
A BVPS divulga homenagem de Horácio Antunes de Sant’Ana Júnior a sua professora Neide Esterci, grande nome da antropologia brasileira, que faleceu hoje, 18 de novembro, aos 83 anos.
Para conferir a nota da BVPS sobre Neide Esterci, clique aqui.
Homenagem à professora Neide Esterci
Por Horácio Antunes de Sant’Ana Júnior (UFMA)
Para me ajudar nessa homenagem à querida e sempre professora Neide Esterci, evoco uma conterrânea minha, Cora Coralina, que, num verso simples, como tudo o que ela fazia, diz: “venho do século passado e trago comigo todas as idades”. Hoje, dia 18 de novembro de 2024, seu companheiro de longa jornada de vida, o professor José Ricardo Ramalho, nos comunicou que, logo pela manhã, a professora Neide Esterci nos deixou. Desde então, este verso vem ressoando em minha cabeça. Foi no século passado, no início dos anos 1990, que conheci Neide Esterci. Não nos conhecemos em Goiás, onde nasci e por onde Neide e Zé Ricardo viveram experiências significativas e importantes na sua produção intelectual e na vida pessoal (lembro aqui que seu filho Tomás teve seu nome inspirado no bravo e saudoso D. Tomás Balduino, guerreiro bispo da cidade de Goiás). Mas nos encontramos no Maranhão, uma das entradas da Amazônia, terra de belezas próprias e de dores universais.
Eu era um recém-nomeado professor da Universidade Federal do Maranhão, encantado com tanta riqueza cultural e artística, principalmente nas manifestações mais populares, e assustado com a mais explícita demonstração das divisões sociais que marcam nosso país que já houvera encontrado. O entranhado poder oligárquico galvanizado pela família Sarney, sustentado por um controle quase absoluto dos meios de comunicação e por uma concentração absurda das terras, das rendas e do poder, estimularam sempre minha curiosidade e disposição para a pesquisa.
Essa curiosidade, que ainda tateava as possibilidades de construção de conhecimento daquele lugar, era exercida numa universidade relativamente nova (datada da década de 1960) e sempre tida como uma das piores nos vários rankings das universidades federais, e, mais precisamente, no Departamento de Sociologia e Antropologia, o DESOC, que passava por um forte processo de renovação e apostava muito num conjunto de professores recém-nomeados. Foi esse Departamento que recebeu Neide Esterci e José Ricardo para uma atividade acadêmica, o que propiciou o início de contato muito profícuo com o Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ. Naquela época, não tínhamos ainda um programa de pós-graduação em nossas áreas de conhecimento. O número de doutores do Departamento era reduzido, apesar de já se acumularem ricas experiências em pesquisa, por forte ênfase na pesquisa empírica organizada em grupos com funcionamento regular, produção constante e destacada proximidade com os movimentos sociais, populares e sindicais do Maranhão.
O DESOC decidiu, então, investir fortemente na formação de seus quadros e traçou o objetivo de criar um programa de pós-graduação que pudesse ser instrumento de consolidação de suas experiências de pesquisa. Foi a partir dessa firme decisão que, naquele primeiro contato com Neide Esterci e Zé Ricardo, busquei me preparar para a seleção do Doutorado do Programa de Sociologia e Antropologia da UFRJ. À época, meus interesses de pesquisa estavam voltados para entender a relação entre o bumba-meu-boi, manifestação da cultura popular que me fascinou desde o primeiro contato, e a indústria cultural que, no Maranhão, tem profundas ligações com o poder oligárquico.
Projeto elaborado a partir de pesquisas já iniciadas e aprovado na seleção, me mudei para o Rio de Janeiro e comecei meu curso de doutorado. Passei a conviver com o IFCS e novos desafios foram surgindo. Um dia, já na época em que eu estava concluindo as disciplinas, Neide Esterci, com quem havia feito uma brilhante disciplina sobre Usos da Linguagem e que sempre me recebeu com muita generosidade e carinho, tinha acabado de chegar de uma viagem de pesquisa pela Amazônia e, numa conversa, me disse que viu coisas muito interessantes no estado do Acre, que não tinha tempo de pesquisar sobre o que estava acontecendo por lá e, como eu estava sem orientação definida, sugeriu que eu pensasse numa mudança de tema para minha tese. Foi como se um turbilhão tomasse conta de mim. As questões ambientais, desde a graduação, foram paixões que ficavam amortecidas, mas, até então, não tinha investimentos nessa área. A Amazônia era, para mim, o desconhecido encantador. Nascido nas securas e tortuosidades do cerrado, tinha uma antecipada saudade da floresta. Pedi à Professora dois dias para pensar e não dormi uma noite inteira. No outro dia, a procurei para dizer que topava o desafio. Neide, acredito, teve sensibilidade para perceber em mim o gosto pelo desconhecido, pelo desafio, pelo novo. E muito me ajudou a transformar esse gosto em pesquisa.
Daí foi toda a correria para mudar referências teóricas, interesses empíricos, associar uns aos outros, produzir um projeto para qualificação e enfrentar o trabalho em um campo quase absolutamente desconhecido. Literalmente, Neide me lançou em uma aventura socioantropológica, me apresentou novas dimensões da realidade brasileira e mudou radicalmente minhas perspectivas de pesquisa.
O trabalho foi tão estimulante que, defendida a tese e, após meu retorno ao Maranhão, continuamos trabalhando em conjunto. Com uma forte inspiração no PPGSA e grande participação de Neide e Zé Ricardo, conseguimos criar nosso Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, cujas primeiras aulas ocorreram no ano de 2003.
Participamos juntos de dois Programas de Cooperação Acadêmica (Procad/Capes). O primeiro envolvendo PPGSA e PPGCSoc. O segundo, envolvendo também o PPGSA da Universidade Federal do Pará (UFPA), sob a coordenação geral de Maria José Aquino Teisserenc e tendo Neide Esteci e eu coordenando as equipes de nossos respectivos Programas de Pós-graduação. Dessas ricas experiências resultaram três livros e dois dossiês publicados na Revista Pós Ciências Sociais (Repocs). Entre 2010 e 2011, realizei um estágio de pós-doutorado na UFRJ, sob supervisão de Neide Esterci, consolidando mais ainda nossas parcerias.
Ainda em 2004, com outros colegas, e dando continuidade aos estudos feitos no Acre, mas com campo empírico voltado para o Maranhão, criamos o Grupo de Estudos Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (Gedmma), que sempre contou com a parceria de professores de Neide.
Neide Esterci e seu companheiro José Ricardo Ramalho foram de grande importância para a consolidação das Ciências Sociais no Maranhão. Do quadro do Departamento de Sociologia e Antropologia (hoje alterando seu nome para Departamento de Ciências Sociais), ainda foram orientandos de doutorado de Neide Esterci os professores Arinaldo Souza (meu orientando no mestrado e hoje colega na UFMA) e Elio de Jesus Pantoja Alves (colega na fundação e consolidação do Gedmma). O prof. Marcelo Carneiro foi orientado por José Ricardo Ramalho.
Por fim, gostaria de destacar o generoso empenho de Neide Esterci na formação e no estímulo ao estabelecimento de parcerias entre seus orientandos. Destaco, além dos já citados, as(os) colegas de orientação de doutorado e mestrado, com quem tivemos ricas trocas: Maria José Aquino Teisserenc, Ricardo Rezende, Annelise Fernandez, Kátia Schweickardt, Ana Paula Perrota, Thaís Danton e Karine Narahara. Neide sempre teve um grande poder de aglutinação e estimulação do trabalho conjunto.
Hoje ficamos com uma grande saudade, nos sentindo órfãos, mas com a alegria imensa pela honra de ter podido conviver e partilhar trabalhos com uma das grandes antropólogas brasileiras. A lembrança de sua alegria, beleza, disponibilidade, generosidade e compromisso com a construção de um país mais justo e fraterno nos acompanhará como exemplo e força!

Na foto que abre o post, Neide está no meio dos orientandos Karine Narahara, Horácio Antunes, Anelise Fernandes e Ana Paula Perrota.