Série Modos de Narrar a Sociologia Brasileira | Horácio Antunes

Na nona dupla de posts da série Modos de narrar a sociologia brasileira, que se propõe a contar uma história mais plural, descentrada e contingente dessa área do conhecimento a partir de excertos de memoriais acadêmicos selecionados pelos próprios autores-atores que a praticam, trazemos os relatos de Adalberto Cardoso (IESP/UERJ) e Horácio Antunes (UFMA). 

Adalberto Cardoso nos guia por sua trajetória, revelando uma intrincada rede de pessoas e instituições que moldaram seu percurso. O leitor é gradualmente imerso em um panorama de pesquisas individuais e coletivas que, combinando empiria e rigor teórico, foram se consolidando ao longo do tempo em uma ampla e inovadora agenda dedicada a desvendar os mecanismos persistentes das desigualdades sociais em nossa sociedade. Horácio Antunes, por sua vez, situa seu memorial no contexto da iminente pandemia da Covid-19. Ao evocar a maior crise sanitária recente, ressalta os rumos catastróficos da relação entre sociedade e meio ambiente, campo no qual é especialista. Horácio demonstra como sua incursão na sociologia ambiental se entrelaça com aspectos de sua formação pessoal e com os desafios de tomar o Maranhão como ponto de observação para elucidar as contradições da modernidade brasileira e, como nos faz lembrar a pandemia, do mundo.

Para conferir a apresentação e demais posts da série clique aqui.

Desejamos a todas e todos boa leitura!


Memorial (2020)

Horácio Antunes (UFMA)

La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y como la recuerda para contarla (García Márquez, 2002).

Apresentação

Escrevi meu memorial para promoção ao cargo de Professor Titular do Departamento de Sociologia e Antropologia (Desoc) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) no final de 2019 e início de 2020. Estávamos às vésperas da pandemia mundial da Covid-19 e em plena gestão de Jair Bolsonaro na Presidência da República do Brasil. Como estudioso de questões ambientais e observador das profundas mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais que vivemos, iniciei o memorial lembrando que passamos por um momento de incertezas, dúvidas, temores, perigos… Assim, a escrita do memorial, além de uma exigência para ascender na carreira universitária, era uma forma de recuperar o otimismo e a esperança que sempre motivaram minha vida e minha trajetória acadêmica, além de encontrar coragem e força para os enfrentamentos que estavam por vir.

Benjamim (1994: 224) afirmou que “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”. Concordando com essa afirmação, não pretendi apresentar o passado tal como ele foi, mas busquei nele minhas reminiscências que pudessem inspirar a disposição de luta e a vontade de contribuir na superação do delicado momento pelo qual passa o que chamamos de nosso mundo. Incertezas e indefinições aguçam a curiosidade de pesquisador que tenta entender os sentidos e possibilidades dos enlouquecidos processos econômicos, políticos, sociais e culturais nos quais estamos metidos. A consciência dramática do perigo desafia e instiga.

Devido à pandemia da Covid-19, o memorial foi apresentado por via remota, no dia 29 de abril de 2020, à banca formada por Mundicarmo Maria Rocha Ferretti da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Maria José da Silva Aquino Teisserenc da Universidade Federal do Pará (UFPA) e José Ricardo Garcia Pereira Ramalho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As sensações de perigo e medo presentes na escrita do memorial se confirmavam em nossas vidas.

No memorial, refleti sobre os meus, então, 25 anos de professor, pesquisador e extensionista na Universidade Federal do Maranhão. Minha atuação acadêmica vem tomando o estado do Maranhão e a Amazônia brasileira como lócus privilegiado de investigação. O Maranhão é uma terra de contrastes intensos, que demanda um sentido investigativo cada vez mais apurado e exige ferramentas teóricas e metodológicas a serem acionadas de forma crítica e autônoma na busca de estabelecer uma compreensão mais ampla de seus processos econômicos, políticos, sociais e culturais.

Uma grande rede de infraestrutura portuária, ferroviária, rodoviária, urbanística e de produção de energia tem sido construída no Maranhão desde a década de 1970, associada a uma gama de incentivos estatais a investimentos capitalistas associados à indústria de base e ao agronegócio. Isso ocorre em um dos estados brasileiros com maior presença proporcional de população no campo e com uma diversidade sociocultural e ambiental ímpar, gerando contrastes e conflitos de várias ordens. A lógica desenvolvimentista imposta ao estado desde o período da ditadura empresarial-militar iniciada em 1964, ao nível federal, e pelos sucessivos governos estaduais hegemonizados pela família Sarney (em linhas gerais, entre 1966 e 2014, com breves períodos sob controle de oposicionistas), mas também presente nos governos que se seguiram a esse período, vem permitindo a incorporação do estado à expansão capitalista brasileira e mundial, alterando radicalmente paisagens e modos de vida.

Com maiores ou menores variações de ritmo, a lógica desenvolvimentista segue se impondo e criando demandas por conhecimento. Resistências, conflitos e confrontos por parte de povos e comunidades afetados pela recente expansão capitalista no Maranhão exigem o aprofundamento de conhecimentos sobre aspectos importantes da realidade maranhense, o que pode ser uma forma privilegiada de conhecer dinâmicas relevantes do mundo contemporâneo, pois os processos locais estão diretamente relacionados com as grandes transformações recentes no capitalismo mundial. Articular esses desejos de conhecimento com uma carreira acadêmica tem sido eixo fundamental para os trabalhos que realizo na UFMA.

A relação com os estudantes e colegas professores nas atividades de sala de aula, de orientação, no grupo de pesquisa, no departamento, no programa de pós-graduação, nos consecutivos projetos e esforços de pesquisa e nos trabalhos de extensão universitária têm sido oportunidades de ampliar e produzir conhecimentos e estímulos para atuar junto a movimentos sociais e populares.

Através de minhas memórias mais antigas, em grande medida construídas, busco me apropriar de reminiscências (Benjamin, 1994) e estabelecer as bases que me fizeram o profissional de hoje. Arrisco-me a apresentar aqui uma leitura pessoal e, como adverte Bourdieu (1996: 185), uma “criação artificial de sentido”, de meu percurso de vida e acadêmico, selecionando e destacando o que considero importante.

De onde vim e por onde andei – em busca da construção dos antecedentes

Nasci em São Luís de Montes Belos, no estado de Goiás, no dia 13 de fevereiro de 1962, e fui criado na cidade vizinha, Aurilândia, onde moravam meu pai Horácio e minha mãe Elza, e onde vivi intensamente meus primeiros anos. Sou o filho mais velho da família e tenho três irmãs: Elza Marina, Maria Lúcia e Maria Helena.

Aurilândia é o lugar das minhas memórias mais antigas e, talvez, mais fantasiosas ou inventadas. Fui criado em uma família católica, com mãe professora e pai funcionário público, que tinha muito cuidado com a aprendizagem escolar de seus filhos e com o cultivo do gosto pela leitura. Apesar da dificuldade para acessar livros, pois em Aurilândia, ou nas cidades vizinhas, não existiam livrarias, meus pais sempre davam um jeito para que tivéssemos em casa livros, revistas, gibis e revistas infantis.

Minha avó materna, Maria Pereira Machado, também me estimulava muito a ler e a estudar. Apesar de ter aprendido na escola somente as primeiras letras, d. Fia, como era conhecida, era uma leitora contumaz. Livros, revistas e jornais povoaram seu quarto de dormir e a mesa de sua cozinha. Lia, anotava, colecionava textos de jornais, anotava coisas da vida. Da mesma forma, meu avô materno, João Machado, sempre tinha um jornal na mão, uma notícia para comentar, uma história para contar. Esse casal tinha o maior orgulho de ver seus descendentes avançando nos estudos escolares.

Quando fiz 10 anos, terminei o que à época se denominava Curso Primário. Sendo de família de classe média, que via nos estudos escolares a possibilidade de ascensão social, a mudança, em 1973, para Goiânia, capital do estado, se impôs como condição para dar continuidade à formação escolar dos filhos e para garantir futuro acesso à universidade.

Até 1975, estudei em escola pública. Então, minha mãe percebeu uma das graves consequências da reforma educacional promovida pelo Ministério da Educação em 1971: o nível da formação escolar nas escolas públicas caía rapidamente. Com a meta prioritária de uma boa formação escolar para os filhos, mesmo comprometendo o orçamento familiar, fui transferido para uma escola particular, para cursar a 8ª série, em 1976.

Dos 14 aos 18 anos, participei muito ativamente de um grupo de jovens católicos e foi reforçada uma intenção que trazia da infância de me tornar sacerdote. Fiz meu ensino médio em escolas particulares voltadas à preparação para o vestibular.

No ano de 1980, ingressei pela primeira vez no mundo universitário, iniciando o curso de Psicologia na então Universidade Católica de Goiás (UCG), hoje, Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás). Naquele ano, a universidade e a sociedade brasileira viviam uma verdadeira ebulição. Mesmo sob a ditadura, o movimento estudantil se reorganizava, assim como movimentos populares e sindicais intensificavam sua atuação; aconteciam muitas greves de professores das escolas públicas e significativa retomada de movimentos de trabalhadores rurais, bem como o aumento da violência e mortes no campo em todo o Brasil. Comecei a participar do movimento estudantil e acompanhar passeatas e movimentações públicas de protestos. Fiz aproximações com a Pastoral da Juventude, movimento da Igreja Católica orientado pela Teologia da Libertação.

A disciplina Sociologia, ofertada no curso de Psicologia, foi muito importante para iniciar mudanças na minha leitura de mundo. Após cursar um intenso ano de descobertas e transformações na minha forma de perceber a vida e a mim mesmo, abandonei o curso de Psicologia para entrar para um seminário católico, visando realizar o antigo intuito de me tornar sacerdote. Iniciei, assim, o curso de Filosofia. Permaneci no Seminário e no curso de Filosofia por apenas seis meses, pois um semestre foi o suficiente para perceber que a orientação teológica que recebia já não atendia mais meus anseios de conhecimento e de ação pastoral. Em agosto de 1981, resolvi voltar para a casa de meus pais e me dedicar a estudar para um novo vestibular.

Em 1982, entrei para o curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás (UFG), que concluí em 1986. Meu engajamento no movimento estudantil, pastorais sociais da Igreja Católica e movimentos sociais foi decisivo para minha escolha pela realização da graduação em Ciências Sociais, pois associava o curso com a possibilidade de fundamentação teórica para atuação em movimentos sociais críticos.

Desde que entrei na UCG, com 18 anos, tive experiências de docência, nos mais variados níveis de ensino, em escolas públicas e privadas. Dar aulas sempre foi um desejo e este desejo orientou boa parte de minhas escolhas na formação escolar e profissional. A entrada, em 1988, no mestrado em Educação Escolar Brasileira (hoje, apenas Educação), oferecido pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Faculdade de Educação da UFG se deu pela inexistência à época, em Goiânia, de pós-graduação na área das Ciências Sociais, mas também pelo desejo de aprofundar meus conhecimentos e práticas relacionados ao ensino. No mestrado, defendi em 1993 a dissertação “O anjo, a tempestade e a escola; elementos para a compreensão da relação entre a noção de progresso, o marxismo e a pedagogia progressista”, sob orientação da Profa. Maria Helena Barcelos Café.

Durante o curso e, principalmente, na elaboração da dissertação, a noção de progresso, central nas chamadas “pedagogias progressistas”, desafiou meu senso crítico. Seguindo trilhas de Walter Benjamin, principalmente em seu curto e seminal texto “Teses sobre a Filosofia da História” (1985), e de Theodor Adorno e Max Horkheimer (1984), em seu livro Dialética do esclarecimento, discuti criticamente a noção de progresso em Marx e Engels, no marxismo e na pedagogia progressista. Tomei como foco de análise a obra de George Snyders (1974; 1977; 1988), autor francês que influenciava fortemente a corrente pedagógica denominada “pedagogia progressista”.

Através da inserção no mestrado, surgiram os primeiros convites para ministrar aulas na UCG, entre os anos de 1989 e 1991, marcando minha inserção docente no ensino superior. Trabalhei também como Assessor Educacional no Instituto de Formação e Assessoria Sindical Sebastião Rosa da Paz (IFAS), no ano de 1991, e na Comissão Pastoral da Terra (CPT), no ano de 1992.

Em 1993, passei a compor a equipe do recém-eleito Prefeito de Goiânia, Darci Accorsi, do Partido dos Trabalhadores (PT), ocupando sua Chefia do Gabinete. Insatisfações com os rumos que estavam sendo tomados na Prefeitura de Goiânia e o desejo de dar sequência à carreira acadêmica me levaram à busca de concurso público em universidade federal, o que me trouxe para São Luís do Maranhão.

São Luís do Maranhão, lugar em que me encontro e de onde descubro o mundo

No ano de 1994, fui aprovado no concurso para professor de Sociologia do Departamento de Sociologia e Antropologia (Desoc) da UFMA. Fui nomeado em 28 de dezembro daquele ano, possibilitando a consolidação de minha carreira acadêmica e o aprofundamento da pesquisa sociológica. Em minha trajetória profissional, a sala de aula tem sido espaço de muito trabalho, aprendizado, cansaço, convivência e, antes de tudo, de muito prazer.

Na docência na UFMA, no nível de graduação, assumi disciplinas nos cursos de Ciências Sociais, Letras, Educação Artística, História, Química, Pedagogia, Engenharia Elétrica, Turismo, Economia, Geografia e Matemática. Na pós-graduação, assumi disciplinas nos Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, Políticas Públicas e Sustentabilidade de Ecossistemas. Nos períodos de janeiro a agosto de 1997 e de setembro de 2004 a fevereiro de 2005, fui coordenador do Curso de Bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais.

Entre de 1998 e 2002, como professor licenciado da UFMA, realizei o Curso de Doutorado em Ciências Humanas (Sociologia) do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da UFRJ, no qual defendi a tese “Florestania: A saga acreana e o Governo da Floresta”, sob orientação da Profa. Dra. Neide Esterci.

No doutorado, minha trajetória de estudos sofreu uma guinada significativa. No processo de seleção, apresentei um projeto de pesquisa sobre a relação entre a manifestação cultural do bumba-meu-boi e a indústria cultural, com intentos de pesquisa orbitando nos campos da sociologia da cultura e da arte. Porém, fui provocado pela Profa. Neide Esterci a mudar de objeto e área de estudo, me incorporando a uma pesquisa sobre questões ambientais na Amazônia, com estudo sobre políticas ambientais no estado do Acre. Aceitei o desafio!

Da Sociologia da Cultura, me desloquei para a Sociologia Ambiental. Essa guinada foi fundamental para estabelecer novos rumos de pesquisa que, com adaptações e atualizações ao longo do tempo, segue sendo o eixo do meu trabalho investigativo. Na pesquisa realizada no Acre, refleti sobre políticas ambientais num estado amazônico, relacionando-as com o principal movimento social e ambiental da região, o movimento dos seringueiros, num exercício de ampliação da compreensão do mundo moderno, em um espaço geográfico no qual, a princípio, me parecia que a modernidade não estava presente.

Descobri, nas matas amazônicas, através do trabalho de campo e do aprofundamento de leituras, a presença contraditória da modernidade no avanço da agropecuária extensiva e do desmatamento. E também a moderna resistência e enfrentamento de povos e grupos sociais que passaram a se reconhecer como tradicionais. Comecei, então, a estudar uma política pública federal que surgiu do movimento de seringueiros: as Reservas Extrativistas.

Entre março de 2002 e março de 2003, me licenciei da UFMA, pois fui convidado para assumir a Secretaria Municipal de Comunicação da Prefeitura Municipal de Goiânia, quando era Prefeito o Prof. Pedro Wilson Guimarães, também do PT.

Ao retomar minhas atividades na UFMA, em 2003, me engajei no processo de criação do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais (PPGCSoc). Na sua primeira turma, em conjunto com o Prof. Dr. Sergio Figueiredo Ferretti, lecionei a disciplina Teoria I. Desde então, sou professor permanente do Programa, no qual fui Coordenador entre fevereiro de 2007 e fevereiro de 2009 e Vice-Coordenador entre abril de 2011 e fevereiro de 2013.

Juntamente com outros professores e estudantes de várias áreas de conhecimento, em 2004, demos os primeiros passos para criar o Grupo de Estudos “Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente” (Gedmma) e, desde então, sou um dos coordenadores – segundo nossa organização interna – e líder – conforme o credenciamento no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq.Os interesses de investigação do Grupo estão voltados para temas como modernidade, desenvolvimento, grandes projetos de desenvolvimento, povos e comunidades tradicionais, políticas ambientais, conflitos ambientais e racismo ambiental. É composto por professores, pesquisadores, profissionais, estudantes, agentes sociais e comunitários com interesse na temática socioambiental. Desde a fundação do Gedmma, minhas atividades de pesquisa, extensão universitária e assessoria a organizações e movimentos sociais vêm se realizando a partir dele.

A primeira pesquisa que realizamos no Grupo, entre 2005 e 2009, foi “Modernidade, desenvolvimento e consequências socioambientais: a implantação do polo siderúrgico na Ilha de São Luís-MA”. De 2009 a 2013, realizamos a pesquisa “Projetos de desenvolvimento e conflitos socioambientais no Maranhão”, marcando a inserção do Gedmma no debate nacional sobre conflitos ambientais que ocorre em grupos de pesquisa e mesas redondas de eventos científicos promovidos pela Associação Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) e Associação Brasileira de Antropologia (ABA). A partir desse projeto, o Grupo passou a compor a articulação da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA).

Entre os anos de 2006 e 2010, participei da equipe do projeto de cooperação acadêmica “Amazônia e paradigmas do desenvolvimento”, no âmbito do Programa de Cooperação Acadêmica (PROCAD), financiado pela CAPES, que envolveu pesquisadores do PPGSA/UFRJ e PPGCSoc/UFMA.

Entre março de 2010 e fevereiro de 2011, realizei um Estágio Pós-doutoral no PPGSA-UFRJ, sob supervisão da Profa. Neide Esterci, realizando a pesquisa “Projetos de desenvolvimento e conflitos socioambientais na Amazônia brasileira – o Maranhão e o Acre”. Aprofundei estudos iniciados no doutorado e ampliei seu escopo com as investigações que vinha fazendo no Maranhão.

Nesse período, para além de estudar reservas extrativistas, as pesquisas no Gedmma já tinham um foco mais intenso em conflitos ambientais resultantes do confronto originado pela expansão de projetos de desenvolvimento e povos e comunidades locais. Desenvolvimento tornou-se uma noção-chave para ser colocada em escrutínio, e as consequências de projetos de desenvolvimento em realidades sociais e ambientais locais tornaram-se o principal objeto de investigação. As pesquisas empíricas realizadas permitiram elaborar um quadro crítico, cada vez mais amplo, do processo recente de expansão capitalista no Maranhão, além de aprofundar a compreensão da relação entre desenvolvimento e conflitos ambientais.

Entre 2010 e 2015, participei da coordenação de projeto do Programa de Cooperação Acadêmica – Novas Fronteira (PROCAD-NF) da CAPES: “Territórios Emergentes da Ação Pública Local e Desenvolvimento Sustentável na Amazônia Brasileira”, que envolveu pesquisadores de três instituições (PPGCS/UFPA, PPGSA/UFRJ e PPGCSoc/UFMA), tomando como eixo comum de preocupações as dinâmicas de reconfiguração territorial em estados como Pará e Maranhão.

Participei, entre 2007 e 2015, do Grupo de Pesquisa de Trabalho Escravo Contemporâneo (GPTEC), vinculado ao Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos/UFRJ.

Entre os anos de 2012 e 2014, coordenei o projeto de extensão universitária “Educação Ambiental e Cidadania na Zona Rural II de São Luís – MA”, que forneceu assessoria às organizações sociais e ofertou um curso de educação ambiental a jovens da Reserva Extrativista de Tauá-Mirim.

Desde 2014, coordeno o projeto de extensão universitária “Programa Grande Carajás, Cidadania, Direitos Humanos e Educação Ambiental”, realizado a partir de uma parceria do Gedmma com a Associação Justiça nos Trilhos (JnT). O projeto de extensão oferece um curso de formação em cidadania, direitos humanos e educação ambiental para jovens de comunidades afetadas pela Estrada de Ferro Carajás no estado do Maranhão.

Entre 2013 e 2016, no Gedmma, realizamos a pesquisa “Conflitos Ambientais no Maranhão”. Entre 2014 e 2016, coordenei o projeto de cooperação internacional “Projetos de Desenvolvimento e Populações Locais: Experiências em Cabo Verde e no Brasil”, envolvendo pesquisadores do Gedmma/UFMA, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

Entre 2014 e 2019, coordenei o projeto de cooperação “Mineração, Territórios e Desigualdades Ambientais no Brasil: Diversidade Sociocultural e Luta por Direitos”, que reuniu pesquisadores de cinco universidades brasileiras: Gedmma/UFMA; Núcleo Tramas – Trabalho, Meio Ambiente e Saúde e Laboratório de Geoprocessamento, da Universidade Federal do Ceará (UFC); Grupo de Estudos Amazônicos (Geam) da Universidade Federal Fluminense (UFF); Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e um pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Entre 2015 e 2018, coordenei o projeto de pesquisa “Plataforma Digital ‘Memória de Comunidades Quilombolas e Tradicionais do Maranhão’”, que reuniu pesquisadores no Gedmma/UFMA e Núcleo de Estudos e Pesquisa em Questões Agrárias (Nera), vinculado ao Departamento de Geociências (Degeo) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O projeto produziu a plataforma digital “Cofo de Memórias”, que reúne e sistematiza informações sobre comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas do Maranhão.

Entre 2016 e 2018, participei do projeto de cooperação internacional “Resistências e conflitos socioambientais frente aos megaprojetos no México e no Brasil: os casos de Oaxaca e Maranhão”, que envolveu pesquisadores do Gedmma/UFMA, daUniversidad del Mar – Huatulco (Oaxaca – México), do El Colegio de San Luis, A. C. (COLSAN; San Luis Potosí – México) e doInstituto Nacional de Antropología e Historia (INAH; Ciudad del México México). Como resultados de contatos estabelecidos através do projeto, desde abril de 2017, participo do Grupo de Trabajo “Fronteras, regionalización y globalización en América” doConselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).

Entre setembro de 2018 e agosto de 2019, com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação (MEC), atuei como Professor Visitante no Exterior Sênior no Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH), no México, realizando o projeto de pesquisa intitulado “Investigação analítica acerca conflitos ambientais no México e no Maranhão – Brasil”. Nesse período, tive como professor colaborador na instituição do exterior o Dr. Juan Manuel Sandoval Palacios, membro da Direção de Etnologia e Antropologia Social (DEAS) e coordenador do Seminário Permanente de Estudos Chicanos y de Fronteiras (SPEChF).

Desde 2017, implementamos a pesquisa “Reserva Extrativista Tauá-Mirim e seu entorno: levantamento socioeconômico”, com o objetivo de fazer levantamento de aspectos históricos e demográficos; atividades econômicas; formas de organização social; manifestações e organizações culturais, esportivas e religiosas das comunidades da Resex, além de identificar os empreendimentos empresariais e de infraestrutura localizados em suas proximidades, verificando as modalidades de atividades econômicas, suas dimensões e efeitos socioambientais.

Os estudos realizados no Acre e Maranhão, ampliados com estudos em Cabo Verde e no México, através de projetos de pesquisa, de extensão universitária e de cooperação nacional e internacional, têm impulsionado a ampliação dos interesses teóricos para além de temas como progresso, modernidade, desenvolvimento e meio ambiente. O entendimento das relações entre projetos de desenvolvimento, povos e comunidade locais e natureza exigem expandir a compreensão sobre o capitalismo contemporâneo, em processo intenso de transnacionalização e de formação de espaços globais de acumulação do capital.

Ao longo de minha carreira acadêmica, os esforços de pesquisa e extensão resultaram na publicação, sozinho ou em coautoria, de 26 artigos em periódicos científicos; 4 dossiês em periódicos científicos; 1 livro; 6 organizações de livro e 25 capítulos de livro.

Na formação de recursos humanos, orientei 6 teses de doutorado como orientador principal; 2 teses de doutorado como coorientador; 19 dissertações de mestrado como orientador principal; 2 dissertações de mestrado como coorientador; 1 monografia de final de curso de especialização; 48 trabalhos de conclusão de curso; 39 relatórios de Iniciação Científica e 8 bolsas de iniciação à extensão. Supervisionei 4 estágios de pós-doutorado vinculados ao PPGCSoc.

Dos prêmios recebidos ao longo da carreira, destaco: Prêmio Fapema Neiva Moreira 2017 na categoria Pesquisador Sênior – Ciências Humanas; Prêmio Fapema Maria Aragão 2016 na categoria Orientador da Dissertação de Mestrado (Ciências Humanas) de Jadeylson Ferreira Moreira; Distinção Honorífica – Palmas Universitárias, Universidade Federal do Maranhão, em 2014; e o Prêmio Fapema 2012 – orientador na Categoria Dissertação de Mestrado (Ciências Humanas) de Ana Caroline Pires Miranda.

Como inserção em movimentos sociais, destaco a participação na Rede Justiça nos Trilhos (JnT); na Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA); no Conselho Gestor da Reserva Extrativista (Resex) Tauá-Mirim; no Movimento de Defesa da Ilha (MDI) e na Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH).

Memorizar é também exercício de projeção

Em tempos de incertezas e dúvidas, às vezes torna-se difícil projetar o futuro. Mas muito trabalho está iniciado, muitas sendas estão abertas. Concluir os projetos de pesquisa e extensão em andamento é um objetivo imediato. Manter e ampliar o grupo de estudos, respondendo a demandas permanentes de nossos interlocutores; manter e ampliar as relações com outros grupos de pesquisa da UFMA, de outras instituições nacionais e estrangeiras; manter e ampliar a participação em organismos profissionais e acadêmicos, manter e ampliar relações de parceria e atuação conjunta com movimentos sociais, são objetivos permanentes.

No âmbito da pesquisa, inicio um projeto voltado para compreensão de como o rápido processo de transnacionalização do capital em curso mundialmente interfere na reconfiguração dos espaços geográficos, nos modos de vida e nos ambientes da Amazônia oriental brasileira e do cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Serão focos da análise a expansão de infraestrutura, de incentivos governamentais, de atuação empresarial privada com vistas ao aprofundamento da acumulação capitalista e os efeitos desse processo em povos e comunidade locais, bem como as formas de convivência e/ou resistência relacionadas a esses efeitos.

Tendo vivido recentes ameaças à autonomia universitária por parte do governo federal e de desmonte das agências de fomento à pesquisa, principalmente nas áreas sociais e humanas, a perspectiva de luta de resistência para garantia das condições de trabalho é a mais plausível. Manter o ritmo de trabalho educacional e investigativo, buscar meios para garantir a qualidade do trabalho realizado e confiar na capacidade de reversão da situação são desafios constantes.


Referências

ADORNO, Theodor M. & HORKHEIMER, Max. (1985). Dialética do esclarecimento; fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

BENJAMIN, Walter. (1985). Teses sobre Filosofia da História. In: Sociologia. São Paulo: Ática, p. 153-164.

BOURDIEU, Pierre. (1996). A Ilusão biográfica. In: Razões práticas, sobre a teoria da ação. Campinas, SP: Papirus, p. 74-82.

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. (2002). Vivir para contarla. Barcelona: Randon House Mondadori.

SNYDERS, George. (1974). Pedagogia progressista. Coimbra: Almedina.

SNYDERS, George. (1977). Escola, classe e luta de classes. Lisboa: Moraes.

SNYDERS, George. (1988). A alegria na escola. São Paulo: Manole.

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