Fernando Henrique Cardoso, comparações sociológicas, por Karim Helayel

Publicamos hoje texto de Karim Helayel (PPGSA/UFRJ), que analisa o pensamento sociológico de Fernando Henrique Cardoso, destacando como a articulação entre teoria e história é central em sua abordagem. No livro Fernando Henrique Cardoso, um perfil intelectual (2024), recém-publicado na Coleção Pensamento Político e Social da editora Hucitec, o autor explora como a perspectiva histórico-comparativa de Cardoso possibilitou uma compreensão mais matizada das relações entre contexto histórico, estruturas e ações sociais.

O texto ressalta que, apesar de críticas, como as feitas por Maria Sylvia de Carvalho Franco, a interação entre teoria e história permanece central no trabalho de Cardoso. Suas ideias contribuíram para a consolidação da sociologia histórica e do método comparativo, oferecendo uma perspectiva inovadora a partir do contexto periférico. Assim, compreendemos a relevância e o significado da sociologia de Fernando Henrique Cardoso tanto em seu tempo quanto no nosso.

Fernando Henrique Cardoso, um perfil intelectual será lançado amanhã, dia 10 de dezembro, às 18h, na Livraria Leonardo da Vinci, localizada no subsolo do Edifício Marquês do Herval (Av. Rio Branco, 185 – Centro, Rio de Janeiro).

Boa leitura!


Fernando Henrique Cardoso, comparações sociológicas

Por Karim Helayel (PPGSA/UFRJ)

I.

Discutir a obra de um intelectual como o sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (1931- ) não é simples, uma vez que as suas trajetórias acadêmica e política permitem entradas as mais variadas. Como sabemos, Cardoso palmilhou trajetória política das mais relevantes, tornando-se presidente da República, cargo que ocupou por dois mandatos consecutivos (1995-2002). Foi, ainda, fundador, junto a outros políticos de destaque, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que polarizou a cena política do país nas últimas décadas com o Partido dos Trabalhadores (PT). Sua ascensão política começa a ganhar corpo no ano de 1983, quando se torna senador pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), ao assumir o cargo deixado vago por Franco Montoro, de quem era suplente, no momento em que o experiente político se torna governador de São Paulo. Cardoso foi também ministro das Relações Exteriores, amealhando notoriedade como ministro da Fazenda durante o governo Itamar Franco (1992-1994), ao trabalhar ativamente na formulação do Plano Real, que acaba de completar 30 anos.

Sua trajetória intelectual pode ser considerada tão relevante quanto sua atuação na política. Além de ter se notabilizado internacionalmente por conta de seu famoso livro Dependência e desenvolvimento na América Latina, publicado originalmente em 1969, em colaboração com o sociólogo chileno Enzo Faletto, Cardoso ocupou, entre os anos 1982-1986, a presidência da International Sociological Association (ISA). Recuando ainda mais no tempo, foi orientando e assistente do sociólogo Florestan Fernandes, catedrático da Cadeira de Sociologia I da Universidade de São Paulo (USP). Cardoso defendeu sua tese de doutorado em 1961, publicada como livro no ano seguinte, com o título Capitalismo e escravidão no Brasil meridional: o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul.

No livro que acabo de publicar pela Editora Hucitec Fernando Henrique Cardoso, um perfil intelectual (2024), mostro como a articulação entre teoria e história é a chave do pensamento de Fernando Henrique. Aqui gostaria de trazer alguns elementos dessa hipótese, discutindo como a adoção de uma perspectiva sociológica histórico-comparada, por parte de Cardoso, permitiu-lhe uma visão mais matizada e sofisticada das relações existentes entre o contexto e o processo históricos, as estruturas e as ações sociais. Assim, podemos recortar dois momentos da sua produção ao longo dos anos 1960. Em um primeiro momento, Cardoso se volta, sobretudo, para o contraste entre a experiência social de modernização brasileira com aquela ocorrida nos países de capitalismo originário. Podemos destacar os debates em torno do já citado Capitalismo e escravidão no Brasil meridional e de Empresário industrial e desenvolvimento econômico no Brasil, publicado em 1964. Já em um segundo momento, tendo em vista a radicalização do uso da história e da comparação nos trabalhos de Cardoso, ressaltarei o ponto de chegada de sua sociologia histórico-comparada, Dependência e desenvolvimento na América Latina, e de seu livro Política e desenvolvimento em sociedades dependentes, trabalho solo do sociólogo brasileiro, publicado em 1971. 

II.

Estudadas por André Botelho, as divergências entre Fernando Henrique Cardoso e sua colega na Cadeira de Sociologia I, Maria Sylvia de Carvalho Franco, também orientanda de Florestan Fernandes, são emblemáticas no que se refere à preocupação com a articulação entre teoria e história no grupo do catedrático. Não podemos deixar de lado, nesse sentido, as críticas de Franco à mobilização da categoria “patrimonialismo” por parte de Cardoso, que incidem diretamente nos trabalhos do orientador de ambos (Botelho, 2013). Tanto em Homens livres na ordem escravocrata, livro publicado em 1969, fruto da tese de doutorado de Franco, defendida em 1964, quanto em sua tese de livre-docência O moderno e suas diferenças, de 1970, a socióloga problematiza o entendimento de Cardoso em relação à sociedade brasileira. Se, por um lado, Cardoso (1997) qualifica o tipo de dominação característico da sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul como patrimonial, por outro, Franco (1970, 1997) sustenta a inviabilidade da categoria “patrimonialismo”, pois, para ela, a dinâmica patrimonial teria se confinado apenas ao âmbito da política.

A despeito da divergência aberta de Franco em relação ao diagnóstico de Cardoso, sua intervenção crítica em torno da mobilização da categoria “patrimonialismo” permite perceber que a ênfase reside na relação entre teoria e história. O aprendizado sociológico de Cardoso é perpassado, como se pode depreender da controvérsia, pela preocupação com o equacionamento da interação entre formulações teóricas e matéria histórica. Contudo, Cardoso se absteve de formular uma resposta às críticas de Franco, discrepando do tom polêmico de alguns de seus trabalhos, sobretudo quando pensamos no famoso debate em torno do sentido da dependência, cujas controvérsias com Ruy Mauro Marini são marcantes.

A sociologia de Empresário industrial e desenvolvimento econômico no Brasil carrega essa forte marca histórica que caracteriza a formação de Cardoso. Seu trabalho foi forjado a contrapelo dos diagnósticos e prognósticos produzidos pelos intelectuais ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e ao Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Levando em consideração que as interpretações desses intelectuais acentuavam, de formas distintas, o suposto protagonismo da burguesia brasileira no processo de mudança social, Cardoso (1964) mostra que o empresariado urbano-industrial desempenharia papel coadjuvante na industrialização do país. Falando de modo resumido, isto se daria tanto pela persistência da dinâmica patrimonial como modo de orientação da conduta na ordem urbano-industrial, inviabilizando a modernização efetiva de suas empresas, quanto pela articulação estabelecida com o capital estrangeiro.

Ao lermos Empresário industrial, podemos perceber ainda que Cardoso se opôs abertamente aos esquemas propostos pela chamada “sociologia da modernização”, ressaltando que as formulações dessa vertente teórica seriam reféns de uma perspectiva a-histórica. Para Cardoso, a burguesia industrial brasileira não poderia ser identificada, sem mediações, com suas congêneres europeias e estadunidense, ainda que as dimensões da apropriação privada dos meios de produção e do lucro fossem comuns a elas. Ou seja, o empresariado urbano-industrial brasileiro não poderia repetir a história do desenvolvimento capitalista dos países centrais.

A dinâmica da ação empresarial no Brasil não poderia ser entendida conforme os processos clássicos de transformação capitalista, pois o contexto das economias periféricas teria sido marcado pela “concorrência imperfeita” e, ainda, pela penetração em larga escala de grupos econômicos internacionais em seus mercados (Cardoso, 1964). Nesse momento, a preocupação de Cardoso consiste basicamente em lançar mão da história e da comparação para acessar as particularidades do desenvolvimento brasileiro, restringindo-se ao contraste com as experiências sociais originárias de modernização.

Passando a Dependência e desenvolvimento, Cardoso e Faletto (2004) não se restringem à comparação de um único país latino-americano com o processo de mudança social ocorrido na Europa ou nos Estados Unidos. Ao compararem os diferentes países latino-americanos entre si, os autores sublinham que o curso do desenvolvimento na região teria sido marcado por uma diversidade de trajetórias, que somente poderia ser apreendida através do corpo a corpo entre suas distintas formações sociais. O raio da perspectiva sociológica histórico-comparada de Cardoso é expandido, passando a destacar as diferenças existentes entre os países da região.

Cardoso e Faletto qualificam, nesse sentido, as distintas situações de dependência na América Latina, diferenciando aquelas que teriam como base o “controle nacional do sistema produtivo” por parte de grupos econômicos locais (casos de Argentina, Brasil, Uruguai e Colômbia) ou que se daria mediante a atuação de enclaves econômicos instalados diretamente nas economias periféricas (com destaque conferido pelos autores a México, Bolívia, Venezuela, Chile, Peru e América Central).

Tais situações de dependência teriam ressonâncias, segundo os sociólogos, em uma espécie de dinâmica não linear do processo de industrialização na região. Além disso, adensando as especificidades das economias latino-americanas, Cardoso e Faletto têm como ponto de chegada a análise da “internacionalização do mercado interno”. Este processo ocorria a passos largos no momento em que escreviam nos anos 1960, sendo marcado pela entrada maciça de investimentos industriais diretos realizados pelas economias centrais na América Latina.

Em Política e desenvolvimento em sociedades dependentes, Cardoso compara as particularidades dos processos histórico-sociais de desenvolvimento argentino e brasileiro, bem como as ideologias dos grupos empresariais de ambos os países. O autor se debruça, portanto, sobre dois casos distintos inscritos na mesma modalidade de dependência, na qual algum grupo nacional logrou controlar o processo produtivo (Cardoso, 1978). Cardoso toma como ponto de partida suas formulações construídas em parceria com Faletto, apesar de procurar delimitar de modo mais preciso os casos empíricos analisados.

O processo de formação das burguesias latino-americanas teria correspondido a itinerários díspares e, desse modo, o recurso à comparação é mobilizado para perscrutar as diferenças marcantes de dois casos de empresariados urbano-industriais formados em contextos nos quais o controle nacional do sistema produtivo de seus países foi possível. Ou seja, se em Dependência e desenvolvimento o recurso que combina a história e a comparação é acionado com base em um escopo mais amplo de países, em Política e desenvolvimento Cardoso opta por se debruçar de modo mais sistemático sobre os casos argentino e brasileiro. Assim, ao mesmo tempo em que Dependência e desenvolvimento constitui o ponto de chegada da sociologia histórico-comparada de Cardoso, pode ser entendido como trabalho que permite uma abertura para um exame mais matizado do processo de desenvolvimento na região.

III.

Essa é, muito resumidamente, a trajetória da comparação na sociologia de Fernando Henrique Cardoso nos anos 1960. Cardoso aposta na construção de uma sociologia histórico-comparada, ao analisar, em um primeiro momento, o processo de modernização brasileiro em contraste com as experiências de desenvolvimento originárias. Já em um segundo momento, em seus trabalhos nos quais se volta para a problemática da dependência, propõe um corpo a corpo não somente com a modernização sucedida no centro, mas entre as distintas formações sociais latino-americanas. Com isso, a ideia foi buscar um contraponto em relação a trabalhos que tendem a conferir ênfase às perspectivas de intelectuais situados no centro para a formação da sociologia histórica (Skocpol, 1984). Ou, ainda, no que se refere aos que tratam a contribuição de Dependência e desenvolvimento na América Latina de forma lateral, posto que o livro de Cardoso e Faletto interpelou o surgimento de extensões críticas inscritas na “segunda onda” da sociologia histórica (1970-1980), especialmente o conjunto de trabalhos que propunham a análise de contextos com formação distinta da Europa e dos Estados Unidos (Adams & Clemens & Orloff, 2005). Assim, ao não me concentrar exclusivamente sobre seu trabalho com Faletto, como é feito recorrentemente ao pensá-lo como uma sociologia histórico-comparada (Giordano, 2014 & Villegas, 2014), procurei ter em vista sua produção intelectual de modo integrado. Em suma, ao levar em consideração o conjunto de seus trabalhos produzidos ao longo dos anos 1960, acredito ser possível sugerir que as formulações de Cardoso parecem ter aportado, a partir da periferia, uma contribuição inovadora para a consolidação da sociologia histórica e para o método comparativo.


Referências

ADAMS, Julia & CLEMENS, Elisabeth & ORLOFF, Ann S. (2005). Remaking Modernity: Politics, History, and Sociology. Duke University Press.

BOTELHO, André. (2013). Teoria e história na sociologia brasileira: a crítica de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Lua Nova, São Paulo, n. 90, p. 331-366.

CARDOSO, Fernando H. (1964). Empresário industrial e desenvolvimento econômico no Brasil. São Paulo: Difusão Europeia do Livro.

CARDOSO, Fernando H. (1978). Política e desenvolvimento em sociedades dependentes. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

CARDOSO, Fernando H. (1997). Capitalismo e escravidão no Brasil meridional: o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

 CARDOSO, Fernando H. & FALETTO, Enzo. (2004). Dependência e desenvolvimento na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

FRANCO, Maria Sylvia de C. (1970). O moderno e suas diferenças. Tese de Livre-Docência. Departamento de Ciências Sociais/Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

FRANCO, Maria Sylvia de C. (1997). Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo: Ed. Unesp.

GIORDANO, Verónica. (2014). La sociología histórica y la sociología latinoamericana. La comparación en nuestras ciencias sociales. Revista de la Red Intercátedras de América Latina Contemporánea (Segunda Época), año 1, n.º 1, Córdoba, p. 14-29.

HELAYEL, Karim. (2024). Fernando Henrique Cardoso, um perfil intelectual. São Paulo: Hucitec.

SKOCPOL, Theda. (1984). Sociology’s Historical Imagination. In: Vision and Method in Historical Sociology. Cambridge: Cambridge University Press.

VILLEGAS, Miguel Ángel B. (2014). El análisis comparativo: algunos aportes latinoamericanos en la segunda mitad del siglo XX” Revista Mexicana de Ciencias Políticas y Sociales. Universidad Nacional Autónoma de México, Año LIX, n. 221, p. 145-174.