Cenas de escrita para um diário íntimo | Coluna de Ítalo Moriconi

Informação, poder, terrorismo, democracia e poemas. A coluna Cenas de escrita para um diário íntimo, de Ítalo Moriconi, retorna com seu primeiro texto do ano: Política e poesia (parte I), percorrendo esses e outros temas às margens do tempo e da política. Situado em janeiro de 2025, o autor discute em seu diário o contemporâneo de violências, monopólios e incertezas democráticas que afetam o cotidiano global. A ambivalência do Facebook e outras plataformas digitais como espaços de expressão e vigilância se tornam um dos seus objetos de reflexão. O terror oriundo da guerra entre Israel e Palestina, outro. Afinal, haveria soluções imediatas para essas questões proeminentes? Em que medida devemos responsabilizar indivíduos nas esferas de poder pelos derramamentos de sangue? Não se limitando a uma análise política convencional, o texto, que continua na próxima edição da coluna, revela-se numa meditação sobre o choque eterno entre poder e resistência, utopia e realidade, da qual também emerge o lirismo do poeta. Não deixe de conferir!

Cenas de escrita para um diário íntimo é publicada quinzenalmente às quintas-feiras. Outros posts desta coluna podem ser acessados aqui.

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Diário de janeiro

 (Política e Poesia – Parte I)

Por Ítalo Moriconi

[2 de janeiro]

ODE À INDIFERENÇA 2025

Que valor moral, universal, pode ainda ter a memória do holocausto judaico no nazismo alemão/europeu diante do que o Estado autodeclarado judeu de Israel está perpetrando em Gaza e na Cisjordânia/Judéia? Medem-se desgraças por comparação do número de cadáveres? Milhões de judeus foram mortos por alemães e aliados. Os alemães conseguirão desengajar-se totalmente desse fardo? Pelos números que vêm sendo publicados, o partido nazista alemão está crescendo nas pesquisas. Palestinos, mortos por israelenses, são dezenas de milhares. E daí? A memória do antissemitismo europeu corre o risco de se tornar uma questão endógena dos judeus, embora continue colocando em causa toda a Razão ocidental. O mundo permanece indiferente e conivente. Que importância pode ter afinal para o mundo a lembrança do ataque terrorista do Hamas e outras organizações no 7 de outubro? Muito pior está sendo a matança de palestinos em Gaza.

***

Quantas pessoas foram efetivamente mortas no 7 de outubro, para além da relação que se tem dos sequestrados? Ninguém sabe. O número divulgado, mais de mil, é provavelmente falso, inflado. Israel nunca apresentou uma lista com os nomes de todos os mortos. Diante do que está acontecendo em Gaza, qualquer ato terrorista de palestinos contra israelenses será visto pela história como ato heroico e desesperado de resistência. O terrorismo é certamente um ato criminoso e, como tal, deverá ser sempre julgado. Mas o apelo ao terrorismo é muitas vezes a única arma de que dispõe um povo sem saída. Os sionistas que arquitetaram emigrar em massa e conquistar a Palestina na marra também lançaram mão do terrorismo, tanto em terras europeias quanto no Oriente Médio.

[5 de janeiro]

[um poema para o domingo]

          Não cravem mastros no meu peito
          não quero bandeiras enroladas
          nem desenroladas.
          Queria ir como dizem que vão os judeus,
          apenas envolvido por mortalha rude. Nu,
          para o beijo indiferente da terra,
          nem frio, nem quente. Assim também
          os palestinos, hoje, nas valas comuns.

[8 de janeiro]

Sair ou não sair do Facebook? Boicotar a Meta significa sair também do Instagram e do WhatsApp. Este é um instrumento de comunicação de trabalho usado por todos no Brasil. Inviável sair no momento. E eu que estava (estou? estarei?) começando no Insta.

Ao longo desses últimos anos, a tela do Facebook substituiu para mim a folha branca do papel no exercício de minha grafofilia, geralmente matinal, mas nem sempre. Também varo madrugadas, no baticum surdo das teclas. Como para tantos, o Facebook virou meu dazibao, um canal para expressar minha opinião sobre o noticiário, sobre os negócios do mundo. Na tela do Facebook escrevo poemetos, frutos de inspiração momentânea. Eu os envio para o Somente Eu. O destinatário Somente Eu é a providencial gaveta do poeta Italomóri, que haverá de emergir um dia. Para quê, o livro de poesia? E, no entanto, me apego a eles, tenho uma fila de lançamentos para ler, a todos invejo, peço tempo e um pouquinho de espaço (atenção) à palavra de minha lavra, a lavra de minha outra máscara. Eu não sou trezentos, mas sou bem uns três.

***

Já era assim, mas com a vinculação direta das grandes redes globais de trânsito de dados ao governo americano, talvez não fosse mal que o governo brasileiro, como na China, criasse nossas BRs redes de opinião e interação (como opções alternativas ao Facebook e Instagram) e de comunicação e negócios (zap e messenger). Não poderiam obviamente estar vinculadas eternamente a um partido único. Aqui teria que ser um serviço público, um serviço de Estado, gerido pelo partido da hora no poder, como uma espécie de Tv Educativa, uma Rede Brasil. Ao contrário da China, em nosso sistema seria impossível monopolizar todo o comércio e trânsito de dados e de comunicação. As redes estatais estariam aí apenas para evitar o monopólio das empresas da Meta e do X, comprometidas com vigilância, controle e monitoramento por parte do governo americano.

[9 de janeiro]

Se pensarmos a condição humana pela ótica masculinista da guerra, não resta dúvida que as únicas armas que restarão serão, para os ucranianos, a guerrilha de branco nacionalista; para os palestinos, os ataques terroristas de sempre.

Pela ótica queer-feminina-feminista, todos depõem as armas e começam a conversar. Todes desistem? Seria isso? Desistir? Ir para a casa no campo, viver offline para o resto da vida? Frente ao poder incontrastável, só se pode resistir inocuamente? Ou desistir, abandonar? Nenhuma dessas atitudes é mais digna que a outra.

***

Exéquias de Jimmy Carter. O único líder democrata que verbalizou com clareza a constatação de que Gaza virara um campo de concentração. Entrou para a história do Brasil por ter redirecionado o apoio dos Estados Unidos ao regime militar, aliando-se e apoiando nossos ativistas. Isso tudo está documentado na portentosa e incontornável História da Ditadura de Elio Gaspari.

Situo Carter na linhagem democrata de Franklin Roosevelt, Lyndon Johnson, Bill Clinton, Barack Obama. Não tanto Kennedy. Em matéria de Kennedys, sou mais o Bob e o Teddy, que nunca chegaram lá. Repudio esse Kennedy atual, negacionista da saúde, adesista de Trump, de quem será Secretário, antivacinas. Escrevi certa vez um poema evocando a impressão que me causou a notícia do assassinato de Kennedy. Foi nesse momento que despertei para o noticiário político, aos nove anos, enquanto lia Monteiro Lobato. A morte de Kennedy marcou essa descoberta e, logo depois, em 1964, já com dez anos, veio o golpe militar, que o vizinho descreveu como a derrubada de Jango por Lacerda. Era a revolução do Lacerda. Meus pais estavam viajando. Minha avó não precisou se preocupar em nos despachar para a escola. As aulas haviam sido suspensas em todo o Distrito Federal.

Lógico que, do ponto de vista unilateral, preto no branco, de uma razão terceiro-mundista não alinhada, própria do Sul Global, todos esses presidentes mencionados cometeram crimes de guerra e promoveram ações imperialistas inaceitáveis. A sorte de Roosevelt perante o julgamento histórico foi ter caído em suas mãos decidir a parada contra o nazismo, depois da derrota alemã para a Rússia. O azar de Johnson foi ter escalado a matança no Vietnã. Até os excepcionais Clinton e Obama saíram da presidência carregando morte nas costas.

Por mais progressista que seja a origem e se mostrem os compromissos de um presidente americano, formalmente falando, ao disputar o cargo está aceitando que é o Comandante em Chefe da maior potência militar do mundo, presente em todos os recantos do planeta; aceitando, portanto, o encargo de gerir e determinar as geopolíticas da potência. A responsabilização individual é total.

[9 de janeiro]

(invocação à musa)

praia impura
saturada de noites

refúgio vão,
    do animal em mim

no breu assoma
          a linha escusa
           de uma escuna,

           vara a lama,
                    desaloja,
           deseja

          o poema impossível,
          o que seja imune

vem, stéphane, baixa em mim,
move meus dedos, meus olhos,
muso de bigode, cavalga meus mares.

[10 de janeiro]

Lendo aqui os poemas de Olga Savary, entrei numa de cometer hai cais. Licença, tiozão Millôr.

          (em voo)

          Cinza ou prateada?
          a fímbria dos telhados
          pela janela molhada.

          Céu rosáceo.
          O tic tecla da notícia.
          Sobrevoando o deserto.

          [500 anos de desmatamento]

          Nuvem ocre, mutável,
          rosiflórea de algodão,
          causa turbulência.

          O avião cai. (Não caiu.)

[10 de janeiro]

Em uma de suas últimas entrevistas, Jimmy Carter confessou seu pessimismo em relação ao futuro da democracia. Ao ser questionado sobre o motivo, respondeu que a política estava cada vez mais dominada pelo dinheiro, o que, para ele, representava seu fim. A ascensão de Trump parece traduzir uma espécie de apogeu desse processo. Porém, como sempre, a plutocracia, nas democracias modernas, só chega ao poder especificamente político se tiver o voto da maioria do eleitorado. Trump conquistou maioria popular entre a classe trabalhadora branca industrial tradicional (com esparsas tinturas pretas) e entre a nova juventude branca. A maior parte do eleitorado americano – agora percebemos, bastante consciente de sua escolha ao apostar no novo – entrega o governo comum aos novos ricos da plutocracia, donos da arena informacional global e aliados ao modelo supremacista branco da América. Não é que a plutocracia já não tenha poder; ela tem a priori um poder total na sociedade. Mas caberia ao povo barrar seu acesso aos cargos decisórios, que seria, será, um excesso de poder. A fome de poder do plutocrata é expansiva.

No meu ceticismo ativo da maturidade, não tenho a menor ilusão de que seja possível sociedade humana sem distribuição diferencial de poder até sei lá quando. Assumo a inspiração foucaultiana nesse tópico, cada qual que tire suas consequências de ação prática, a partir da constatação. A escolha política se resume a esta: ombrear-se ao lado de quem está por cima ou de quem está por baixo, situar-se em relação a uma linha de conflito. No fim das contas, é preciso escolher um lado, como diz a cuidadora para o menino cego do filme Anatomia de uma queda. O choque entre os lados é um cabo de forças eterno, que talvez só possa diluir-se numa cena distópica de catástrofe e caos absolutos, sem sociedades humanas estruturadas, apenas grupos de indivíduos vagando pelo planeta devastado. Cenas de cinema, a vida. Mas na tela, na mente, no cotidiano, entra o fator violência. Humanos se matam por espaço, por recursos. Mantenho, porém, a utopia socialista do distributivismo por igual para todos. Ela se concretiza na solidariedade que surge em catástrofes. Os de baixo, sim, esses se solidarizam nas catástrofes. A gente vê na TV e a gente ouve nas conversas de rua.

[10/11 de janeiro]

          É tudo tubarão
          querendo devorar-te
          com a boca e o ferrão.

[11 de janeiro]

Tenho estado pouco contemporâneo. Me emocionam os arquivos dos anos 1960, 1970, os arquivos dos tempos em que fui criança, adolescente, jovem adulto. Mémoires d’un jeune homme rangé, muito preguiçosamente muito estudioso, que fazia Aliança, Thomas Jefferson, Cultura. Das agilidades das línguas, se você me entende. Ah se as telas fossem apenas as páginas brancas e íntimas no fundo de uma gaveta. Mas elas são públicas, expositivas, capitalísticas.

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No Facebook, tenho sido comentarista do noticiário televisivo, auxiliado por leituras em voo de pássaro de matérias impressas, em sites de grandes jornais nacionais e internacionais, num ou noutro blog, ou matéria avulsa. Toda hora pipoca coisa, ultimamente muita coisa do Insta. Faço pesquisas instantâneas no google, como todo mundo que conheço. Estive puxando o tema do terrorismo sionista, anterior à existência do Estado de Israel.

Israel extermina os palestinos de Gaza porque sabe que terrorismo, num certo sentido, pode dar certo. Dá certo quando um Estado é criado – a história oficial deste apaga a memória dos crimes que cometeu em nome de uma causa. Se algum dia for criado o Estado palestino, a memória dos terroristas do Hamas e congêneres no passado e no presente será reverenciada como de mártires em luta pela sobrevivência de seu povo. O nome de Menachem Begin, omitido nas exéquias de Jimmy Carter, é o nome de um herói israelense que havia participado de atos terroristas do sionismo pré-Israel. Nas exéquias de Carter, se não me engano, somente o nome de Anwar Sadat foi mencionado, e mais de uma vez.

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Por que a ênfase no noticiário televisivo como fonte de informação? Apenas pelo motivo de que somente através dele se pode ter noção de que tipo de discurso dominante está fazendo a cabeça das maiorias. Os noticiários oficiais fazem a síntese teórica (ideológica) e prática do ruído infindo da comunicação, das redes.

Era nas folhas frenéticas da manhã que encontrávamos a fonte de nossas análises de conjuntura, nas reuniões de base e comitê das organizações de esquerda pós-luta armada. Participei das organizações de esquerda depois do tempo da luta armada. Em relação à geração militante dos anos 1964-68, sou irmão mais novo. Sou do tempo da atuação sindical e das campanhas eleitorais da chamada oposição autêntica. Segunda metade dos anos 1970. Pós-autocrítica do militarismo. A poesia, o desbunde, as reuniões, as incessantes tarefas da militância (trabalho não assalariado), e as festas, as muitas festas.