BVPS Homenagem | Charles Pessanha: desbravando caminhos, por Regina Morel

A BVPS se soma às homenagens a Charles Pessanha, que nos deixou em julho deste ano, aos 84 anos. Nesta semana, publicamos textos de Jairo Nicolau e Regina Morel, apresentados na mesa “Homenagem a Charles Pessanha”, promovida em agosto numa parceria entre o Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS-UFRJ).

Nos relatos de Jairo Nicolau e Regina Morel, podemos acompanhar a trajetória pessoal e profissional de Charles, seu compromisso com o ensino e a pesquisa em ciências sociais, seu empenho incansável na construção de instituições e seu enorme legado para a editoria científica brasileira, incluindo a reformulação da revista Dados, da qual foi editor por quase quatro décadas, a criação da BIB, além da idealização da ABEC e da Plataforma SciELO. Amigos de diferentes gerações destacam a sabedoria, serenidade e generosidade deste grande protagonista das ciências sociais no Brasil nas últimas décadas.

Agradecemos aos colegas por compartilharem seus textos e à Elina Pessanha pelas fotos que ilustram os posts.

Boa leitura!


Charles Pessanha: desbravando caminhos

Por Regina Morel (PPGSA/IFCS-UFRJ)

Agradeço o honroso convite para estar aqui hoje homenageando nosso querido amigo Charles Pessanha. Estamos todos de luto e gostaríamos que nada disso estivesse acontecendo. As numerosas manifestações de pesar nas redes sociais desde o último dia 25 de julho testemunham o quanto ele era e é querido e admirado por todos que o conheceram. O afeto que se tem por alguém não se encerra quando a pessoa se vai. Uma rara unanimidade, como já disseram.

É muita emoção estar aqui hoje, pois foi nesta casa que conheci Charles, em 1978, quando, vindo da UnB, trabalhei um ano e pouco como assistente de pesquisa, antes de ir para o IFCS. Ele já era editor da revista Dados, e, com seu jeitão acolhedor e conhecendo todo mundo, me ajudou a me enturmar na comunidade de ciências sociais do Rio, depois de ter passado 10 anos fora.

Sabemos que a segunda metade dos anos 1970, apesar da repressão da ditadura continuar implacável, foi uma época de aumento expressivo do associativismo de pesquisadores e professores, como forma de resistência ao regime, época marcada pelo surgimento ou refundação de inúmeras sociedades e associações científicas. A ANPOCS e Associações de Docentes nas universidades federais, dentre outras, são desse período. Nessa época, Charles colaborava ativamente com a criação da sociedade regional da SBPC aqui no Rio, junto com Ennio Candotti, Nelson Maculan, Octávio Velho, Luiz Davidovitch etc. Naquele momento, as reuniões anuais da SBPC mobilizavam toda a comunidade acadêmica e constituíam espaço privilegiado de debate e denúncia dos excessos da ditadura. Incentivada por ele, passei a participar da criação da regional, iniciativa que frutificou, resultando depois na criação de outras secretarias pelo Brasil afora.

Entrando no IFCS/UFRJ em 1979, logo conheci Elina, ela antropóloga e eu socióloga, mas no mesmo departamento. A amizade que me unia ao Charles logo se estendeu a ela, que se tornou uma amiga especial para a vida toda. Como ele conta em depoimento para esta casa, disponível no YouTube, eles se conheceram no curso de ciências sociais na UFF, ele como representante de turma e ela como aluna do terceiro ano. Um encontro cósmico, uma história de amor que envolveu paixão, cumplicidade e clima de aventura. Fugas, tensão, cartas escondidas, porque o “pai da donzela era uma fera”… Nesse ínterim, prisões dele, interrogatórios…barra pesada! Mas a mocinha resistiu bravamente às reticências paternas, e porque “ela era ela e ele era ele”, nas palavras dele, “viveram a vida juntos, fizeram política juntos” e daí resultaram 3 filhos amorosos – Gabriela, Antonio Carlos e Marina –, dos quais ele sempre muito se orgulhou, 3 netas e um netinho.

Criado num ambiente familiar politizado e culturalmente estimulante, Charles sempre foi profundamente comprometido com a luta pela democracia, contra a desigualdade e a favor dos direitos sociais. Nas palavras dele, sempre “respirou” política, mas seu espírito crítico não o deixava cair numa crítica estéril ou num pessimismo paralisante e derrotista. O “otimismo da vontade” prevalecia sempre e o fazia buscar saídas, pensar em alternativas, ponderar os caminhos possíveis e ousar desbravá-los. Para ele, nesse embate contra o autoritarismo e o obscurantismo, o intelectual teria sua trincheira própria: a universidade e instituições de pesquisa, o aprimoramento de canais de divulgação do conhecimento e da cultura.

Defensor da dimensão pública da atividade intelectual, dedicou-se à construção de instituições e meios no sentido da democratização e ampliação do acesso à informação. Foi uma liderança fundamental na construção das atuais práticas de produção e divulgação científicas na área de ciências sociais. Cosmopolita e conhecedor do sistema de publicação em outras áreas, empenhou-se na modernização e qualificação das revistas acadêmicas, a partir da Dados, desde o estilo gráfico até as práticas de comitês editoriais e revisão por pares. Generoso e agregador como era, viajava por todo o país, dando cursos e assessoria a editores, contribuindo enormemente para a profissionalização e reconhecimento da categoria. Além disso, sua participação em comitês e órgãos de assessoramento das agências de fomento contribuiu decisivamente na construção de canais de apoio e financiamento, trazendo também maior visibilidade aos periódicos da área de ciências sociais.

Sempre preocupado com a ampliação do acesso à informação, foi um dos principais idealizadores do Boletim Informativo Bibliográfico (BIB) – talvez a “menina dos olhos” dele – ferramenta importantíssima que, em tempos pré-Google e internet, nos ajudava com as resenhas publicadas a levantar bibliografias e conhecer o estado da arte da pesquisa em diversas áreas temáticas. Além disso, os perfis institucionais que publicava contribuíam para fornecer um panorama geral, divulgando recursos humanos e institucionais.

A participação na criação da ABEC, da qual foi presidente, e na do SciELO, bem como sua defesa apaixonada do acesso aberto, são provas materiais de seu cosmopolitismo e espírito inovador. O Prêmio Gildo Marçal Brandão, concedido pela ANPOCS em 2019 pelo conjunto de seu trabalho como editor, deu a medida do justo reconhecimento de seus pares. Quero lembrar ainda que Charles foi pioneiro em trazer a questão da ética da ciência à discussão entre nós, propondo que, à semelhança de outros países, criássemos um “código de ética” que definisse normas de comportamento para autores, avaliadores e editores.

Abertura do Congresso da ABEC, 1995

Professor apaixonado pelo ofício, que marcou gerações de estudantes, entrou no IFCS no final da década de 1980 já trazendo uma ampla experiência docente como professor de cursinhos pré-vestibular em Niterói e de ciência política da Universidade Candido Mendes. Sua verve, disposição para o diálogo e entusiasmo conquistavam os alunos. Com salas de aula sempre cheias, foi paraninfo inúmeras vezes dos cursos de ciências sociais. Mesmo aposentado, não abandonou a universidade pública: ajudou a criar o PPED (Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento)/IE onde lecionava, tendo orientado inúmeras teses de mestrado e doutorado.

Estou eu aqui tentando falar de forma articulada da trajetória de Charles e seu legado para as ciências sociais, para disfarçar a emoção e não falar da enorme saudade e da falta que ele já nos faz. Do Charles, meu amigo querido.

Ao longo desses mais de 45 anos construímos os quatro – Carlos, eu, ele e Elina – uma amizade fraterna, tecida pelos mesmos princípios, admiração e muito afeto, e regada a bons vinhos e boa comida… Viagens juntos, conversas intermináveis, o apoio nas horas tristes, o conselho certeiro – ele com a barba branca ficou parecendo um guru ou sábio – a risada gostosa contagiante… Um dos melhores papos que conheci. Sempre informado, curioso, atento.

Não preciso me estender sobre isso aqui, vocês sabem.

Nosso quarteto está desfalcado. Perder um amigo de tanto tempo é perder uma testemunha de nossa história, é um pouco da gente que se vai também. Não nos conformamos nunca com a morte, essa “indesejada das gentes”, mas gosto de pensar que Charles teve uma vida boa: foi coerente a vida toda, viveu segundo seus princípios, teve muitos sonhos, realizou alguns, casou com a mulher amada, construiu uma bela família, fez muitos amigos, de várias gerações, será sempre lembrado pelo legado que deixou…

Afinal, “as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão”. Obrigada, Charles.