
Na nova rodada da Ocupação Mulheres, Carla Miguelote e Claudia Mele assinam o texto “Deriva Sapatão”, no qual relatam o programa de ações da performance homônima que realizaram no Rio de Janeiro em fevereiro deste ano. Nessa intervenção, as duas artistas lésbicas percorreram os bairros da Tijuca e de Laranjeiras, promovendo diálogos sobre a experiência lésbica. A ação explorou questões de visibilidade e os desafios que cercam a existência sapatão, com destaque para o significado e as disputas em torno desse termo entre diferentes gerações.
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Deriva Sapatão
Por Carla Miguelote &
Claudia Mele

Duas artistas, namoradas, caminham de mãos dadas, à deriva em uma cidade. Elas carregam nas costas cartazes amarelos onde se lê: “Quer conversar sobre relacionamentos lésbicos?”, “Quer conversar sobre existência sapatão?”. Isso é o início do programa de ações da performance “Deriva Sapatão”, que realizamos nos bairros da Tijuca e Laranjeiras, na cidade do Rio de Janeiro, em fevereiro de 2025.
Durante o percurso, a não ser por olhares discretos de reprovação, nós duas andamos por ruas, praças, bares, blocos de carnaval, shoppings e galerias, sem nenhum problema ou discriminação. Temos consciência do nosso lugar de privilégio, apesar de lésbicas. Somos mulheres brancas, magras, de classe média e dentro dos padrões culturalmente atribuídos à noção de feminilidade. Portanto, não causamos desconforto, reações de ódio ou desprezo. Somos vistas como mulheres merecedoras de respeito, apesar de lésbicas.
Ressaltamos que, além de artistas, somos também pesquisadoras e professoras em universidades do Rio de Janeiro nas áreas de artes, letras e psicologia. Em nossas práticas, observamos como o ato de falar sobre histórias silenciadas provoca deslocamentos internos e na comunidade. Em nossas vidas pessoais, percebemos como ainda é raro casais de mulheres manifestarem publicamente carinho (mesmo que se trate apenas de mãos dadas), mais raro ainda quando se trata de mulheres, como nós, com mais de quarenta ou cinquenta anos, visto que, se há uma mudança em curso, ela se dá sobretudo nas novas gerações.

Além de conversar com mulheres lésbicas, nossa intenção com a performance era também dialogar com qualquer pessoa que cruzasse o nosso caminho. Queríamos ouvir diferentes pontos de vista, compreender o que as pessoas sentem e pensam quando veem duas mulheres de mãos dadas andando na rua ou dando um beijo na boca. Ou ainda, o que elas pensam sobre a palavra “sapatão”. Ou o que mais elas quisessem dizer ou perguntar. Estávamos francamente preparadas para ouvir o que o outro ou a outra teria a dizer.
A ideia era que o percurso pelas ruas fosse delineado a partir de encontros, marcados por aplicativos de relacionamentos, com mulheres dispostas a falar sobre alguma história significativa de sua experiência em relacionamentos lésbicos. O deslocamento para os encontros seria realizado sempre a pé, com as caminhantes de mãos dadas. Além dos percursos a pé e dos encontros, seriam realizadas paradas em lugares públicos e movimentados, onde as duas ficariam sentadas e disponíveis para conversar.
Pensamos que, para uma performance sapatão, as noções de deriva e errância se adequavam bem, dialogando com algumas reflexões do livro Viver uma vida feminista,de Sara Ahmed, pesquisadora britânica, ativista e lésbica. Ahmed entende o que Adrienne Rich chamou de “heterossexualidade compulsória” como um sistema de tráfego. Um caminho ou uma estrada, assim como um fluxo de pessoas ou uma multidão em deslocamento, apontam uma direção a ser seguida. Andar fora dos caminhos já traçados ou na direção contrária à do deslocamento de um grupo grande de pessoas (como na saída do metrô) é mais custoso do que seguir os fluxos: retardamos nossos passos e encontramos uma série de obstáculos. Do mesmo modo, argumenta Ahmed, nossas vidas são direcionadas em função da maior facilidade de avançar por caminhos já trilhados. A heterossexualidade, sendo a via mais seguida, acaba impondo sua direção e dissuadindo pessoas que, a princípio, se sentiriam atraídas a percorrer outros trajetos. Nesse sentido, as mulheres que se desviam da heterossexualidade são aquelas que se dispõem a errar, em dois sentidos da palavra: deixar de acertar (estar de acordo com as normas) e andar sem rumo certo.
Ser lésbica é se afastar do caminho que você supostamente deveria seguir para chegar ao destino correto. Errar é se afastar do caminho da felicidade. Desviamos da categoria “mulher” quando nos movemos na direção de outras mulheres (Ahmed, 2022: 374).
Ahmed está se referindo obviamente à concepção hegemônica do que se considera o destino correto e feliz das mulheres: casar-se e ter filhos. Segundo essa concepção, desviar-se da heterossexualidade “costuma ser pensado como a perda da possibilidade de se tornar feliz” (Ahmed, 2022: 85). Quando recusamos a “felicidade” do casamento heterossexual, muitas vezes isso é interpretado como se o não tivéssemos conseguido, como se tivéssemos fracassado. Daí o investimento na imagem da lésbica como uma figura amargurada, ressentida e mal-amada. Trata-se de uma estratégia de poder, que consiste em negar ou apagar a alegria e a carga elétrica de desejo despertadas pela coragem de buscar formas de felicidade não previamente traçadas.
Movendo-nos pela cidade na direção de outras mulheres, traçando nosso percurso ao sabor dos encontros, sem um rumo final, podíamos nos entregar ao que Ahmed chama de “linhas de desejo”. “O conceito vem da arquitetura paisagística e define os caminhos que se abrem no solo quando um número suficiente de pessoas não segue a rota oficial”, explica a autora (Ahmed, 2022: 480). As linhas de desejo, em um sentido mais lato, são aquelas criadas quando não seguimos os caminhos oficialmente traçados. Era o que experimentávamos ao caminhar de mãos dadas, felizes e visíveis, escolhendo, a cada passo, o caminho que queríamos seguir.
Para a performance da Tijuca, que ocorreu no dia 15 de fevereiro, um sábado, conversamos previamente com algumas mulheres lésbicas por aplicativos, mas não conseguimos marcar nenhum encontro, pois nenhuma delas quis participar do trabalho artístico. Ficamos, então, apenas com a possibilidade das caminhadas e paradas em espaços públicos, realmente à deriva, sem nenhum roteiro prévio. Assim, conversamos com um público bastante heterogêneo, composto por homens e mulheres heterossexuais, gays, lésbicas e menines não-bináries, com idades variando entre 13 e 70 anos.
Em Laranjeiras, antes do início da segunda performance, realizada na terça-feira seguinte, dia 18, já tínhamos quatro encontros marcados através de aplicativos, o que mudou a dinâmica em relação à performance anterior. Neste dia, não ficamos tanto à deriva e nos concentramos nas conversas com estas quatro mulheres lésbicas. Conversamos com a primeira delas no Largo do Machado e depois fomos para um bar na Praça São Salvador, onde as outras três foram chegando uma a uma e se juntando ao grupo. Embora conversas coletivas não tivessem sido programadas, constituiu-se espontaneamente ali uma comunidade provisória. Ouvimos as histórias umas das outras e nos sentimos à vontade para compartilhar experiências dolorosas e divertidas sobre a existência lésbica.
Embora questões muito diversas tenham surgido em nossas conversas durante as performances, para os propósitos deste texto optamos por nos concentrar na seguinte pergunta, que fizemos a todas as nossas interlocutoras e interlocutores, homossexuais e heterossexuais: o que você acha da palavra “sapatão”?
Começamos o relato pela resposta obtida no último encontro do primeiro dia da performance. Quando estávamos dentro do Shopping Tijuca, já pensando em encerrar nossa deriva, um rapaz autista se aproximou de nós, curioso com as perguntas dos cartazes. Perguntamos a ele o que entendia pela palavra “sapatão”. Ele disse que sapatão era uma mulher que se vestia de homem, assim como travesti era um homem que se vestia de mulher. Respondemos que não era exatamente isso, que sapatão era uma mulher que se relacionava afetiva e sexualmente com outra mulher. Ah, lésbica!, ele exclamou. Deu-se por satisfeito por ter rapidamente compreendido a nossa definição e foi embora.
Sua compreensão da sapatão como uma mulher que se veste de homem (ou se comporta como homem) aponta para algumas problemáticas em torno do termo, tanto para sua recusa por parte de mulheres lésbicas mais velhas quanto para sua reivindicação por lésbicas mais novas e militantes. Observamos que há uma diferença geracional em relação ao uso da palavra “sapatão”. Durante nossas conversas, pudemos constatar que sobretudo as mulheres lésbicas acima de 50 anos não gostam do termo e o consideram como um xingamento. Não o usam para se autodenominar nem gostam que outras pessoas o usem para se referir a elas. Essas mulheres viveram a sua juventude e começaram a experimentar sua sexualidade em um momento em que ainda havia muito preconceito e a palavra “sapatão” tinha uma carga demasiadamente negativa, sendo usada com agressividade para atacar as mulheres que ousavam se desviar da heteronormatividade ou dos padrões de feminilidade.

Percebemos, ainda, que as mulheres mais velhas com quem conversamos não só recusam a palavra “sapatão” como também não se sentem muito à vontade para usar a palavra “lésbica”, preferindo se autodenominarem como gays. Essa preferência se deve, muito provavelmente, à maior aceitação não apenas da palavra “gay”, mas também da existência e da visibilidade de homossexuais masculinos.
Se, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, o movimento gay começava a se organizar, trazendo mais visibilidade para a causa e mais aceitação dos homossexuais masculinos, o mesmo não se pode falar das mulheres lésbicas, que sofriam preconceito até mesmo dentro dos grupos gays, majoritariamente constituído de homens. Eram poucas as mulheres que tinham coragem de se expor. A representatividade gay estimulava que homens se assumissem, mas o mesmo não acontecia com as mulheres, que permaneciam invisibilizadas. Desta forma, o termo “gay” foi ganhando força, sendo utilizado também para mulheres. Vale lembrar que, enquanto a palavra “gay” vem de alegre, e tem, portanto, um valor positivo, a palavra “sapatão” traz a ideia da mulher de sapatos grandes, que não se enquadra em um padrão feminino – o que confere, sob o ponto de vista da heteronormatividade, uma carga negativa ao termo.
Mesmo entendendo que a opção de mulheres homossexuais pela palavra “gay” se dê em função de uma busca por maior aceitação, observamos que esse uso acaba por invisibilizar as especificidades da experiência lésbica e seu potencial subversivo dentro de uma estrutura patriarcal. Como afirma Adrienne Rich:
As lésbicas têm sido historicamente privadas de uma existência política por sua “inclusão” como versão feminina da homossexualidade masculina. Equiparar a existência lésbica com a homossexualidade masculina, porque ambas são estigmatizadas, é apagar mais uma vez a realidade das mulheres (Rich, 2019: 66).
Ser uma mulher lésbica é uma experiência muito distinta de ser um homem gay, pois, em uma sociedade patriarcal, os homens, independentemente de sua orientação sexual, gozam de maiores privilégios econômicos e culturais, de mais respeito e mais liberdade. Por isso, ao recusar a opressão que a heterossexualidade traz, que pressupõe que a mulher deve submissão e afeição irrestrita aos homens, a lésbica recusa também um “luxo” e um “privilégio” que as mulheres heterossexuais têm: serem respeitadas simplesmente por estarem ao lado de um homem.
A palavra “sapatão”, como entendida pelo menino autista que encontramos no shopping, corresponde à imagem da mulher-macho ou mulher desfeminilizada, disseminada no imaginário popular através da marchinha de carnaval Maria Sapatão, que fala de uma mulher que “de dia é Maria e de noite é João”. De acordo com as categorias binárias que fundamentam o pensamento ocidental, a mulher que se distancia dos atributos culturais que pretendem definir a feminilidade só pode ser equiparada a um homem. Ahmed nos lembra da etimologia da palavra woman (mulher), que vem da união de wif (esposa) e man (ser humano). Sua origem sugere que a mulher é um ser-esposa, um ser subserviente, uma serva: “a mulher humana não apenas como relacionada / relativa ao homem mas também voltada para o homem (a mulher como quem está para e, portanto, existe para)” (Ahmed, 2022: 374). Nesse sentido, a mulher que nega subserviência ao homem e busca sua autonomia, afirmando-se como sujeito desejante (e não mais ou apenas como objeto de desejo) desestabiliza a própria categoria de mulher. Assim, para boa parte da população, a mulher que se desvencilha das injunções da heteronormatividade, que ousa se vestir ou se comportar como um homem, precisa ser excluída e não merece respeito.
A palavra “sapatão”, mais do que outras denominações, parece se acomodar a esse pensamento excludente. Entendemos ser por esse motivo que as pessoas heterossexuais com quem conversamos preferem não utilizar a palavra. Elas disseram ter receio de agredir as mulheres homossexuais ao chamá-las de sapatão, preferindo nomeá-las de outras formas, como lésbicas, por exemplo.

Porém, as meninas mais jovens com quem conversamos, principalmente entre 20 e 35 anos, não a sentem como um xingamento e, pelo contrário, observam muita potência na palavra. O mesmo ponto de vista é compartilhado por Ricardo, gay de 57 anos, que conversou conosco na Tijuca. Nascido no bairro, professor de literatura e de direitos humanos da Universidade Estadual de Nova York, ele nos surpreendeu ao contar que era um pesquisador de literatura lésbica, especialista na obra de Cassandra Rios. Na sua opinião, “lésbica” é uma palavra mais palatável, enquanto o termo “sapatão” é mais contundente e importante para o ativismo. Ele considera a palavra “sapatão” maravilhosa, apenas não mais bonita do que “sapatona”. Trabalhando com linguagem, Ricardo afirma a potência política da flexão de gênero de determinados substantivos, como é o caso de “presidenta”.
Muitas ativistas lésbicas compactuam com o ponto de vista de Rick e veem o uso da palavra “sapatão” como resistência. O manifesto do movimento Radicalesbians, primeiro grupo de direitos lésbicos pós-Stonewall, já afirmava, nos anos 1970, a potência do termo dyke, correspondente em língua inglesa de nosso “sapatão”. O grupo afirmava que enquanto as mulheres se amedrontarem com o rótulo, elas estarão submetidas ao controle da cultura masculina. Sara Ahmed (2022: 377) parece concordar com a ideia, quando diz: a “sapatão é assustadora. Tornar-se sapatão significa não ter medo de assumir uma postura militante”.
Luísa, de 36 anos, com quem conversamos em Laranjeiras, usa a palavra “sapatão” para se autodenominar e considera “lésbica” um termo muito formal. Essa distância em relação à palavra “lésbica” parece ir ao encontro do que diz Glória Anzaldúa (2021: 126) em seu texto Esqueerzita(r) demais a escritora – loca, escritora e chicana. Anzaldúa afirma que, para ela, o termo “lésbica” é um problema: “Como chicana, mestiza de classe operária, […] ‘lésbica’ é uma palavra cerebral, branca e classe média, representando uma cultura dominante […], derivada da palavra grega lesbos”. E conclui: “Soy una puta mala, […] uma tejana tortillera. ‘Lésbica’ não nomeia nada em minha terra natal”. A palavra tortillera, que ela reivindica, seria o equivalente, no Brasil, a “sapatão”.
A proposta de intitular a performance como “Deriva Sapatão” foi de Carla, de 47 anos, ativista e lésbica assumida desde os 19 anos. Claudia, de 56 anos, heterossexual até os 50, teve receio. Assim como as mulheres mais velhas com quem conversamos nas performances, Claudia também compreendia essa palavra como um xingamento. Foi inclusive advertida por uma amiga, de 73 anos, para que mudassem o título da performance, que lhe soava muito agressivo. Mas Claudia resolveu confiar na escolha de Carla. E agora, após a vivência da performance e ao escrever este texto, Claudia compreendeu que o termo “sapatão” era a melhor escolha para compor o título tanto da performance quanto deste artigo.
Referências
AHMED, Sara. (2022). Viver uma vida feminista. Tradução de Jamille Pinheiro Dias, Sheyla Miranda e Mariana Ruggieri. São Paulo: Ubu.
ANZALDÚA, Glória. (2021). A vulva é uma ferida aberta e outros ensaios. Tradução de Tatiana Nascimento. Rio de Janeiro: Bolha.
RICH, Adrienne. (2019). Heterossexualidade compulsória e existência lésbica e outros ensaios. Tradução de Angélica Freitas e Daniel Lühmann. Rio de Janeiro: Bolha.
Sobre as autoras
Carla Miguelote é professora adjunta do Departamento de Letras da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Dentre suas últimas publicações, destaca-se o artigo “Poetas de pochete: quiném homem, quiném mulher” (Revista Texto Poético, 2024).
Claudia Mele é doutora e mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e professora da Faculdade CAL de Artes Cênicas, da Faculdade Cesgranrio de Teatro e da Universidade Santa Úrsula. É autora do livro Autoconhecimento através dos chakras: práticas corporais e vocais para artistas e não artistas (Paco Editorial, 2023).
