
Iniciamos o sexto dia de postagens da Ocupação Mulheres publicando um trecho do livro Helô Teixeira: crítica como vida, de André Botelho (UFRJ) e Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ), lançado no ano passado pela Bazar do Tempo. Parte do capítulo “Feminismos Bumerangues”, o trecho selecionado apresenta algumas reflexões de Heloisa Teixeira, antes Heloisa Buarque de Hollanda, sobre a onda mais recente de ativismo feminista no Brasil. Ela acompanhou a “quarta onda” com surpresa e entusiasmo, produzindo um conjunto expressivo de obras que promovem conversas intergeracionais entre feministas. Segundo os autores, o trabalho de Helô evidencia como o feminismo é um aprendizado social contínuo, que precisa reconhecer sua história para avançar na luta por direitos e equidade.
Não perca, na parte da tarde, mais textos inéditos na Ocupação Mulheres. Confira aqui outros textos já publicados. Boa leitura!
De volta às ruas: a explosão feminista
Por André Botelho (UFRJ) &
Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ)

Quanto este país mudou nos anos 2010? Já há uma literatura considerável que preenche prateleiras e mais prateleiras para tentar explicar as mudanças sociais e políticas vividas nessa turbulenta década. Algumas dessas mudanças, talvez, mal começamos a compreender e vão exigir ainda muita pesquisa e discussões para tomarem forma. De qualquer maneira, uma coisa parece certa: assistimos a um novo momento do ativismo feminista no Brasil, seguido de uma forte reação misógina e conservadora, como era de se esperar numa sociedade patriarcal como a brasileira.
Com certa surpresa, Heloisa Teixeira, antes Heloisa Buarque de Hollanda, começou a acompanhar a mobilização de jovens mulheres nas ruas e na internet a partir de 2015. Neste ano, o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, colocou em pauta o Projeto de Lei n. 5069/2013, que tipificava como crime o aborto em casos já autorizados pela lei, como o estupro. O objetivo do projeto era impedir o acesso à informação e a orientações a respeito do aborto legal, prevendo, inclusive, penas específicas para quem induzisse a gestante à interrupção da gravidez. Diante disso, milhares de mulheres saíram às ruas das capitais brasileiras para protestar. Muitas delas já estavam envolvidas em manifestações e coletivos feministas há um bom tempo. Nas redes sociais, campanhas com hashtags trouxeram à tona o assédio e a violência sexual contra as mulheres. Uma verdadeira explosão feminista.
O livro-ocupação de Heloisa, Explosão feminista: arte, cultura, política e universidade, de 2018, oferece um panorama do que ela identifica como a quarta onda feminista no Brasil, a qual ocupou as ruas, as redes sociais, as escolas e universidades públicas, colocando em cena novas estratégias políticas, lutas, sonhos e pautas feministas.
A metáfora das ondas tem sido utilizada por muitas teóricas para caracterizar momentos significativos de mobilização feminista. Alguns a consideram algo imprecisa, já que as narrativas mais hegemônicas sobre as ondas têm colocado em foco mobilizações de mulheres brancas das classes médias, geograficamente localizadas. Outros consideram uma boa imagem para indicar que há momentos nos quais as lutas feministas saem de um período de atuação mais discreta para irromper no debate público com imensa força. Entre os integrantes deste último grupo, não há consenso sobre a periodização das ondas ou até sobre quantas existem (três ou quatro?). Foge ao nosso escopo abordar essas polêmicas, mas lembramos que elas existem para ressaltar que Helô Teixeira se vê como uma feminista da terceira onda, ocorrida entre os anos 1980 e 1990. Para ela, essa onda foi marcada pela emergência de um pensamento teórico feminista. É assim que Heloisa se apresenta na introdução de Explosão feminista:
Sou uma feminista da terceira onda. Minha militância foi feita na academia, a partir de um desejo enorme de mudar a universidade, de descolonizar a universidade, de usar, ainda que de forma marginal, o enorme capital que a universidade tem (Hollanda, 2018: 11).
Na sequência, afirma que acreditava que a sua geração teria sido a última empenhada na luta das mulheres, até levar um susto – “um susto alegre” – ao perceber uma nova geração de feministas gritando diante da ameaça de retrocesso que representava a aprovação do PL n. 5069/2013.
Helô foi pesquisar esse novo momento do ativismo feminista no Brasil – suas estratégias, suas formas de mobilização, suas narrativas de si. Sobretudo, escutar o que a nova geração de mulheres feministas tinha a dizer. Assim, no cruzamento de gerações e experiências feministas, construiu o que ela chamou de “livro-ocupação”. É um projeto editorial inovador que compromete, definitivamente, a noção de autoria.
Explosão feminista é um livro escrito com jovens feministas. As duas primeiras partes trazem uma escrita compartilhada entre Heloisa e várias jovens que registra a mobilização das mulheres nas ruas, nas redes e na política representativa, e como o feminismo passou a se expressar nas artes, na poesia, no cinema, no teatro, na música e na universidade. Na quarta onda, além das pautas recorrentes entre feministas de diferentes gerações, como o machismo no mercado de trabalho e a violência contra as mulheres, ganharam força os debates sobre discriminações de raça, de orientação sexual e de identidade de gênero. A combatividade das mulheres também passou a se inscrever no corpo, e a internet se transformou num espaço com enorme potencial para coletivizar experiências e mobilizar ações. Com as questões e práticas forjadas pela nova geração de feministas, Heloisa não se sentiu no direito de falar por elas. Quis aprender com elas, cedendo espaço para escrita conjunta.
Explosão feminista também é um livro escrito por outras feministas. Reconhecendo a importância do debate sobre os lugares de fala, Heloisa abre espaço na terceira parte para que jovens feministas representem os muitos feminismos que marcam a quarta onda: o feminismo negro, o feminismo indígena, o feminismo asiático, o transfeminismo, o feminismo lésbico e o feminismo protestante. A nova onda, para Helô, é a do feminismo da diferença, que têm condições etárias, étnicas e relacionadas ao gênero diferentes, além de experiências e formações distintas na política, na vida profissional ou acadêmica.
Ela inicia a terceira parte com um capítulo de sua autoria, intitulado “Falo eu, professora, 79 anos, mulher, branca e cisgênero”. É uma afirmação contundente de que não é mais possível negar as diferenças entre as mulheres e suas demandas. O feminismo negro, por exemplo, enfrenta a desigualdade, a discriminação e o genocídio sofrido pela população negra. Já o feminismo indígena inclui entre suas reivindicações a demarcação das terras indígenas; entre suas denúncias, o genocídio dos povos indígenas; e entre suas lutas, o direto à saúde desta comunidade. Ou seja, há uma heterogeneidade de demandas em pauta, que demoraram para serem ouvidas, e que ainda são pouco ouvidas. Por isso, para Helô, o grande desafio é promover um tipo de escuta na qual “sejam possíveis formas inovadoras de empatia e de troca que gerem novas perspectivas de reflexão e ação” (Hollanda, 2018: 248). Invocando Hannah Arendt, Heloisa afirma que sem diálogo não há política.
A última parte do livro não apresenta novas formas de ativismo feminista. Reúne sete depoimentos de “feministas veteranas” como um “sinal de alerta” sobre uma memória não escrita sobre o feminismo brasileiro que atuou nas últimas décadas do século XX. Foi um momento em que, durante a transição democrática, as feministas construíram sólidas articulações com instituições políticas e organizações não governamentais, procurando usar as ferramentas institucionais para pressionar pela criação e aprovação de políticas públicas para mulheres. Também foi o momento em que os estudos sobre mulheres e as relações de gênero começaram ganhar expressão nas universidades.
Diríamos, na verdade, que essa última parte de Explosão feminista é um duplo sinal de alerta: não apenas sobre uma história ainda pouco registrada sobre o feminismo brasileiro, mas uma advertência de que, apesar das novas formas de ativismo, da capacidade que a internet tem hoje para unir e mobilizar as feministas, muitas das questões levantadas pelas “feministas veteranas” seguem sendo pautadas pelas “feministas da quarta onda”.
Este talvez não seja o melhor momento para discutir a sensação tão bem caracterizada por Roberto Schwarz (1987) de que, no Brasil, a vida intelectual parece sempre estar recomeçando do zero a cada geração. O que acabamos de viver intensamente sob o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro e ainda vivemos em termos de uma espiral da democracia indica que algo semelhante ocorre também na vida associativa e política. O que se passa neste país? Muito já se disse, com ou sem razão, sobre o Brasil ser um país sem memória.
É certo que dois (e provavelmente outros) dos componentes do problema são gerais, não são particularidades do Brasil, e têm a ver com o fato de que cada geração tende a acentuar o caráter radical da sua era de mudança. E isso tem se mostrado, até certo ponto, uma das estratégias mais eficientes e, por isso mesmo, mais recorrentes na história. A afirmação de uma “nova geração” implica sempre certo exagero em relação à distância que a separaria de seus predecessores. Se o conflito entre gerações, como observou Barrington Moore Jr., evocando o romance Pais e filhos de Turguêniev, é constitutivo do caminho da compreensão histórico-sociológica cumulativa, dele não raro provém um prejuízo ingênuo e com muitas consequências: a “tendência para aceitar sem crítica a noção de que a atual geração realmente resolveu certas questões de modo mais ou menos permanente” (Moore Jr., 1983: 501).
Não será preciso insistir no fato de que, baseada em cômodas distinções entre “novo” e “velho”, a ênfase numa ideia unilateral, uniforme e progressista de ruptura coloca-se de costas aos princípios dialéticos mais elementares. No entanto, apenas lembremos que, como avaliou Terry Eagleton (1993: 68), se “a ideia de ruptura absoluta é ‘metafísica’, também o é a noção de uma continuidade inteiramente sem cortes”. Ainda mais num processo de modernização como o brasileiro, historicamente marcado pela ruptura e ao mesmo tempo pela continuidade.
Já assinalamos deste livro como Helô Teixeira diverge acintosamente da visão mais corriqueira da oposição entre gerações. No primeiro capítulo, vimos a improvável aproximação que ela fez da sua geração com a do seu professor Alceu Amoroso Lima pela ideia de pragmatismo da ação intelectual. No segundo, como levou ao extremo a crítica à sua própria geração para dar visibilidade e inteligibilidade aos novos poetas que então surgiam. Estamos vendo, neste capítulo, a importância da figura de Rachel de Queiroz para Heloisa, bem como seu esforço de se colocar em diálogo com as jovens feministas da quarta onda. Agora, passamos a discutir suas múltiplas interlocuções sobre teorias feministas.
O movimento em Heloisa Teixeira é sempre intergeracional, para a frente e para trás. Em relação. Em comunicação. Em conflito. É nesse sentido que, a nosso ver, se deve entender sua extrema dedicação nos últimos anos a compor repertórios intelectuais criativos e consistentes, pondo em diálogos gerações diferentes de mulheres na Coleção Pensamento Feminista, da editora carioca Bazar do Tempo, que, encabeçada por Ana Cecilia Impellizieri Martins, define-se como uma editora feminista.
A proposta editorial da coleção, que exigiu muita pesquisa, estudos e diálogos por parte de Heloisa, bem como ela gosta, é publicar livros especialmente voltados para as jovens feministas – a quem Helô costuma chamar de “netas políticas” –, tanto como um apoio para os estudos de gênero quanto para o ativismo feminista. E haja fôlego: foram quatro livros publicados em dois anos.
A coleção repõe, novamente, os compromissos ético e intelectual que, na trajetória de Heloisa, se mostram indissociáveis. Se, por um lado, há um caráter pragmático, buscando responder às demandas de pesquisadoras e ativistas, de outro, a coleção não deixa de responder a interesses e curiosidades intelectuais mais particulares e profundas da própria Heloisa. Assim, as escolhas e a organização dos livros parecem atender ao propósito de evidenciar a pluralidade, a flexibilidade e as interpelações e redefinições de conceitos dos estudos feministas, como o de gênero, mas também os desafios presentes nas práticas cotidianas que organizam a vida em sociedade.
O conceito de gênero, tal como constituído na terceira onda feminista, parece ser uma porta de entrada particularmente interessante para evidenciar a possibilidade plural de sentidos que a vida em sociedade pode comportar. Principalmente porque o modo como o conceito é trabalhado a partir dessa onda visa evidenciar o caráter semântico da vida em sociedade. Essa ênfase narrativa coloca em primeiro plano a construção de significados e a marcação de diferenças no âmbito cultural. Se os significados são construídos e não constitutivos, a vida pode se tornar mais plástica, fluida. Os significados estão em disputa.
É nessa linha que se organiza o primeiro livro da coleção, Pensamento feminista: conceitos fundamentais, de 2019. A obra reúne dezessete autoras para recompor a trajetória do desenvolvimento da noção de gênero. Nancy Fraser, Joan Scott, Monique Wittig, Sandra Harding, Teresa de Lauretis, Donna Haraway, Judith Butler, Audre Lorde, Gayatri Spivak, Patricia Hill Collins, Sueli Carneiro, Gloria Anzaldúa, Lélia Gonzalez, María Lugones, Silvia Federici, Teresa de Lauretis, além de Paul B. Preciado foram nomes evocados para concretizar este projeto.
Este livro, assim como a coleção, nasceram de um curso especial ministrado por Heloisa em 2018 na UFRJ, intitulado ironicamente “O cânone feminista”, e, em larga medida, recuperam os propósitos de Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura, de 1994. Tendo em vista a centralidade do conceito de gênero nos trabalhos acadêmicos, bem como nas lutas das jovens ativistas, Pensamento feminista: conceitos fundamentais apresenta um apanhado representativo das “teorias de gênero, seus conflitos, sua revisão contínua nesses últimos anos, suas diversas possibilidades e perspectivas enquanto categoria de análise”, como diz a organizadora (Hollanda, 2019a: 10).
Publicado no mesmo momento, Pensamento feminista brasileiro: formação e contexto, reúne vinte autoras, dentre as quais pioneiras dos estudos de gênero no país, como Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Constância Lima Duarte, Cynthia Sarti, Branca Moreira Alves, Jaqueline Pitanguy, Heleieth Saffioti, Sueli Carneiro, Bila Sorj, entre outras. O objetivo deste volume é apresentar textos fundadores do feminismo para recontar a história do movimento no Brasil para as jovens feministas brasileiras.
Podemos dizer que a preocupação com os diálogos intergeracionais e com os repertórios — tanto em termos intelectuais quanto de ações coletivas — forjados pelas feministas brasileiras pioneiras, ganha expressão definitiva. Muitas vezes esquecidos ou negligenciados, esses repertórios estão agora disponíveis, articulando passado e presente, a fim de estabelecer novos incrementos ao diálogo e permitir a construção de novos horizontes futuros, reunindo feministas de diferentes gerações numa luta que é, ao fim e ao cabo, permanente.
O que é particularmente potente neste segundo volume é o chamado a esse conhecimento mútuo entre as feministas, assim como o reconhecimento da dimensão processual das lutas e conquistas feministas nas múltiplas comunicações entre academia e política. Também chama atenção o cuidado e a atenção para com os contextos particulares dos estudos feministas no Brasil, buscando mostrar as limitações, mas também as diversas soluções encontradas pelas pesquisadoras e ativistas para enfrentar as restrições teóricas de cada momento. O feminismo é um aprendizado social. E conhecer sua história é se apropriar das suas conquistas e compreender seus recuos e fracassos.
O percurso realizado pela organização do livro, no entanto, não se propõe a uma denúncia dos limites passados e a afirmação de uma realização utópica e plenamente plural no presente. Seu recado é evidente: se no presente os estudos feministas ganham adensamento crítico e maior espaço, se as jovens de hoje não temem se afirmar como feministas como as da geração de Heloisa, os limites permanecem, e é necessário questioná-los e enfrentá-los, assim como foi preciso lidar com as limitações particulares dos anos 1970 e 1980 àquela época. Resta, portanto, a lição, e não o exemplo, das feministas veteranas para que as feministas do século XXI possam lidar com os seus desafios.
Os dois últimos livros da Coleção Pensamento Feminista, ambos de 2020, são Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais e Pensamento feminista hoje: sexualidades no sul global. No primeiro, Heloisa, de certa forma, se hospeda num texto de Yuderkys Espinosa Miñoso (2016) para se apropriar da angústia causada pela percepção de que, ambas, embora feministas e engajadas na luta pela emancipação das mulheres, foram formadas e compartilham de conceitos básicos de uma teoria feminista alinhada ao modo de opressão que visa combater. A autocrítica da organizadora é um tanto radical, especialmente se lembrarmos que ela procurou promover debates latino-americanos sobre gênero e raça desde os anos 1980. Mas no volume de 2020 ela quer registrar que os conceitos básicos do feminismo são eurocentrados e marcados por um projeto civilizacional hegemônico, alinhado com a branquitude patriarcal e informado na autoridade e na colonialidade de poderes e saberes. Como Miñoso, portanto, o livro pretende enfrentar esse monstro do qual também é parte.
A perspectiva decolonial latino-americana, para Heloisa, não busca apenas denunciar o projeto colonial do Ocidente, mas também garantir voz a sujeitos invisibilizados, “recuperar narrativas ancestrais, desconstruir e reconstruir o confronto pré e pós-colonial, recuperar epistemologias silenciadas” (Hollanda, 2020a: 18). Buscando mais uma vez articular teoria e ativismo, com esse livro e o seguinte, Heloisa passa mais e mais a recolocar o feminismo como uma questão relativa aos princípios do conhecimento, aquilo que na filosofia e na ciência se chama de epistemologia, a reflexão permanente sobre os modos de produção do conhecimento.
O problema é controverso e exige aprofundamentos que escapam aos nossos objetivos aqui, mas vale sublinhá-lo. Se, no caso do feminismo, por um lado, é estratégica a recuperação de narrativas e práticas concretas como modos de viver não teorizados, em oposição às abstrações eurocentradas que ganham universalidade justamente por suas operações de abstração legitimadas, a ênfase nas vivências locais não implicaria redução do escopo de propostas emancipatórias?
Não existe resposta única para a questão. E certamente as respostas não serão simples. Heloisa a coloca como uma espécie de advertência sobre o risco de se adotarem as teorias exploradas no livro como meros modelos pré-fabricados para a nossa discussão. Não se trata de usar o decolonial para refutar o projeto ocidental com simplismo, aparando arestas e jogando para baixo do tapete resíduos de uma sociedade marcada não apenas pela diversidade cultural, mas também por desigualdades sociais duráveis.
Em outras palavras, leitoras e leitores são convocados a trabalhar em conjunto na reflexão e confecção de formulações que, não deixando de lado o ganho teórico trazido pelas perspectivas decoloniais, também não subestimem os processos mais gerais de desigualdades, como as de classe, que também perpassam a sociedade como um todo e essas próprias diferenças que as constituem, de modo interseccional. Enfim, temos aqui, como diz Helô, “uma tarefa trabalhosa e bela para construirmos, juntas, um pensamento decolonial com dupla atenção para as exclusões de classe, quase abandonadas pelas novas políticas feministas representacionais” (Hollanda, 2020a: 34, grifo nosso).
O quarto livro da coleção, Pensamento feminista hoje: sexualidades no sul global, estabelece um diálogo muito profícuo com os três anteriores, valendo-se do acúmulo temático e teórico da série para aprofundar o problema das epistemologias baseadas em binarismos. Daí a valorização por parte de Heloisa dos estudos feministas interseccionais, abordagem que considera múltiplas variáveis – como raça, nacionalidade, sexualidade, classe, religião, etc. – na reflexão sobre as relações entre gêneros na sociedade.
Para Heloisa, é justamente pela interseccionalidade que se abre um horizonte de articulação de lutas que permite colocar em xeque não somente as relações locais de dominação baseadas em gênero, mas a própria estrutura do capitalismo, fenômeno global e que depende da performance reiterada das rígidas marcações de gênero para garantir a estabilidade das relações que o mantém.
Por isso, o conceito de queer é o elemento norteador para a escolha dos textos compilados neste último volume. A organizadora valoriza no conceito sua força em fazer com que a língua se lastreasse na estranheza, no termo estrangeiro que resiste, nos corpos excêntricos, nas práticas diversas. O que está em foco, em suas palavras, é a “lógica queer como instrumento radicalmente desconstrutivo, capaz de promover práticas pedagógicas provocadoras, progressistas e subversivas”. Radicalizando essa perspectiva, Heloisa torna o próprio conceito um estrangeiro. Se o foco do conceito é evidenciar a variação e a fluidez das concepções de si que podem existir no mundo, capazes de questionar “nossos modos de desejar, de dizer, de fazer e de ser, em relação e em comunidade” (Hollanda, 2020b: 24-25), ela coloca em questão o próprio conceito. Mais uma vez vemos Heloisa em ação: ampliando o campo do gênero com novas perguntas, novos desenhos, objetos e sujeitos. Cruzando teoria e ativismo.
Uma noção importante que se destaca neste último livro, mas que, como percebemos melhor ao fim da leitura de toda a coleção, também as outras obras do conjunto, é a de “performance”. Nas palavras da organizadora:
Por algum motivo não imediatamente comprovável, comecei a sentir que a questão da trajetória das experiências, desejos, classificações e conceitualizações sobre o corpo, e mais especificamente sobre a sexualidade, marcavam (ou permitiam) os saltos epistêmicos da história dos estudos de gênero (Hollanda, 2020b: 11).
A atenção para essa dimensão performática, da experiência capaz de pôr em xeque modos hegemônicos de experimentar o mundo, leva Heloisa a valorizar o que chama de uma “virada experimental corporal e sexual conduzida progressivamente pelos estudos e expressões artísticas e ativistas lésbicos/queer” (Hollanda, 2020b: 26). A questão, claro, já estava delineada nos volumes anteriores da coleção, mas ganha nova inteligibilidade quando vista a partir da questão queer.
No terceiro livro, sobre as perspectivas decoloniais, Heloisa dá um passo fundamental nessa direção ao trazer imagens e textos de três artistas plásticas contemporâneas: Adriana Varejão, Rosana Paulino e Marcela Cantuária. Seu objetivo é discutir, assim, a potência epistemológica da arte como performance capaz de apontar para novos horizontes com fronteiras menos demarcadas do campo do gênero.
Vista em sua totalidade, a Coleção Pensamento Feminista desenha teorias de médio alcance sobre gênero e sociedade revitalizando este campo como, em que pese a pluralização e fragmentação social contemporâneas, uma instância central e horizontal que perpassa, em termos simbólicos e institucionais, o conjunto da sociedade, e como elemento crucial para a sua democratização. De um lado, estruturas simbólicas compartilhadas que fazem da sociedade brasileira patriarcal e machista; de outro, performances feministas que, se exitosas, são capazes de promover novas conexões simbólicas e emocionais.
As performances, porém, não apenas mobilizam recursos culturais, mas também são dependentes de recursos materiais, de poder e de difusão social. Mais do que uma forma de expressão, a performance é a ligação reflexiva entre teoria e ação. Heloisa as considera dimensões próprias e irredutíveis uma à outra, mas sempre mutuamente implicadas, numa relação de irritação mútua em que uma afeta a outra e, assim, muda potencialmente todo o circuito de que fazem parte. São comunicações múltiplas e se dão em diferentes direções, mas sempre contingentes e, por isso, às vezes criativas e até surpreendentes.
Com a Coleção Pensamento Feminista, Helô entrega uma potente caixa de ferramentas para jovens feministas, que com ela em mãos podem conhecer melhor precursoras e processos de reconhecimento e de luta pelos direitos das mulheres. Livros tão mais importantes se lembrarmos da crescente contestação da agenda da igualdade de gênero e da diversidade sexual por parte dos conservadorismos contemporâneos, que vêm mostrando, como as jovens feministas, também enorme capacidade de mobilização, dentro e fora do Brasil.
Referências
EAGLETON, Terry. (1993). A ideologia da estética. Rio de Janeiro: Zahar.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (org.). (2020a). Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (org.). (2020b). Pensamento feminista hoje: sexualidades no sul global. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (org). (2019a). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (org.). (2019b). Pensamento feminista brasileiro: Formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (org.). (2018). Explosão feminista: arte, cultura, política e universidade. São Paulo: Companhia das Letras.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (org.). (1994). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco.
MIÑOSO, Yuderkys Espinosa. (2016). “De por qué es necesario un feminismo descolonial: diferenciación, dominación con-constitutida de la modernidad occidental y el fin de la política de la identidad”, Solar, v. 12, n. 1., p. 141-171.
MOORE JR., Barrington. (1983). As origens sociais da ditadura e da democracia: senhores e camponeses na construção do mundo moderno. São Paulo: Martins Fontes.
SCHWARZ, Roberto. (1987). “Nacional por subtração”. In: Que horas são?: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, p. 29-48.
Sobre os autores
André Botelho é professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É organizador de Um enigma chamada Brasil: 29 intérpretes e um país (2009) e Agenda brasileira (2011), ambos com Lilia Moritz Schwarcz, e autor, entre outros livros, de O modernismo como movimento cultural (2022).
Caroline Tresoldi é mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas e cursa doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde desenvolve pesquisa sobre crítica cultural na América Latina. É organizadora, junto com André Botelho, do e-book Helô no Jornal do Brasil (1980-2005).
