
Na nova rodada de postagens da Ocupação Mulheres, publicamos ensaio de Arilda Arboleya (UFPI). Nele, a socióloga analisa como a presença de autoras mulheres na agenda letiva do Pensamento Social tem sido historicamente marcada pela subordinação ao cânone masculino, por uma posição teórica periférica e por uma participação oscilante. No entanto, mudanças começam a despontar: ao observar o período mais recente, Arboleya nota que algumas autoras vêm ganhando maior visibilidade e que seus nomes passaram a ocupar um lugar de destaque como leituras centrais. Resta saber se as mudanças curriculares, atravessadas pelos debates sobre poder e saber, vieram para ficar.
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O 8M e a agenda letiva do Pensamento Social Brasileiro – contorções
Por Arilda Arboleya (UFPI)
Não é novidade o debate acerca da relação “saber-poder”. Ao contrário, em distintos matizes, essa discussão já se fazia presente em textos que estruturaram as ciências sociais em sua fundação e, há muito tempo, compõe objeto de análise de variadas vertentes da sociologia do conhecimento. No percurso dessa crítica, a concepção da cultura como tradição seletiva, desenvolvida por Raymond Williams em The Long Revolution (1961), forneceu subsídios para a compreensão do currículo enquanto relação de poder, pois o conhecimento é selecionado, organizado e valorado a partir de disputas político-culturais. Ascenderam daí, particularmente a partir dos anos 1970, múltiplas expressões de uma sociologia do currículo que se fez empenhada em destacar os modos pelos quais a classificação de conteúdos curriculares compõe assimetrias de saberes e de posicionalidades.
Dessa perspectiva, a definição dos conteúdos de ensino de um dado componente curricular – nos curtos limites de sua carga horária – implicaria na afirmação daquilo que é, nele, informado como prioritariamente digno de ser refletido e criticado. Essa validação estabeleceria, assim, um núcleo legítimo de conhecimentos produzidos e de produtores relevantes e, consequentemente, uma periferia intelectual.
Tal dinâmica que, à primeira vista, pode soar até natural (afinal, ensinar exige fazer escolhas), galgou novas tintas críticas nessas primeiras décadas do século XXI, quando movimentos identitários e movimentos teóricos críticos (especialmente teorias feministas, estudos culturais, pós-coloniais e decoloniais) se encontraram na elaboração da denúncia de que a periferia intelectual é renitentemente generificada, racializada e regionalizada. A contemporânea relação entre conhecimento e mudança social tem, assim, acrescentado camadas de complexificação aos processos de ensino até então naturalizados num padrão homogêneo de referência intelectual, interpondo um tensionamento das leituras programadas que reclama considerar conjuntamente temas, textos, contextos e a diversidade dos agentes produtores.
Sem dispensar o imperativo de tratar criticamente o próprio esquadro desse tensionamento epistemológico e seus desdobramentos, o marco celebrativo dos 50 anos de instituição do Dia Internacional da Mulher constitui flagrante oportunidade de ponderamento acerca da relação entre os arranjos de escalonamento social do conhecimento e o lugar das autoras mulheres em nossa na agenda letiva. Trago alguns pontos para estimular esse exercício.
Dados prévios da pesquisa que venho desenvolvendo a partir da análise de programas de ensino de componentes curriculares do Pensamento Social Brasileiro em cursos de graduação em Ciências Sociais de diferentes regiões do país, evidenciam a estabilidade do cânone masculino na área. Apenas 14% das indicações de leituras, presentes num universo de 230 programas de ensino analisados no recorte temporal de 2009-2023, são de autoras mulheres. Nesses programas, que anotam média aproximada geral de 30 leituras listadas, quatro delas podem ser de mulheres. Mas, vale notar, 39 programas dentre os analisados não listam nenhuma obra escrita por autoras mulheres e, em seis deles, a presença de mulheres é restrita a uma produção em coautoria masculina.
Para além desse indicador global de presença, outro dado interessante é a posição das intelectuais nas rotinas de ensino. Quando se trata as leituras separadamente por categoria, vê-se que os programas analisados projetam média aproximada de 16 leituras classificadas como básicas (obrigatórias ou específicas), das quais cerca de 1,8 são escritas por mulheres. Elas representam, assim, 11% das leituras classificadas como conteúdo nuclear, mas, vale destacar, 103 programas dos 230 analisados não referenciam nenhuma obra escrita por mulheres como bibliografia obrigatória. De outro lado, as leituras classificadas como complementares e/ou de apoio registram média aproximada de 12 indicações por programa, sendo 2,2 delas de autoria de mulheres. Observa-se, assim, um aumento proporcional na presença de autoras nessa categoria de leituras suplementares, refletido em uma representação percentual expressiva: 18% das obras indicadas são escritas por mulheres.
Estes dados constrangem a percepção de que o acúmulo de conhecimentos produzidos por nossas intelectuais tem sido subsumido nos processos de ensino do Pensamento Social. Tanto porque suas contribuições são notadamente esquecidas na programação dos cursos, quanto porque, quando lembradas, o são numa posição sublocada: menos na condição de teóricas que produziram explicações relevantes sobre os arranjos conformadores da nação, e muito mais na condição de suportes para a compreensão dos quadros explicativos elaborados pelos homens consagrados como os grandes intérpretes do Brasil. Desvela-se, assim, em pressão numérica, que os textos mais lembrados nos programas de ensino são aqueles em que suas autoras estão empreendendo esforços de tradução das produções masculinas consagradas no campo. Nessa condição, a despeito da fortuna crítica de suas produções sobre o cânone masculino, nossas intelectuais emergem nos processos de ensino despidas de potencial teórico inovador e da possibilidade de compor o establishment intelectual.
Cinco autoras, é justo ressaltar, retêm maior presença na composição dos programas de ensino analisados, alcançando capilaridade significativa: Elide Rugais Bastos, que possui 20 produções referenciadas, atinge 110 menções em programas de instituições de ensino de diferentes regiões, 19 delas classificadas como bibliografia básica. É recorrentemente escalada para a construção do entendimento sobre o campo do pensamento social brasileiro, em aulas introdutórias e, principalmente, como apoio para o estudo de Gilberto Freyre e de Oliveira Vianna. Também Lilia Moritz Schwarcz, com abrangência nacional, é referenciada 83 vezes, 23 delas como bibliografia básica. Para além de coletâneas organizadas em coautoria masculina, suas produções mais listadas são O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930 (1993) e Sobre o autoritarismo brasileiro (2019). Em posição similar, Lucia Lippi Oliveira aparece 53 vezes, 22 delas como bibliografia básica. De suas 14 produções listadas, tem maior projeção A questão nacional na Primeira República (1990), tomada como bibliografia complementar acerca da construção política da ideia de nação, e A sociologia do Guerreiro (1995), um dos textos mais mencionados como apoio para a apreensão de formulações sociológicas contra-hegemônicas dos anos 1960.
Outras duas autoras se destacam, para além da recorrência, principalmente pela posição em que aparecem nas rotinas de ensino, enquanto são majoritariamente acionadas na condição de teóricas que elaboraram explicações importantes acerca da formação social e do arranjo peculiar da modernização nacional. Assim posicionada, Maria Isaura Pereira de Queiroz é referenciada 50 vezes como bibliografia obrigatória no gradiente analítico da conformação do Estado brasileiro e da sociabilidade política nacional. Seus trabalhos mais citados são O mandonismo local na vida política brasileira (1969), O campesinato brasileiro: ensaios sobre a civilização e grupos rústicos no Brasil (1973), e o capítulo “O coronelismo numa interpretação sociológica” (1975), incluso na coleção História Geral da Civilização Brasileira – O Brasil Republicano (1992), coordenada por Boris Fausto. Entretanto, cabe notar que a capilaridade da autora nessa condição de centralidade na agenda letiva é circunscrita ao eixo Sul-Sudeste.
Na mesma senda, Maria Sylvia de Carvalho Franco, referenciada 42 vezes, se destaca por sua difusão e enraizamento na agenda letiva nacional. Outro aspecto interessante é a estabilidade que a autora retém: seis produções suas são listadas, mas a obra Homens livres na ordem escravocrata (1969) concentra a expressa maioria das indicações. Isso a difere das demais autoras, cujas referenciações tendem a apresentar acentuada dispersão entre várias produções diferentes, bem como a aproxima da condição de autores convencionados, cujas indicações de leitura tendem a se concentrar em uma única produção de destaque, consagrada no núcleo das obras seminais das leituras indispensáveis.
A agenda letiva do pensamento social configura, assim, Maria Isaura e Maria Sylvia como as autoras mais próximas do establishment do campo, tanto pela posição quanto pela estabilidade relativa que alcançam. Ainda assim, se comparadas aos autores acionados no mesmo gradiente reflexivo em que elas aparecem nos processos de ensino, uma distância abissal as separa do cânone, tanto em termos de presença como de centralidade.
Desse modo, a participação das autoras mulheres nessa agenda letiva abrangente é marcada pela condição de referendo do cânone masculino, de periferia teórica e de presença rotativa. Mas há mudanças no horizonte: no período recente, observa-se que essas autoras emergem com maior expressividade e frequência, e seus nomes ganham mais relevância como leituras centrais. Também outras autoras, como Angela Alonso, Glaucia Villas Bôas, Heleieth Saffioti, Maria do Carmo Campello de Souza e Mariza Correa, vêm ganhando espaço nas programações de leitura com a abertura de programas com outros enfoques reflexivos. Nome particularmente expressivo, nesse sentido, é o de Lélia Gonzalez que, a partir de 2020, ascende fortemente como bibliografia obrigatória em programas do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, especialmente com o artigo “Racismo e sexismo na cultura brasileira” (1984).
Os números demarcam esse tímido crescimento da presença e a suave mudança da posição das mulheres nas rotinas de ensino contemporâneas: considerando apenas os últimos 5 anos, a presença geral de textos escritos por mulheres avança para 15%; a presença enquanto bibliografia básica vai para 13% e a presença enquanto bibliografia complementar anota 18,5%, uma pequena variação para mais, de modo que o incremento principal de mulheres nas leituras programadas se dá, de fato, entre aquelas classificadas como centrais.
Desse modo, de forma positiva ou negativa, os tensionamentos críticos que problematizam as relações entre identidades, saber e poder no espaço acadêmico, podem ter estimulado a pesquisa, a recuperação e a crítica de produções de mulheres que ficaram secundarizadas no fluxo histórico do desenvolvimento acadêmico, ou ao menos projetado um olhar crítico para a representatividade de gênero na composição dos cursos. Várias intelectuais têm sido, assim, redescobertas e recolocadas no mercado das ideias. Resta saber como os processos de ensino desse campo, que retém presença estável nas grades curriculares da maioria dos cursos de graduação em Ciências Sociais do Brasil, lidarão com o difícil balizamento entre o tradicional e novo, ponderando acerca das possibilidades e dos limites dos influxos renovadores. Seja como for, compete não olvidar dos elementos de força implicados nos processos de seleção e classificação de conteúdos de ensino.
Referências
FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. (1997). Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo: Unesp.
GONZALEZ, Lélia. (1984). Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, São Paulo, v. 2, p. 223-244.
OLIVEIRA, Lucia Lippi. (1990). A questão nacional na Primeira República. São Paulo: Brasiliense; Brasília: CNPq.
OLIVEIRA, Lucia Lippi. (1995). A sociologia do Guerreiro. Rio de Janeiro: UFRJ.
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. (1973). O campesinato brasileiro: ensaios sobre a civilização e grupos rústicos no Brasil. Petrópolis: Vozes.
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. (1975). O Coronelismo numa Interpretação Sociológica. In: BORIS, Fausto. História Geral da Civilização Brasileira – O Brasil Republicano. Tomo III, Volume I, p. 153-192.
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. (1976). O Mandonismo Local na Vida Política Brasileira e Outros Estudos. São Paulo: Editora Alfa-ômega.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. (1993). O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. (2019). Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras.
WILLIAMS, Raymond. (2012). The long Revolution. Cardigan: Parthian.
Sobre a autora
Arilda Arboleya é doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná e professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Piauí. É pesquisadora da área do pensamento social brasileiro e da sociologia da educação. Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutoramento no PPGSOCIO/UFPR, intitulada “Pensamento Social Brasileiro: currículo, ensino e aprendizado democrático”.
