Série Mitomanias/Mitologias | Futebol e comunicação cultural, por Lucas Carvalho

Agronegócio, Futebol e corpos na academia são os temas da série Mitomanias/Mitologias desta semana. Paulo Niederle examina o agronegócio como narrativa cultural e política, evocando a metáfora da caverna de Platão para questionar a construção de mitos no Brasil. Lucas Carvalho nos conduz ao universo do futebol, investigando a autenticidade performativa dos jogadores de futebol e o imaginário do “futebol-arte” que transcende gerações. Por fim, numa reflexão que se vale do relato pessoal, Raphael de Boer observa como a prática da musculação o fez revisitar o mito dos corpos perfeitos e os ideais de masculinidade. Ah, Roland Barthes, o que o Brasil diz a partir de seus mitos mais perenes, agora, em pleno mundo ressignificado pop do agro colonial, do futebol-arte no mercado globalizado e do corpo viril domesticado?

série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.

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Futebol e comunicação cultural

Por Lucas Carvalho (UFF)

Talvez nada mobilize tanto o dia a dia do brasileiro como o futebol. Diria, remendando a frase, que nada mobiliza mais do que a crítica ao futebol. Os estilos de crítica são diversos e com intensidades distintas – o azedo, o contumaz, o “tudo está errado” –, mas se unificam ao apontar a falta ou a ausência do que se espera do futebol brasileiro. Em compasso de espera, os nostálgicos apontam para o que perdemos ao longo do caminho e, entre os antenados com as últimas novidades, o que deveríamos incorporar. No meio do caminho, há os que tentam se guiar por outro mapa, embora, em geral, perdidos, sem a segurança ontológica dos primeiros e sem a convicção de projeto dos segundos.

Não quero retomar o tão discutido – e discutível – papel da “crônica esportiva” atual, que, salvo exceções, tem produzido muito pouco de interessante. Mesas redondas com discussões infindáveis, com polêmicas criadas e argumentos estéreos. Sintoma e causa da crise que vivemos. Gostaria apenas de discutir como a tão propalada crise do futebol brasileiro pode ser parte de um processo de não-reconhecimento, de um estranhamento que se tornou recorrente de nós mesmos, muitas vezes em chave negativa, distinto – e talvez mesmo oposto – ao imaginário coletivo que o alçou a símbolo da identidade nacional. Esse incômodo permanente pode ser revelador de algo que interessa discutir. E com isso não quero defender uma visão positiva como alternativa, mas o que por intermédio do futebol se refrata, e não necessariamente do que seria reflexo.

Destaco aqui dois tópicos correntes quando se discute futebol, sobretudo o brasileiro. O primeiro é a identificação torcida e seleção. O segundo diz respeito às “escolas” ou estilos nacionais. Os dois trazem alguns elementos que julgo interessantes para discutir os sentidos daquele não-reconhecimento mencionado acima, sobretudo porque se relacionam e revelam o aspecto performativo do futebol que enlaça dimensões distintas, dentro e fora do campo. Quando me refiro à performance, não falo apenas da atuação dos jogadores, mas também das formas de ação, interação e sentidos compartilhados, que exigem um tipo de fusão de elementos que está longe de ser corriqueira (Alexander, 2011), em contraste com a cotidianidade do futebol. Aqui me utilizo de uma sugestão de Gumbrecht (2014), para o qual a discussão sobre os “estilos nacionais” – e incluiria também a identificação da torcida com sua seleção – dificilmente foge da premissa fundamental de que os “movimentos são vistos como performance e não como ações, quer dizer: não como a realização de motivações, mas como uma coreografia em contexto espacial e normativo específico” (Gumbrecht, 2014: 159).

Sobre a identificação da torcida com a seleção nacional, muito se discute sobre a saída precoce e a atuação das suas estrelas fora do país, distanciamento físico e sentimental agravado ainda mais pelas raras partidas da seleção em terras brasileiras. Danilo, lateral da seleção e da Juventus da Itália, em entrevista recente sugere que a identificação da torcida passaria também por outros papéis a serem assumidos especificamente pelos jogadores:

Muitas vezes a gente dá muito a impressão de que a nossa vida é muito distante daquilo que é a realidade do povo brasileiro. Ou a gente não mostra que a gente veio também dessa realidade. Então esse é o nosso papel, sabe? Aproximar de alguma maneira, humanizando muito mais aquilo que é a nossa parte. Depois em campo, é claro, isso tem que fazer com que a gente tenha mais emoção, demonstre mais emoção, demonstre mais importância (Entrevista ao GE, 19/06/2024).

Para além da discussão, por vezes moralista, sobre as dissonâncias entre o estilo ostentatório dos jogadores e a população, que é mais revelador de uma desigualdade brutal da sociedade em diversos campos do que propriamente de atitudes individuais, Danilo destaca exatamente como a autenticidade no desempenho de papéis é aspecto essencial da identificação da torcida, uma clara contraposição à visão mercadológica que faz dos jogadores quase autômatos a desempenhar tarefas. Seguindo uma linguagem dramatúrgica, próxima à ideia de performance com a qual trabalhamos, entende-se por autenticidade que o ator/jogador, ao se convencer de que está vivenciando as situações descritas pelo roteiro criado – o que Danilo chama de “humanização” – torna sua atuação “natural”. O jogador incorporará as motivações internas do personagem, eliminando a distinção entre ator/jogador e texto.

No entanto, para transmitir autenticidade e verdade para convencer o público ao qual se destina, os atores/jogadores devem seguir um script que retome elementos fundamentais das representações coletivas que definem um estilo futebolístico – o “futebol-arte”, a “inventividade”, o “drible” e o “improviso”, por exemplo. Em uma narrativa histórica, esses elementos compõem o que seria a escola brasileira de futebol. Definir uma “escola”, sua existência e permanência é tema recorrente entre quem vive e pensa o futebol. Não raro, aflora nos momentos de crise ou de grandes trunfos. Vide o caso recente da seleção argentina comandada pelo técnico Scaloni, a “Scaloneta”, tida como símbolo de um resgate da tradição argentina dos passes curtos e jogadas agudas marcadas pelo “toco y me voy”. Ademais, vale lembrar o périplo do seu principal jogador, Messi, que, criado desde a infância nas divisões de base do Barcelona, durante muito tempo foi visto como pouco “argentino” e criticado por seu baixo desempenho na seleção em comparação ao clube. Pesava ainda a sombra do maior ídolo argentino, Maradona, enérgico e carismático, oposto à timidez e ao recato de Messi. O drama se bifurca quando, depois de três derrotas em finais importantes em apenas três anos – a Copa do Mundo de 2014 e as Copas Américas de 2015 e 2016 –, Messi anuncia sua aposentadoria da seleção. A decisão é revista e já em 2016 Messi se torna o maior artilheiro de todos os tempos da seleção argentina e líder em assistências. Os números mostram que as críticas não eram apenas sobre desemprenho, mas à falta de autenticidade de seu líder. Em 2018, Messi encontra outro Lionel, o Scaloni, técnico mais novo da história da seleção argentina. Ambos foram jogadores da base do Newell’s Old Boys, clube de Rosário. Aos dois também coube o protagonismo da conquista da Copa América de 2021 e da retomada da identificação da torcida com a seleção argentina que culminou com o título Copa do Mundo de 2022. Na nova história de redenção do futebol argentino, Messi e Scaloni emergiram como líderes, cada um com seu estilo único, mas somente quando o script dos papéis que desempenham seguiu outro roteiro.

O exemplo recente da seleção argentina mostra como o conceito de “escola” transcende a mera técnica ou tática, denotando um amálgama de cultura, história e identidade nacional. E assim como o “futebol total” holandês, o “catenaccio” italiano, o “tiki-taka” espanhol etc., cada um desses estilos carregaria consigo não apenas uma abordagem de jogo, mas toda uma filosofia de vida, um modo de ser e estar no mundo. A perda de identidade assombra, sentimento talvez mais intenso no futebol do que em qualquer outro esporte, pois, em sua ubiquidade e popularidade, torna-se um repositório de esperanças e frustrações coletivas. Por conta disso, escolas futebolísticas existem como memória selecionada, formas de jogar que são alçadas a símbolo e enlaçadas a outras formas de jogar surgidas ao longo do tempo, criando, assim, uma linha de continuidade – ou de descontinuidade, a depender do observador – de histórias nacionais específicas. Mais notável que o surgimento e a existência de tais estilos, é como perduram.

Dessa forma, seria possível entender a discussão sobre estilos nacionais e identificação com a seleção como elementos, entre outros, de uma comunicação cultural na qual os envolvidos com o jogo, incluindo os observadores, compartilham uma crença mútua na validade descritiva e prescritiva dos conteúdos simbólicos da comunicação e aceitam a autenticidade das intenções uns dos outros. O fato um tanto paradoxal nisso tudo é que a ação performática, quando bem-sucedida, exige do observador (torcedor, mídia, analistas…) que se identifique com algo que, a um só tempo, é e não é idêntico ao mito que serve de referência. Afinal, o “futebol-arte” de que a seleção brasileira se tornou sinônimo poderia ser o mesmo ao longo do tempo? Se sim, como explicar suas mudanças? Entre a rejeição ou adequação ao mito, talvez pudéssemos pensar em roteiros e scripts outros, menos exclusivistas e mais abertos à improvisação e à inventividade.


Referências

ALEXANDER, Jeffrey. (2011). Performance and power. Cambridge, UK: Polity.

CASSUCCI, Bruno et al. (2024). Da prioridade a Flamengo e Santos à humanização da Seleção: um papo com o ‘palestrinha’ Danilo. Portal GE, 19/06/2024. Disponível aqui.

GUMBRECT, Hans Ulrich. (2014). “Dança dionisíaca”? Estilos nacionais no futebol sul-americano. Tradução de Daniel R. Bonomo. Projeto História, n. 49, p. 157-164.


Sobre o autor

Lucas Carvalho é Professor do Departamento de Sociologia e Metodologia em Ciências Sociais e do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde desenvolve pesquisas nas áreas de Pensamento Social no Brasil, Ciências sociais computacionais e Big data.

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