BVPS Homenagem | Charles Pessanha, um grande amigo, por Jairo Nicolau

A BVPS se soma às homenagens a Charles Pessanha, que nos deixou em julho deste ano, aos 84 anos. Nesta semana, publicamos textos de Jairo Nicolau e Regina Morel, apresentados na mesa “Homenagem a Charles Pessanha”, promovida em agosto numa parceria entre o Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS-UFRJ).

Nos relatos de Jairo Nicolau e Regina Morel, podemos acompanhar a trajetória pessoal e profissional de Charles, seu compromisso com o ensino e a pesquisa em ciências sociais, seu empenho incansável na construção de instituições e seu enorme legado para a editoria científica brasileira, incluindo a reformulação da revista Dados, da qual foi editor por quase quatro décadas, a criação da BIB, além da idealização da ABEC e da Plataforma SciELO. Amigos de diferentes gerações destacam a sabedoria, serenidade e generosidade deste grande protagonista das ciências sociais no Brasil nas últimas décadas.

Agradecemos aos colegas por compartilharem seus textos e à Elina Pessanha pelas fotos que ilustram os posts.

Boa leitura!


Charles Pessanha, um grande amigo

Por Jairo Nicolau (CPDOC-FGV)

O amigo

Conheci Charles Pessanha no começo dos anos 1990. Eu fazia o meu doutorado e ia com muita frequência à Rua da Matriz 82, sede do IUPERJ. Charles era editor da revista Dados, cuja secretaria era abrigada na mesma casa. 

O escritório do Charles ficava no segundo andar, na esquina da escada que levava às salas dos professores e às salas de aula. De modo que a chance de o encontrar era grande, sobretudo porque sua sala estava sempre com a porta aberta. Charles tinha o hábito de parar visitantes que passavam para mostrar a revista. Vi isso acontecer diversas vezes. Nossa amizade pode ter começado num dessas paradas. Fui ver o último número da revista e ganhei um amigo para metade da minha vida.

Amigos de toda a vida, em geral, começam na infância (amizades de pequenas cidades) ou na juventude. Eu já me aproximava dos 30 anos e Charles já tinha mais de 50; uma distância razoável para grandes amizades. Aos poucos, à conversa fiada sobre temas que nós dois gostávamos (futebol, política, teatro, história) foi se acrescentando a cumplicidade dos amigos juvenis: a vida afetiva, a família, o trabalho e os desafios profissionais.  

A partir de 1995, quando me tornei professor do IUPERJ, passei a frequentar o IUPERJ diariamente. Charles também tinha o mesmo hábito. Era quase impossível que, estando nós dois na casa, não conversássemos de algum modo. Saíamos para almoçar, ou para o lanche da tarde, ou voltávamos juntos para casa.

A cidade do Rio de Janeiro é gigantesca, mas quando Charles veio morar definitivamente na cidade, quis o acaso que ele também fosse meu vizinho. Já contei: o seu apartamento está a exatos 380 passos de onde eu moro. Ir junto para casa não é uma força de expressão. O que variava era o meio: podia ser a pé, de ônibus, carro ou táxi. A conversa que animava o nosso caminho e a clássica parada na esquina de sua rua também variava: fofocas, histórias engraçadas, especulações sobre o futuro do Brasil, tristezas e alegrias que o trabalho no IUPERJ nos produzia.

Olhando em retrospectiva, me dei conta que Charles esteve presente em todos os momentos fundamentais da minha vida pessoal e profissional. Nas encruzilhadas e momentos de escolhas banais sempre esteve por perto. Nesses anos, foi impossível tomar uma decisão importante sem ouvi-lo. 

Charles tinha um monte de virtudes que aprendi a admirar: a temperança nos momentos cruciais de decisão política; a indignação, quando julgava que certos limites fundamentais haviam sido ultrapassados; o respeito aos colegas; a integridade profissional; uma dedicação e cuidado especial pela Elina e pelos filhos.

Nos últimos anos de convivência, essas virtudes passaram a ganhar um nome para mim: sabedoria. Conhecemos pessoas sábias nos livros e na literatura, mas os sábios reais são difíceis de encontrar. Não me estranharia se ele escrevesse uma daquelas epístolas à moda de Cícero ou Sêneca; aliás, os dois escreveram sobre a amizade. Quem sabe, uma “Carta ao meu querido amigo Jairo Nicolau”?

Pessoas sábias riem de si mesmos e do esnobismo intelectual. Sábios nunca colocavam colegas de geração que se desentendem um contra o outro. Sábios são os que usam a mesma métrica para tratar intelectuais famosos e jovens autores. Por fim, sábios poupam os amigos de saberem da gravidade de sua doença terminal.

Nossa amizade continuou depois que sai da Rua da Matriz. Quando mudamos nossa forma de nos comunicar. Predominou o telefone (uma das últimas pessoas que eu ligava sem perguntar antes se eu podia ligar), o WhatsApp e os cafés ocasionais, muitas vezes marcados poucos minutos, num posto de gasolina, daqueles que oferecem um bom café, e que ficava equidistante de nossas casas.

Em 2017, Charles criou um grupo de WhatsApp e convidou a mim e a mais quatro amigos (Nelson Carvalho, Ivo Coser, Vitor Peixoto e Antônio Alkmim) para participar. Como todos são cientistas políticos, o grupo foi batizado com o nome “Conjuntura”. O nome esconde uma dimensão tão importante quanto a política para os componentes do grupo: humor. Durante muito tempo a foto que identificou o grupo é uma que junta Carmen Miranda e Marx (o Groucho). 

No grupo, Charles ganhou a alcunha de senador. Perto dele, todos estávamos no baixo clero. Desde a criação do grupo nos falamos todos os dias. Cultivando essa mistura de humor e política que tanto alegrava o senador. Juntos, vimos o pesadelo da era bolsonarista e o interminável isolamento da pandemia. A alegria do Charles com essa amizade virtual (que às vezes se traduzia em almoços sem hora de acabar) era tanta que, descobriríamos depois, ele municiava alguns (sem o conhecimento dos outros) com material para causar controvérsias e diversão.

O editor

Todos os que foram alunos de Charles dizem que ele era um grande professor. Segundo ele gostava de contar, cultivou o gosto pelo magistério ao ser professor de cursos preparatórios de vestibular na primeira metade dos anos 1970. Além de ensinar para turmas enormes, ele era obrigado a produzir as apostilas com o conteúdo do curso.

Charles se tornou professor na UFRJ no final dos anos 1980 e, embora tenha formalmente aposentado quando fez 75 anos, continuou dando aula até poucos meses antes de sua morte. Muitas vezes tentei incentivá-lo a parar, pois percebia que a atividade de magistério tinha se tornado muito demandante para ele. Sempre que tocava no assunto, ele gentilmente desconversava. Acho que nunca considerou que parar de dar aula poderia ajudá-lo a ter uma rotina menos cansativa.

Conheci de perto outra atividade profissional de Charles: a de editor. Em meados da década de 1970, os periódicos de ciências sociais eram, sobretudo, um lugar em que professores e pesquisadores de uma determinada organização publicavam as suas pesquisas. A Dados, por exemplo, publicava basicamente trabalhos de professores e pesquisadores vinculados ao IUPERJ. Os números da revista saiam em intervalos irregulares.

Charles assumiu a editoria da Dados em 1976, quando ainda cursava o mestrado de Ciência Política no IUPERJ. Nos anos seguintes, ele foi adotando novos procedimentos para adequar a revista ao padrão que já era dominante nas revistas de Ciência Política e Sociologia nos Estados Unidos. Os artigos passaram a ser submetidos anonimamente pelos autores (lembremos que estamos na era da submissão de textos datilografados) e analisados por dois pareceristas escolhidos pelo editor, que davam o parecer sem saber quem havia escrito o artigo (modelo conhecido como duplo-cego).

Imagino as dificuldades da implantação desse modelo na segunda metade dos 1970 e início dos 1980. A comunidade de ciências sociais era reduzida e as pessoas sabiam o que as outras estavam estudando. Portanto, não era fácil encontrar pessoas para escrever um parecer e que ainda desconhecessem o autor. Alguns intelectuais já acostumados com o velho modelo de publicação não aceitaram a passagem para a nova ordem. Alguns chegaram a ter os seus trabalhos rejeitados. Ele me narrou algumas dessas histórias de desconforto de pesquisadores com o novo procedimento.

No começo dos anos 1990, quando a capa da revista já era branca, e Charles já convidava as pessoas que passavam à frente de sua sala para mostrá-la, a Dados tinha se tornado um modelo. Enfim, tínhamos uma revista que se seguia o padrão das melhores do mundo: regularidade, seleção de artigos por pareceres cegos e uma alta qualidade de revisão e composição.

Se o sonho da geração que me antecedeu era publicar um livro, nos anos 1990, eu e meus colegas sonhávamos em publicar na Dados. E muitos o fizeram. A revista se tornaria um ambiente para diversos colegas publicarem as suas pesquisas de começo de carreira.  Quem consultar os exemplares de meados dos anos 1990 até 2010 verá quantos artigos foram publicados por jovens pesquisadores. Grande parte desses artigos versam sobre os temas centrais de uma democracia que se configurava após a aprovação da Constituição de 1988: os novos partidos, a configuração do presidencialismo, as atribuições do Congresso, o sistema eleitoral e as eleições.

Charles se orgulhava de ter transformado a revista Dados numa espécie de salão para exibição dessas pesquisas. Falo dos artigos de Ciência Política, mas o mesmo também aconteceu com outras áreas das Ciências Sociais.

Não posso esquecer de falar da sua virtú em lidar com uma pequena comunidade, num momento em que a revista virou uma grande referência para os pesquisadores. Charles precisava saber dos conflitos pessoais e intelectuais, e das peculiaridades dos pareceristas. Um bom artigo podia ser perdido por ter sido avaliado pela “pessoa errada”. Creio que a personalidade moderada e a elegância com que ele sempre tratou os autores foram tão importantes para a consolidação da revista, como a adoção dos procedimentos que descrevi anteriormente.

A revista Dados foi um dos temas de disputa no momento da transição dos professores e pesquisadores do IUPERJ para a UERJ. Lembro que Candido Mendes, reitor da UCAM (instituição mantenedora do IUPERJ), e que tinha uma profunda admiração pela Dados, não queria abdicar da revista. Charles tinha uma boa relação com ele e o convenceu de que a revista deveria ser uma empreitada comum do IESP e UCAM. Não sei se foi de caso pensado, mas o fato é que a UCAM tinha problemas de toda ordem e acabou desistindo da parceria. A Dados continuou na Rua da Matriz.

Charles participou ativamente da criação do Boletim de Informação Bibliográfica – BIB, foi consultor de dezenas de revistas, e participou da fundação do SciELO no Brasil. Embora tenha acompanhado essas atividades, não tenho condições de falar sobre elas com mais detalhes.

Charles com outros ex-presidentes da ABEC, anos 1990.

O grande amigo

Eu tenho tido muita sorte na vida. Uma das maiores é ter sido amigo de Charles Pessanha. Privei de sua companhia por metade da minha vida, numa fase quando a probabilidade de fazer um grande amigo (um amigo do peito, como se costumava dizer) se escasseia. Eu tive essa sorte.