
Na Semana da Pátria, a segunda postagem da série Mitomanias/Mitologias da BVPS dialoga com diferentes dispositivos simbólicos inscritos no cotidiano da vida política brasileira. No texto “Democracia”, Paulo Cassimiro explora um conceito historicamente polissêmico e imerso em variadas disputas. Os mitos da democracia atravessam os séculos e permanecem relevantes. Seria possível definir “democracia” de maneira a superar as muitas disputas semânticas que acompanham esse conceito? Em “Superquadras”, Fabrício Neves reflete sobre o plano urbanístico de Brasília, considerando-o um mito que naturaliza valores e visões de mundo. A questão que surge é: além de suas características concretas, que sentidos e significados as superquadras evocam? As pistas parecem indicar uma certa imagem de nação, mas é preciso verificar qual. Por fim, em “Pastores nas redes sociais”, Stella Garrido aborda a questão das figuras evangélicas que, populares e politicamente engajadas, estão transformando as redes sociais em uma extensão da igreja e em um palanque político. Essa questão se mostra especialmente pertinente na atual conjuntura política nacional. E nos faz pensar sobre os perigos de misturar política, religião e comunicação em massa.
A série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para saber mais, veja a apresentação aqui.
Boa leitura!
Superquadras
Por Fabrício Neves (UnB)
Roland Barthes (1972) define o mito como um tipo de discurso ou mensagem que apresenta uma ideologia ou conjunto de valores como se fossem natural e autoevidente, em vez de historicamente e culturalmente construídos. Conforme Barthes, o mito funciona como um sistema semiológico de segunda ordem, construído sobre a linguagem, onde os signos da linguagem são transformados em significantes de um conceito mítico, esvaziados de sua história e preenchidos com significado ideológico. Dessa forma, o mito despolitiza o discurso, apresentando coisas historicamente contingentes como atemporais e inevitáveis, servindo para naturalizar e universalizar os valores e visão de mundo da ideologia burguesa.
Em seu livro sobre o tema (Barthes, 1972), o mito opera por meio de várias figuras e tropos, como inoculação, privação da história, identificação, tautologia e quantificação da qualidade, o que permite que ele pareça indiscutível. Barthes busca desconstruir e desmistificar o funcionamento do mito, analisando exemplos de mitos culturais específicos que circulavam na França dos anos 1950, relacionados a tópicos como o Escritor, o Rosto de Garbo, o Striptease, o Novo Citroën, Sabões em Pó e outros, mostrando como eles transmitem valores e ideais burgueses. Tal é assim em todo lugar, diria o mesmo autor. Tomando em conta a mitificação, a sociedade brasileira também construiu seus mitos, mais ou menos originais, mais ou menos burgueses. Esse seria o caso das superquadras de Brasília, a Capital Federal “inventada” por Juscelino Kubitschek.
As superquadras de Brasília, projetadas por Lúcio Costa como parte do plano urbanístico da capital brasileira, são unidades residenciais compostas por edifícios de apartamentos, cercados por áreas verdes e com acesso a serviços básicos, como escolas, comércio e recreação. Elas foram concebidas como uma solução habitacional igualitária e funcional, refletindo os ideais modernistas de arquitetura e urbanismo. Estão para Brasília como o Cristo redentor para o Rio de Janeiro. Integra a ideia de cidade que emergiu das pranchas modernistas, mas também o modo de vida que expressava os valores caros de uma época.
As superquadras compõem um mito moderno, uma forma petrificada que se desprende de sua gênese histórica e funcional. O que era um projeto urbanístico racional se torna uma imagem imobilizada, um significante cuja significação transcende sua materialidade concreta. Surge primeiramente como um objeto técnico, uma solução habitacional avançada que buscava conciliar moradia digna, áreas verdes e acesso a serviços básicos. Seu sentido provinha de uma conjunção prática de fatores – construtivos, circulatórios, de zoneamento. Mas o mito opera sua alquimia, como nos diz Barthes (1972). A superquadra se esvazia desse pragmatismo inicial e se torna forma pura, geometria imaculada eternizada no planalto. Seu sentido se desvincula da economia de sua construção e passa a habitar o campo do atemporal, do essencial.
Ela é, desde sempre, Brasília, capital administrativa e residencial do país, expressão de uma brasilidade modular. A superquadra se reveste de uma aura mística, torna-se o ícone evocado, sinal de um povo que almejava o futuro, por seu idealizador sob encomenda. Seu conteúdo histórico se evapora, dando lugar a uma imagem-força que perdura. Pode-se falar de uma performatividade arquitetônica que performatiza não somente o concreto, mas a própria vida que a superquadra reduz. O projeto se transforma em natureza, a exceção em norma. A máquina de habitar se torna o Éden corbusiano tropicalizado. A superquadra já não remete à racionalidade técnica, mas a um modo idealizado de viver, arejado, funcional, moderno. A superquadra foi alçada à condição de ícone, imagem imobilizada e autônoma que persiste no imaginário como um microcosmo idealizado de Brasília.
Concomitantemente, como um mito, as superquadras de Brasília conotam uma série de valores e ideais associados à ideologia desenvolvimentista e à visão de modernidade abraçada pelo governo brasileiro na época da construção da cidade. É exatamente o avião e o carro suas formas idealizadas, aparatos tecnológicos que à época maravilhavam com velocidades e distâncias jamais alcançadas pelos humanos. O conceito de superquadra buscava significar um ideal universalizado de progresso, ordem e racionalidade. A própria forma das superquadras, regulares e geometrizadas, evoca uma suposta racionalidade intrínseca, despojada de seu processo histórico de concepção e construção. O mito operante aqui efetua uma duplicação semiológica: aquilo que outrora era apenas a configuração física de moradias populares transmuta-se em um imenso significante aberto à sobredeterminação de sentidos. As superquadras se descolam de seu referente concreto e se elevam ao patamar de uma Ideia, a ideia de uma Nação pujante, progressista e ordeira projetada pelo regime vigente.
Os lendários pilotis, colunas que sustentam edifícios elevados do solo, assumem também um caráter mítico na arquitetura moderna de Brasília. Os pilotis das superquadras residenciais criam vãos livres e abertos, sem grades, simbolizando uma utopia de convivência social desimpedida e espaço público coletivo não privatizado. Essa “arquitetura utópica” e “desejo de sobrevoo” contrastam com a arquitetura tradicional portuguesa presa ao chão, representando a possibilidade de uma sociedade aberta, livre e comunitária. Embora algumas utopias tenham fracassado, os vãos formados pelos pilotis persistem pretensamente como “monumentos à liberdade”, “vida coletiva emancipada dos muros”, “cidade feita para o encontro, diálogo e reconhecimento do outro”, num mundo cada vez mais cercado.
Assim, tanto as superquadras quanto os pilotis, formas que inicialmente foram projetadas como solução urbanística ganha ares de essência imutável, de natureza mesma da desejada Nação brasileira, “harmônica e livre”, segundo os ideólogos de plantão. Tal mitificação obscurece o caráter histórico e transitório das superquadras, eternizando-as como ícones simbólicos de uma suposta vocação inevitável do Brasil rumo à modernidade tecnocrática. O mito aqui opera sua alquimia costumeira: o transitório converte-se em permanência, o arbitrário em necessidade.
Assim, o mito da superquadra naturaliza e despolitiza as escolhas e compromissos ideológicos envolvidos no projeto de Brasília. Ele apresenta a organização espacial e social das superquadras como uma solução natural e inevitável para as questões de habitação e urbanismo, mascarando as tensões e contradições sociais, políticas e econômicas subjacentes à construção da cidade. O que outrora emergia de um campo tensionado por escolhas e compromissos ideológicos específicos agora se metamorfoseia em uma solução pretensamente destituída de qualquer couleur politique, aparecendo como um dado objetivo, quase uma inevitabilidade natural.
Nesta operação mitológica, as contradições inerentes ao projeto de Brasília – contradições de ordem social, política e econômica que atravessam a própria questão da moradia e do planejamento urbano – são sumariamente evacuadas do significante que é a superquadra. Esta torna-se um repositório imagético esvaziado, um invólucro formalmente asséptico pronto a ser revestido de sentidos harmoniosos e apaziguadores. O mito empresta à superquadra uma aura de obviedade, como se sua existência decorresse de imperativos técnicos racionais e neutros, e não de injunções sócio-políticas particulares. Desta forma, as tensões sociais inerentes às operações de reforma urbana e às concepções de moradia são depuradas da imagem mitificada da superquadra.
Esta, então, nos é apresentada como uma solução autoevidente para os dilemas de habitação e urbanismo – solução que se anuncia originada não de determinados projetos de classe ou grupos específicos, mas do terreno liso e aplainado de uma racionalidade urbana pretensamente universal e impessoal. Tudo se passa como se a superquadra brotasse de maneira orgânica das necessidades naturais de ordenação do espaço urbano. No entanto, e é isso que entorna da contenção semântica operada pelo mito, o substantivo da condição urbana de Brasília ultrapassa e muito o seu formalismo em função das mais variadas dinâmicas sociais que lhe preenche.
No plano circunscrito aos limites das cercas vivas e calçadas que dividem as superquadras em números (312, 508…) vemos claramente também a uniformização de classes sociais em contraposição ao plano formal da convivência pacífica. Sem falar no transbordamento das “regiões administrativas”, cuja dinâmica urbana retoma àquilo que brota distante das pranchas arquitetônicas. O mito da superquadra serve também a sua contraposição: dos novos projetos que emergem para lhe desfigurar, ainda que conservando no discurso o cuidado para não o profanar. A cidade e suas superquadras vivem espremidas entre o mito e a realidade do urbanismo predatório no Brasil.
O mito oferece a imagem apaziguadora de uma nação em que as relações sociais foram geometrizadas pela égide niveladora do progresso técnico-científico. As desigualdades de outrora, reza a mitologia, seriam definitivamente combatidas e dissipadas pelo planejamento urbano vanguardista corporificado em Brasília – locus da modernidade redentora. Contudo, e isso queremos reforçar, tal narrativa idílica descarna-se em sua própria operação mitologizante. Pois, ao projetar uma imagem harmônica e igualitária da sociedade, legitimando-a pela forma urbana das superquadras, o mito necessariamente obscurece e oblitera as clivagens, hierarquias e desníveis reais que continuam fertilizando o tecido social brasileiro.
Dentro e fora dos muros da capital, as desigualdades de renda, as injustiças raciais, as disparidades regionais e as relações de dominação/subordinação entre grupos e classes se mantêm intocadas, apesar da fachada edulcorada difundida pelo mito. Este, ao mitificar a superquadra, termina por obliterar as contradições e conflitos viscerais que percorrem a formação social brasileira. Ao analisar as superquadras de Brasília como um mito, podemos desmistificar as conotações ideológicas que elas carregam e reconhecer as realidades sociais e históricas mais complexas que elas mascaram. Isso não significa negar os aspectos inovadores ou positivos do projeto urbanístico de Brasília, mas sim reconhecer que, como qualquer produto cultural, ele está imbuído de valores e ideais específicos que merecem ser examinados criticamente.
Referências
BARTHES, Roland. (1972). Mythologies. New York City: Hill and Wang.
Sobre o autor
Fabricio Neves é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília e pesquisador CNPq.
