Mostrei, de forma pioneira, que a explosão de demandas não decorria de um fenômeno jurídico (como o aumento do número de varas do trabalho ou mudanças na legislação trabalhista), mas sim social: parte do empresariado simplesmente passara a contestar a legitimidade da legislação, burlando-a de forma sistemática. Isso tinha conexão com a catilinária neoliberal já hegemônica então, e sua pressão por flexibilização da legislação brasileira, tida como muito rígida e como uma das causas principais das altas taxas de desemprego dos governos FHC. Os trabalhadores demandavam a justiça sobretudo devido ao não pagamento das verbas rescisórias: férias, 13º salário, FGTS e sua multa, mas havia proporção não desprezível de petições por não pagamento de salários, horas extras, reconhecimento de vínculo empregatício, condições insalubres e outros direitos burlados no correr da relação de trabalho. No artigo resultante do estudo fiz, ainda, uma crítica teórica ao argumento corrente de que Vargas nos tinha legado um modelo corporativista de ordenamento sindical. Mostrei, num diálogo com a historiografia, que o corporativismo, em sentido forte, teve vigência muito pontual no Brasil, e que a estrutura sindical, criada para controlar o associativismo dos trabalhadores em períodos democráticos, serviu, na verdade, de poderoso mecanismo de defesa de seus interesses e de sua organização coletiva (Cardoso, 2002).

Além da justiça do trabalho, eu pesquisava o problema da filiação sindical no Brasil. Nos artigos publicados até ali eu sustentara a ideia, também de forma pioneira, de que as taxas de filiação não eram um bom indicador da representatividade dos sindicatos no país, uma vez que, desde a reforma constitucional de 1967, os resultados das negociações coletivas eram válidos erga omnes na base territorial dos sindicatos. Isso era diferente da maioria dos países ocidentais (com algumas exceções importantes), onde aqueles resultados valiam apenas para os filiados aos sindicatos. Além disso, os sindicatos eram financiados pelo imposto sindical devido por todos os trabalhadores da base. Isto é, não precisavam de filiados para sobreviver. A filiação, no Brasil, dava acesso aos serviços prestados pelos sindicatos e o direito de eleger suas diretorias e isso era obviamente relevante. Altas taxas de filiação eram certamente um indicador da vontade de participação dos trabalhadores e da capacidade de arregimentação dos seus representantes. Mas baixas taxas não significavam, necessariamente, o contrário disso. Já o tínhamos demonstrado no survey do projeto FAPESP do início dos anos 1990[1]. E apresentei evidências empíricas mais robustas a partir dos dados da PNAD, que, desde 1988, trazia a informação sobre ser o/a trabalhador/a filiado ou não a um sindicato.

Esse conjunto de estudos estava previsto num projeto enviado ao CNPq de 2000, para renovação de bolsa PQ, e sua reunião a outros, inéditos, resultou no livro A década neoliberal e a crise dos sindicatos no Brasil, publicado em 2003. A referência à “década neoliberal” no título recebeu críticas (por exemplo, o período Itamar Franco não teria sido neoliberal), mas considero-o adequado. É verdade que Itamar promoveu as câmaras setoriais, um experimento neocorporativista, mas em seu governo a CSN, ícone do desenvolvimentismo varguista, foi privatizada (junto com todo o segmento siderúrgico do país, além da Embraer e outras estatais), contra todas as expectativas. E o “espírito de época” da década de 1990 foi certamente neoliberal, algo que ficaria mais claro no contraponto oferecido pelos governos Lula na década seguinte, em particular no seu segundo mandato.

Em 2003, numa dessas voltas da fortuna, quando preparava estudo sobre percepções da desigualdade no Brasil no âmbito do projeto coordenado por Carlos Hasenbalg, já referido[2], recebi de Wanderley Guilherme dos Santos um pequeno artigo de 16 páginas em espaço dois, que ele apresentara num seminário do Fórum Nacional em 2000. O artigo, com o enigmático título de “Hobbes exausto”, discutia a relação entre crescimento econômico e reprodução das desigualdades[3]. O estudo que eu preparava para Hasenbalg era a análise de um survey sobre percepções da desigualdade no Brasil e no mundo, patrocinado pelo International Social Survey Program (ISSP) e levado a cabo no IUPERJ sob a coordenação de Celi Scalon. O texto de Wanderley mudou completamente minha perspectiva sobre o problema da desigualdade no Brasil.

Dentre outras coisas, ele argumentava que a desigualdade não é necessariamente um problema para a sustentabilidade da democracia, já que mesmo em países de democracia estável havia desigualdade. Se o crescimento econômico e a distribuição de seus benefícios fossem suficientes para promover o bem-estar dos mais pobres, a ponto de estes deixarem de forma persistente a condição de pobreza, passaria a ser indiferente que as distâncias entre os mais e os menos favorecidos (já não mais pobres) permanecessem grandes. O sentimento de “privação relativa”, pai de todos os ressentimentos e de possível instabilidade política, não teria terreno para vicejar.

Procurei explorar os muitos meandros dessa ideia básica num artigo publicado no ano seguinte (Cardoso, 2004). Argumentei que o Brasil era um caso de desigualdade em que a maioria dos mais pobres não chegara a ultrapassar o que denominei “fronteira da necessidade”. Nossa desigualdade era persistente, reproduzida por inúmeros mecanismos enraizados em nossa sociabilidade que, a meu juízo, ainda não haviam sido devidamente desvendados. Na análise do survey do ISSP mostrei, ainda, que os/as brasileiros/as apresentavam tolerância incomum à desigualdade que percebiam, muito maior do que suecos, poloneses e alemães, casos que utilizei para comparação. Havia algo ali a ser explicado, e essa inquietação passaria a ocupar boa parte de minhas energias nos anos seguintes. Estava claro para mim que fazer florescer a semente plantada por Wanderley exigiria um esforço de maior envergadura.

Wanderley me honraria com uma amizade verdadeira nos anos por vir, e a confiança mútua fez com que compartilhássemos projetos quando ainda no berço. Pude acompanhar, passo a passo, a escrita de um de seus romances não publicados, suas poesias, seus esboços de um estudo de fôlego sobre a democracia na Grécia (que ele não terminou) e também seus dois últimos livros, A democracia impedida e A difusão parlamentar do sistema partidário. Eu também entreguei a ele os originais de vários dos meus livros em andamento, e ele foi o primeiro (e, por anos, o único além de minha família) a ler meus romances.

Entre agosto de 2004 e fevereiro de 2005 fiz meu primeiro pós-doutorado, no Warwick Institute for Employment Research (IER), com tutela de Peter Elias. Acomodado num apartamento recém-construído numa pradaria bucólica dentro da própria universidade (que fica na cidade de Coventry), vivi um dos períodos mais tranquilos e de maior introspecção até ali. Eu estivera por seis anos na diretoria do IUPERJ, quatro deles tentando construir meios coletivos para sobreviver à crise da UCAM, processo que começava a esgarçar nossa unidade interna e produzir cisões que ameaçavam nosso futuro. Vivi a saída do Brasil como uma dádiva.

Em 2004 ainda não tínhamos o portal de periódicos da CAPES, e embora o IUPERJ tivesse uma das melhores coleções de revistas estrangeiras do Brasil, na minha área de interesse, o mundo do trabalho, não havia quase nada. Em Warwick pude acessar todas as revistas internacionais disponíveis on-line, o que incluía basicamente as do mundo anglófono (as revistas francesas, espanholas ou italianas ainda demorariam a ser digitalizadas, com raras exceções). Levantei vasta bibliografia sobre os temas que me ocupavam e sobre os que me ocupariam dali por diante: sindicalismo e relações de trabalho; mercado de trabalho, instituições de sua regulação, trajetórias ocupacionais; teorias das classes sociais, formação de classe; migrações; desigualdades; escravidão; processo civilizatório; e sociologia urbana.

O interesse pela sociologia urbana estrito senso (eu estudava o mundo urbano, mas não da perspectiva dessa subdisciplina e seus múltiplos temas e abordagens) decorreu da interlocução que eu iniciara ainda em 2003 com Edmond Préteceille, então professor no Observatoire Sociologique du Changement (OSC), hoje Centre de Recherche sur les Inegalités Sociales (CRIS), da Sciences Po, a quem eu fora apresentado por sua companheira e ex-Iuperjiana Lícia Valladares em minha primeira viagem a Paris, em 2000, e que estava em busca de novos parceiros no Brasil para a realização de estudos comparados sobre regiões metropolitanas, depois de uma experiência frustrada em parceria anterior. Numa conversa informal em Paris, por ocasião da festa de casamento de ambos, no inverno de 2004, Edmond sondou-me sobre a possibilidade de uma pesquisa comparando Rio de Janeiro e Paris, da perspectiva da segregação espacial. Nossa cooperação se iniciava ali, e também renderia muitos frutos (mais sobre isso adiante), incluindo uma fraterna amizade, alimentada com zelo desde então.

Eu levara para Warwick, num CD-ROM, um conjunto de livros em PDF (vários da série Brasilianas e outras raridades que eu não encontraria na Inglaterra e que faziam parte do “tesouro” que era a biblioteca do IUPERJ); os dados de uma pesquisa com Graciela Bensusán (professora da UAM, México), produzidos em conjunto com Telma Lage (professora de direito da PUC-Rio); e os capítulos de um livro sobre a indústria automobilística nas Américas, resultantes de um seminário que coordenei em 2001, juntamente com Alex Covarrubias (professor do Colegio de Sonora, México). Aproveitei a paz recém-conquistada em Coventry para colocar um ponto final nos projetos inacabados e iniciar a investigação sobre a persistente desigualdade brasileira.

Pareceu-me que suas raízes deviam ser buscadas na escravidão, por isso a necessidade de ler os autores do Império e da Primeira República, o “pensamento social brasileiro” que eu levara no CD-ROM. Foi um período de imersão nas interpretações do Brasil por seus contemporâneos, pois era minha hipótese que a indiferença moral das elites em relação ao destino das maiorias subalternas, identificada em minha tese de doutorado, tinha ali, na escravidão negra, seu precedente histórico mais conspícuo.

Como resultado da estadia em Warwick, redigi um projeto sobre instituições de regulação do mercado de trabalho na América Latina, submetido à FAPERJ para a bolsa Cientista do Nosso Estado, obtida em 2005; publiquei em 2006 inúmeros trabalhos como capítulos de livros e artigos em periódicos sobre as pesquisas realizadas até ali, além de lançar as bases do que seria o livro sobre as instituições de regulação do mundo do trabalho, escrito com Telma Lage e publicado em 2007. Foi plantada ali, também, a fundação do que considero meu artigo de maior fôlego até aquele momento, “Escravidão e sociabilidade capitalista”, publicado em 2008 na Novos Estudos Cebrap e escolhido pela revista para a edição especial em inglês patrocinada pelo Instituto Edelstein em parceria com o SciElo, no mesmo ano (Cardoso, 2008a)[4].

Inércia social

De volta ao Brasil no início de 2005, e tendo em mãos uma revisão de literatura sobre ciclos de vida elaborada em Warwick, colaborei com Nelson do Valle Silva e Carlos Costa Ribeiro na redação de um grande projeto de pesquisa para a chamada “Institutos do Milênio”, do CNPq, precursores dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT). O projeto, denominado “A dimensão social das desigualdades”, previa a construção de um sistema de indicadores sociológicos para o acompanhamento da dinâmica das desigualdades e da mobilidade social no Brasil. Propunha-se a construção de categorias sociais analiticamente relevantes, a identificação dos grupos “em risco”, e a análise do processo de criação e transmissão das desigualdades ao longo do ciclo de vida das pessoas. A combinação desses elementos permitiria identificar os pontos nevrálgicos do processo de estruturação das desigualdades no Brasil. O projeto era multidisciplinar, com colegas das áreas de saúde, educação, demografia, sociologia, ciência política, história, e previa a realização de um survey com amostra probabilística nacional, contendo dimensões de interesse dos vários especialistas do projeto, muito além do que havia disponível nas PNADs sobre esses temas. Estava previsto também um módulo de mobilidade social, pois a última pesquisa do IBGE sobre isso datava de 1996.

Foi na “cozinha” desse projeto, seus seminários preparatórios e discussões substantivas de resultados ao longo dos anos, que amadureci as ideias aparecidas pela primeira vez em 2004 no artigo sobre percepções da desigualdade. No âmbito do projeto, desenvolvi um estudo inovador sobre transições da escola para o trabalho no Brasil (Cardoso, 2008b), e também um trabalho sobre corporativismo no Estado Novo (Cardoso, 2008c), que serviria de base a um artigo publicado em 2010, revisionista do entendimento convencional sobre a Era Vargas (Cardoso, 2010). No estudo sobre transições da escola para o trabalho, construí um modelo desenvolvimentista de transição, contraposto a um modelo social-democrata, o primeiro marcado pelo precoce abandono da escola pelos brasileiros e a privatização das trajetórias de vida, e o segundo pela forte presença do Estado nos ciclos de vida, incluindo a entrada no mercado de trabalho. Foi no âmbito desse projeto, também, que empreendi várias viagens ao interior de Minas Gerais em 2008 para entrevistar uma das personagens principais do livro que eu terminaria em Paris em 2009. Naquele mesmo ano entrevistei também o segundo personagem cuja trajetória é retratada no mesmo livro (mais sobre ele em instantes).

Em paralelo, em 2006 Edmond Préteceille passou um período no Brasil, algo que se tornaria frequente nos anos seguintes, e tornamos mais sistemática nossa cooperação, apenas esboçada em 2004. A partir do domínio que, em minhas pesquisas, eu havia adquirido sobre os microdados dos censos demográficos de 1991 e 2000, iniciamos um trabalho minucioso de tradução das Categorias Socioprofissionais francesas na Classificação Brasileira de Ocupações brasileira, visando a realização de pesquisas comparativas entre as Regiões Metropolitanas do Rio de Janeiro e de Paris. O Centro de Estudos da Metrópole, então sediado no CEBRAP e dirigido por Argelina Figueiredo e Eduardo Marques, se juntou à empreitada, e pudemos incluir São Paulo na comparação, que previa um estudo da segregação espacial por meio de índices específicos, além da construção de tipologias socioespaciais (georreferenciadas) a partir das categorias socioprofissionais. Isto é, interessava-nos comparar a distribuição das classes sociais pelos territórios dessas metrópoles, sua proximidade ou distância social. Mostramos que, diferentemente de Paris, onde o operariado é a categoria social mais segregada, nas metrópoles brasileiras são os membros do topo da hierarquia de classes (empresários e altos profissionais liberais) os que estão mais isolados, num processo típico de autossegregação por meio da construção de espaços fortificados distantes dos centros metropolitanos. A classe operária e as classes populares urbanas estão espacialmente muito distantes da elite, mas seus próprios espaços sociais são sobrepostos, mas não num processo de polarização do espaço urbano, como previsto por certas teorias da cidade global, já que as classes médias também constituem espaços próprios na cidade, ainda que menos segregados do que as classes altas[5].

Nossa cooperação ganhou outras formas. Fui convidado para estadias de ensino e pesquisa no OSC por um mês em 2007 e 2008, e, em 2009, consegui da CAPES uma bolsa de pesquisador Sênior para uma estadia de 6 meses no Observatoire.

Tratou-se de movimento de alto risco. Eu recém-deixara a diretoria do IUPERJ depois de quatro anos ininterruptos (razão que me levara a pedir a bolsa à CAPES), e a gestão capitaneada por José Maurício Domingues fora especialmente tensa e desgastante em nossa relação com a UCAM, cuja crise se aprofundara. A eleição de Maurício também fora tensa, expondo fissuras internas quanto aos projetos estratégicos para o Instituto que tornaram a vida institucional, para dizer o mínimo, difícil de administrar. Desde pelo menos 2006 buscávamos a sério alternativas de sobrevivência fora da UCAM, que preservasse nosso patrimônio coletivo (os dois programas de excelência), e a eleição de Maurício, em 2007, “rachara” a Casa. Nossa crise extrapolou os muros da rua da Matriz e ganhou o Brasil e o mundo. Recebemos cartas de solidariedade de diversos colegas mundo afora, e um manifesto por nossa sobrevivência que lançamos em 2008 ganhou a adesão de mais de mil expoentes da academia nacional e internacional.

No Brasil, com apoio do Secretário Executivo do MCT Luiz Fernandes (doutor pelo IUPERJ), e do presidente da FINEP, Glauco Arbix (antigo parceiro em projetos no CEBRAP), ambos sensíveis à nossa crise, recebemos da Financiadora um recurso considerável para um projeto institucional sobre desigualdade e democracia, que nos permitiu manter a infraestrutura da Casa, enquanto outros projetos com fundações privadas e empresas garantiram o overhead necessário aos gastos que a Universidade deveria estar cobrindo, incluindo o aluguel de nossa sede. Estávamos extenuados ao final da gestão, mas conseguíramos coordenar os esforços coletivos de constituição de um fundo de reserva para o caso de a UCAM fechar o Instituto e tivéssemos que encontrar outro porto.

Logo, sair do Brasil contra esse pano de fundo parecia um passo muito arriscado. E de fato, em dezembro de 2009, o então Diretor Executivo do IUPERJ, Jairo Nicolau, recebeu do Reitor da UCAM a notícia de que, a partir de janeiro de 2010, a Universidade não mais pagaria nossos salários.

De todo modo, consegui no OSC a paz que necessitava para terminar o livro que iniciara em 2008 com o artigo sobre escravidão, meu primeiro ensaio sobre inércia social. O Observatoire tinha sede na Maison des Sciences de l’Homme, um imponente edifício de arquitetura moderna no Boulevard Raspail, vinte minutos de caminhada da Maison Suger, onde eu me hospedara. Ganhei um escritório individual, na antessala do de Edmond, e estabeleci uma rotina monástica de trabalho. Em quatro meses o livro estava pronto, pois toda a pesquisa necessária à sua redação havia sido feita antes de minha viagem, sendo que três capítulos já tinham vindo à luz como artigos em periódicos, dois deles distinguidos com traduções para o inglês, como mencionado.

O livro seria publicado pela FGV em 2010, com o título A construção da sociedade do trabalho no Brasil: uma investigação sobre a persistência secular das desigualdades. O trabalho é um tour de force. Apesar de sua extensa base empírica, é também uma interpretação do Brasil. Em intenso diálogo com a historiografia e lançando mão de múltiplas metodologias, constrói um argumento em dois níveis. Num, investiga o processo de construção estatal desde o Império, procurando rastrear as metamorfoses da indiferença moral do sistema político e das parcelas dominantes das elites políticas, culturais e econômicas em relação ao destino das maiorias subalternas. O Estado no Brasil, sempre pobre de recursos financeiros e institucionais, construiu boa parte de suas estruturas para defender aquelas elites do inimigo interno representado, primeiro, pelos negros escravizados, depois, pelos imigrantes e suas ideologias exóticas, depois pelo operariado emergente, então pelas massas andrajosas em fuga do campo em direção às cidades em busca de melhoria de vida. Mesmo a “cidadania regulada” (conceito clássico de W. G. dos Santos) legada por Getúlio Vargas restringiu-se aos trabalhadores urbanos, os rurais, maioria da população até a década de 1960, sendo relegados ao arbítrio do mandonismo privado. E, mesmo na cidade, aquela cidadania, arremedo de estado de bem-estar social, jamais se universalizou, sendo ela mesma poderoso mecanismo de reprodução de desigualdades.

Num outro nível, o processo é observado do ponto de vista dos subalternos, ou da sociabilidade capitalista em sua dinâmica miúda, cotidiana. Analiso as heranças da escravidão e sua ética da desvalorização do trabalho; a violência horizontal entre os subalternos; as dificuldades históricas de construção de discursos e práticas alternativos aos promovidos pelas agências estatais e sua repressão cruenta; a adesão, na Era Vargas e depois, à utopia dos direitos do trabalho e sua promessa de proteção, jamais universalizada, mas experimentada de forma intermitente nos cursos de vida; a privatização das trajetórias individuais em razão da pequena presença, nelas, da escola e de agências estatais de atenção à saúde, ao trabalho e aos projetos de vida, para além da utopia da cidadania regulada; a informalidade de grande parte dos meios de obtenção de meios de vida, que individualiza a percepção do eventual sucesso; e a individualização do fracasso, não percebido como destino coletivo que pode, eventualmente, ser coletivamente enfrentado. Os mecanismos de reprodução das desigualdades estão encrustados nas estruturas do Estado e na dinâmica mais profunda da sociabilidade capitalista. Daí seu caráter persistente.

Terminei o livro prometendo um segundo volume, pois estava claro, para mim, que ele contava apenas uma parte da história. Em busca da explicação para a persistência das desigualdades, meu olhar esteve mais atento aos mecanismos profundos de reprodução da ordem do que os de sua contestação. E esta teve grande relevância nas diversas conjunturas que analisei ali. Na segunda edição, de 2019, incluí um novo e extenso capítulo procurando sanar essa lacuna. Mas considero as teses de Tomás Coelho Garcia (2016) e Alexander Couto Englander (2018), cujos argumentos foram lapidados em longas discussões no Núcleo de Pesquisas e Estudos do Trabalho (Grupo de Pesquisa do CNPq, que constituí em 2001), contribuições autorais de alto nível, que complementam minha pesquisa…

(quem tiver interesse no memorial completo, favor entrar em contato com o autor)


Notas

[1] O plural, aqui, denota a equipe de um projeto FAPESP que coordenei no CEBRAP, que tinha ainda Álvaro Comin e Carlos Novaes.

[2] Trata-se do Instituto Virtual “O Estado Social da Nação”, financiado pela Faperj entre 2002 e 2004.

[3] O texto, bastante modificado e ampliado, compôs um dos capítulos da Parte II de seu livro seminal publicado em 2006, Horizonte do desejo: instabilidade, fracasso coletivo e inércia social.

[4] A partir de 2005, e durante alguns anos, o Instituto Edelstein e o SciElo patrocinaram a edição de revistas brasileiras de ciências humanas em inglês, para aumentar a visibilidade da produção nacional no mundo. Os artigos a traduzir eram selecionados pelos/as editores/as das revistas selecionadas. Fui distinguido com três traduções, duas na revista Dados (Cardoso & Telma, 2006; Cardoso, 2010) e uma na Novos Estudos (Cardoso, 2008a).

[5] O estudo, que também investigou a segregação étnico-racial, apareceu em Préteceille e Cardoso (2008).

Referências

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CARDOSO, Adalberto.  (2003). A década neoliberal e a crise dos sindicatos no Brasil. São Paulo: Boitempo.

CARDOSO, Adalberto. (2004). Desigualdade, injustiça e legitimidade: uma investigação empírica sobre aspectos da sociabilidade brasileira. In: SCALON, Celi (Org.). Imagens da desigualdade. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: IUPERJ/UFMG.

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CARDOSO, Adalberto. (2008b). Transições da escola para o trabalho no Brasil: persistência da desigualdade e frustração de expectativas. Dados, v. 51, p. 569-616.

CARDOSO, Adalberto. (2008c). Estado Novo e corporativismo. Locus (UFJF), v. 13, p. 109-118;

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CARDOSO, Adalberto & LAGE, Telma. (2006). Labor inspection in Brazil. Dados, volume especial 2, p. 1-41.

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ENGLANDER, Alexander C. (2018). Democracia e conflito social no Brasil: uma complexa relação entre ação coletiva e formação da cidadania. Tese de Doutorado em Sociologia, IESP-UERJ.

GARCIA, Tomás C. (2016). Movimento sindical, industrialização e expansão de direitos (1945-1964). Tese de Doutorado em Sociologia, IESP-UERJ;

PRÉTECEILLE, Edmond & CARDOSO, Alberto. (2008). Río de Janeiro y São Paulo: ¿ciudades duales? Comparación con Paris. Ciudad y Territorio, Estudios Territoriales, v. XL, p. 617-640.

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