Coleção Pensamento Político-Social da Hucitec | Entrevista com Gilberto Hochman

Na série especial sobre a Coleção Pensamento Político e Social da Hucitec, trazemos hoje entrevista realizada por André Bittencourt (UFRJ) com Gilberto Hochman (Fiocruz), organizador, ao lado de Nísia Trindade Lima, da coletânea Médicos intérpretes do Brasil.

Lançado em 2015, o livro tem como originalidade selecionar médicos, de diferentes períodos do século XIX ao XXI, que interpretaram a sociedade brasileira. As abordagens nos diferentes capítulos exploram tanto o conteúdo quanto o contexto das produções desses médicos-intérpretes, enfatizando a relação entre suas ideias e o processo de construção social no Brasil. O enfoque nos textos originais e na trajetória dos autores revela como essas interpretações buscaram entender a unidade nacional diante das desigualdades regionais e socioeconômicas. Além disso, o livro demonstra como ideias científicas e culturais circulam ao longo do tempo, influenciando opiniões e decisões políticas, mesmo se reconfiguradas.

A Coleção Pensamento Político e Social, da editora Hucitec, foi criada em 2010 por Elide Rugai Bastos (Unicamp), Gabriela Nunes Ferreira (Unifesp) e André Botelho (UFRJ), com Maurício Hoelz (UFRRJ) completando o time atual de diretores. Nesta série especial da BVPS, estamos retomando títulos publicados, alguns deles já clássicos da área de pesquisa em suas intersecções entre a sociologia e a ciência política, sobretudo, mas também cultura contemporânea. Para conferir outros textos sobre a Coleção, clique aqui.

Boa leitura e não deixe de acompanhar nosso Instagram!


Entrevista com Gilberto Hochman, coorganizador de “Médicos intérpretes do Brasil”

Por Andre Bittencourt (UFRJ)

Andre Bittencourt: Para começarmos, gostaria que você falasse um pouco sobre como o livro foi concebido. Ele, sem dúvida, está relacionado às agendas de pesquisa da Fiocruz, especialmente do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências, e às trajetórias individuais sua e da coorganizadora, Nísia Trindade Lima. Poderia nos contar como vocês chegaram à categoria de “médicos-intérpretes” e como foi o processo de seleção dos médicos discutidos nos capítulos?

Gilberto Hochman: Inicialmente, é necessário reconhecer que foi o artigo de Luiz A. Castro-Santos, “O pensamento sanitarista na Primeira República: uma ideologia de construção de nacionalidade” (1985), aquele que instigou um grupo de jovens mestres em ciências sociais, do qual faziam parte os organizadores da coletânea, a refletir e pesquisar sobre as relações entre ciência, saúde e sociedade no Brasil. No final dos anos 1980, iniciávamos nossas carreiras como pesquisadores numa instituição quase nonagenária de saúde pública e ciências biomédicas, a Fiocruz, muito resistente, ainda, às incursões das humanidades em seus tradicionais campos e no campi. Nosso desafio intelectual, político e institucional era mostrar que, sob o olhar da história e das ciências sociais, seria possível compreender o lugar da ciência e da saúde (e da doença) na construção do Estado Nacional ou, ao menos, na conformação de ideias sobre o Estado, território, populações, políticas públicas e identidade nacional. E cabe registrar que a disciplina de Pensamento Político no Brasil, coordenada por José Murilo de Carvalho em 1984 — creio que até então inédita na pós-graduação —, e a de Sociologia da Ciência ministrada por Simon Schwartzman em 1991, ambas no antigo IUPERJ, foram fundamentais para nossa formação e reflexão.

A nosso favor, eram tempos de redemocratização, de otimismo, de reforma sanitária, de uma nova Constituição e da construção do Sistema Única de Saúde (SUS). Tempos que demandavam rever, criticar e dar sentido à história da saúde pública, e da própria Fiocruz, como parte, ainda com muitas contradições, de um projeto reformista, republicano e nacional. O (não tão) óbvio, desconfortável para muitos, precisou ser dito: as fronteiras que separam ciência, política e sociedade são arbitrárias, social e historicamente construídas, e poderiam ser, analiticamente, borradas. Médicos, sanitaristas e cientistas foram, e continuam sendo, intelectuais e atores políticos que formularam e compartilharam projetos e interpretações do país.

Concretamente, as origens do livro Médicos Intérpretes do Brasil (2015) remontam às pesquisas de tese de doutorado dos organizadores, que resultaram em dois livros “primos” que circularam bastante, com reimpressões, novas edições e citações, ambos publicados pela Hucitec Editora: A Era do Saneamento (Hochman, 1998; 2006) e Um Sertão Chamado Brasil (Lima, 1999; 2013), além da repercussão e sucesso da coletânea Raça, Ciência e Sociedade (1996), organizada por Marcos Chor Maio e Ricardo Ventura Santos. O livro de Nara (Britto) Azevedo, Oswaldo Cruz — A construção de um mito na ciência brasileira (1996), teve origem no mesmo grupo de pesquisa sobre movimentos pela reforma da saúde na Primeira República, para os quais um herói da ciência era fundamental. Esses livros foram os primeiros resultados de uma ampla agenda de pesquisa sobre o lugar da saúde e da ciência no pensamento social e político brasileiro. Ela precedeu e ajudou a ancorar a criação do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS) da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz em 2001, e foi bem acolhida em espaços como o GT Pensamento Social no Brasil da ANPOCS e nos seminários da ANPUH e associações correlatas.

Nesse percurso de pesquisa, sublinhamos que médicos escreviam sobre o Brasil tanto em sua rotina profissional quanto como intelectuais, literatos e políticos. Afinal, até o final dos anos 1940, a medicina mantinha características do que Edmundo Campos Coelho denominou de “profissão imperial” (junto com o direito e a engenharia), integrando uma pequena elite com pouca diferenciação interna e fortemente associada ao poder. E foi na primeira metade do século passado que o pensamento médico-higienista mais fortemente influenciou as representações sobre a sociedade brasileira e criou, por exemplo, uma de suas mais poderosas e perenes imagens: a do Brasil como imenso hospital. Por outro lado, frisamos, também, que muitos dos textos que se tornaram clássicos para a interpretação do país incluíram forte presença de temas e textos médicos e relatórios de viagens científicas como fontes e suporte aos argumentos.

A coletânea, que dada a sua dimensão nos tomou mais de cinco anos para realizar, foi planejada para oferecer um conjunto de textos de médicos sobre dimensões e aspectos fundamentais da sociedade brasileira, acompanhados de ensaios sobre o autor e sobre o texto escolhido. A “categoria” médicos-intérpretes objetivou chamar a atenção para inéditas, potentes, malditas ou pouco conhecidas leituras sobre o Brasil a partir de médicos que não estão no “panteão” do pensamento social brasileiro. Além disso, buscamos incluir nesse conjunto consagrados intérpretes que os leitores talvez não identifiquem como médicos, mas cujas obras são marcadas pela formação médica, como, por exemplo, Manoel Bomfim, Josué de Castro, Roquette-Pinto e Guimarães Rosa. Ao propormos médicos-intérpretes não visamos erigir um novo ou alternativo panteão, nem reivindicar uma singularidade nessas interpretações do Brasil, mas integrá-las no campo mais amplo do pensamento social em diálogo com as suas diferentes linhagens.

Toda escolha é sempre dramática e implica um exercício discricionário. Todavia, a nossa buscou definir alguns critérios. Nossas escolhas dos médicos intérpretes (29 capítulos no total), todos falecidos — de Nina Rodrigues (1862-1906) a Sergio Arouca (1941-2003) —, consideraram o mais significativo em termos de interpretação da sociedade brasileira a partir da ciência, saúde e medicina no período republicano, não necessariamente pela sua contribuição científica de cada um[1]. Assim, sublinhamos o impacto de suas ideias no debate político e intelectual e, também, buscamos especialistas de diferentes áreas que já haviam se debruçado, em algum momento, sobre biografias e produção intelectual desses médicos. Desse modo, procuramos reunir textos dos médicos-intérpretes e análises que permitiram contextualizar as diferentes trajetórias e perspectivas (autoritárias ou progressistas) e, muitas vezes, indicar caminhos outros, e mesmo surpreendentes, de leitura. Um dos grandes desafios foi o de que as desigualdades da sociedade e da medicina dificultaram a localização de médicas-intérpretes para serem incorporadas (apenas três: Francisca Praguer Fróes, Nise da Silveira e Zilda Arns). Se a desigualdade de gênero é clara, é também reduzido o número de médicos-intérpretes pardos e negros que ingressaram na coletânea. Esse é uma dimensão que merece atenção em uma futura revisão do livro.

AB: Ao apresentar o livro aos estudantes de graduação, percebo que muitos ficam especialmente surpresos pelo fato de médicos também poderem ser entendidos como intérpretes da sociedade. Como você avalia as transformações no papel social dos médicos no Brasil ao longo do tempo? Em sua opinião, ainda há espaço para “médicos-intérpretes” nos dias de hoje?

GH: As mudanças na sociedade brasileira, a expansão da saúde pública e da previdência social, o desenvolvimento das ciências biomédicas e a criação de inúmeras escolas de medicina transformaram, ao longo dos últimos 100 anos, essa profissão. Até o final da Primeira República, todos os médicos e médicas eram formados em três faculdades (Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo) e se mantiveram, diferentemente dos engenheiros, como “imperiais” ou especiais. Como mencionei, muitos eram literatos e políticos, enfim, intelectuais que participavam de um circuito exclusivo e excludente de ideias, proposições e decisões sobre o Brasil. Nessa condição, foram membros da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Brasileira de Letras, dos Institutos Históricos, deputados e senadores, e tinham seus discursos, textos e romances publicados em jornais, revistas e livros.

Esse quadro começou a se modificar a partir do Primeiro Governo Vargas e, especialmente, durante a presidência do médico Juscelino Kubitschek e, depois, nos governos militares. A criação de mais escolas fora do eixo Rio-São Paulo-Salvador, o aumento de vagas e a formação de médicos fora dos circuitos da elite, além da emergência do Estado de bem-estar como empregador (associado ao surgimento de trabalhadores organizados na vida política) e o crescente assalariamento dos médicos, modificaram, em parte, seu papel social. Ainda que médicas e médicos mantenham grande legitimidade social, reforcem a ideia de serem uma “profissão liberal” (a clínica), advoguem pelo monopólio (nunca realizado) das práticas de cura (e de um saber especial) e se apresentem com uma aura “quase divina”, elas e eles se assemelham, cada vez mais, a outras profissões. Esses deslocamentos também ocorreram no que seria o campo progressista. O movimento da saúde coletiva, que surge na luta contra a ditadura militar e se consolida com a redemocratização, é fundamentalmente multiprofissional e multidisciplinar, incorporando atores diversos — por exemplo, os cientistas sociais e movimentos sociais, que tornaram a saúde pública “menos biomédica”, na qual médicos e médicos têm uma entre outras vozes relevantes.

A etiqueta de intérprete, médico ou não, é estabelecido, nunca a priori, por múltiplos mecanismos e espaços de consagração, de consensos e de interesses. Nesse sentido, há uma dimensão de atribuição razoavelmente discricionária, pela simpatia ou antipatia a partir de parâmetros históricos e sociológicos (mas não chegamos a Cazuza, “o nosso amor a gente inventa” …). Um bom exemplo foi a escolha de Sergio Arouca, médico sanitarista, político e um dos formuladores do Sistema Único de Saúde, para figurar como médico intérprete do Brasil. Arouca possuía sólida formação acadêmica, mas sua dedicação intelectual e política à reforma sanitária brasileira e à luta contra a ditadura, por ser urgente, não se expressaria em obra impressa. Todavia, seus discursos trouxeram uma inédita e definitiva contribuição intelectual e política, isto é, a relação intrínseca entre saúde e democracia. Revisou, desse modo, a leitura de parte da esquerda que, desde os anos 1950, compreendia que a solução para os problemas sanitários se daria via desenvolvimento ou revolução, na qual a democracia não fazia parte da equação. Nesse sentido, assim como Arouca seria um intérprete improvável para muitos, o espaço para “médicos-intérpretes”, hoje e amanhã, não dependerá apenas de escritos.

AB: Durante a pandemia da Covid-19, tornou-se evidente que as políticas públicas na saúde necessitam de compreensões acuradas sobre a realidade social brasileira, especialmente em relação às desigualdades sociais e diferenças regionais. Passado aquele período turbulento, temos à frente do Ministério da Saúde a coorganizadora do livro, Nísia Trindade Lima. Você poderia falar um pouco sobre como a pandemia pode ser lida à luz do livro e vice-versa?

GH: A pandemia da Covid-19 tornou evidente que as políticas públicas na saúde necessitam de compreensões acuradas sobre a realidade social brasileira, especialmente em relação às desigualdades sociais e diferenças regionais. O livro apresenta, justamente, uma centenária disputa interpretativa sobre o lugar da saúde na sociedade brasileira e quais seriam os caminhos para a melhoria das condições de saúde da população. A compreensão da saúde como problema social complexo é uma das características da socióloga Nísia Trindade Lima, coorganizadora do livro, hoje Ministra de Estado da Saúde. A pandemia também nos surpreendeu (talvez por ingenuidade) ao revelar a face antidemocrática e mesmo reacionária de parte da profissão médica e de suas principais organizações. Médicos e suas instituições raramente foram responsabilizados pelo seu apoio ao regime militar, em alguns casos com a participação direta na repressão a opositores e na violação de direitos humanos. A coletânea Médicos Intérpretes do Brasil permite perceber que as marcas do pensamento autoritário, racialista e excludente sempre estiveram presentes na medicina brasileira.


Nota

[1] Em uma resenha publicada nos Estados Unidos, o autor elogiou o livro, mas criticou a ausência de Oswaldo Cruz na seleção dos médicos-intérpretes. Se tivesse oportunidade, responderia que Cruz, apesar de ser o grande herói da saúde pública brasileira, não elaborou, em discursos e escritos, pelos menos os conhecidos, uma interpretação do país tal qual Carlos Chagas, seu sucessor no Instituto Oswaldo Cruz, e seus contemporâneos Miguel Pereira, Miguel Couto, Afrânio Peixoto e Belisário Penna.