
Chegamos ao sexto dia de postagens da Ocupação Mulheres trazendo texto de Regina Dalcastagnè (UnB). A autora mostra como a literatura brasileira contemporânea enfrenta uma falta de sistematização, o que restringe a oferta de cursos no meio acadêmico e limita as pesquisas a poucos autores reconhecidos, reduzindo a complexidade e a diversidade dessa produção. Seu projeto, denominado “Praça Clóvis”, por meio de um mapeamento crítico, adota uma abordagem inclusiva e questiona o campo literário hegemônico, buscando dar maior visibilidade a autores de grupos marginalizados e oferecer um retrato mais plural e diverso da produção literária nacional.
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Praça Clóvis: um mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea
Por Regina Dalcastagnè (UnB)
A literatura brasileira contemporânea carece de uma sistematização mais ampla. Artigos esparsos, livros e teses que se concentram em aspectos específicos, autores ou temas não dão conta da grande demanda existente no meio acadêmico. Isso acaba restringindo a oferta de cursos nas universidades e até mesmo as pesquisas sobre essa produção, que frequentemente permanecem limitadas a alguns poucos nomes já consagrados — como demonstram, por exemplo, levantamentos de artigos publicados em periódicos acadêmicos de literatura no Brasil. Com isso, reduz-se a complexidade e a variedade de uma expressão artística que se transforma significativamente ao longo do tempo, acompanhando e, em certa medida, influenciando a trajetória de mulheres e homens no Brasil contemporâneo.
Praça Clóvis é um projeto que, buscando superar essas carências, propõe um mapeamento crítico da produção literária contemporânea, sua sistematização e a construção de um espaço que agregue e ajude a divulgar esse material. Na sua primeira edição – que será aberta ao público em maio de 2025 –, estão sendo reunidas, em uma plataforma virtual, análises e informações relevantes sobre cerca de duzentos romances significativos, publicados de 1970 até atualmente. Essa base pode ser continuamente alimentada, atualizando e expandindo o universo por ela coberto. O resultado será um ponto de encontro virtual, útil a professores e estudiosos de literatura, mas que possa servir, também, a pesquisadores de outras áreas do conhecimento, no Brasil e no exterior, partilhando um saber que possui uma vasta gama de “interessados em potencial”. Ao mesmo tempo, pretende-se chamar a atenção para um grande conjunto de obras que estão deixando de ser lidas, seja porque não são reeditadas, seja porque o volume de novas publicações lança uma sombra sobre elas ou porque o esquecimento é uma marca dominante na cultura nacional. Esse esquecimento, no entanto, não significa que esses livros e suas autoras e autores não tenham ainda muito a nos dizer.
A ideia – convém frisar – não é produzir uma enciclopédia com ambição de abarcar toda a produção do período. Isso significa dizer, em primeiro lugar, que há uma reflexão sobre esse conjunto de livros e um cuidadoso processo de seleção. Entre os milhares de títulos publicados, estão sendo escolhidos aqueles que são considerados mais relevantes (o que não quer dizer “os melhores”, já que os critérios são também de representatividade, não se restringindo à qualidade das obras). A seleção é necessária para que o levantamento seja capaz de guiar o eventual leitor/internauta em uma efetiva aproximação com a literatura brasileira contemporânea. E é necessária, de igual modo, para que o projeto possa assumir um caráter crítico: mais do que listar as obras ou resumi-las, deve-se abordá-las criticamente, buscando entendê-las sob o pano de fundo das transformações da sociedade brasileira e dos influxos estéticos e estilísticos correntes. A intenção não é apenas fornecer informações sobre algumas centenas de títulos, mas, sobretudo, proceder a uma sistematização com intenção crítica do que se publicou de mais importante, em termos de literatura, a partir dos anos 1970.
De qualquer forma, o primeiro critério utilizado é a qualidade intrínseca dos livros escolhidos. Mesmo considerando que existem alguns monumentos “irrecusáveis”, a carga de subjetividade presente em qualquer seleção feita a partir dessa perspectiva é enorme e evidente – e também inevitável. Mas outros critérios de eleição pretendem ajudar a contrabalançar essa subjetividade.
Um deles é a representatividade das obras dentro de determinadas correntes estilísticas e mesmo políticas. Por exemplo, ainda que se considere que uma certa narrativa de denúncia social dos anos 1970 não tenha alcançado, muitas vezes, o melhor resultado estético, não é possível ignorar sua importância no cenário literário da época e a influência que seu projeto obteve. Assim, esse tipo de corrente está contemplado no mapeamento. Estreitamente associado ao anterior é o critério que envolve a representatividade regional, de períodos e de autoria. Tomada a partir dos títulos publicados pelas maiores editoras, das resenhas de jornais e dos prêmios nacionais, a literatura brasileira está muito concentrada no Sudeste – em especial, no Rio de Janeiro e em São Paulo. A pesquisa tem a preocupação de reduzir esse efeito, abrangendo obras importantes das diferentes regiões e unidades da federação.
Não são critérios infalíveis – e o ônus da escolha recai, como é natural, sobre a equipe de pesquisa. Como não se pretende, de forma nenhuma, criar um corpus canônico para a narrativa brasileira contemporânea, mas apenas abrir caminho para uma sistematização exequível, a polêmica e a apresentação de seleções alternativas são, na verdade, muito bem-vindas. Além disso, dado o caráter aberto do portal proposto, correções e ajustes tornam-se sempre possíveis.
Uma rede diversa e extensa
A equipe inicial do projeto foi formada por 13 pesquisadores de diferentes instituições do Brasil e do exterior vinculados ao Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (GELBC). A proposta era que cada um reunisse seus orientandos e outros estudantes para coordenar a redação das resenhas. Em pouco tempo, no entanto, percebeu-se que isso seria insuficiente e que haveria o risco de incorrermos em alguns dos vieses e das repetições que apontamos em outros trabalhos. A diversidade de nosso objeto exigia, também, a diversidade de perspectivas sobre ele. Daí a necessidade de uma mudança radical na metodologia da pesquisa, envolvendo a colaboração de inúmeros outros estudiosos.
Em primeiro lugar, a própria lista dos livros a serem resenhados precisaria de acréscimos. Professores de literatura brasileira de universidades de todos os 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal, foram mobilizados, via e-mail, para nos providenciar informações. Foram solicitadas sugestões tanto de obras consideradas importantes por eles dentro de algumas temáticas nas quais eram especialistas, quanto de romances representativos de seus estados de origem, muitas vezes de regiões mais periféricas, cujos autores têm, em geral, menor visibilidade. Com esses dados em mãos, a lista foi expandida e aperfeiçoada, incluindo obras que poderiam ter passado despercebidas por conta do distanciamento dos membros da pesquisa envolvidos. Mesmo com a presença de pesquisadores de todas as regiões do país, não abrangíamos, obviamente, todos os estados.
Em um segundo momento, foi necessário repensar igualmente o corpo de resenhistas, que teria de ser ampliado. Em tempos de redes sociais, não foi difícil reunir muitos interessados – mais de 100 pessoas se voluntariaram, a maioria de estudantes de pós-graduação e professores de literatura. Foram realizadas reuniões online para explicar o projeto e o modelo das resenhas, que segue sendo ajustado e reencaminhado aos resenhistas. Também foram convidados pesquisadores para auxiliar na edição e revisão dos textos. A equipe é composta por 26 pessoas que, em duplas, recebem as resenhas, decidem sobre sua viabilidade, revisam e definem ajustes com os autores, caso seja preciso. Há, ainda, duas revisoras que, ao final, fazem a uniformização dos textos.
Para complementar o trabalho, uma equipe de 16 pessoas realiza a pesquisa iconográfica, reunindo as capas das diferentes edições e traduções (quando necessário) dos livros, que serão incluídas no final da resenha. Para ilustrar a página de cada uma das resenhas, foi formada outra equipe, com mais de 40 artistas plásticos. Alguns muito jovens, estudantes de artes; outros experientes, com diferentes estilos e oriundos de diferentes regiões do país e mesmo do exterior. Eles produzem a ilustração a partir da leitura da resenha, estabelecendo, assim, uma rede de diálogos com a obra literária. Talvez seja significativo dizer que alguns desses artistas, especialmente os mais jovens, relatam o desejo de ler o romance após encerrado o trabalho. Por fim, há uma equipe de comunicação, responsável pela divulgação do website.
Portanto, da equipe inicial de 13 pesquisadores, o projeto abrange, no momento, cerca de 300 pessoas, entre consultores, resenhistas, editores, revisores, secretaria, pesquisadores da iconografia, ilustradores, divulgadores e um designer. Aproveitamos a experiência dos tempos da pandemia e fazemos reuniões online, cuidando para que as diferenças de fuso horário não atrapalhem a participação de colaboradores do exterior, distribuímos tarefas por e-mail, conversamos, em grupos menores, por WhatsApp. Há necessidade de ajustes frequentes, uma vez que novas dúvidas surgem o tempo todo. Mas as soluções também vêm de todos os lados, são discutidas e incorporadas em documentos que podem ser consultados em qualquer momento. Em suma, é um projeto de crítica literária que está sendo construído coletivamente há mais de dois anos, com os tropeços e os desvios esperados em um trabalho com essa envergadura, mas também com o prazer de estarmos juntos, de construirmos juntos outra possibilidade de abordagem da literatura. O site será o resultado mais visível de todo esse esforço, mas a experiência de compartilhamento coletivo de conhecimentos, de solidariedade acadêmica, de compromisso com a cultura do país não é menos relevante.
Próximos desafios
Em sua segunda edição, que se inicia agora, o projeto visa ampliar a abrangência do mapeamento, logo do portal, incluindo outros romances, outros gêneros literários, como o conto, a poesia, a dramaturgia, além de entrevistas com escritores do período (a partir do acervo disponibilizado pelo pesquisador italiano Giovanni Ricciardi, em que há uma centena de entrevistas realizadas por ele nos últimos anos do século XX com os principais autores brasileiros da época), levantamentos sobre o funcionamento do campo literário brasileiro (passando por uma reflexão sobre o mercado editorial, as livrarias, a crítica, as feiras literárias etc.) e discussões sobre a tradução, edição e recepção da literatura brasileira contemporânea no exterior – inicialmente, os países trabalhados serão França, Inglaterra, Alemanha, República Tcheca, Japão, Estados Unidos e Argentina.
É comum compreender as praças como dispositivos que tornam os espaços das cidades muito mais acolhedores. O acesso às praças também costuma ser reconhecido como a materialização do direito humano à cidade, enquanto espaço livre de inclusão social. A praça é um espaço público de circulação, de lazer, de encontro e convívio para os usuários que por ela passam. Com o tempo, seus frequentadores reconhecem nela um espaço de pertencimento, um lugar que permite a construção de uma memória coletiva. De forma análoga, e considerando a literatura como um direito humano, o projeto Praça Clóvis – nome que homenageia também uma canção de Paulo Vanzolini – pretende reproduzir esse espaço comum no ambiente virtual.
Em função dos próprios critérios estabelecidos para a seleção das obras e dos assuntos a serem discutidos, essa proposta tem caráter inclusivo. Busca-se tensionar o cânone, evitando os mecanismos que naturalizam obras e autores como pretensamente representativos, ao passo que produzem o apagamento de toda uma literatura produzida à margem, que não se beneficia dessa dinâmica. Lançando um olhar crítico para fora desses limites estabelecidos pelo campo literário hegemônico, o portal Praça Clóvis intenta agregar e dar maior visibilidade à produção não só de autoras e autores de fora do eixo Rio-São Paulo, mas também de integrantes de grupos marginalizados, buscando oferecer um retrato mais plural e diverso da nossa produção nacional.
Estamos, assim, atuando em uma discussão que não é recente sobre a distorção de perspectiva que faz com que muito do que se pensa e se produz seja apagado do retrato convencional da literatura brasileira (e não apenas dela). Em 1904, Euclides da Cunha escrevia ao seu pai de Manaus, capital do Amazonas:
(…) a mais consoladora surpresa do sulista está no perceber que este nosso Brasil é verdadeiramente grande porque ainda chega até cá. Realmente, cada vez mais me convenço de que esta deplorável Rua do Ouvidor é o pior prisma por onde toda a gente vê a nossa terra (Cunha, 1997: 230).
A crítica mordaz do autor apontava o risco de se reduzir a percepção sobre a realidade do país a essa perspectiva tão estreita – o Rio de Janeiro dos intelectuais do início do século XX (somando-se à elite da São Paulo dos dias de hoje, acrescentaríamos). Dizer que o Brasil chega muito mais longe do que costumamos imaginar é pouco se não nos esforçarmos para ir até lá.
O portal Praça Clóvis apresenta, assim, um convite para aprofundar a reflexão coletiva sobre a literatura brasileira contemporânea, com a disponibilização pública de um acervo ampliado de informações e de leituras sobre a produção do período, reforçando o vínculo entre escrita, crítica, mercado e campo literários – e com a sociedade brasileira.
Para saber mais
Associado ao portal, o projeto será disponibilizado no site que, por enquanto, para o público, ainda se apresenta em versão limitada. O projeto mantém também perfil no Instagram, um podcast e uma newsletter. São iniciativas de divulgação científica que buscam compartilhar informações sobre as obras e sobre o processo de desenvolvimento da pesquisa com o público em geral. No podcast e na newsletter, por exemplo, especialistas que trabalham no projeto falam sobre o processo de elaboração e revisão das resenhas, sobre tradução, sobre pesquisa iconográfica, entre outros temas. Ao difundir conteúdo em diferentes mídias, além de ampliar a difusão dos produtos da pesquisa, aproximando-a de um público mais amplo, o projeto também atende a diferentes perfis de pessoas, que se identificam com um ou outro tipo de mídia.

Referências
CUNHA, Euclides da. (1997). Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo: Edusp.
DALCASTAGNÈ, Regina. (2018). A crítica literária em periódicos brasileiros contemporâneos: uma aproximação inicial. Estudos de Literatura Brasileira Contemporâne, v. 54, p.195-209.
Sobre a autora
Regina Dalcastagnè é doutora em Teoria Literária pela Universidade Estadual de Campinas e professora do Instituto de Letras da Universidade de Brasília. É autora de O prego e o rinoceronte (Zouk, 2021), Literatura brasileira contemporânea (EdUERJ, 2012). Foi editora da Revista de Literatura Brasileira Contemporânea.
