Coluna Renato Ortiz | O detetive cínico

Conhecido como sinônimo de desprezo e sarcasmo, o cinismo tem raízes em uma filosofia de vida que buscava a sabedoria na simplicidade e na contestação. Em sua coluna de hoje, Renato Ortiz nos conduz por um trajeto que vai de Diógenes, o apátrida, a Bernie Gunther, protagonista dos romances policiais de Philip Kerr, cujas aventuras na Alemanha nazista expõem as complexas relações entre moralidade e sobrevivência. O que torna um cínico, cercado pela violência e pela desumanização, um personagem de virtude? O texto é um convite à reflexão sobre ética, tragédia e a resistência diante do absurdo.

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O detetive cínico

Por Renato Ortiz (Unicamp)

Dizem que cínico é aquele que conhece o preço de tudo e o valor de nada, seu ceticismo torna os princípios morais algo desprezível. O termo se associa à ideia de imoralidade, de desprezo, e quando se aproxima do humor e do riso deles não retêm o traço da ironia, mas do sarcasmo. Entretanto, em sua origem o cinismo tinha outra conotação, era uma filosofia de vida. Diógenes Laércio (403-321 a.C, as datas de nascimento e morte são controversas) era um apátrida na república de Atenas, tinha sido expulso de Sinope, na atual Turquia, por uma questão de falsificação de moedas. Na busca do caminho da plenitude humana ele se dizia um homem “sem cidade, sem casa, expulso de sua pátria, pobre, errante, vivendo o dia a dia”. Os cínicos viviam em cidades, onde era possível a prática da mendicância, abraçavam a pobreza como ideal e desprezavam a riqueza, as instituições e o dinheiro. Materialistas, prezavam a autossuficiência, a abstinência e a frugalidade, recusavam os privilégios e andavam à busca de uma via mais curta para a sabedoria. Constituíam uma espécie de intelectuais à margem, cultivavam uma postura de contestação ao poder estabelecido, à família e ao conhecimento (suas críticas eram ácidas em relação às outras escolas filosóficas). Eram ainda exibicionistas em sua ânsia de se contrapor aos padrões da vida em sociedade (masturbação em público, comer carne crua, viver em um tonel). Para eles o conhecimento encontrava-se ao lado da natureza, junto a uma vida liberada das convenções sociais. O termo, em si, é sugestivo: cínico deriva de cachorro; dizem que Diógenes queria ser enterrado como um cachorro, um simples animal. Nesse sentido, os princípios que os cínicos valorizavam eram o antípoda do pensamento platônico. Platão estabelecia uma nítida diferença entre o mundo sensível e o mundo das ideias, como a memória elas seriam coisas duráveis e persistentes. Para alcançar a verdade o filósofo deveria se afastar da materialidade do sensível, somente assim poderia dela se acercar. Os cínicos abraçavam a vida nas suas contradições e falácias, nela se jogava o destino humano. Também se consideravam cosmopolitas; estar em lugar nenhum significava um distanciamento em relação às virtudes da pólis grega. Diógenes, ao responder a uma pergunta que lhe fizeram – “de onde você é?” – responde de maneira lacônica: “sou cidadão do mundo”.

O herói dos romances policiais de Philip Kerr (1956-2018) é um detetive cínico. A trama que o envolve é a ascensão e o declínio da Alemanha nazista, suas aventuras são marcadas pelo véu sombrio da violência e da guerra (a trilogia de Berlim escrita por Kerr é composta dos livros Violetas de março, Assassino branco e Réquiem alemão). Entretanto, o cinismo “moderno” não é uma ética filosófica, trata-se de uma atitude individual em relação ao mundo. Bernie Gunther –  os detetives possuem nome próprio – não procura o caminho da sabedoria, tampouco possui um espírito contestador. A ordem estabelecida não é denegada; deve ser suportada como um fardo que não se pode eludir ou sucumbir. Ele partilha com os estoicos uma espécie de conformismo em relação à vida, o lugar onde nascemos, como diziam, sem, porém, acreditar na universalidade das ideias que o estoicismo predicava. Há algo de trágico em sua postura, as coisas que o rodeiam se impõem como um imperativo, mas delas é necessário se diferenciar, sua existência é um impasse, é preciso reagir contra a teia que o aprisiona, sem dela se desvencilhar. Um artifício utilizado pelo autor para descrever esse dilema é recuperar da velha tradição dos romances policiais o vício da bebida. Por exemplo, o detetive de Dashiell Hammet em The Thin Man [O homem magro] é um desajustado que enxerga além das coisas habituais. As múltiplas doses de scotch absorvidas ao longo da trama o liberam do peso da realidade, o deixam leve pairando no ar. Isso lhe confere a clarividência negada pela normalidade social. A descoberta do mistério é decorrência do contraste entre lucidez e ebriedade. Contrariamente ao herói de Poe, puramente cerebral, frio, com o intelecto resgata a carta roubada, o personagem de Hammett é fraco e forte. A fraqueza é parte de sua condição existencial, tem uma vida profissional precária, abusa da bebida e do sexo, mas é ela que lhe permite atingir aquilo que lhe é recusado. A narrativa é uma névoa que se sobrepõe à superfície plana das coisas, sobressai a decadência de uma burguesia americana dos anos 1930 cujo interesse resume-se à ganância e ao dinheiro estocado nos bancos.

Bernie Gunther não é propriamente um desajustado, encontra-se integrado à sociedade alemã. Não é comunista, socialista ou judeu, ou seja, um pária sobre o qual se inclina a guilhotina da morte. Na época da República de Weimar trabalha para a polícia de Berlim, quando Hitler vence as eleições (1933) torna-se detetive particular, depois realiza diversos trabalhos para aqueles de que desdenha e que se encontram no poder. Porém, a bebida o resguarda da engrenagem da máquina política. Mas o que justifica um detetive perseguir o esclarecimento de um crime numa sociedade na qual a estupidez dos campos de concentração e da morte é corriqueira? Ser cínico é sinônimo de amoralidade. Nosso herói encerra as qualidades negativas deste fundamento, aprecia o vício, cigarro, bebida, mulheres, se preciso não hesita em tirar a vida do próximo. Entretanto, o leitor é envolvido pela sensação latente de simpatia em relação a seu desconforto. O que torna um cínico, no sentido atual do termo, um indivíduo de virtude: o contexto. O personagem do relato encontra-se imerso no ambiente de assassinatos políticos e de confinamento dos que estão à margem do arianismo propalado pela ideologia nazista; quando a violência e a intolerância se afirmam como ideal civilizatório. Ele vive e respira o ar insuportável de seu tempo, mas seu papel é diferente dos outros, não faz parte dos massacres ou das sessões de tortura dos prisioneiros de guerra, apenas desvenda um crime. Qual o valor disso dentro de um sistema repressivo que menospreza o preço da vida? Como o próprio personagem enuncia: “qual a importância de mais um psicopata entre tantos”? A intenção do autor é simples: a descoberta de um ato violento, mesmo imerso numa situação de violência generalizada, é um suspiro de esperança. Ela é um traço de humanidade em meio à descrença e à desilusão. Bernie Gunther vive o inferno, mas não vendeu a alma ao diabo, o cinismo é o ardil que o preserva da atmosfera putrefata e amarga de seu destino alemão.


1 comentário

  1. Renato, é Diogenes de Sinope e não Diogenes Laercio. Diogenes Laercio é o que escreveu o Vidas e Doutrinas dos ilustres. Tem uns 400 anos de diferença entre os dois.

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