Série Mitomanias/Mitologias | Corpos na academia, por Raphael de Boer

Agronegócio, Futebol e corpos na academia são os temas da série Mitomanias/Mitologias desta semana. Paulo Niederle examina o agronegócio como narrativa cultural e política, evocando a metáfora da caverna de Platão para questionar a construção de mitos no Brasil. Lucas Carvalho nos conduz ao universo do futebol, investigando a autenticidade performativa dos jogadores de futebol e o imaginário do “futebol-arte” que transcende gerações. Por fim, numa reflexão que se vale do relato pessoal, Raphael de Boer observa como a prática da musculação o fez revisitar o mito dos corpos perfeitos e os ideais de masculinidade. Ah, Roland Barthes, o que o Brasil diz a partir de seus mitos mais perenes, agora, em pleno mundo ressignificado pop do agro colonial, do futebol-arte no mercado globalizado e do corpo viril domesticado?

série Mitomanias/Mitologias é organizada por André Botelho (UFRJ), João Victor Kosicki (USP) e Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Para conhecer outros textos publicados, clique aqui.

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Corpos em evidência

Por Raphael Albuquerque de Boer (FURG)

Harold, I’m gonna be on television (Sara Goldfarb, Requiem for a Dream, 2000).

Confissões na Página de um Ensaio

Há mais de dois anos, comecei a treinar musculação a fim de fortalecer a minha saúde física e mental pós-período pandêmico. Antes disso, foram várias as tentativas de praticar musculação. Eu objetivava, especialmente na adolescência, ter os corpos “perfeitos” e malhados dos dançarinos da Madonna, que eu tanto admirava, ou até mesmo dos atores hollywoodianos que faziam parte do meu mural de sex symbols. Porém, talvez pela minha timidez, eu não achasse que aquele ambiente das academias, culturalmente masculino, heterossexual, carregado de virilidade e força, fosse um espaço em que eu pudesse frequentar e me adaptar.

Assim, no meu imaginário, eu resistia à tentativa de uma ida a academia de musculação, pois ela me fazia acreditar, e na época talvez eu estivesse certo, de que o /a instrutor/a forte estaria ali predominantemente a mercê de “corpos malhados” e que concordassem com a orientação heterossexual. Porém, eu (re)signifiquei essa ideia! Hoje em dia, treino musculação, geralmente, seis vezes na semana, prática combinada com corridas na esteira e na rua, tento ter uma alimentação mais saudável e meditar. Teria eu, então, cedido à lógica capitalista de corpos malhados como sinônimo de força, virilidade e saúde? Por exemplo, “Consuma” mais exercício, tome suplementos, faça dieta e curta cada vez mais nas redes sociais perfis de homens musculosos, que assim você terá o corpo “perfeito” e, por fim, poderá também postar na sua própria rede social e ter inúmeras curtidas e seguidores? Claro que falo do “corpo perfeito”, enquanto mito, arbitrário, por vezes inalcançável, enquanto construção social, fruto de uma lógica capitalista (consuma!) e neoliberal (construa você mesmo o seu corpo perfeito!). Não estou certo se todas as pessoas que malham estão lotando as academias de musculação (eu, inclusive) em busca apenas da beleza ou do “corpo perfeito”. Hoje em dia, com a facilidade do acesso à informação dos benefícios de uma prática de exercícios e de uma alimentação mais saudável, estamos cada vez mais à procura do que nos faz bem (ou acreditamos fazer). Nessa lista, eu incluo as academias de musculação, ginástica, aulas de Yoga, psicoterapia, entre outras práticas de bem-estar. Ressalto, porém, que não é minha intenção, neste ensaio, fazer uma crítica de cunho moral à busca do corpo malhado e/ou construído. Meu objetivo é fazer uma pequena incursão em dois textos que contribuem para a reflexão sobre a composição cultural, social e analítica do mito dos corpos — sejam eles masculinos, malhados, ou corpos femininos desejados — dentro do mecanismo de significação.

Quem Fala sobre os Corpos?

“[…] o que lhe interessa é o que se vê, e não no que crê”.

(Roland Barthes, Mitologias, 2009)

Enquanto o espectador da França do passado, sem nenhuma pretensão política do desejo no olhar, assistia aos corpos “moles” de homens brancos lutadores do catch (Barthes, 2009), nós, possivelmente, assistimos, nas mais diversas mídias, aos corpos malhados com o desejo de ter e ser esse corpo. Na perspectiva de representação de corpos masculinos malhados, lembro-me do potente texto “Duelo de Titãs: Sandow e Schwarzenegger” (2011), de José Gatti. Nele, Gatti reflete sobre a questão da masculinidade pautada na figura do atleta de fisiculturismo Sandow, bem como a do ator Arnold Scharwznegger. Sandow, em uma série de suas fotos mais famosas, posa de homem selvagem (antecipando a figura do Tarzan) e Adão. Na última, “com a folha sobre o sexo e as pernas abertas diante da câmera é ainda mais sugestiva: remete a um tempo primevo, de sexualidade desprovida de culpa, o que é sublinhado pelo olhar distante do atleta” (Gatti, 2011: 226). Como ressalta o autor, essa representação produz, supostamente, um significado homoerótico sobre o corpo de Sandow. Ao contrário da figura requintada de Sandow, Scharwznegger (re) produz a imagem do homem forte com “todos os atributos do herói masculino heterossexual que se impõe pela força bruta” (Gatti, 2011: 230).

Acredito que a identificação, seja pelo corpo definido ao ideal grego de Sandow ou o corpo bruto, quase hiperfísico de Scharwznegger, passa pelo espaço da cultura de quem o observa. Nesse caso, os/as que admiram ou pesquisam as fotos e o material de Sandow ou aos/as que assistem aos filmes de Scharwznegger. Assim, entendo que a relação entre significante, significado e signo se dispersa, ou, como diz Barthes, se deforma. Sendo assim, entendo que o corpo é a materialidade, o que pode ser tocado (seja de Sandow ou de Scharwznegger).

Porém, não tocamos no corpo de nenhum dos dois homens, apenas vemos e falamos sobre as suas fotos ou imagens em movimento, que representam os seus corpos em um determinado momento da cultura de uma sociedade. Creio que, dessa forma, tais questões podem ser estendidas ao pensarmos, por exemplo, nos estudos Culturais de Stuart Hall sobre Cultura e Representação. Assim, podemos combinar o mito de Barthes com a representação de Hall, já que “a representação é uma parte essencial do processo pelo qual os significados são produzidos e compartilhados entre os membros de uma cultura” (Hall, 2016: 32).

Após visitar o texto de José Gatti para pensar na política de representação da masculinidade, através imagem de corpos masculinos na cultura; permitam-me voltar um pouco ao tempo para que eu possa refletir sobre a questão do desejo sobre os corpos, mais especificamente ligada ao olhar. Para tal, penso na teórica e cineasta Laura Mulvey, em particular em seu icônico texto “Prazer Visual e Cinema Narrativo” (1977). Nesse ensaio, Mulvey utiliza a teoria psicanalítica como um instrumento de denúncia ao processo de objetificação, dentro e fora da diegese, das figuras femininas do cinema narrativo hollywoodiano das décadas de 1930 a 1950. Esse processo inconsciente se estabelece entre espectador, detentor do olhar, em uma posição masculina, que iludido, dentro do espaço escuro do cinema, é absorvido pela narrativa a fim de olhar para partes eróticas do corpo feminino com o intuito de objetifica-las/possuí-las.

Lembremos, então, da célebre cena de O Pecado Moral Lado (1955), em que Marilyn Monroe tem suas pernas à mostra depois que o vento subterrâneo do metro levanta o seu vestido. E do close-up dos lábios vermelhos de Monroe em Os Homens Preferem as Loiras (1953). E por falar em loiras, relembramos também as protagonistas dos filmes de Hitchcock, como, por exemplo, Janet Leigh na famosa cena do chuveiro de Psicose (1960). Para Mulvey,

a mulher, desta forma, existe na cultura patriarcal, como significante, presa por uma ordem simbólica na qual o homem pode exprimir suas fantasias e obsessões através do comando linguístico, impondo-as sobre a imagem silenciosa da mulher, ainda presa a seu lugar de portadora de significado e não produtora de significado (Mulvey, 1983: 438).

Voltando…

Diferente, então, dos corpos malhados dos homens que produzem significado, enquanto representação de requinte, virilidade, força bruta ou de divindade grega, os das mulheres portam o significado a fim de objetificação/consumo. Ao pensar sobre os corpos femininos, porém, posso perguntar: mas e as mulheres da atualidade, visto todas as conquistas do feminismo, da luta das mulheres contra o patriarcado? Creio que a resposta não seja simples nem no que tange as mulheres e mesmo os homens. Estamos ambos presos em um processo de consumificação desses corpos. A lógica capitalista nos informa que tudo é passível de mudança, desde que você tenha o poder de compra para isso. Exemplo disso é a crescente onda de cirurgias plásticas, em homens e mulheres, que modificam significantemente os seus corpos em busca, talvez, de corpos mais jovens, desejáveis?


Referências

BARTHES, Roland. (2009). Mitologias. Rio de Janeiro: DIFEL.

GATTI, José. (2011). Duelo de Titãs: Sandow e Schwarzenegger. In: PENTEADO, Fernando Marques & GATTI, José (orgs). Masculinidades: teoria, crítica e artes. São Paulo: Estação das Letras e Cores, p. 223-237.

HALL, Stuart. (2016). Cultura e Representação. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio; Apicuri.

MULVEY, Laura. (1983). Prazer Visual e Cinema Narrativo. In: XAVIER, Ismail (Org.). A Experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal; Embrafilme, p. 435-454.


Sobre o autor

Raphael Albuquerque de Boer é Professor do Instituto de Letras e Artes da Universidade Federal do Rio Grande – Campus SVP. Seus interesses de pesquisa são na área de cultura, estudos de cinema e mídias.

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