Série Mitomanias/Mitologias | Possibilidade, por Raul Antelo

Tornozeleira eletrônica, Possibilidade e Rios enterrados de São Paulo são os temas da série Mitomanias/Mitologias desta semana. Rodrigo Jorge Neves traz uma reflexão sobre a vigilância e os estigmas associados às tornozeleiras eletrônicas, dispositivos de controle que redefinem as fronteiras da liberdade e da exclusão. Raul Antelo escreve sobre o conceito de “possibilidade”, desvendando suas raízes e os impactos nas sociedades contemporâneas, onde a crise se mistura ao desejo e à desobediência. Por fim, Maurício Ayer revisita os rios paulistanos soterrados, que resistem como assombrações da natureza urbana, desafiando a modernidade que os recalca sob a cidade. Três textos que nos convidam a repensar as práticas e os valores que moldam a vida urbana e política atual.

série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.

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Possibilidade

Por Raul Antelo (UFSC)

Toda possibilidade conota poder. Este conceito, ora nominal ora verbal, provém do verbo latino possum, posse, e do adjetivo potis (potente; originariamente, ser dono ou proprietário), construídos a partir do tema indo-europeu *poti-, que designa um chefe de família ou líder de um clã. Sobrevive nos termos gregos posis (=esposo) ou despotês (=mestre, patrão). O impessoal latino potest, do qual derivam os adjetivos cultos possibilis e impossibilis, que são traduções do grego dynatós e adýnatos (construídos a partir de dynamis, a força), leva a uma compreensão do poder que coloca a possibilidade como categoria de modo (possibilitas). Diferencia-se, assim, do impossível, do contingente e do necessário, e separa-se em duas vertentes, uma delas, vinculada à potencialidade como categoria ontológica (potentia), separa as áreas do real ou o atual; a segunda, tomada em sentido político, é a potência (potestas), definida em função do dever e da autoridade. As frequentes interferências entre esses dois domínios, o lógico-ontológico e o ético-político, acentuam-se, vertiginosamente, a partir da Guerra Fria.

Com efeito, ao separar-se da vanguarda canônica, Marcel Duchamp faz o primeiro gesto com seus vidros, anos mais tarde relidos em Possible (1958). É possível fazer uma obra que não seja de arte? É possível fazer arte que não se torne obra?[1]. Em “O autor como produtor” (1934), Walter Benjamin, elogiando o teatro épico de Brecht, diz que ele não reproduz ações, antes as descobre por meio da interrupção das sequências, interrupção essa que não busca excitar, mas, pelo contrário, organizar politicamente a resposta. Ainda durante a guerra, na primavera de 1944, no exílio mexicano, visto como um eclipse de dois objetos alinhados, Europa / América, o dissidente Wolfgang Paalen desenvolve uma poética da contingência, uma filosofia do possível, que concebesse a arte como uma equação rítmica do mundo, totalmente complementar à teoria da ciência. Só à colaboração entre arte e ciência caberia a possibilidade de uma nova ética, capaz de acabar com o obscurantismo metafísico e religioso. Mais do que possível, Paalen achava indispensável dissociar imaginação e metafísica para entender que a imaginação cria a realidade tanto quanto esta alimenta a imaginação. Jean-Luc Godard iria mais longe: “aqueles que não têm imaginação buscam refúgio na realidade. Resta saber se o não-pensamento contamina o pensamento” (Adeus à linguagem, 2014). Há pensamento como saber do possível quando, definido o modo de ser dos objetos, cumpre desenvolver um conjunto de olhares competentes, que definam as condições em que esses objetos poderão inserir-se no discurso e, para além da dispersão de perspectivas divergentes, considerá-los verdadeiros.

É durante a guerra também que um programa econômico como o de John Maynard Keynes se torna viável, porque, só durante uma guerra, as forças produtivas são levadas ao limite de suas possibilidades, tal como uma máquina de dupla face, guerra e produção, o que acelera o desenvolvimento da organização do trabalho, da ciência e da técnica, num inequívoco aumento da produtividade. Mesmo assim, quando o eclipse da razão parece total, em meio à maior adversidade, algo ainda não visto e mesmo desconhecido instala-se para desconcerto de todos (Paalen, 1944: 15-20). Dois discípulos de Paalen, Robert Motherwell e Harold Rosenberg, empreendem, em Nova York, junto a John Cage, o projeto Possibilities (1947); mas é só em 1950, quando o próprio Paalen consegue montar, em São Francisco, a exposição Dynaton. A New Vision[2]. Na leitura de Rosenberg, particularmente, desliza-se uma importante reconfiguração, de enormes consequências, remotamente vinculadas à continuidade tempo-espaço e às pesquisas sobre a quarta dimensão. Tò dynatón já não pressupõe uma potência negativa; ela é agora pura ação afirmativa, American action painting, mais do que American action painting (Antelo, 2018). Como logo compreenderam os situacionistas, que achacavam aos surrealistas terem tido a lucidez de suas paixões, sem nunca chegarem à paixão da lucidez, o gesto significava criar, em meio aos paraísos artificiais do capitalismo e os paraísos da Realpolitik do socialismo, um agressivo espaço-tempo de infinitas dobras, que o sistema da mercadoria e do espetáculo só continuaria esvaziando e aprofundando, até o infinito e além. Ciente do desvio, Paalen passou a pensar a possibilidade como livre arbítrio de um sujeito que age sem relato prévio, sem lei. Mas, nesse ponto, o eurocentrismo entrava pela porta dos fundos e Paalen reduzia seu horizonte ao de Kakânia, kaiserlich und königlich, imperial e real. As possibilidades coincidiam com o limitado horizonte de um homem sem qualidades da Mitteleuropa.

De fato, Robert Musil antecipa, precisamente no seu romance de 1942, o homem da pós-verdade e do mundo neoliberal, o homem sem conteúdo (1970), ou, ainda, o homo sacer (1995), de Giorgio Agamben:

Mas se existe senso de realidade, e ninguém duvida que ele tenha justificada existência, tem de haver também algo que se pode chamar senso de possibilidade. Quem o possui não diz, por exemplo: aqui aconteceu, vai acontecer, tem de acontecer isto ou aquilo; mas inventa: aqui poderia, deveria ou teria de acontecer isto ou aquilo; e se lhe explicarmos que uma coisa é como é, ele pensa: bem, provavelmente também poderia ser de outro modo. Assim, o senso de possibilidade pode ser definido como capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser, e não julgar que aquilo que é seja mais importante do que aquilo que não é. Vê-se que as consequências dessa tendência criativa podem ser notáveis, e lamentavelmente não raro fazem parecer falso aquilo que as pessoas admiram, e parecer permitido o que proíbem, ou ainda fazem as duas coisas parecerem indiferentes. Essas pessoas com senso de possibilidade vivem, como se diz, numa teia mais sutil, feita de nevoeiro, fantasia, devaneio e condicionais (…). Mas o possível não abrange apenas os sonhos de pessoas de nervos fracos, e sim os desígnios divinos ainda desconhecidos. Uma experiência possível, ou uma verdade possível, não são iguais à experiência real e verdade real menos o valor da realidade; ao contrário, ao menos do ponto de vista de seus seguidores, têm em si algo divino, um fogo, um voo, um desejo de construção e uma utopia consciente, que não teme a realidade, mas a trata como missão e invenção. (…) É a realidade que traz as possibilidades, e nada mais errado do que negar isso. Mesmo assim, no total ou na média serão sempre as mesmas possibilidades repetidas, até chegar uma pessoa para a qual uma coisa real não signifique mais do que o imaginado. Será ela quem dará sentido e destinação às novas possibilidades, que há de provocar. (…). Ou talvez se exprima isso melhor de outro modo, e o homem com senso comum de realidade se assemelha a um peixe que abocanha o anzol sem ver a unha, enquanto o homem com aquele senso de realidade, que também se pode chamar senso de possibilidade, puxa uma linha pela água e não tem ideia se existe uma isca presa nela. Uma extraordinária indiferença em relação à vida que morde a isca traz consigo o perigo de fazer coisas totalmente aleatórias. Um homem sem senso prático — ele não apenas parece assim, mas é assim — é inconfiável e imprevisível no trato com as pessoas. Cometerá atos que lhe significam outra coisa do que para os demais, mas tudo o deixa tranquilo, desde que possa ser sintetizado numa ideia extraordinária. Além disso, ele hoje ainda está muito longe de ser consequente. É bem possível que um crime que prejudique a outros lhe pareça apenas um erro social, cuja culpa não cabe ao criminoso, mas à ordem social. Mas é de duvidar que, recebendo uma bofetada, ele a considere insulto da sociedade, ou tão impessoal quanto lhe pareceria a mordida de um cão; provavelmente, primeiro ele devolverá a bofetada, depois pensará que não devia ter feito isso. E por fim, se lhe roubarem uma amada, ele hoje ainda não conseguirá ignorar inteiramente a realidade desse fato e consolar-se dessa perda com uma emoção nova e surpreendente. Essa evolução ainda está em curso, e para o indivíduo representa ao mesmo tempo fraqueza e força.

E como a posse de qualidades pressupõe certa alegria por serem reais, podemos entrever como uma pessoa que não tenha senso de realidade nem em relação a ela própria pode sentir-se de repente um homem sem qualidades (Musil, 1989: 16-18).

Nas categorias modais tradicionais, o impossível (não poder) opõe-se ao possível (poder), tanto quanto o necessário (poder efetivo) se opõe ao contingente (poder não). Mas, se admitimos que o real não pode não ser, a possibilidade torna-se compatível com a necessidade, donde ela simplesmente constata o vazio da verdade. O real é o que não pode não ser e o potencial é a possibilidade geral das impossibilidades não efetivadas. Em outras palavras, o campo das possibilidades que determinam o impossível, ou seja, o desejar desobedecer que alimenta os levantes de Didi-Huberman. A defesa intransigente das possibilidades revela, porém, um não querer saber das nossas impossibilidades.

A crise é o tempo das oportunidades, diz a vulgata. As possibilidades confundem-se com esses ventos que levam a nau a bom porto (aliás, oportunidade é conceito da época das Descobertas, auge dos Impérios). A crise, ferramenta de controle contemporâneo, produz a sensação de perigo iminente e irreversível, o que torna as populações, dominadas por esse fantasma, previsíveis e manejáveis, completamente iludidas de que suas ações são (finalmente!) livres, mesmo que, de fato, ninguém as obrigasse a qualquer coerção. Os homens sem qualidades e de inúmeras possibilidades desconfiam, em consequência, da palavra porque ela divide, e só confiam na imagem que, deliberadamente organizada pelas corporações, agrega. A visão triunfa então por sua inoperância.

Um mundo de imagens, ubíquas, onipresentes e invasoras, passa a constituir o novo universo das possibilidades. Esse mundo é inoperante para o pensamento, para a lembrança, para qualquer existência que não seja simples representação, para a vida como mera substituição, porém efetivo, em última instância, para poder aglutinar um grupo: os que aceitam, sem crítica, as possibilidades. As imagens artificiais das possibilidades, definidas como infinitas, permitem, assim, a hegemonia de um homem sem qualidades que, conforme avança a técnica, delega a um aparelho qualquer uma qualidade que lhe era antes específica. A técnica pensa por ele e, em função disso, não precisa mais rememorar: ele tem seu próprio álbum de retratos e basta. Em vez do lento processo da reflexão, goza agora da imediatez da evidência. O homem das possibilidades já não ouve mais, tudo lhe adentra pelos olhos. E não sabe mais falar: bastam-lhe as evidências. O homem das possibilidades alimenta um recalcado desprezo pelo discurso. Seu poder é potência. Pura força. O resto é literatura.


Notas

[1] Maurizio Lazzarato (2014) vê, nesse gesto, uma recusa do trabalho. Sob a perspectiva marxista, essa recusa remetia a algo diverso de si, à política, não só como partido, mas também como Estado. Duchamp, entretanto, nos convida a pensar a recusa como inércia e desmobilização para podermos compreender tudo aquilo que a ação ociosa cria como possibilidade, fundamentalmente, uma redefinição da subjetividade, ao inventar novas técnicas de existência e novas formas de habitar o próprio tempo.

[2] Ver Dynaton A New Vision. Obras de Wolfgang Paalen, Gordon Onslow Ford, Lee Mullican. San Francisco Museum of Art, San Francisco, 1951; Wolfgang Paalen: Philosopher of the Possible. Wendy Norris Gallery, San Francisco, 2014.

Referências

ANTELO, Raul. (2018). Visão e potencia-de-não. Rio de Janeiro, Zazie Edições.

DUCHAMP, Marcel. (1958). Possible. Alès (Gard), P. A. B. (Pierre-André Benoit).

LAZZARATO, Maurizio. (2014). Marcel Duchamp e il rifiuto del lavoro. Milano, Temporale.

MUSIL, Robert. (1989). O homem sem qualidades. Trad. Lya Luft e Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

PAALEN, Wolfgang. (1944). During the Eclipse. Dyn, 6, México.


Sobre o autor

Raul Antelo é doutor em Literatura brasileira pela USP. Foi professor de literatura na Universidade Federal de Santa Catarina, Guggenheim Fellow e professor visitante nas Universidades de Yale, Duke, Texas at Austin, Maryland e Leiden. Atualmente, é professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina.

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