
Celebridades, poesia e tatuagem são os mitos contemporâneos discutidos hoje na série Mitomanias/Mitologias, que propõe explorar as tramas inconscientes de nossas práticas sociais. No texto “Celebridades”, Paulo Maciel examina a noção de celebridade a partir da perspectiva de sua performance, perguntando o que esses portadores de fama fazem com os indivíduos e com a sociedade. Será que podemos falar da existência de uma função social, política e econômica da celebridade? “Poetas de instagram“, ensaio de Beatriz Malcher e Gabriel Gonzalez, analisa as transformações nas dinâmicas de concepção, produção, consumo e crítica de poesia com o advento do Instagram, questionando como é ser poeta no efêmero mundo do instagramável. Já no texto “Tatuagem”, Gabriel Martins da Silva argumenta que a tatuagem é o centro de um paradoxo no mundo atual. Com o crescente número de adeptos em uma sociedade que tem a diferenciação como base, tatuar-se no contemporâneo tem apresentado novos processos e dilemas que talvez ainda não tenhamos compreendido totalmente.
A série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.
Boa leitura!
Poetas de Instagram
Por Beatriz Malcher (PPGCLA/UFRJ) &
Gabriel Gonzalez (POSLIT/UFF)
Pense aqui em um espaço que se apresenta como “qualquer coisa de intermédio entre a rua e o interior”, dirimindo as fronteiras entre público e privado, anteriormente bem demarcadas. Reconhecido enquanto um “remédio infalível ao tédio”, esse seria um ambiente fundado sobre um paradoxo onde a produção de si como indivíduo se dá simultaneamente à integração do eu como parte constitutiva de uma massa. Ou seja, nesse espaço de autorrepresentação há certa ilusão de diferenciar-se da massa ao criar uma imagem particular de si mesmo e, no entanto, quanto maior o esforço para diferenciação, maior a aderência à uma massa aparentemente homogênea. Mais do que isso, quando esses indivíduos se integram a essa massa, eles se colocam em exibição e à disposição de um complexo sistema comercial, transformando-se em mercadoria.
Pode parecer que estamos falando das redes sociais, que se tornaram uma espécie de local primordial do qual surgem as demais formas de sociabilidade, como proposto por Castells (2013). Afinal, é um lugar-comum pensar as redes, num geral, e o Instagram, em particular, como um espaço de sociabilidade que reduz as fronteiras entre a rua e a vida interior, onde a produção exacerbada do eu desencadeia uma aparente desumanização que transforma o indivíduo em mercadoria. E, talvez, nada disso seja falso. No entanto, todos estes aspectos sobre uma “nova forma de socialização” foram apontados muito antes do surgimento do Instagram, ou até mesmo da internet. Walter Benjamin já indicava, em seus estudos sobre Baudelaire, as passagens parisienses do século XIX como esse lugar ambíguo de fabricação do indivíduo moderno e sua respectiva dissolução em uma massa e produto.
Isso também foi percebido pelo poeta Carlito Azevedo, que se utilizou da semelhança sonora entre Postagens e Passagens de modo a ressaltar algum parentesco entre os livros: o dele (Livro das Postagens) e de Walter Benjamin (Passagens). Mas esse parentesco não é apenas sonoro ou se finda no deslocamento imposto pelo jogo paranomásico, pois, ali, os poemas desafiam a lógica de organização antológica usual de um livro de poesia, fazendo da unidade mínima do livro a página, onde diversos fragmentos do grande poema que compõe a segunda parte deste livro aparecem, em conjunto, causando um efeito de “timeline desnaturalizado” (Klinger, 2018). Assim, percebe-se o efeito de artificialismo de ambas as formas: tanto do livro, que comumente têm seus poemas divididos página a página, quanto da ação hipnotizante do scrolling; do arrastar pra cima, próprio de redes sociais como o Facebook – que era a rede mais utilizada à época de publicação do livro (2016) – quanto do Instagram, do TikTok, entre outros. Podemos citar outros poetas que repensam seus livros de modos distintos, tensionando os limites do livro por essa “nova” forma (e vice-versa). Para ficarmos apenas no Brasil, esse nos parece ser o caso de Gabriela Perigo em A Saga (2022), ao ironizar a noção de eu lírico com a apropriação de memes – “o Brasil que me desculpe mas hoje eu vou sofrer por motivos pessoais” – ; ou de Francisco Mallmann (2021), que, através de uma compilação de poemas muito curtos, reconfigura a noção de poesia confessional através de uma apropriação da linguagem e forma das redes, em que a noção de narração, por continuidade e discretização, se mostra pelo conflito.
Em outras palavras, lidar com formas calcificadas era e sempre foi um desjejum leve para a poesia. Não é por acaso que Barthes (2001: 154) escreve que a poesia moderna, ao “atingir não o sentido das palavras mas o sentido das próprias coisas”, se pretende a ocupar a posição inversa ao mito. O curioso é que isso, levado ao extremo, é de difícil distinção de uma produção mitológica – o que, diga-se de passagem, não passou batido pela análise do francês. No entanto, independente do fato deste paradoxo entre profanação e produção de mito ser próprio à poética moderna, muito se disse de como a poesia ainda empinava o seu nariz diante das demais artes, o que, mais uma vez, era a própria poesia (mais precisamente, os poetas e críticos) notando as armadilhas e o aprisionamento em que se encontrava – a exemplo do hermetismo, do racionalismo extremo, da poesia imagética e ornamental e do altossonantismo presentes em produções poéticas dos mais distintos tempos. Foi assim que muitas escolas e grupos de poetas, cansados de alguns modos de fazer, propuseram saídas, como o investimento na literalidade, na simplicidade dos versos, em formas prosaicas de escrita etc. Alguns desses exemplos são o(s) nosso(s) modernismo(s) em reação ao simbolismo, e de algumas vertentes da poesia francesa mais contemporâneas em reação ao surrealismo[1].
Mas veja como são as coisas: pedimos a alguns poetas contemporâneos para responderem uma enquete – que decidimos fazer nesta própria rede social, através dos stories – sobre os lugares-comuns e os limites impostos pela rede à sua produção poética. A maior parte das respostas apontava para uma nova espécie de aprisionamento. Explicamos: enquanto a resposta dada pelos movimentos culturais supracitados às restrições impostas por estéticas dominantes foi a valorização de uma linguagem prosaica, literal, simples, em alguns casos até “pós-poética”; os poetas contemporâneos apontam que a fixidez formal própria do Instagram parece de fato ter limitado a poesia a este tipo de produção – ou ao que um dos poetas que nos respondeu chamou de necessidade de “ser direta” e “facilmente assimilada”. Interessante colocar os termos nessa ordem, porque os mesmos conceitos utilizados para valorizar algumas poéticas (literalidade e prosaísmo, para ficarmos apenas com dois) são utilizados para desprezar outras, como as que nos cercam no Instagram. A sensação que temos é a de que, conhecendo a história e seus percalços, a radicalidade estética, por seu teor político, acaba confundida com as experiências de radicalismos políticos que lhes acompanharam. Apesar desse ser um senso comum hoje, isso também tem suas reviravoltas. Ou seja, o desprezo das radicalidades estéticas acaba por levar a categorias de poesia que, quando tomadas em seu extremo (um poema que seja só literal por ser literal), tem suas propostas desprezadas, até desqualificadas enquanto não poéticas – o que poderia ser tema de um outro ensaio. Mas, para nos atermos ao que propomos aqui, entendemos que o Instagram já teria, nesse cenário, algo a nos oferecer: questionar tais propostas “pós-poéticas”, como as chamam alguns poetas franceses, de modo a não deixar sermos aprisionadas por elas. O que propomos fazer, daqui em diante, é inverter um pouco as coisas; pensar como esse novo meio pode ser capaz de nos apontar as contradições inerentes aos meios de produção poética.
É claro que um card de Instagram, ou um tempo fixo de 15 segundos de um stories, tendem a limitar a escrita a certas condições materiais – o que se convencionou chamar de “forma instagramável” do poema. No entanto, isso é realmente tão diferente do quanto um soneto francês ou inglês o faz? E mais: desde quando certa imposição formal restringiu a tentativa de expansão da poesia, seja ela pela quebra interna das estruturas típicas, seja ela pela busca de novas formas? Complexificando esse cenário do lugar-comum de uma poesia necessariamente confinada à dita forma instagramável, podemos observar proposições que trabalham através e a partir do tensionamento desses limites materiais. Seria possível tratar aqui de inúmeros exemplos.
Logo nos vêm à mente o poeta Rodrigo Lobo Damasceno, que faz um uso particular de seu Instagram para a publicação dos próprios poemas, pelo menos desde o ano de 2020. Cabe ressaltar, por exemplo, que parte do seu livro Limalha, que seria lançado integralmente pela editora Corsário-Satã ao fim de 2023, já havia sido publicado, antes de seu lançamento, na rede. O trabalho de Damasceno não caminha na direção da desejável literalidade e concisão aparentemente demandada pela estrutura formal da rede social. Pelo contrário, o poeta não apenas recupera procedimentos, mas também evoca o nome de algumas vanguardas, a exemplo do surrealismo – que tem uma prática quase contrária à exigência de redução e simplicidade –, como se conjurasse o que restou da energia de insubordinação daqueles movimentos. Ainda mais interessante é que essa insubordinação evoca ainda outros fantasmas, como é o caso de Mestre Moa do Katendê, assassinado em 2018 devido a uma discussão política. Não podemos esquecer que o contexto mundial já havia nos alertado: estávamos sob o efeito de algo um pouco mais concreto que um obsessor, mas que se pretendia se mostrar como tal. E, talvez, porque um pouco mais concreto, um pouco mais verdadeiro e, também, um pouco mais falso em seu efeito fantasmagórico: aqueles por trás das redes, alimentados de informação. De maneira simplificada, Damasceno se apropria da rede como um mecanismo para divulgar seu trabalho, ao mesmo tempo que expõe os seus limites e contradições para a poesia contemporânea, apostando na expansão ao invés da contração exigida pelo meio.
A aposta na expansão é uma das maneiras possíveis que vemos de posturas que nos interessa observar nas redes hoje. Outra é justamente o seu contrário: dos que “aceitam” a contração e performam a simplicidade, mas, a partir deste registro, também conseguem chegar a semelhante efeito. Há certamente poetas que têm buscado investir nessa forma como uma tentativa de subverter um pretenso engessamento que o Instagram, ou a forma instagramável, provocaria. Há diversas iniciativas que caminham nessa frente, a exemplo do site Leituras.org[2], das redes sociais da Escola da Palavra[3] e da mini-revista de poesia Parque dos Parquinhos[4]. Existe inclusive uma editora dedicada à publicação desses autores: a Fictícia, idealizada pelo também poeta e crítico literário Lucas Ferreira, que publica plaquetes, ou seja, pequenos livros, integralmente no feed do Instagram. Cada livro é composto por uma capa – ou seja, o primeiro card da publicação – seguida por até nove outros cards de texto. Se as limitações materiais impostas pela rede social são aparentemente respeitadas, uma leitura atenta do conteúdo publicado pela editora dá conta de notar como poetas contemporâneos vêm fazendo um uso criativo e crítico desta forma.
Talvez um bom exemplo seja da plaquete Aproximação, de Thadeu C. Santos. O autor monta pequenos poemas constituídos integralmente pelo recorte e junção de poemas de outras duas pessoas. O que poderia ser confundido com procedimentos de vanguarda – ou de pós-vanguarda, como querem os franceses – aqui é mais próximo do sampleamento e da mistura do clássico com o popular, própria do funk carioca, o que constitui o ar histórico de um país em que as mais altas torres se sobem de elevador de serviço. Vale lembrar que, não fosse o formato do Instagram, talvez esses versos muito concisos não fossem publicados em livro com o destaque gráfico que a rede permite.
Já Enrique Aue, em Grande Coisa, pensa o poema a partir da materialidade do card do Instagram, o que se reflete não apenas no eixo temático, mas na própria estruturação dos versos. Nesta plaquete, o autor promove uma atenção ao meio através de uma dispersão formal que gera uma espécie de concentração dele próprio. Em outros termos, ao fazer com que o verso extrapole de um card ao seguinte, o autor performa profundidade em um meio tido como superficial, de modo que o movimento de passar o card para a direita seja um movimento “pra dentro”, para citarmos o próprio Aue. Isso desdobra novas possibilidades da reflexão de si – como o silêncio, do penúltimo card, se desdobra em “si”, no último.
Em outras palavras, enquanto críticos e poetas, que também são usuários do Instagram, entendemos que muito do que se fala sobre “a feira de vaidades” e os problemas “instagramização” do mundo, num geral, e da poesia, em particular, pode ser compreendido menos enquanto uma grande novidade, e mais enquanto uma assombração – no contexto digital e no capitalismo avançado – de operações próprias da literatura moderna ou, nos colocando em jogo, de operações da crítica moderna. E, se pensarmos nesses termos, é possível entender a ideia de poesia instagramável – mas ainda não de crítica da poesia instagramável, para nos defendermos enquanto críticos, mas não poetas – como uma produção mitológica, se desarticulada do processo do qual ela faz parte. Barthes nos diz que o mito não é uma fala qualquer, mas uma fala que se legitima pela repetição, por distintas bocas, de uma mesma versão daquilo que todos sabem e todos aceitam. E, de fato, o senso comum que desapropria o Instagram de um processo, é próprio da produção de mitologias, onde as coisas perdem a lembrança de sua produção. Em outros termos, é ignorar a “natureza” da criação artística de operar cortes e rupturas e inserir lacunas, expandindo e tensionando formas calcificadas e colocando-as contra elas próprias.
Notas
[1] Aqui, estamos tratando de uma simplificação bastante radical de cada uma dessas propostas. Isto, pois sabemos que – para citar duas propostas distintas, tanto em seus termos, quanto em sua localização histórica e geográfica – a pós-poesia do poeta francês Jean-Marie Gleize – que busca por formas de prosa experimentais que transcendam as categorias de gênero –, ou o “passo de prosa” na poesia de João Cabral, não significam a escritura de textos meramente prosaicos, como a densidade e complexidade sonora dos poemas do brasileiro nos ilustram, bem com as múltiplas significações e desvios nos do francês. Entretanto, o que estamos propondo aqui é que, quando algumas características dessas obras se solidificam em detrimento de outras, perdendo seu lastro histórico e, de certa maneira, algo de sua complexidade – se transformando, desta forma, em uma espécie de mito –, eles perdem também suas nuances com o decorrer do tempo. Assim, no caso aqui trabalhado, do Instagram, o que dessas propostas sobrevive levaria, de certa maneira, à um aprisionamento formal antitético à sua proposição inicial.
[2] O Instagram do Leituras.org organiza em postagens poemas de diversos autores, contemporâneos ou não, através de cards. Uma observação do projeto nos permite notar, na edição feita pelos curados, não só uma maior atenção, mas uma revaloração da estrofação nos poemas contemporâneos, o que poeta Heyk Pimenta diagnosticou, na supracitada enquete que realizamos, ao falar sobre as vantagens e possibilidades que a rede abre aos autores hoje.
[3] A Escola da Palavra tem incentivado poetas a criar uma espécie de comunidade a partir de várias frentes. Além das oficinas que oferecem, suas redes sociais apresentam inúmeras propostas de exercícios e debates sobre o lugar da crítica e da escrita contemporânea. Também realizam um trabalho de curadoria de vídeos e textos que incitam à percepção de que a poesia é – e sempre foi – um campo expandido.
[4] A revista é pensada inteiramente para publicação no Instagram e, nela, os editores propõem que poetas escrevam poemas inéditos que caibam neste formato. Mais do que isto, a Parque dos Parquinhos propõe, enquanto forma específica de sua publicação, aquilo que já havia sido notado em diversas poéticas do nosso modernismo: a valorização do mínimo; do pequeno – um poema por autor. E, sobretudo, este pequeno é uma luz vacilante dentre os holofotes das redes sociais.
Referências
AZEVEDO, Carlito. (2016). Livro das postagens. Rio de Janeiro: 7Letras.
BARTHES, Roland. (2001). Mitologias. Rio de Janeiro: Bertand Brasil.
BENJAMIN, Walter. (2018). Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG.
CASTELLS, Manuel. (2013). Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro: Zahar.
DAMASCENO, Rodrigo Logo. (2023). Limalha. São Paulo: Corsário-Satã.
KLINGER, Diana. (2018). “Poesia, documento, autoria”. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. (55).
MALLAMANN, Francisco. (2021). Tudo o que leva consigo um nome. São Paulo: José Olympio.
PERIGO, Gabriela. (2022). A Saga. Rio de Janeiro: Garupa.
Sobre os autores
Beatriz Malcher é crítica literária, poeta e doutora em Teoria Literária pelo PPGCLA da UFRJ, onde atualmente atua como pós-doutoranda, com financiamento do CNPq.
Gabriel Gonzalez é poeta, crítico e mestre em Teoria da Literatura e Literatura Brasileira pela UFF.
