
Celebridades, poesia e tatuagem são os mitos contemporâneos discutidos hoje na série Mitomanias/Mitologias, que propõe explorar as tramas inconscientes de nossas práticas sociais. No texto “Celebridades”, Paulo Maciel examina a noção de celebridade a partir da perspectiva de sua performance, perguntando o que esses portadores de fama fazem com os indivíduos e com a sociedade. Será que podemos falar da existência de uma função social, política e econômica da celebridade? “Poetas de instagram“, ensaio de Beatriz Malcher e Gabriel Gonzalez, analisa as transformações nas dinâmicas de concepção, produção, consumo e crítica de poesia com o advento do Instagram, questionando como é ser poeta no efêmero mundo do instagramável. Já no texto “Tatuagem”, Gabriel Martins da Silva argumenta que a tatuagem é o centro de um paradoxo no mundo atual. Com o crescente número de adeptos em uma sociedade que tem a diferenciação como base, tatuar-se no contemporâneo tem apresentado novos processos e dilemas que talvez ainda não tenhamos compreendido totalmente.
A série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.
Boa leitura!
Tatuagem*
Por Gabriel Martins da Silva (PUC-Rio)
É possível que desde Sófocles todos nós sejamos selvagens tatuados
― Gustave Flaubert em “Préface à la vie d’écrivain”, citado por Jacques Derrida como epígrafe de “Força e significação” de A escritura e a diferença.
Ave, palavra, publicado em 1970, é um livro póstumo do escritor mineiro João Guimarães Rosa que reúne diários, anotações de viagens, contos e uma série de pequenos textos sobre temas diversos. Salta aos olhos as observações minuciosas, sempre em clave poética, acerca dos diferentes animais que o autor se deparou. Na série de textos “Zoo”, que aglutina impressões de zoológicos ao redor do mundo em formato aforismático, no que diz respeito ao Hagenbecks Tierpark, em Hamburgo, na Alemanha ― onde, aliás, Rosa serviu como cônsul-adjunto durante a Segunda Guerra Mundial ―, lê-se: “O diverso, no riscado da zebra: quanto ao corpo, é uniforme: mas, na cara, é tatuagem?”. Mais a frente no livro, em outro texto da mesma série, desta vez dedicado ao Parc Zoologique du Bois de Vincennes, em Paris, na França, quando da estada de Rosa também para fins diplomáticos, lemos: “A massa dura de um tigre. Sua máscara de pajé tatuado”. As duas passagens, ambas anotadas a partir da observação dos animais em cativeiro, numa distância segura entre o autor e os bichos, trazem a metáfora da tatuagem ― cabe pensarmos se, de fato, trata-se de um mecanismo metafórico ― para caracterizar seus padrões, suas cores, seus motivos. Assim, as alternadas listras pretas e brancas da zebra e os padrões coloridos do rosto do tigre se aproximam, na prosa rosiana, dos motivos ocidentais das tatuagens, essa forma muito particular de mudança corporal entre os humanos, prática cultural que vem se tornando cada vez mais presente no cotidiano das grandes cidades, sobretudo em países tropicais como o Brasil, cujo culto ao corpo se faz presente de maneira quase secular. Não parece trivial que seja justamente essa expressão artística usada para garantir certa inteligibilidade ao universo múltiplo e rico dos animais.
Pensando de forma especulativa e nos distanciando do texto de Rosa, a tatuagem parece ser uma das maneiras que a humanidade encontrou para explorar a diversidade de corpos do mundo animal, já que as singularidades presentes nas pelagens, penas e peles contrastam com a relativa uniformidade dos corpos humanos. Apesar da multiplicidade de formas e cores cultural e racialmente inscritas nos povos do mundo, se olharmos de maneira rápida e simplificada, esses corpos mantêm certa monotonia em comparação com as cores exuberantes e os padrões inusitados dos não-humanos. A tatuagem, assim, se configura como uma expressão artística que busca, de forma inventiva, reduzir a distância entre a monotonia humana e a diversidade não-humana.
No capítulo “A caça à lua”, do mesmo livro de Guimarães Rosa, o tópos da tatuagem reaparece como uma metáfora para os diferentes padrões corporais dos animais: “como a cobra tem tatuagens”. O animal descrito por Rosa é um símbolo dessa diversidade de motivos: os anéis pretos, amarelos, vermelhos e brancos das cobras corais; os losangos em marrom de várias tonalidades nas cascavéis; as manchas pretas e amarelas da caninana. Tal diversidade serve, em primeiro lugar, para que as serpentes possam se camuflar nos ambientes e, assim, atacar suas presas, constituindo seu modo próprio de estar no mundo, garantindo sua sobrevivência e sua habilidade singular para a caça. Em terreno diverso, quando pensamos em cosmologias amazônicas, cuja dimensão da caça é constitutiva da vida em sociedade, ligada tanto ao universo religioso, alimentar e ritual, a cobra é, mais uma vez, apresentada como o animal incontornável para se pensar as variadas formas de inscrição corporal. Lembremos, à guisa de exemplo, da quase onipresença, nos mundos ameríndios, da jiboia primordial ou da anaconda, motivo mítico da “dona” (e, portanto, da origem) dos motivos decorativos do universo indígena, usados para o trançado da cestaria, para a tecelagem, para as pinturas corporais e para a decoração de panelas. A relação é redobrada quando a associação entre o desenho e a sucuri também surge como outro padrão nos territórios dos povos das terras baixas da América do Sul.
Em contraponto à efemeridade dos objetos indígenas ou ainda das pinturas corporais, como foi dito, muitas vezes originados de animais não-humanos, destacamos a tatuagem como um dos centros de um paradoxo em nossa sociedade. Se, como imaginamos especulativamente junto a Rosa, a tatuagem serve para preencher o abismo entre a diversidade de corpos animais e a monotonia humana, por outro, tal impulso de diferenciação ocorre inscrevendo motivos na pele, através das máquinas, tintas, agulhas etc. O paradoxo em questão é o do desejo de diferenciação, calcado numa vontade genuína de identificação com os padrões criados no mundo da tatuagem, e, por outro, pela inscrição, digamos, “eterna” desses desenhos do corpo. Nesse sentido, aqui está uma das questões que gostaríamos que ecoasse a partir desse texto: como conjugar um desejo de diferenciação com a cristalização das imagens do corpo? Assim como no caso das pinturas corporais indígenas, por exemplo, que parecem partir de um mesmo desejo de se aproximar do mundo animal ― construído, especulativamente, aqui, a partir dos textos ficcionais de Rosa ―, logo ele se completa com o caráter temporário das inscrições, que podem ser trocados, figurando como momento não-cotidiano dos motivos no interior do grupo social.
Para a eficácia da tatuagem, para que ela se torne permanente de fato, cicatrizada na pele, o processo é necessariamente doloroso. Trata-se, antes de mais nada, de um ritual que envolve um desgaste do corpo e da mente, um procedimento que sempre será invasivo para quem está disposto a eternizar um desenho na pele. Hoje, cada vez mais, tecnologias são criadas para tornar a experiência de se tatuar menos abrasiva possível. São exemplos dessas recentes inovações as pomadas anestésicas, mais comuns no dia a dia dos estúdios, apesar das controvérsias que envolvem o seu uso, como as dificuldades na cicatrização, as possíveis alergias e reações adversas ― chegando até a morte. Assim, a indicação do uso desses procedimentos variam de cada profissional da tatuagem, que podem ou não recomendar o uso. De qualquer maneira, o que importa é a mudança sistemática e constante dos processos que envolvem o ritual de se tatuar, que tendem, de uma maneira ou de outra, a transformar essa arte secular de gravação na pele. As questões que surgem são muitas, como: trata-se ainda de tatuagem quando aquilo que as caracteriza enquanto arte ― a dor, a violência e o sofrimento ― é suavizado? Ou ainda, quais transformações substantivas são necessárias para que aquilo que conhecemos como tatuagem torne-se outra coisa? Os debates e as respostas não estão dadas, mas envolvem elementos culturais decisivos que circunscrevem essa prática.
Um outro exemplo, também altamente controverso, são as anestesias gerais, normalmente tornadas públicas quando figuras ícone da cultura pop e do mundo da música fazem uso dela. Essas pessoas escolhem deliberadamente assumir os riscos da anestesia para não experimentar as consequências dolorosas de gravação da arte na pele, que, como dissemos, são constitutivas desse universo. Nos parece que, em consonância com os movimentos de aceleração das nossas vidas no cenário contemporâneo, a relação entre estética e anestética sobressai, quando a urgência e a rapidez apresentam-se como a tônica do mundo urbano e cosmopolita. Assume-se a tattoo como um produto final, quando o que importa é o processo, o ritual. O que essas mudanças dizem sobre a nossa sociedade, sobre a maneira como lidamos com a dor, com os incômodos e com aquilo que, de alguma forma, se eterniza no corpo?
Soma-se a isso, numa outra perspectiva, a popularização também das remoções de tatuagem, outro ponto que toca no centro do ritual da tatuagem ― quer dizer, a eternização dos desenhos no corpo. Por várias razões, uma pessoa pode decidir remover uma tatuagem, por motivos profissionais, por simplesmente mudar de ideia, por resultados indesejados, por uma pigmentação mal feita. Com a crescente demanda por remoção de tatuagens, desenvolveu-se uma técnica específica para eliminar a pigmentação das tintas de forma segura e seletiva, minimizando os riscos de infecção e de formação de cicatrizes. Antes da popularização dos lasers ― hoje, a técnica mais comum e recomendada ―, eram utilizados métodos como destruição mecânica, química ou térmica dos tecidos para remover tatuagens, porém esses métodos eram inseguros, dolorosos e frequentemente resultavam em cicatrizes indesejadas. Os lasers atuam afetando diretamente os compostos químicos das tintas, sem com isso danificar a pele, algo que coloca em evidência o debate entre o dentro e fora, aquilo que se esconde no tecido humano e que revela padrões e desenhos, sem atingir camadas mais profundas do corpo.
De qualquer maneira, diante das mudanças cada vez mais aceleradas do universo estético, a esmagadora maioria das pessoas que se tatuam seguem o ritual tradicional, no qual os símbolos que tentamos apontar são característicos e resistem apesar das inovações.
Assim, a tatuagem forma-se como a disjunção entre o dentro e o fora, a superfície e a profundidade, localizando-se, ao mesmo tempo, no exterior do corpo e dentro dele, na medida em que a permanência da tinta só ocorre uma vez que alcança camadas mais profundas da derme. A violência que penetra o corpo, a cicatrização a posteriori, a eternização dos desenhos e todo o processo identitário que envolve o mundo da tatuagem fazem parte de uma mesma operação que, por um lado, se secularizou e, por outro, se atualiza constantemente de maneira diversa nas diferentes culturas. Como expressão artística incorporada por excelência, a inscrição na pele serve como a metáfora profunda dos nossos tempos, quando matéria e pensamento, imanência e transcendência, efemeridade e perenidade, não se distinguem, conformando-se como as faces de uma mesma moeda, confundindo-se.
Nota
*Este texto foi pensado e redigido com a ajuda e a conversa franca com os amigos do estúdio de tatuagem Teto Tattoo, pessoas essenciais para os debates travados aqui.
Sobre o autor
Gabriel Martins da Silva é Professor Assistente do Laboratório de Criatividade e Cultura (Lab_CC) da PUC-Rio, professor de sociologia do ensino básico e doutorando em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade (PUC-Rio/CAPES)
