
Finalizando à série especial Poder Local e Eleições Municipais, trazemos hoje um balaço geral do 2º turno das eleições municipais de 2024.
O texto, assinado por Josué Medeiros (UFRJ/UFRRJ), Rennan Pimentel (IESP/UERJ) e Maria Carolina Barreto (IESP/UERJ), destaca que as eleições municipais foram dominadas pela polarização política entre o campo progressista, associado a Lula, e o conservador, ligado a Bolsonaro, com disputas diretas e indireta em várias capitais. Os autores analisam ainda o impacto da “máquina política”, o papel das emendas parlamentares e dos governadores na reeleição de muitos candidatos, além de apontarem algumas tendências para as eleições presidenciais de 2026.
Esperamos que esta série especial BVPS tenha contribuído para aprofundar o entendimento sobre as dinâmicas políticas que ocorrem nos municípios brasileiros, suas raízes históricas, manifestações contemporâneas e implicações para o futuro da democracia no país.
A série especial Poder Local e Eleições Municipais foi organizada por Lucas Carvalho (UFF e coordenador do CP de Pensamento social da SBS) e Rennan Pimentel (doutorando IESP-UERJ). Para ler outros textos que publicamos, clique aqui.
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Caminhos da política brasileira de 2024 a 2026
Por Josué Medeiros (UFRJ e PPGCS/UFRRJ)
Rennan Pimentel (IESP-UERJ)
Maria Carolina Barreto (IESP-UERJ)
No dia 27 de outubro, brasileiras e brasileiros de 51 cidades foram novamente às urnas para decidir o comando das suas prefeituras. Com isso, chegamos ao fim do processo eleitoral brasileiro de 2024, permitindo que possamos consolidar as interpretações sobre a correlação de forças políticas em nosso país. Na dinâmica de pesquisa do Monitoramento Eleitoral do Observatório Político e Eleitoral (OPEL), o mais importante é articular esse balanço sobre o pleito municipal com as tendências políticas para 2026, quando enfrentaremos novas eleições presidenciais, as quais provavelmente serão polarizadas entre Lula e Bolsonaro.
Neste texto, dividimos a análise do processo eleitoral de 2024 em três eixos: primeiro, um panorama geral, no qual o resultado do 2º turno nas capitais confirma a polarização política e social. Argumentamos que em algumas cidades a disputa foi direta entre esquerda e extrema direita, facilitando a visualização da polarização. Todavia, mesmo em cidades cujo protagonismo foi da direita tradicional, mostraremos que esse campo ou se aliou com a esquerda contra a extrema direita, reproduzindo a dinâmica de frente ampla que elegeu Lula em 2022, ou fez o movimento contrário, se juntando com a extrema direita e, assim, fortalecendo a liderança de Jair Bolsonaro para 2026. Segundo, abordaremos o peso da máquina nos resultados, o que levou ao recorde no índice de reeleição e que engloba ainda a força das emendas e a ação dos governadores e suas vitórias eleitorais. Por fim, indicaremos a projeção das tendências políticas para as eleições presidenciais.
O 2º turno nas capitais confirma a polarização
No balanço do 1º turno, constatamos que o mapa eleitoral municipal confirmou a manutenção da polarização política, ao contrário da interpretação difundida pela mídia empresarial e pela maioria da elite política, na qual a vitória dos partidos da direita tradicional se deu pela prevalência dos temas locais na decisão do voto. O 2º turno reforçou a tendência da polarização, expondo uma disputa polarizada entre campos progressistas, associados a Lula, e conservadores, ligados a Bolsonaro.
Das quinze capitais que tiveram 2º turno, em dez delas o processo político foi polarizado. Dessas, em quatro capitais, o 2º turno foi marcado por um confronto direto entre candidatos de esquerda associados a Lula e candidatos de extrema direita alinhados a Bolsonaro, com vitória do campo conservador em três capitais (Aracaju, Cuiabá e Natal) e do Partido dos Trabalhadores (PT) em uma (Fortaleza).
Nas outras seis capitais, a polarização, longe de eliminar as dinâmicas locais, adapta-se a elas. Em vez de candidaturas abertamente lulistas ou bolsonaristas, a polarização configura-se em alianças e contextos diversos, com a direita tradicional ora apoiada pela esquerda, ora pela extrema direita. Em quatro delas, a direita tradicional recebeu o apoio da esquerda contra a extrema direita no 2º turno, articulação típica de uma frente ampla que elegeu Lula em 2022, com vitória em todas elas: Belém, Belo Horizonte, João Pessoa e Porto Velho. Já em outras duas capitais, São Paulo e Porto Alegre, o cenário foi de aliança entre a direita tradicional e a extrema direita, com vitória desse bloco em ambos os casos. Essa configuração, impulsionada pela baixa aprovação de gestores da direita tradicional, levou o incumbente a buscar alianças para preservar o poder, mesmo ao custo de fortalecer o bolsonarismo.
Por fim, em cinco capitais a disputa se restringiu à direita tradicional e extrema direita, com foco em pautas de gestão. Nesse arranjo, a direita tradicional venceu em quatro capitais: Goiânia, Palmas, Manaus e Curitiba, enquanto a extrema direita triunfou apenas em Campo Grande.
Como já afirmamos, esse processo polarizado nas capitais não se deu contra outras dinâmicas locais, estaduais e/ou nacionais, mas sim se adaptando a elas. É nesse sentido que incorporamos na análise o papel das máquinas político-administrativas, entre as emendas e o empenho dos governadores estaduais.
O peso da máquina, as emendas e o papel dos governadores
Além da polarização, os resultados das eleições municipais de 2024 destacaram o peso da “máquina política” na manutenção de mandatos e no fortalecimento de bases regionais. A influência positiva da incumbência nos resultados eleitorais do governante ou de seu sucessor é um tema amplamente estudado na ciência política. O índice de reeleição de prefeitos tem média histórica de 60%. Em 2016, atingimos o menor patamar, que foi de 49% e, em 2020, o número subiu para 64%, o maior da série desde que a reeleição foi aprovada. Agora em 2024, entretanto, esse índice alcançou o patamar recorde de 81%.
Para além das já conhecidas vantagens do incumbente – inauguração de obras, propaganda dos programas de governo, visibilidade midiática, financiamento eleitoral – o pleito de 2024 trouxe à cena o tema das emendas parlamentares como fator explicativo desse recorde de reeleições. Desde 2015, com Eduardo Cunha na presidência da Câmara dos Deputados, as emendas parlamentares aumentaram em valor e reduziram a transparência e o controle público. Durante o governo Bolsonaro e a presidência da Câmara nas mãos de Arthur Lira, as emendas foram reformuladas e agora podem ser autorizadas em valores específicos, de forma livre e sem transparência, para redutos eleitorais. Esse procedimento foi apelidado de “orçamento secreto” e, depois que o STF proibiu tal mecanismo, seguiu com outros termos, tais como “emendas pix”.
Com essa mudança, o governo federal perdeu influência sobre as emendas, que antes eram destinadas a obras de infraestrutura, saúde e educação, ficando agora sob decisão direta entre parlamentares e prefeitos. Ou seja, se um parlamentar tiver interesse eleitoral em alguma região ou município, pode-se direcionar mais recursos dessas emendas, o que poderia aumentar as vantagens dos prefeitos que pretendem se reeleger. Estudos iniciais mostram a correlação entre emendas e vitória eleitoral. Uma matéria da Folha de São Paulo aponta, por exemplo, que 98% dos 116 prefeitos que mais receberam emendas terminaram o pleito reeleitos.
Dentro dessa “máquina política”, os governadores também tiveram um papel crucial na consolidação de alianças regionais. Podemos destacar três casos em que isso foi particularmente evidente. Primeiro, em Belém do Pará, onde o governador Helder Barbalho (MDB) participou ativamente da campanha de Igor Normando (MDB), que saiu vitorioso. Barbalho enfatizou a radicalidade do candidato bolsonarista Delegado Eder Mauro (PL), posicionando Normando como uma escolha democrática e ressaltando que o adversário, aliado de Bolsonaro, representava o negacionismo ambiental.
Em Goiânia, o governador Ronaldo Caiado (União Brasil) foi essencial para a eleição de Sandro Mabel (União Brasil) contra o bolsonarista Fred Rodrigues (PL). Durante a campanha, Jair Bolsonaro frequentemente criticou Caiado, alegando que ele não era suficientemente de direita e se aproximara da esquerda. Em resposta, Caiado adotou um tom moderado, acusando o ex-presidente de radicalismo e afirmando que buscava conquistar o apoio de todos os eleitores da capital para eleger seu candidato à prefeitura.
Por fim, em São Paulo, talvez tenhamos o exemplo mais marcante do protagonismo de um governador nas eleições municipais de 2024. Tarcísio de Freitas se envolveu intensamente na campanha de Ricardo Nunes (MDB), inicialmente para garantir que ele fosse ao 2º turno, uma vez que o coach bolsonarista Pablo Marçal (PRTB) ameaçava captar o voto bolsonarista. Depois, já na disputa direta contra Guilherme Boulos (PSOL), o governador paulista cometeu crime eleitoral ao afirmar, sem provas, que o PCC orientava votos no candidato psolista. Após a vitória, o reeleito Ricardo Nunes (MDB) chegou a agradecer ao “líder maior”, Tarcísio de Freitas (Republicanos), pela conquista.
Tanto o papel dos governadores quanto o peso das emendas são dimensões que impactam nas tendências da política brasileira para 2026.
A política brasileira de 2024 a 2026
As eleições municipais são importantes pelo seu sentido imediato, de eleger prefeitos e prefeitas e vereadores e vereadoras de 5.565 cidades brasileiras, mas também pela sua relação direta com os pleitos presidenciais. No caso da eleição de 2024, a principal questão é como elas impactam nos campos políticos que protagonizam a política nacional.
Começando pela esquerda que se organiza em torno do governo Lula, o quadro que sai das urnas é melhor do que o alcançado nas eleições de 2016 e 2020. O PT cresceu 38% e o PSB 23%. Além disso, o PT voltou a governar uma capital, com a vitória em Fortaleza. Entretanto, trata-se de um cenário pior do que a esquerda tinha nas eleições municipais de 2004 a 2012, quando o Brasil era governado por esse campo político com Lula e Dilma.
Havia, sim, uma expectativa de um desempenho melhor, sobretudo pelos resultados econômicos do governo Lula. Diante da frustração, duas tendências políticas emergem: primeiro, a necessidade de manutenção de estratégia de frente ampla democrática com a liderança de Lula. As vitórias no Rio de Janeiro, Belém do Pará e Belo Horizonte mostram a força desse tipo de frente. Segundo, a necessidade deste campo de aprofundar suas dinâmicas de renovação de quadros e projetos. Algumas jovens lideranças se consolidaram nesse pleito, tais como Natália Bonavides em Natal e Guilherme Boulos em São Paulo, além do ministro da educação, Camilo Santana, ex-governador do Ceará. Mas o problema de novas lideranças e estratégias de conexão com segmentos importantes como os evangélicos e os trabalhadores sem direitos permanece.
Já a extrema direita mostrou que tem ainda muitos votos, além de força política e social. Bolsonaro conseguiu impulsionar seus candidatos na maioria das capitais, ainda que tenha saído derrotado em grande parte delas. O ex-presidente mostrou que segue sendo um cabo eleitoral fortíssimo e que o perigo de um retrocesso democrático segue vivo no Brasil. Uma batalha central nesse sentido será do Senado Federal: Bolsonaro já anunciou que, além da Presidência da República, seu principal objetivo será obter maioria de senadores para abrir processos contra os ministros do STF. Pelo desempenho eleitoral, trata-se de uma meta plenamente alcançável pelo bolsonarismo, uma vez que teremos 54 vagas em disputa. Se a frente ampla democrática não se organizar também para a disputa de senadores, corremos o risco de ter em 2027 um Senado bolsonarista capaz de paralisar o Executivo e acuar o Judiciário.
Quanto as tendências políticas, a mais importante para a extrema direita se relaciona com a inelegibilidade de Bolsonaro. O ex-presidente não poderá estar nas urnas e, ainda assim, alimenta a fantasia de que conseguirá reverter as condenações. Esse negacionismo político-jurídico cria um dilema para o seu campo, pois enquanto Bolsonaro não indicar seu sucessor, outras figuras da extrema direita entram em campo para disputar esse lugar. A principal delas é Pablo Marçal, que foi o fenômeno eleitoral de 2024. Mas não é única, com destaque para os governadores de extrema direita Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Ratinho Jr. e Tarcísio de Freitas.
Por fim, a direita tradicional, que saiu com o maior número de prefeituras conquistadas, distribuídas entre PSD, MDB, União Brasil, entre outros, permanece sem nomes fortes para a disputa nacional, e nada indica a viabilidade de uma candidatura da chamada “terceira via”. O mais provável é que esses partidos e suas lideranças, entre apoiar Lula ou o candidato de Bolsonaro, dividam-se conforme as conveniências locais, o que só reforça a ausência de projeto nacional da direita tradicional brasileira.
