Coluna MinasMundo | Drummond e Silviano, por João Pombo Barile

Dia 31 de outubro, dia D, Dia de Carlos Drummond de Andrade. A BVPS tem a alegria de publicar na Coluna MinasMundo um trecho da biografia de Silviano Santiago que João Pombo Barile está finalizando para a editora Autêntica. Na pesquisa para o livro, Barile encontrou entre papéis pessoais de Silviano uma página do jornal Estado de Minas, datada de 18 agosto de 1968, em que Drummond e o então jovem doutor pela Sorbonne aparecem lado a lado. E tratando de um tema comum: os estudantes franceses e os eventos daquele maio de 68 que agitaram Paris e mudaram a cara do mundo. É sobre esse período da vida de Silviano o trecho da biografia de Barile que publicamos em primeira mão. Drummond e Silviano já foram tema de postagem na BVPS, quando publicamos o datiloscrito do poema do itabirano dedicado a Silviano (confira aqui).

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Boa leitura!


Por João Pombo Barile

Nota explicativa: Carlos Drummond de Andrade é mesmo um dos autores mais importantes na formação de Silviano Santiago. O escritor mineiro conhece a obra do poeta de Itabira de trás para a frente. E desde jovem. Já nos anos 1960, quando dava aula nos Estados Unidos, Silviano escreveria “Camões e Drummond: A Máquina do Mundo”. Publicado na revista norte-americana Hispania, em setembro de 1966, o ensaio conquistaria até mesmo o exigente Drummond, que acabou escrevendo um poema em homenagem a Silviano. Em 1976, ele voltaria a obra do mestre mineiro. E esculpiria uma pequena joia: Carlos Drummond de Andrade, um pequeno ensaio introdutório sobre a obra do poeta de Alguma Poesia. Publicado na coleção Poetas Modernos do Brasil, o livro é hoje disputado a tapa nos sebos, virtuais ou não, de todo país. Em 2002, ele ainda publicaria Carlos & Mário (Correspondência de Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade). As notas, feitas por Silviano, são a melhor história do modernismo brasileiro que conheço.

Lendo e relendo os papéis pessoais de Silviano, para um ensaio sobre sua vida e obra que devo publicar nos próximos meses e que o leitor lê um pequeno trecho a seguir, esbarrei em uma página do jornal Estado de Minas. Nela, Drummond e Silviano aparecem juntos. Recém-chegado de Paris, onde tinha ido defender seu doutorado na Sorbonne, Silviano tenta explicar para seus conterrâneos mineiros a grande confusão que os estudantes franceses estavam fazendo em Paris. Bem ao lado, Drummond publicava uma crônica onde homenageia os estudantes franceses.

Estávamos em agosto de 1968. Meses depois o AI-5 seria assinado. E o país mergulharia na barbárie.

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Drummond & 1968

“Nem pense em voltar”. Quem lê as cartas de Ezequiel Neves, escritas para Silviano no período em que ele morou na França e nos Estados Unidos, esbarra o tempo todo com esta frase. Toda vez que a saudade batia, o conselho do amigo exagerado era o mesmo: fique por aí mesmo, não volte. Não vale a pena. Com a ditadura civil-militar destruindo a cultura brasileira desde março de 1964, Ezequiel não cansava de repetir que o melhor que Silviano podia fazer era ficar longe do país. Em uma das cartas, datada de 2 de abril de 1966, podemos ler:

Você fala em voltar. Tenho receio. Pretende se fixar onde? Será vantajoso? (….) Isso aqui não é terra de permanência. Nossa situação merece Prêmio Nobel de Subdesenvolvimento. Me diga com certeza o que você pretende.

Silviano, que quase sempre ouvia o amigo, naquele ano de 1968 decidiu ignorar o conselho. Com quatro anos sem pisar na Terra Brasilis, assim que finalmente consegue defender o doutorado, em abril de 1968, resolve passar uma temporada no Brasil. E só não embarca imediatamente para cá porque seu orientador lhe pediu para que ficasse mais alguns dias em Paris. Pierre Moreau tinha enviado uma cópia de sua tese de Gide à editora Gallimard e era melhor que ele esperasse a resposta. A tradicional casa editorial francesa demonstrara interesse pelo texto. Interesse que não se concretizaria porque, na tese do jovem professor estrangeiro, ele tocava em assuntos melindrosos demais na vida do importante escritor francês. Aquilo poderia, eventualmente, gerar processo judicial para a editora ou até para Silviano.

Drummond e o artigo. No dia seguinte, cedo, o escritor já me esperava na biblioteca. Íamos conversar sobre o ano de 1968. E de sua rápida, e meio atabalhoada, passagem pela Universidade de Toronto. Nossos encontros, que geralmente aconteciam à tarde, já que o escritor sempre gosta de trabalhar de manhã, naquele dia começou às oito: o horário de sua aula de pilates tinha mudado. E Silviano, disciplinado, não queria perder de jeito nenhum a aula. Obediente, dez para as oito, eu já estava na portaria do prédio. 

Tinha conseguido finalmente encontrar, também perdido nas caóticas caixas, seu artigo de jornal escrito sobre maio de 1968. O escritor, que não participaria dos événements de mai, já que deixou Paris alguns dias antes das grandes manifestações, sempre falava do texto. E com grande entusiasmo. Era a sua explicação, repetia sempre, escrita no calor da hora, sobre o ano que mudou a cara do mundo. Diferente das cartas de Moreau, que não tinham lhe despertado interesse, ele estava curioso para ver a relíquia. Curiosidade que tinha aumentado ainda mais quando lhe disse que o artigo, que ocupava meia página do Estado de Minas da edição do dia 18 de agosto de 1968, tinha saído ao lado de uma crônica de Carlos Drummond de Andrade chamada “A rebelião dos jovens em feitio de oração: eis o Catecismo do Bom Rebelde”. No texto, o poeta de Itabira listava as 36 máximas do movimento Nous Sommes En Marche (Nós Estamos Em Marcha), que agitava Paris.

Foi só eu me sentar na poltrona e ele já foi logo me pedindo o artigo, que começou a ler em seguida.

Página 4, Jornal Estado de Minas, 18 de agosto de 1968

Antes da Revolução Francesa

Silviano Santiago

O comentarista é um homem da Renascença. Apalpa, sente, analisa e conclui. A bibliografia é uma invenção do século XIX. Um homem da Renascença, hoje, se tivesse de fazer considerações sobre o que pensa a massa, não sairia de porta em porta, distribuindo questionários científicos, mas veria e analisaria programas de televisão, leria e analisaria revistas (de noticiário e em quadrinhos), e tiraria as suas conclusões sobre o que pensa a massa. O comentarista não deve contar com a perspectiva histórica, nem aceitar o paternalismo dos estudos anteriores. O comentarista não vive da citação escrita, mas da citação ao vivo. Trabalha com os elementos que recolhe, consciente ou inconscientemente, no seu viver diário e nos seus contatos. Quanto maiores os contatos, melhor o comentarista.

Não vejo muito lugar para o comentarista na presente estrutura intelectual do mundo. É pichado logo de diletante, de subjetivo. Seu circuito informacional é logo tomado por um curto-circuito metodológico. Hoje se exigem método e definições científicas iniciais. Mas como nos diz Ezra Pound: a desconfiança é menor quando se recebe um cheque de Rockefeller, é maior quando se recebe um cheque de um pobre. Assim também para os valores intelectuais.

Não posso falar do que aconteceu, ou do que veio depois. Já estava no Brasil. Vou falar sobre o que veio antes. O sistema educacional francês antes da primavera. Primavera lembra brotos saindo da casca dura dos galhos, lembra pruridos.

Primavera nos países onde há quatro estações definidas significa também sair para as ruas, deixando de lado o conforto do quarto aquecido artificialmente. Os estudantes franceses e os negros americanos sabem disso.

Falarei então do inverno de 1968, antes da primavera, antes da revolução.

A verdadeira imagem de Paris. É preciso corrigir urgente a imagem que temos de Paris. Paris, como quase todos os grandes centros urbanos, está virando um centro comercial, deserto à noite, ou entregue às minorias econômicas. A classe média, seguindo de perto a mudança da estação de estrada de ferro para o aeroporto, está fugindo para os subúrbios. Carros possantes, estradas boas, menos horas de trabalho, a importância do lazer, a poluição do ar — são alguns fatores que ditaram esta transferência. Fora, é claro, a propaganda que surgiu contra o apartamento, e em favor da casa própria, com quintal, onde as crianças podem ter vida de criança.

O centro de Paris está tomado principalmente pelos árabes (argelinos na maioria), pelos negros (operários, frise-se), pelos espanhóis, pelos portugueses, e no que se refere à rive gauche, pelos estudantes. A tradicional imagem de Paris, com seus pintores e intelectuais, deve ser imediatamente apagada. Alguns grandes nomes da pintura durante o inverno ficam na periferia de Paris (é o caso de Vassarely, que mora ao lado da sua fábrica de quadros), já durante o verão descem para o sul da França, ou partem para o estrangeiro. Outros já passam seis meses na França, seis meses nos Estados Unidos: é o caso do pintor Buri, que transformou em moderna residência um mosteiro do século XVII, construído nos arredores de Paris, a 20 minutos de carro. Pelas ruas ficam alguns acadêmicos e minguados pintores de cavalete, mais figuras românticas que escolhem Paris por motivos de ordem sentimental e não artístico.

A classe média não prestigia as grandes casas noturnas de diversão.

Os estudantes estrangeiros predominam nos cafés e nas ruas do Quartier Latin. Não só têm mais dinheiro (alguns brasileiros acumulam três bolsas de estudo) do que o francês, como têm maior disponibilidade curricular. A sombra do fracasso numa estada parisiense pesa muito menos para o estrangeiro do que para o francês. Comenta-se que cada vez vêm menos estudantes estrangeiros para fazer pós-graduação em Paris. Não se fala dos estudantes de países africanos, antigas colônias francesas, onde o ensino universitário ainda se encontra em fase de organização. Fato curioso: nenhum dentista parte para a França para se especializar. Poucos médicos. Entre os latino-americanos: predomínio dos estudantes de ciências sociais. Explicação: o enfoque ideológico.

O elemento feminino (maioria) e o elemento masculino tímido preferem o conforto da Cité Universitaire aos hotéis do Quartier Latin.

Na Cité, na maioria das casas, regime medieval. Comenta-se o fato de haver dedos duros ou mesmo ouvidos nas paredes em certos pavilhões latino-americanos.

Por outro lado, tem-se de falar da descentralização do ensino francês. Nanterre fica no subúrbio de Paris. Cidades como Lyon, Grenoble, Aix-en-Provence etc. hoje atraem tantos estudantes estrangeiros quanto Paris.

Matemática e física. A França é um dos países mais adiantados do mundo em pesquisas matemáticas. O Instituto Poincaré reúne os melhores, sem discriminação racial, ou ideológica. A França se encontra bastante atrasada no ramo da Física. Se não me engano, não existe nenhuma revista de Física publicada na França de nível internacional. Esta defasagem entre uma disciplina que depende do pensamento abstrato, apenas do elemento humano, e outra que depende da sua aplicação e do progresso tecnológico, pode explicar parte do descontentamento estudantil francês no inverno de 68 (Matemática e Física são aqui um exemplo. Idêntica defasagem entre teoria e prática, entre o abstrato e o concreto, entre o papel e o laboratório se percebe em outros ramos do conhecimento científico).

A universidade francesa, ao contrário da universidade americana ou russa, dá pouca margem para a pesquisa. E se dá pouca margem para a pesquisa, menos dá, devido a razões de ordem econômica, para a pesquisa em ramos do conhecimento científico onde o laboratório tem importância capital, onde a invenção se opõe violentamente  ao conhecimento apenas histórico, à catalogação do passado. A universidade francesa não conseguiu o apoio estatal (URSS) ou o apoio estatal e privado (USA) que possibilita o bom entrosamento entre a pesquisa e o ensino, entre a pesquisa gratuita e a pesquisa dirigida. Não devia ter causado o escândalo que causou o fato de que certos grupos militares estivessem patrocinando pesquisas em suas universidades. Como não se deverá estranhar que o avanço bélico russo depende de alguns dos seus melhores professores universitários.

Já no campo da indústria privada, uma companhia como a IBM sustenta algumas pesquisas universitárias porque o progresso das suas máquinas e dos seus computadores depende em ordem direta do avanço de certas pesquisas universitárias em lógica matemática, em linguística generativa etc. Caso o modelo que a IBM venha a apresentar em 68 não ofereça melhorias consideráveis com relação ao modelo vendido em 67, as suas vendas cairão por terra. O mesmo sucede, como é mais conhecido, no campo da indústria automobilística. (Veja-se, por exemplo, toda a propaganda da Volkswagen que é sempre baseada em inovações introduzidas no seu mais recente modelo).

Este tipo de intromissão do capital privado na educação me parece impossível na França, bem como em todos os países subdesenvolvidos. Esta intromissão depende de um alto grau de sofisticação não só por parte das indústrias, como dos consumidores. A França, e de maneira mais total os países subdesenvolvidos, já compram as patentes. Não há lugar, pois, para a pesquisa. Tudo já vem esmiuçado, traduzido e empacotado. O resto é puramente mecânico. Daí as nossas dúvidas sobre o papel do investimento privado na universidade brasileira.

Antes da revolução, em janeiro de 68, um físico mineiro, radicado em Grenoble, me disse que o orçamento para a pesquisa em 68 seria o equivalente do orçamento global francês do ano de 1962.

Estruturas fechadas.  O professor universitário francês é o catedrático. Já se disse tudo nesta definição. Chega à sua cátedra depois dos 40, e depois de ter gasto 20 anos fazendo uma tese em que agrada aos seus professores, isto é, aos membros da geração anterior à sua. A cátedra é vitalícia. Tendo uma formação acadêmica (no mau sentido da palavra), vai exigir dos seus alunos aquilo que os seus mestres exigiram dele: disciplina, paciência visão histórica, cultura no sentido de acúmulo de informações (sob a forma de fichas, em geral). O diálogo é restrito — suas aulas são conferências. A parte da invenção é mínima na universidade.

Não há lugar para o elemento jovem na universidade francesa. Se existem alguns jovens, são assistentes, e logo compreendem o jogo do assistente, isto é, trata-se mais de agradar ao catedrático que a si mesmo. Pois, caso contrário: rua.

Para destruir o poder do ensino formal na formação do intelectual francês é que foi criado o Collège de France. Paul Valéry nunca ensinou literatura na Sorbonne, mas deu cursos no Collège de France. E é lá que se pode ouvir a voz e os ensinamentos de Lévi-Strauss, pai do estruturalismo, moderna metodologia e que, portanto, ainda não foi assimilada ou aceita pela universidade.

Nesse sentido, o sistema docente americano oferece algumas vantagens. Primeiro: o título acompanha o professor em qualquer mudança de universidade. Se ele é Assistant Professor em Harvard e se transfere para Princeton, ele ou é promovido a Associate Professor, ou continua com o seu mesmo título. Segundo: para a promoção (a partir de Assistant Professor), o professor apenas depende das suas publicações, ou seja, a tese é apenas um primeiro passo na sua carreira. Depois, esta depende somente das suas publicações, e nessas ele terá de agradar não à geração anterior, mas a sua própria. É conhecido o lema das melhores universidades americanas; “Publish or Perish” (Publique ou Morra). Terceiro: a instituição da forma de aula chamada “seminário” para os níveis avançados (assinale-se que ainda não existe esta palavra, com este significado, em francês). Menos alunos na sala, maior o rendimento. Menos alunos, maior o diálogo. Mais se põe à prova os conhecimentos do mestre e do aluno.

Educação de massa.  A grande revolução no sistema educacional francês nos últimos anos foi ainda a abertura de numerosas universidades na província, ocasionando uma necessária descentralização do ensino e o acesso à universidade das classes menos privilegiadas. A França acertou o passo com o século XX, substituindo a tradicional concepção europeia de elite intelectual (que ainda predomina no Brasil) pela concepção de educação para a massa, para todos. Usando a expressão de um educador brasileiro, educação não pode ser mais privilégio. Isso, de maneira esquemática, acarretou um grave problema social: existem hoje mais técnicos do que empregos. Se o ensino progrediu, a sociedade não o acompanhou; as oportunidades são mínimas, e entre um técnico bem protegido por políticos ou pistolões e um outro provinciano e tímido, não se pode duvidar quem será o escolhido. O descontentamento é geral entre os formandos de origem humilde, pois têm o diploma, mas não têm o emprego almejado. Um dos paliativos tem sido a controvertida questão da exportação de cérebros europeus, que inclusive vai corresponder a uma nova política imigratória (1965) por parte dos Estados Unidos: abolição do regime de “cotas” e preferência ao imigrante qualificado, o “doutor”.

Este paliativo, é claro, pode ser combatido do ponto de vista ideológico (veja-se Myrdal) mas não deixa de ser válido no plano individual. Não se pode esquecer que o cérebro humano só tem uma vida e que o período em que pode e é capaz de “criar” é bastante curto. Perder estes preciosos anos por escrúpulo ideológico não deixa também de ser uma tese bastante discutível.

Reivindicando, pois, uma mudança na estrutura social o estudante francês estaria pleiteando a sua melhor assimilação por parte da sociedade que perderia seus valores burgueses e preconceitos de casta (a aristocracia e as “grandes-familias”).

Pleiteando a mudança na estrutura educacional, o estudante francês estaria exigindo um maior interesse da nação para o problema do atraso do ensino francês com relação a outros países. O jornal Le Monde publicou uma estatística alarmante para a cultura francesa: o movimento editorial francês do ano de 1967 foi numericamente idêntico ao de 1880.

Bem ao lado do texto de Silviano, estava a crônica de Drummond.

A rebelião dos jovens em feitio de oração: eis o Catecismo do Bom Rebelde

Carlos Drummond de Andrade

Quem se recusa a compreender, que se aposente. É tempo de amar e de aprender a amar. Com frases como esta, os estudantes de Paris lançam, através do movimento Nous Somes En Marche (Nós Estamos Em Marcha), o Catecismo do Bom Rebelde, contendo 36 máximas.

1. Nós vivemos num período pré-revolucionário. Vemos crescer uma nova ideologia: cabe-nos aperfeiçoá-la.

2. Toda crítica à sociedade é ao mesmo tempo um ato de luta política. A política crítica não é nem coragem, nem fraqueza, é simplesmente um dever.

3. Deixemo-nos levar pelo entusiasmo para alcançar de novo o sentido do humano.

4. Recuperemos tudo o que há de bom no mundo atual e que tinha sido desfigurado.

5. Os professores têm de encontrar de novo no ensino as satisfações que hoje vão procurar nos congressos e em outras partes.

6. Todos os que têm medo da “aventura”, saibam que têm medo apenas da evolução do mundo.

7. A predominância intelectual política e social dos jovens sobre o resto da sociedade é um dado de fato.

8. Todo aquele que não estiver em condições de compreender, venha discutir conosco. Tudo pode ser explicado a todos.

9. Os nossos mecanismos psíquicos esclerosados e arcaicos devem ceder lugar à fantasia.

10. Vivemos num período crítico. Quem não sabe disso não pode compreender nada deste mundo.

11. Todas as nações existentes estão gastas e devem ser reformuladas.

12. A mudança não é um fim em si mesma. Entre a inércia e a agitação há uma margem suficiente para todo aquele que quiser esforçar-se a pensar.

13. Somente a verdadeira autonomia permite a criatividade.

14. O conceito de conflito entre as gerações deve desaparecer do mundo: é apenas uma máscara por trás da qual se esconde a luta pelo poder.

15. Se os pais cumprissem a sua missão de pais, a nossa revolta seria verdadeiramente evolução.

16. Toda criação é fruto de uma emoção vivida.

17. A diferença entre o homem comum e o gênio não está no nível intelectual, mas na vontade de progresso.

18. Toda criação nova baseia-se em elementos antiesclerosantes.

19. Os homens que governam as instituições (a do poder e a da oposição) devem continuar a cuidar dos negócios correntes, devem produzir o pão de cada dia. Amanhã seremos nós a fazer estas coisas no lugar deles, e lhes ofereceremos, de quebra, o dom da cultura.

20. Todos aqueles que não estão encarregados de cuidar dos negócios correntes devem decidir-se a descer para as ruas e recolocar em questão todos os seus esquemas mentais.

21. Comer e repousar todos os dias.

22. É preciso discutir por toda parte e com todos.

23. Ser indispensáveis e pensar politicamente é um direito de todos, não o privilégio de uma minoria de iniciados.

24. Ninguém se espante com o caos das ideias, ninguém o ridicularize, ninguém tire disto motivo de engano ou de alegria. Este caos é o estado de emergência das ideias novas.

25. Ninguém queira pregar uma etiqueta ao Movimento Estudantil, não há etiquetas, não há nenhuma necessidade disto. O movimento cria-se por si mesmo com todos aqueles que aderem a ele e deixa que cada um traga consigo a própria bagagem de ideias.

26. Quem se recusa a compreender, que se aposente. É tempo de amar e de aprender a amar.

27. Deve renascer em nós o prazer das festas.

28. A bandeira vermelha pode morrer, a bandeira negra também. Os pintores que se esforcem por inventar para nós mil bandeiras que exprimam a busca, o esforço, a revolução interior, o entusiasmo, a invenção.

29. Músicos e poetas, façam novas canções.

30. Inventemos para este verão um novo tipo de férias que nos permita não interromper o movimento.

31. Arranjemos cada dia uma tribuna na imprensa e nos outros meios de difusão das ideias.

32. Somente depois da explosão dos nossos métodos atuais de pensamento poderemos reconsiderar o mundo, desde seu começo.

33. A greve é proclamada. A universidade crítica e a empresa crítica estão já abertas. Os comitês de greve devem chamar-se «comitês fundadores da empresa e da universidade autônomas».

34. Quem não aprendeu a marchar com os outros não poderá conquistar a autonomia.

35. Quem conhece o caminho rumo à autonomia que o ensine aos outros.

36. Para que o homem possa se tornar realmente um homem.

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Tradição e ruptura

Já disse aqui e repito: o maior carrasco de Silviano chama-se Silviano. Assim que terminou a leitura do artigo, escrito há mais de meio século, o escritor fez uma cara ruim, parecia decepcionado. Não tinha gostado. “Na minha lembrança era diferente, muito melhor. Achei meio fraco. Muito técnico”, disse apenas.

Nem tentei argumentar que era só o artigo de um jovem professor, inexperiente, e que era preciso contextualizarmos. Tinha gostado da matéria: desde o elegante tapa na cara nos professores catedráticos da UFMG, até a revelação da resistência que a academia francesa fazia ao pensamento do antropólogo Lévi-Strauss, que só podia dar aulas no Collège de France. Mas não só: por vício jornalístico, tinha achado bonita a página. Nela, bem ao lado de sua matéria, podia-se ler o texto do velho poeta de Itabira. Na crônica, podia ler um Drummond revolucionário, interessado nas ideias do ativista Daniel Marc Cohn-Bendit.      

Tradição e ruptura já estavam, lado a lado, naquela página de jornal.

A imagem que abre o post é uma identificação de Silviano Santiago na Universidade de Paris, 1967.