Homenagem | Beatriz Sarlo, por Raúl Antelo

Na semana em que Beatriz Sarlo completaria 83 anos, a BVPS publica um tributo de Raúl Antelo (UFSC) a essa figura central da vida intelectual argentina e latino-americana, falecida em dezembro passado. Antelo comenta que recebeu a notícia de sua morte poucos minutos após assistir a um documentário sobre Antonio Candido, por quem Sarlo nutria grande admiração. A coincidência dos eventos serve de ponto de partida para o autor observar que Sarlo e Candido, cada um à sua maneira, construíram seus projetos intelectuais em torno de uma ideia de emancipação sustentada pela tensão entre universalismo e particularismo. Se a crise das instituições e as transformações no cenário cultural dos últimos anos evidenciam os limites de suas análises, para Antelo, a perda de figuras como essas nos abate também pela sensação de que projetos coletivos ligados à ideia de emancipação estão chegando ao fim e não podem ser facilmente retomados.

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Sarlo

Por Raul Antelo (UFSC)

Tanto as elites políticas como as econômicas estão bestializadas e têm pouca disposição intelectual para se encarregarem de assumir a complexidade do panorama presente. Houve, por um lado, fratura social, fratura do espaço público, do espaço urbano, o que contradiz todas as tradições mais ou menos integradoras do país. E, por outro, houve um “achatamento” das diferenças culturais, no sentido de que há traços culturais compartilhados transversalmente pela sociedade e que têm relação com essa hegemonia dos meios audiovisuais. E, em terceiro lugar, houve a crise da instituição a partir da qual se construiu a distinção cultural da Argentina: a escola pública e obrigatória, que foi a primeira instituição universal de cidadania, que era um direito e uma obrigação para homens e mulheres. A escola pública foi o primeiro aparato de Estado completamente universal e teve uma eficácia muito forte na incorporação de centenas de milhares de imigrantes a uma cultura comum, ainda que com a perda de elementos culturais diferenciados de origem. Hoje somos muito sensíveis a essas perdas culturais. Mas, de todo modo, houve um sistema escolar público e gratuito que, em meados do século XX, havia incorporado a totalidade da população, e o país parecia ter solucionado para sempre os problemas de escolarização. Não é o que vemos hoje. E não porque a maioria das crianças não esteja na escola pública. Na verdade, hoje as crianças são incorporadas à escola pública, mas por razões que não têm a ver com os objetivos da educação e sim porque nela comem, ou porque nela passam horas nas quais são subtraídas de um mundo de violência, de droga ou de indeterminação completa. E isso agrava a situação em termos de transformações culturais.

Beatriz Sarlo – “A crise de identidade” (2001).

Na madrugada do dia 17 de dezembro de 2024, estava assistindo Antonio Candido. Anotações Finais, o filme de Eduardo Escorel. Chamou minha atenção a cena final, composta de imagens filmadas em 1995, em que o mestre reconhecia uma disjunção entre liberdade e igualdade, argumentando que a primeira é individualista, ao passo que a segunda, coletivista. Fiquei pensando, porém, que não há liberdade (individual) sem o peso da linguagem (simbólica, cultural, transhistórica e grupal). Não passaram cinco minutos, exatamente, quando recebo uma ligação, que me abala, anunciando que Beatriz Sarlo (1942-2024) tinha acabado de falecer. Algo unia, visceralmente, ambas as vidas, para além da admiração que Beatriz sempre alimentou por Antonio Candido.

Com efeito, os processos de emancipação latino-americana do século XIX, bem como as vanguardas estético-políticas do XX, a partir dos quais Candido e Sarlo armaram, respectivamente, seus dispositivos, sempre defenderam uma homogeneidade abstrata da igualdade dos cidadãos perante a Lei. Duplo movimento ambivalente: afirmar a igualdade universal, Santa Rita-Paris, porém, ao mesmo tempo, confirmar a diferença e a diversidade por meio de usos desviantes, não só através do Aleph, mas também pela Ursa maior macunaímica. No caso de Sarlo, a fórmula paradoxal foi a de uma “modernidade periférica”, um “regionalismo urbano de vanguarda”, com o qual ela buscava dar conta da poética de Borges, um discurso em que universalismo e particularismo, mais uma vez, eram confrontados com suas respectivas impossibilidades (Antelo, 2022, 2006).

Universalismo e particularismo, com efeito, mutuamente referenciados, embora sem qualquer síntese integradora, posicionavam-se em favor de uma igualdade universal, inalcançável sem a demanda dos excluídos, expulsos de toda universalidade. Paralelamente, essa demanda particular só se sustentava em diálogo ativo com uma universalidade letrada que, em última análise, fornecia os conteúdos dessa democracia finita (Podlubne, 2020). Sem se identificarem reciprocamente, particularidade (histórica) e universalidade (filosófica) funcionavam assim relativamente fora do eixo. A particularidade ultrapassava largamente o conceito, até então conhecido, de universal, ao passo que a universalidade ficava muito aquém do particular, com o qual se afirmava um peculiar paradoxo. Não só (adornianamente) o Todo é o não-verdadeiro: a parte é mais do que o Todo[1]. A essa parte Georges Bataille chamará de “parte maldita”; ela é inerente ao Todo, que dela carece, como intuíra Mallarmé (“Un présent n’existe pas… Faute que se déclare la Foule”. “L’action restreinte”, Divagations, 1897).

Acontece, entretanto, que aquilo que nos abate, na morte de Antonio Candido ou, mais claramente agora, com Beatriz Sarlo, é a sensação do irreparável, não enquanto experiências individuais irrepetíveis, mas como trabalhos coletivos em torno à emancipação. Estamos, não há dúvida, em outro momento do capital e da cultura. Não há mais o Livro como Lei (em um vídeo sobre sua biblioteca, Sarlo exibe, orgulhosa, a edição princeps da História de San Martín (1887) de Bartolomé Mitre; no filme O avô na sala de estar (2024), Maria Clara Vergueiro vê Antonio Candido procurar na prateleira a edição original de Os Sertões (1902), parcimoniosamente lida pelo dr. Aristides Candido de Mello e Souza, toda noite, após as refeições).

Passamos, então, de um universalismo particular, oposto ao particularismo universal de raiz europeia, iluminista, a um outro estágio de dialética negativa, uma democracia infinita, que assume o mal-estar democrático, mas torna a instalar, porém, o conflito do particular excluído, no cerne do universal, exibindo a violência da exclusão desse outro interno, ao passo que igualmente rejeita os apelos do pensamento identitário. Em outras palavras, passamos

do intelectualismo de elite à sensibilidade cultural de massas; da produção artesanal da obra à produção para o mercado; das últimas vanguardas ao pós-modernismo; dos escritores formados nos livros ou nas redações dos jornais aos formados no videoclube ou mesmo na Universidade (Sarlo, 2005).

Em dezembro de 1990, Beatriz escreveu um ensaio sobre cinismo e excesso intitulado “Menem”, na linha do quarto volume das Circunstâncias (2007) de Alain Badiou, De quoi Sarkozy est-il le nom?. Mas ela não escreveu, contudo, um ensaio chamado “Milei”. Estava cansada, como Candido se dizia cansado da militância orgânica. Cansados desse cansaço tematizado por Oliverio Girondo, já nos anos 30. Mas talvez não fosse mais necessário escrevê-lo.  O ensaio já estava escrito. Nesse estágio atual do debate sobre arte e sociedades, há sempre, na linguagem, sobrevivências, decalagens temporais por meio das quais o passado ainda atua no presente; assim como há, igualmente, algo inesgotável nesse mesmo presente, situado muito além das formas humanas, de sorte que caberia pensar em uma origem múltipla das artes, a rigor heterogêneas e irredutíveis a um senso único ou universal. A arte contemporânea delimitaria, portanto, um campo de batalha onde se enfrentam diversos sentidos, muitos deles antagônicos, e as contribuições de Sarlo, mesmo que valiosíssimas para entender a arte segundo Borges, tiveram dificuldades em incorporar outras linguagens posteriores. Baste dar três nomes, Cortázar, Puig, Aira. A razão, a meu ver, é muito simples.

A última Sarlo, a Sarlo derradeira e final, penou em incorporar o particular excluído no âmago do universal e, para tanto, cunhou uma expressão (“comigo não, violão”), muito malandra (e universal-particular), de que a mídia boçal se apropriou, imaginando que ela e Beatriz formassem uma mesma entidade homogênea. Para além de certas condescendências, agônicas para aqueles que admiramos seu trabalho acadêmico, Sarlo não conseguiu elaborar uma resposta satisfatória (mas a mídia muitíssimo menos) perante uma arte pós-humana, algorítmica ou de redes. É ela, no entanto, e paradoxalmente, a que nos cerca e condiciona, por completo, em nosso luto.

Em 29 de março, Beatriz Sarlo completaria 83 anos.


Nota

[1] “Es difícil la posición de quienes reconocemos que la totalidad es imposible y, al mismo tiempo, alguna forma de totalización hace que todo sea más soportable y también más explicable. Adorno pensaba que lo que había estallado no podía recomponerse, porque no era sólo el estallido de una idea del mundo sino de una subjetividad. La nostalgia no es por algo que puede recomponerse sino por algo que, con el capitalismo, se ha perdido para siempre”. (…) Adorno le reprochó a Benjamin no ser suficientemente ‘dialéctico’. Benjamin nunca fue suficientemente nada. Allí está su fascinación: en ese algo incompleto. De todos modos, dentro de diez años o menos, lecturas como la mía ya no pertenecerán al presente (casi con seguridad habrán pasado al olvido)” (Sarlo, 2011).

Referências

ANTELO, Raul. (2006). “Prefazione”. In: SARLO, Beatriz. Una modernità periférica. Buenos Aires 1920-1930. Macerata: Quodlibet.

ANTELO, Raul. (2022). “Beatriz Sarlo, latinoamericanista”. Chuy. Revista de Estudios Literarios Latinoamericanos, n. 13, p. 20-45.

PODLUBNE, Judith (ed). (2020). “Beatriz Sarlo, ensayista” (dossiê com textos de Saítta, Amante, Kohan, Gerbaudo, Dalmaroni, Laera, Contreras, Jarkowski, Giordano, Szurmuk, Oubiña, de Diego e a editora Podlubne). Cuadernos de Literatura, v. 24.

SARLO, Beatriz. (2005). “Política y pensamiento”. Clarín. Buenos Aires, 20 ago. 2005.

SARLO, Beatriz. (2011). “Elogio de la miniatura”. Entrevista a Daniel Link. Radar libros. Página 12. Buenos Aires, 2 abr. 2011.