Cenas de escrita para um diário íntimo | Coluna de Ítalo Moriconi

Publicamos hoje o segundo texto de Ítalo Moriconi na nova coluna da BVPS, Cenas de escrita para um diário íntimo. Intitulado “Soy louco por ti”, o texto nos transporta para julho e agosto de 2024, quando a Venezuela dominava os noticiários por conta dos resultados eleitorais. Com reflexões que vão da herança histórica de Simón Bolívar ao confronto entre o bolivarismo autoritário de Maduro e a resistência de direita, Moriconi questionava a viabilidade de uma transição para um modelo democrático ocidental. Afinal, em meio a golpes, resistência clandestina e interferência de potências estrangeiras, qual seria o destino da Venezuela? — “Todo cuidado é pouco. Tudo é muito complicado”…

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Soy louco por ti

(Julho-Agosto/2024)

Por Ítalo Moriconi

[29 de julho]

Será fantasia? Vejo na Venezuela o embate direto entre o visceral, telúrico, intransigente, popular e populista nacionalismo estatista hispano-americano e o pan-americanismo sob domínio do Império norte-americano. A tradição político-diplomática brasileira, seguindo índole que vem de Portugal, ocupa um entre-lugar nesse diferendo, embora a esquerda clássica comunista brasileira tenha assumido o antiamericanismo hispano-americano. Na guerra entre dois mundos, na Guerra Fria ou agora, a geopolítica ocupa o topo da agenda, deixando para trás a solidariedade internacional entre trabalhadores.

Se escrevo, é porque hesito. Problematizo, guiado pela intuição de amador. Provoco?

Numa tentativa selvagem de descrição, vejo que o antiamericanismo visceral se fez e se faz mais presente entre chefes políticos oriundos do Rio Grande do Sul, entre intelectuais e setores pensantes de paulistanos, muito no Nordeste – mas não na Bahia, nem de longe. Em contraste, a fidelidade ao American Way, que na Venezuela vai da classe média para cima, marca a sensibilidade política dos ricos povos do interior, o Brasil sertanejo, do Sul, Centro-Oeste, Centro-Norte. Chiclete com banana. Já no Rio, bossa-nova.

Tudo que a história, sociologia e antropologia descrevem e buscam ordenar conceitualmente pode ser alegorizado em todas as artes e contabilizado em cálculos eleitorais.

***

Maduro declarou ontem, ao sair da votação, que respeitará o resultado das eleições. Para ele, não é certo que a oposição vença a eleição, como a mídia global trombeteou. Parece certo, sim, que a maioria da população venezuelana deseja a saída de Maduro. Por um motivo simples: o caos econômico é tal que se torna algo lógico tentar outro caminho. Mesmo que Maduro perca a presidência, o bolivarismo tem plenas condições de impedir de imediato qualquer pauta neoliberal hipoteticamente encaminhada ao Legislativo por um suposto novo Governo, sem falar na Justiça venezuelana, que é hegemonizada pelo chavismo.

Mas a Venezuela não está programada para uma transição do modelo autoritário bolivariano para o modelo democrático ocidental. Este significa, simplesmente, alternância periódica de poder entre partidos organizados. O chavismo buscou construir uma hegemonia socialista permanente através de eleições, como se fosse possível a convivência entre o sistema de partido único e o sistema de alternância ideológica. No nosso sistema ocidental, razões conjunturais são mais importantes que princípios filosóficos e ideológicos na definição de voto, que dizer da geopolítica dos Estados. Os segmentos ideológicos fiéis em geral não ultrapassam um terço do eleitorado. Quando atinge 30% de apoio eleitoral, um segmento ideológico está apto a vencer uma eleição e controlar um naco do poder, seja no sistema proporcional em dois turnos, como no Brasil, seja por maioria simples.

Simón Bolívar, o herói da independência hispano-americana naquela área toda das atuais Colômbia-Venezuela-países andinos e pedaços ao sul da América Central, tinha uma proposta clara para substituir o poder colonial da Coroa espanhola: uma espécie de ditadura republicana, com a realeza substituída por um regime político centralizado em torno da autoridade de um chefe civil-militar. Aspecto essencial do bolivarismo original era o repúdio veemente a qualquer tipo de ingerência europeia na união pan-americana almejada por Bolívar. Particularmente contra a ingerência da grande potência anglo-saxã, na época a Inglaterra, sentimento exacerbado pelo moderno bolivarismo de Chavez, desta vez contra a potência anglo-saxônica do século XX, os Estados Unidos.

O inconciliável ódio de “nuestra América” contra o imperialismo dos Estados Unidos reativa quem sabe uma herança arcaica na relação com os anglos, bem diferente da nossa, brasileira. A nossa vem dos portugueses, que se entregaram deliciados ao prazer de tudo English desde o século XVIII – e por extensão, no novecentos, tudo Français. A deles vem da derrota da Armada espanhola pelas tropas inglesas em 1588. A Espanha era a maior potência mundial e deixou de sê-lo, definitivamente, ao ser derrotada militarmente quando tentou invadir a Inglaterra.

Essa herança pesa?

Existe DNA cultural? DNA nacional? se toda nação é plural…

[07 de agosto]

Alô, alô, Telegram, notícias do dia em cachoeira, no remanso da matinata. Alô, alô, Telegram, me dê a novela da Venezuela. O país inteiro mergulhando na clandestinidade. A direita se organizando como movimento de resistência na clandestinidade. Maduretes se passando do zap pro gramm. Um grande país com dinâmica de República da Centro América. No lugar das bananas, o petróleo. As imagens do comício de Maduro anunciando a retirada do WhatsApp nos mostraram a presença de uma massa de gente, os camisas vermelhas, dentre eles muitos jovens, corroborando a hipótese de que o país está dividido em dois, chavistas e antichavistas, estes de raiz ou de ocasião. Quanto mais a gente é obrigado pelo Real da Notícia a prestar atenção à Venezuela, mais a gente enxerga o grid conflitivo da coisa toda, simples até.

Enfrentam-se na Venezuela duas grandes máquinas, duas grandes engrenagens. São engrenagens envolvendo pessoas, grupos de pessoas, de famílias, de empresas, agências. Uma delas é o regime, produto institucionalizado de uma revolução popular e militar, capitaneada na origem por um caudilho justiceiro, republicano, nacionalista extremo, hoje estátua, mito, memória. A outra engrenagem é a máquina da antiga Venezuela americanizada, americanófila, óleo-traficante, toda conectada capilarmente com pessoas e instituições americanas. A PDVSA (estatal petroleira) teve, ou tem ainda, uma rede de distribuidoras de petróleo dentro dos Estados Unidos. É vero isso? Outra notícia, esta da BBC, me informa que está em curso a presença de empresas chinesas em diferentes etapas de distribuição do petróleo venezuelano. É vero isso? Em matéria de Venezuela, quem tem credibilidade na nuvem midiática global? Seria necessário especializar-se na matéria, buscando periódicos e acadêmicos e veículos críticos, de esquerda independente. Esquerda independente é pensar fora da caixinha.

***

Meu grupo geracional vive uma era de sinais trocados. O mundo contrariou nossos valores e expectativas. Geração 70, chegando aos 70.

Temos então na Venezuela de um lado uma ditadura policial de “esquerda” (será mesmo? mas Maduro e esposa não estão virando evangélicos?). De outro lado, uma resistência civil de direita rumando para a clandestinidade. Se Maduro determinar o script final, como aconteceu sempre anteriormente, desta vez a turma da Corina vai toda para o xilindró e quem apoiou sua campanha vai ter que ficar caladinho no trabalho e no bar.

Nós por aqui estamos colocando na cadeia uma direita assim, insurrecional e golpista, criminalizável pelo acontecido em 8 de janeiro. Mas nosso Governo e instituições são democráticos num sentido próprio, bem diferente do venezuelano. O nosso é fruto de acomodação negociada entre “esquerda” lulista e direita de todos as matizes, então aqui não tem repressão, nem, supõe-se, tortura de preso político. Essa direita aqui pode concorrer tranquilamente e até já governou o país por quatro anos, com Jair Bolsonaro. Eles não serão exterminados no Brasil, nem expulsos do território, embora muitos deles gostem mais da Florida que do Brasil e vivam entre cá e lá. Seus representantes políticos querem porque querem que nossa vida e instituições sejam uma imitação do American Way. Elas já o são, em grande parte, como o mundo todo. Como nos ensinaram os modernistas, os tropicalistas e os professores de vanguarda dos anos 70, importação seletiva, importação-distorção, exortação bumerangue, não são imitação.

Italuó bate em meus ouvidos. É meu lado patriota imperialista chorando um Amazonas por ver o Brasil mais uma vez alijado de uma presença forte na Venezuela, como de Cuba também. Se eu, além de poeta em horas vagas, fosse também um diplomata pensador de Brasil como o poeta de verdade Chico Alvim, lamentaria a presença militar da Rússia na Venezuela, assim como lamentei a ingerência militar dos Estados Unidos na Colômbia. Não interessa ao Brasil que estejam presentes na América do Sul forças militares de duas potências distantes, atualmente em conflito bélico. Que temos nós a ver com Rússia e Ucrânia? A gente também quer potência, verdamarelo não, multicor. No âmbito subcontinental – Sudamérica bilingue, multilíngue, pluriétnica.

[10 de agosto]

Assim como há quem argumente que houve tortura ou abuso de direitos civis nas prisões preventivas da Lava Jato, pode-se argumentar o mesmo sobre as prisões de golpistas que se arrastam, mantidas por Alexandre de Moraes, com pouca informação da sociedade sobre o que se passa e sobre quem são as pessoas. Esse conceito de prisão preventiva me parece muito elástico no Brasil, não sei como funciona em outros países. Concede um poder excessivo, arbitrário, ao juiz?

Assim como não se discute nem critica a completa censura pela mídia brasileira dos acampamentos bolsonaristas depois da eleição. Bendita falta de excesso de democracia! Já pensou o que poderia acontecer se naquela conjuntura a Globo e outras mídias mostrassem mais extensamente os acampamentos e dessem voz às pessoas envolvidas com eles? Como diria o bolsonarista do táxi, se fosse nos Estados Unidos, a mídia estaria mostrando reportagens extensas sobre o dia a dia dos acampamentos. Como diz o ponderado establishment brasileiro e eu acho que concordo, será?, liberdade de expressão tem limites. Quais? Para começar, os do decoro. Mas toda minoria precisa romper o decoro público para se fazer ouvir. Figuras histriônicas como Nikolas Ferreira ou Pablo Marçal performam como simulacros ou caricaturas desse tipo de ação.

[11 de agosto]

O que a Justiça chavista alinhada a Maduro fez com Corina, imperdoável, é similar ao que Moro fez com Lula, imperdoável, respaldado pela segunda instância e pelo próprio STF. Foram previamente impedidos de concorrer à presidência. A moral na política é um nó. O Telegram é como o Brasil de Lula – coração de mãe. É o espaço de quem foge do zap – a esquerda russófila, os bolsonaristas, agora o madurismo.

Mélange adultère de tout…

[11 de agosto]

Não estou defendendo Maduro a priori neste particular, porque a gente nunca deve colocar totalmente a mão no fogo por governantes. Veja-se o que acontece com Alberto Fernández. Que constrangimento! Mas eu gostaria de saber que provas concretas os Estados Unidos possuem – e QUEM, nos Estados Unidos – de que Maduro seria o chefe de uma rede internacional de “narcoterroristas”. Esse tipo de propaganda afasta qualquer latino-americano politizado das razões do Império. Passa-se pano em Maduro, porque não é confiável a oposição de Corina. É a mesma de Guaidó, embora aparentemente contando com mais apoio eleitoral.

Nesses confrontos entre falcões do Império e pequenos poderes antiamericanos do quintal, a imprensa americana, mesmo a mais séria, vira um terreno de notícias plantadas por grupos ligados a agências satélites da CIA, setores ligados ao Departamento de Estado, além das organizações conservadoras de propaganda de direita, provavelmente bem alimentadas por grana de petroleiras. É só lembrar a postura da inteira nuvem midiática na invasão do Iraque. O apoio maciço da mídia global às razões do Império. Razões que se fundavam em mentiras vergonhosas, facilmente identificáveis por qualquer pessoa minimamente informada sobre o que se passava no Iraque desde a primeira guerra do Golfo.

Os Estados em geral vão à guerra contra a vontade dos povos. Mas as mentiras foram de tal maneira marteladas como verdades autoevidentes que pela primeira vez desde a guerra do Vietnã as pesquisas mostraram apoio popular a uma guerra nos Estados Unidos. Ali começava a era das fake news, da pós-verdade. Do outro lado, uma opinião pública britânica que ocupou maciçamente as ruas contra a guerra, sem impedir Tony Blair de aderir, despudorado.

Diferente do Vietnã, os Estados Unidos no Iraque não mais empregando recrutas compulsórios, mas soldados contratados a peso de promessa de bom salário. A invasão arrasadora foi curta, assassinou Saddam Hussein sem contemplação. Hoje as petroleiras ocidentais assumiram o controle do petróleo iraquiano, os Estados Unidos implantaram bases militares no território iraquiano, de transcendental importância estratégica. Do ponto de vista da sociedade, a vida melhorou para os curdos ao norte e para os xiitas ao sul, uma minoria e uma maioria oprimidas pelo regime do partido Baath. Já os soldados assalariados americanos voltaram mutilados, cegos, psicologicamente afetados. A presença de veteranos de guerra é algo que não temos no Brasil, embora tenhamos dois capítulos significativos em nossa história – os estropiados e infelizes veteranos da guerra do Paraguai e os honrados homenageados pelo Monumento aos Pracinhas no Rio.

Todo cuidado é pouco. Tudo é muito complicado. Menos o sangue que corre das têmporas de alguém atingido pelas bombas e botas de um exército qualquer, uma milícia qualquer. O Horror.

[12 de agosto]

Na Venezuela, temos dois golpes.

O golpe que a oposição quer dar ou já deu ao divulgar atas que ninguém sabe se são realmente autênticas, mas que adquiriram certa respeitabilidade depois do aval do Centro Carter. E o golpe que Maduro deu, está dado, ao se autoproclamar Presidente sem provas de que realmente venceu.

Acho que algumas vozes têm razão sobre o que o Brasil deve fazer. Segue o jogo, a contragosto, com reclamações, exige-se o fim da repressão contra a extrema direita antichavista e investe-se na esperança provavelmente utópica de que as próximas eleições legislativas e estaduais sejam mais justas na Venezuela. Exige-se de Maduro o fim da repressão à oposição de direita porque esta demonstrou que tem base social.

Sou totalmente contra o Brasil romper relações econômicas e culturais com a Venezuela, pelo contrário, acho que devem se ampliar. Mas talvez vertentes da diplomacia brasileira clássica tivessem razão, quando viam uma impossibilidade de relações saudáveis entre o Brasil e toda a região bolivariana original – Bolívia, Colômbia, Venezuela, América Central. Daí porque a primeira versão do Mercosul foi voltada apenas para o Cone Sul.

A primeira prova de fogo do poder lulista com a Bolívia eu achei exemplar. Pela primeira vez na história não foi praticado imperialismo quando a Bolívia de Evo nacionalizou empresa brasileira. Emoção! Lula esteve na vanguarda do mundo ao reconhecer a ascensão do povo indígena na Bolívia. A coisa agora está meio destrambelhada, com a briga entre Arce e Evo, mas a Bolívia plurinação avançou e muito civilizacionalmente. Apesar da fome do Musk pelo lítio. Sai fora, caipora!

[15 de agosto]

Que tanto batem cabeça os Jefes de Sudamérica?

Só não haverá mais governo Maduro se as instituições venezuelanas assim o decidirem, na forma da legalidade lá deles. A pior hipótese seria se essa decisão viesse das forças militares. Seria um retrocesso. O chavismo foi um caudilhismo popular que se assenhoreou pelo voto das instituições republicanas, conquistando uma hegemonia baseada na rejeição e no ressentimento por um passado de humilhação da população no país do mundo que mais petróleo tem. É uma ignomínia que os oposicionistas que desejam derrubar Maduro apelem a golpe militar. O preço que pagariam seria sua subordinação. Nada novo, apenas sinal trocado e com alinhamento automático aos Estados Unidos.

O que se quer? O fim imediato da repressão política e o questionamento pelo Brasil do desrespeito aos direitos civis na Venezuela. Um não reconhecimento cabal do resultado da eleição realizada, mas também o reconhecimento de que passar a Presidência para Gonzalez só é aceitável se feito pelo Congresso ou pelo Judiciário daquele país. Veto a uma imposição externa, veto a um golpe militar. Maduro confia que vai continuar mantendo o apoio do chavismo e das instituições nacionais no âmbito interno e conta com a ajuda de China e Rússia. Será esta sustentável ou suficiente para superar a crise?