Folhetim V | Silviano Santiago

“Machado, autor de O Primo Basílio”, o novo folhetim inédito de Silviano Santiago, reconstrói os dilemas vividos por Machado de Assis em 1878, ano de crise e renascimento artístico. Entre doenças, críticas severas à sua obra e os desafios do naturalismo europeu, Silviano mostra que o escritor carioca foi construindo uma virada radical. Ao responder de algum modo à recepção hostil de seu romance Iaiá Garcia, Machado se reposiciona com uma crítica sofisticada ao romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós. Mais do que responder, ele transforma o golpe recebido em uma resenha do jovem Urbano Duarte em um contragolpe crítico que ilumina o caminho para Memórias Póstumas de Brás Cubas, marco da virada introspectiva e modernizante da literatura brasileira.

Neste quinto folhetim, a alusão no título é óbvia: “Eça, autor de Madame Bovary”, ensaio central de Silviano publicado há mais de 50 anos e incluído em Uma literatura nos trópicos. Temas caros ao crítico, como influência, cópia e original, voltam ao alvo, mas problematizados em novas camadas de desconstrução nesta série de folhetins que vão compor o Caderno 2 de O grande relógio: a que hora o mundo recomeça.

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Quinto Folhetim

Machado, autor de O primo Basílio

Por Silviano Santiago

Disse comigo: — Este homem [Eça de Queirós] tem faculdades de artista, dispõe de um estilo de boa têmpera, tem observação; mas o seu livro traz defeitos que me parecem graves, uns de concepção, outros da escola em que o autor é aluno, e onde aspira a tornar-se mestre; digamos-lhe isto mesmo, com a clareza e franqueza a que têm jus os espíritos de certa esfera (negrito meu).

Machado de Assis, resenha de O primo Basílio, 16 de abril de 1878, e réplica aos comentários dos leitores, 30 de abril, ambas no jornal O Cruzeiro.

Na biografia e obra de Machado de Assis, é o mês de setembro que divide o ano de 1878 em dois semestres semi-independentes e incompatíveis. As duas falsas metades, desproporcionais e irreconciliáveis, semiautônomas e autoexigentes, forçam-no a reconfigurar, quando o desconforto físico e emocional se tornam agudos, a vida passada e a proposta de produção original em literatura brasileira nela embutida. Ao ser obrigado a se despojar da máscara de amanuense íntegro e imaculado e ter de assumir pública e profissionalmente a natureza física sensível a achaques constantes e a doenças sérias, renasce o escritor que envaidecerá o Brasil. Perspectivas inesperadas de futuro, intempestivas e revolucionárias, são-lhe facultadas. Não as rejeita.

Machado de Assis tem o primeiro e longo semestre de 1878 tomado pelo trabalho diurno e rotineiro de funcionário público associado a múltiplas tarefas de caráter pessoal, exercidas em casa, à noite, pelo jornalista, poeta e ficcionista. A vida do casal sem filhos é tomada pelo ritmo frenético de incumbências burocráticas infindáveis e de inquietações artísticas e intelectuais que se somam de maneira incongruente, por um lado, e quase arbitrária, por outro. De repente, a agitação frenética, física e mental, é sustada por achaques e doenças graves que, ao atingirem a já frágil saúde do marido de Carolina, obrigam-no ao repouso. Contraditoriamente, a calmaria de um curto período de férias vem a ressaltar o que às escondidas sempre foi a causa para os sucessivos terremotos internos que desorientam o corpo do funcionário público e escritor.

Contraditoriamente, ressaltam-se a força e a originalidade do talento artístico do escritor brasileiro.

As contraposições não passam, pois, em branco. São irresponsavelmente as responsáveis pelo jovem escritor carioca que renasce das cinzas e assume o desejo de dramatizar em ficção literária subjetividades recalcadas, felizes e infelizes, cujos respectivos eus intensificam, pelo destempero no comportamento estapafúrdio em termos humanos e sociopolíticos, a obsessão do romancista por vasculhar com o bisturi de um “vivisseccionista amador” (apud Carlos Drummond) a intimidade dos narradores/personagens (a opção pela narrativa em primeira pessoa do singular se impõe) e dos principais personagens, a fim de criar figuras humanas sedutoras e definitivas, em nada semelhantes a “títeres”, dotadas que são pelo criador do que ele convenciona chamar de força moral.

Quando desdobrado em leitor e crítico de obras alheias, já se adivinha a pergunta que o romancista faz ao avaliar o escritor e o quilate que recebe no tratamento e na caracterização das figuras humanas dramatizadas: “Haverá aí [naquela figura humana ficcional] alguma força moral?”. Enfastiado na leitura, questiona o romancista incapaz de criar grandes figuras humanas: “Por Deus! dê-me a sua pessoa moral”. Não se interessa por se filiar a essa ou aquela escola literária. Ultrapassou a fase do aprendizado e já tem os próprios valores enraizados. Interessa-se apenas por aperfeiçoá-los.

No popular, por favor, não me engabele.

Esse interesse nevrálgico (e terapêutico, não evitaria o adjetivo mais complicado) encaminha o romancista já por quatro vezes exibido em livrarias à invenção, na língua portuguesa apossada recentemente pelo romancista naturalista Eça de Queirós, da moderna narrativa introspectiva, possivelmente inspirado pelas leituras em prosa inglesa vitoriana e na poesia pós-romântica francesa (neste caso, penso em particular no poeta Charles Baudelaire). Há um lado maldito que se debruça sobre o seu fazer literário, o qual será devidamente esclarecido no conto “A causa secreta”.[1]

Diante do público letrado, Machado de Assis desnuda o eu de um narrador/protagonista cujo valor se mede menos pelos bons sentimentos piedosos do que por obsessões cadavéricas e por uma conturbada e trágica força moral que, ao ter o contexto dramático explicitado pelo leitor, o singulariza como precursor da análise psicológica em tempos conturbados pela busca da objetividade e pelo cientificismo nas análises sociopolíticas. Tornam-no criador de simbologias e alegorias que, ao retratarem o Novo Mundo em emancipação, transbordam para uma compreensão inédita do universal no interior de uma colonização eurocêntrica.

Quando publicado em 1881, o primeiro romance posterior a 1878 assusta e ganha a atenção excepcional dos happy few, entre eles o historiador Capistrano de Abreu. Reafirma-se, na cena literária carioca, como a mais anárquica, travessa e lúcida das reflexões de um artista brasileiro sobre a condição social, política e administrativa da ex-colônia portuguesa durante o período imperial. Por outro lado, e retrospectivamente, os quatro romances que se lhe seguem realiza a ambição desmedida do menino nascido e criado no morro do Livramento que, velejando contraventos e marés, decide dedicar-se à grande literatura mundial (world literature).

Finalmente, a nova produção ficcional de Machado de Assis derruba os limites definidos não só (1) pela estreiteza cultural desenvolvida durante a longa e penosa colonização europeia como (2) pelo entusiasmo patriótico, derivado de uma emancipação a toque de grito de príncipe português em margens plácidas. Publicadas as Memórias póstumas de Brás Cubas, elas assombram o público e já encontram por conta do próprio valor original o nicho que as hospeda e para sempre hospedará as obras seguintes.

Na não tão pulsante vida literária brasileira, o Machadinho torna-se subitamente uma incômoda referência artística para os intelectuais nacionalistas e para o Estado nacional. E, ainda, o mais esdrúxulo dos intérpretes do Brasil Imperial em trânsito para o Republicano. Em termos de literatura brasileira, publica com pontualidade importantíssimos romances e coleções de contos que são, concreta e insensivelmente, imbatíveis e fragilmente, produtos de primeiríssima qualidade. Podem ser entregues a leitores de qualquer idade e de qualquer país do planeta.

Em setembro de 1878, as doenças são assumidas na repartição pública. O Ministro em exercício libera o funcionário, sem exigir que peça licença, para o indispensável tratamento. Em dezembro, o amanuense enfermo solicita oficialmente três meses de licença. Machado de Assis e a esposa Carolina deixam o Rio de Janeiro e passam uma curta temporada na cidade serrana de Nova Friburgo.

Com habilidade e discrição, a biógrafa Lúcia Miguel-Pereira resume as incompatibilidades que subdividem o ano de 1878 e que, ao atormentarem a pacata vida do casal sem filhos, o levam a se reinventar como escritor:

Não aguentou o excesso de atividade. Sua saúde, sempre débil, passou nesse momento por uma crise mais grave.

Volto a janeiro de 1878. Novidades se acavalam umas às outras em ritmo enlouquecedor. Já no primeiro dia do ano e do mês, Machado fecha a sua última coluna na Ilustração Brasileira com este curto parágrafo: “Apareceu mais um campeão na imprensa diária, o Cruzeiro, jornal anunciado há algumas semanas. Desejamos longa vida ao nosso novo e brilhante colega”. A transferência da Ilustração Brasileira para o novo jornal já estava em negociação.

No primeiro número, no primeiro dia do ano, O Cruzeiro estampa o primeiro folhetim do quarto romance de Machado de Assis, intitulado Iaiá Garcia. Os demais folhetins do romance continuarão a sair no jornal até o dia 2 de março do mesmo ano. Em tempo recorde, as páginas de jornal se fazem páginas de livro. No decorrer de março, G. Vianna & C., Editores, responsabilizam-se pela impressão do romance na própria gráfica do jornal O Cruzeiro. Iaiá Garcia se encontra exposto nas livrarias.

Seis meses depois, no dia 6 de junho, já publicados os folhetins do quarto romance, Machado passará a se responsabilizar, sob o pseudônimo de Eliezar, pela coluna semanal de crônicas no jornal O Cruzeiro, intitulada Notas semanais. Dois meses depois, no dia 1º de setembro, será obrigado a suspendê-las definitivamente.

Ainda no primeiro e longo semestre, um baque inesperado tinha assustado o funcionário público e escritor. Em janeiro daquele ano, um grupo de pensadores positivistas, associados às escolas militares da corte, lança a Revista da Sociedade Fênix Literária. O jovem baiano Urbano Duarte (1855-1902) faz parte da Comissão de redação da revista. No número 3, publicado em março, ele é o responsável pela resenha de Iaiá Garcia, saído do forno. Sem papas na língua, o jornalista faz soar o gongo no quarto round do match entre Machado e o romance romântico. Invoca o nocaute técnico, em virtude da exaustão do estilo literário que vem sendo desenvolvido pelo romancista. O nocaute o classifica como um “passadista”, se se tiver em mente 1922 e o famoso ensaio de Mário de Andrade. Uma nova e importante escola literária, o naturalismo, domina as letras europeias. Ao quarto romance machadiano faltam vigor e energia, julga Urbano. O árbitro se justifica junto à plateia:

O cantor das Americanas que acatamos e apreciamos, deve apimentar um pouco mais o bico de sua pena, a fim de que seus romances não morram linfáticos.

Respeito nem gentileza são as chaves que, em março de 1878, reabrem as portas do sucesso para o futuro clássico do romance brasileiro. Algum elogio vai para o poeta do livro Americanas. É o soar de um dobre de finados que marca o fim precoce da vida e da obra de Machado de Assis. A falta de respeito e gentileza do jovem crítico é reforçada por metáfora abusiva, assinalaria Susan Sontag. Uma doença linfática sabota o já volumoso trabalho literário e artístico do romancista romântico. Os quatro romances vão morrer na praia.

Precavido e astucioso, o escritor nocauteado se incumbe ele mesmo de fechar as portas da série de 4 romances românticos que iniciou em 1872 e que vêm sendo publicados com regularidade até as portas da morte. Que os próximos não morram precocemente também, por falta de vigor e de energia. Que eu aprenda a apimentar o bico da minha pena!

Não estaria faltando à tinta do romancista uma boa mistura com o azeite de dendê? – pode-se perguntar a Machado de Assis no terceiro milênio.

No primeiro trimestre do primeiro e longo semestre de 1878, Machado mantém a publicação dos folhetins no jornal O Cruzeiro. No entanto, logo depois da paulada do Urbano, muda de gênero. As colunas semanais de crônicas, já informamos, não se sucedem à publicação dos folhetins. Só reaparecerão em junho. Pelo motivo que este folhetim está tentando surpreender, o cronista e romancista carioca é levado a assumir função diferente na redação do jornal. Salta da crônica para a leitura crítica de obra literária alheia.

Abandona os comentários sobre a atualidade brasileira para se enfronhar na atualidade das literaturas nacionais europeias, então em rápida e definitiva transição para a estética naturalista, defendida por Émile Zola. O famoso manifesto, O romance experimental, está para ser publicado. Sairá em 1880. Outra novidade na praça. O naturalismo e Eça acabam de tomar o navio em Lisboa, em direção ao Brasil.

Mal imaginam que, no cais Pharoux, alguns poderosos jabs de esquerda os aguardam. Machado foi atingido pelas farpas de Urbano e a outro endereçará as suas próprias.

No dia 16 de abril, com o quarto romance exposto nas livrarias, a palavra do crítico literário sai impressa em O Cruzeiro. Há expectativa. Machado de Assis tem a sua função garantida no processo de renovação crítica da literatura brasileira. É um leitor cuidadoso e em nada arbitrário da obra alheia e tem bom e respeitado nome na praça. Desenvolve um texto analítico com estilo hábil e pensamento original. Nota-se que prefere trabalhar ideias complexas, ainda não bem assimiladas pelo grande público. Dota a sua fina argumentação de sutilezas raras em jornal brasileiro. Aqui e ali, a malícia, claro, vem “destilando terceiras intenções”, para retomar a voz magoada do coração de Cazuza. Aparentemente, a sua recusa a filiar-se à estética pregada por Émile Zola teria sido a razão para a análise no mês de abril de 1878 da corrente literária hegemônica na Europa e do último romance de Eça de Queirós.

Uma primeira nuance. Não é por motivação meramente profissional que o colaborador do novo jornal carioca muda de gênero. A cena literária anda pegando fogo na Europa e nas antigas colônias do Novo Mundo, então emancipadas. As literaturas provincianas se tornaram retrospectiva e prospectivamente fechadas e nacionalistas. A literatura vinha sendo tomada, de um lado, pelo indigenismo e, de outro, pelas “comunidades imaginadas”. Nota-se que Machado de Assis sente necessidade de intervir no debate. A nova corrente, o naturalismo, traz para a literatura do Novo Mundo o perturbador ar fresco da objetividade e do cientificismo dominantes, a se colorirem por ideário universalista em arte, que, aliás, ele defende desde o célebre ensaio publicado em Manhattan, “O instinto de nacionalidade”. Recordem a referência a Shakespeare e aos seus grandes e legítimos personagens não- britânicos.

Nota-se também que, nos escritos de Machado, tanto os discípulos europeus como os não-europeus de Émile Zola são discreta e indistintamente dados como “alunos” ou “seguidores”. Ou seja, o clima proposto pelo agigantamento do influencer francês não se diferencia do que é comum hoje nas plataformas das redes sociais. Ou como teria dito Oswald de Andrade em 1924: É o manifesto que informa aos seguidores. Ezra Pound e os poetas concretos foram mais sagazes nos anos 1950, criaram entre as categorias que congregam a multidão uma que a questiona: os “diluters”. Os diluidores das ideias expressas radicalmente pelo manifesto. Quando Machado lê Eça, há algo da “diluição” de Ezra Pound que fermenta na sua análise.

Pressinto que Machado de Assis é também sensível ao “espirito de rebanho” que o novo universalismo eurocêntrico ressalta. Nosso povo já caiu uma vez nessa armadilha, por que recair?

Enfim, no mês de abril de 1878, Machado de Assis decide escrever e divulgar em língua portuguesa uma análise abrangente, meticulosa, poderosa e fria e, estranhamente, apaixonada, do romance O primo Basílio, de Eça de Queirós, recém-publicado em Lisboa e sucesso entre nós. Poucos meses depois, o romance será adaptado e ocupará o palco carioca. A adaptação não terá sucesso e será espezinhada em crônica no jornal O cruzeiro por Machado de Assis. Cito um trecho:

Se o mau êxito cênico do Primo Basílio nada prova contra o livro e o autor do drama, é positivo também que nada prova contra a escola realista e seus sectários (negrito meu). Não há motivo para tristezas nem desapontamentos; a obra original fica isenta do efeito teatral; e os realistas podem continuar na doce convicção de que a última palavra da estética é suprimi-la. Outra convicção, igualmente doce, é que todo o movimento literário do mundo está contido nos nossos livros […].

Nos bastidores da cena literária carioca outra novidade esperneia. Em fins de 1887, José do Patrocínio publica o relato biográfico Mota Coqueiro, ou A pena de morte.[2] O Brasil foi sempre um país de galhofas, e as inúmeras piadas e paródias que associam em casamento Iaiá Garcia ao Mota Coqueiro percorrerão os trópicos na década seguinte, a garantir que os cidadãos brasileiros e o ano em pauta estavam mais para o naturalismo de Émile Zola do que para os exercícios ficcionais românticos de Machado de Assis. Aluísio Azevedo nasce, portanto, em berço esplêndido. Será imediatamente reconhecido pela crítica e pelo público.

Se usado para qualificar o ficcionista Machado, ferido nos brios, o adjetivo nocauteado não é inadequado. Ao beijar a lona, o romancista de Iaiá Garcia ousa se defender de todas as formas, direta e indiretamente. Elege, finalmente, um terceiro a quem será pedida a revanche. Talvez seja esta a primeira (não a principal) motivação para Machado de Assis escancarar em praça pública a série de opiniões divergentes sobre O primo Basílio e o já hegemônico movimento naturalista. O extraordinário da história é que a leitura e a análise de Eça de Queirós lhe renderá bem mais. Para simplificar: troquem o nome do primo Basílio, o amante insignificante da Luísa, pelo amante da Virgília, Brás Cubas, e se começará a entender o que possivelmente está a trabalhar no inconsciente do romancista brasileiro.

A resenha não se abre com a análise de O primo Basílio.

Machado toma o trem do naturalismo quando ele começa a ganhar velocidade em Portugal. Antes, portanto, de se tornar vitorioso em língua portuguesa e nas ex-colônias emancipadas do Novo Mundo. Trata a nova corrente literária como uma “escola” que tem os seus “discípulos” e “alunos” (ver epígrafe deste folhetim).

A pedagogia não é mera metáfora na resenha. Visa ao direito à correção pelo inspetor de ensino, que não deve ser confundida com a correção a que tem direito o mestre. O inspetor de ensino não é o mestre e, nesse sentido, será o artífice das primeiras e mais inesperadas avaliações de trabalho em aula. Elas questionam a produção literária de Eça como sendo derivada de um determinado ensino, passível também de avaliação. Em palavras certeiras: Machado avalia tanto o ensino do mestre quanto o aprendizado do aluno. Quem entra numa escola passa necessariamente por uma fase de aprendizado (não é o caso do inspetor de ensino, Machado de Assis, não está mais em busca de aprendizado, mas de aperfeiçoamento seu e do sistema de ensino). Como inspetor de ensino, ele incorpora ao seu vocabulário o antigo vocabulário da colonização. Destaque para “imitação” e “simples copista”. No entanto, tanto um quanto o outro são capazes de alcançar e se responsabilizar por algumas “originalidades”.

Depois de estabelecidas essas premissas é que Machado se esgueira pelas páginas do primeiro romance de Eça de Queirós, O crime do Padre Amaro (1875).

Não titubeia e afirma – ao contrário do que alguns críticos dizem hoje – que o primeiro é “imitação” de La Faute de l’Abbé Mouret, de Émile Zola. É preciso na descrição comparativa:

Situação análoga, iguais tendências; diferença do meio; diferença do desenlace; idêntico estilo; algumas reminiscências, como no capítulo da missa, e outras; enfim, o mesmo título.

Portanto, Eça não é “simples copista”. Quem ler o romance não pode contestar certa “originalidade” do aluno português. Eça consegue ser em parte original e manifesta a sua originalidade de modo positivo. Mas, para Machado, leitor de Eça, a questão mais grave da originalidade do primeiro romance de Eça é que ela não pode ser tomada como um conjunto orgânico e dramaticamente convincente. Há motivo para essa falha. A diferença – no caso da imitação de Eça – foca sempre aspectos secundários da obra literária, negligenciando o trabalho da figura moral, isto é, do que tornará atraente e convincente esse ou aquele personagem. Machado de Assis estabelece, na análise, a distinção entre os “acessórios” (ou “incidentes”) e “os elementos principais da ação”. No romance de Eça, a diferença vem a ganhar significado não nos elementos principais da ação, mas nos acessórios. Ela se evidencia apenas na caracterização de personagens obrigatoriamente diferentes. Já que a diferença só foca o acessório, ela não alcança significado que esteja à altura da composição romanesca original. Em suma, não é uma “originalidade”. O exercício em aula do aluno manca da perna moral.

Mesmo o leitor de hoje se assusta com a inclemência da leitura da diferença (em cópia) feita por Machado. A originalidade tal qual exposta dá motivo ao maior defeito:

[…] creio até que essa mesma originalidade deu motivo ao maior defeito na concepção d’ O Crime do Padre Amaro.

A justaposição da originalidade não à diferença, ainda que relativa, mas ao defeito, é insustentável sem provas. Machado dedica-se a elas. Percebe como a originalidade, se feita por aluno e a partir de uma imitação, tende a negligenciar (ou tende a não ser forte o suficiente para trabalhar, fica a dúvida) os elementos principais do drama e os seus efeitos junto ao leitor. Por não ambicionar o mais resistente, ela se dedica a recriar não só (a) a ambientação da trama em outro local como (b) o novo grupo social em que se insere o protagonista. Permanecem o protagonista, o padre, e o seu erro, a concupiscência (etimologicamente: ter forte desejo). A faute, em francês, se transforma em crime, em português. A força moral, no caso de Zola, não se refere à justiça dos homens, mas à justiça de Deus. Tanto numa língua quanto na outra se evita o vocábulo religioso, pecado (o pecado da carne).

Na nova escrita, ou, mais corretamente, na reescritura, o discípulo marca presença e originalidade ao recriar a paróquia rústica francesa, onde o abade vive flanqueado por padre austero e ríspido, em paróquia da província portuguesa, onde o padre vive ao lado de mulheres e de outros padres que do sacerdócio só têm a batina. Ressalta uma singularidade, mas ela se mostra como um malicioso acessório, corretamente trabalhado do ponto de vista comunitário, cujo valor, no entanto, se esgota no modo como se acomodam costumes semelhantes em diferentes regiões do continente europeu. Os elementos principais da ação, o erro num caso e o crime no outro, não ganham força moral por arremedo meramente geográfico. Ao contrário, no romance de Eça se enfraquecem ao perder o caráter excepcional de ato interdito devido à tolerância nos costumes e a cumplicidade comunitária entre homens e mulheres reinante na província portuguesa. A concupiscência não extravasa porque está incorporada naturalmente à vida provinciana lusitana. No mundo rústico francês, a austeridade dos costumes e a rispidez das atitudes torturam o abade.[3] Será que há uma verdade moral – a opinião da comunidade – que subjugue o Padre Amaro a ponto de desejar matar o filho?

Releia-se o diálogo final entre o padre Amaro e o padre-mestre:

— Ó Amaro, e você a escrever-me que queria retirar-se para a serra, ir para um convento, passar a vida em penitência.
O padre Amaro encolheu os ombros:
— Que quer você, padre-mestre?… Naqueles primeiros momentos… Olhe que me custou! Mas tudo passa…
— Tudo passa, disse o cônego. E depois de uma pausa:
— Ah! Mas Leiria já não é Leiria!

Não é outra a conclusão a que chega o crítico literário:

Não se compreende o terror do Padre Amaro, no dia em que do seu erro lhe nasce um filho, e muito menos se compreende que o mate. Das duas forças que lutam na alma do Padre Amaro, uma é real e efetiva — o sentimento da paternidade; a outra é quimérica e impossível — o terror da opinião, que ele tem visto tolerante e cúmplice no desvio dos seus confrades; e não obstante, é esta a força que triunfa. Haverá aí alguma verdade moral?

Uma coisa é certa. Quem trabalha com literatura comparada sabe que Machado de Assis sabe de antemão que está batendo na porta errada, e batendo forte. Ou melhor: bate forte na porta errada que mais lhe convém naquele momento. A peculiaridade em si já é fascinante, numa comunidade literária onde as possíveis polêmicas se desfazem em piadas suculentas. Machado não precisa se robustecer, já fez o seu bom aprendizado. Tem os seus valores e os respeita. Não quer se municiar com a leitura e a reflexão sobre o que lhe falta na própria formação. Interessa-se mais em buscar no outro o que ainda lhe falta na realização da obra. No outro, o que lhe falta não se encontra como um prêt-à-porter, antes como um equívoco que só é percebido em leitura crítica, antes de ser assimilado como equívoco alheio e ser transformado por ele em verdadeira originalidade. Não é por casualidade que o seu objeto é um aluno no primeiro exercício em aula.

Seria esse o motivo pelo qual Eça de Queirós lhe aparece, no primeiro semestre de 1878, como o que de mais conveniente existe na world literature? Aperfeiçoa-se melhor o instrumental literário com os equívocos alheios de um semelhante que com os acertos de um mestre? A terceira intenção de Machado é a de saber, de antemão, que a sua busca pela diferença (originalidade) se encontra no equívoco do companheiro de letras. Na escolha do objeto, detecta-se um desejo provinciano em nada provinciano, por isso surpreendente. Ele deseja ser original na antiga colônia lusitana. Escolher Zola e algum romance dele teria sido um desastre. O filtro que seleciona Eça é uma benção.

Não se informa sobre a nova prosa portuguesa e sobre o naturalismo com a finalidade de a endossar e fazer dela uma precursora e dele, o naturalismo, uma corrente hegemônica ocidental no Brasil. A substantivar a rejeição do mais novo por Machado de Assis, estatela-se como pano de fundo o ressentimento pelas críticas que recebe e coíbem os desafios arquitetados pela ambição desmedida do antigo tipógrafo e então um dos escritores que, julga ele, será um dos mais laureados na praça. Bem pesados na balança, houve e há excessos da parte dos estrangeiros, a colonização ou o imperialismo, e do brasileiro, a soberania nacional. Machado opta pelo excesso nacional.

Tudo se resolveria no melhor dos mundos se Machado, como se fosse um modernista de 1922, se engraçasse com a nova corrente estética que nos chega da Europa. O desejo maior dele, na verdade, é o de a colocar contra a parede da própria formação cultural para poder desmontar com maior objetividade e rigor (e não se esqueça: com maior proveito) tijolo a tijolo a obra de um discípulo. O resultado da empreitada é evidente: cessa tudo que a nova musa canta, um valor antigo mais alto se alevantará. Machado de Assis sai da leitura do primeiro romance de Eça com maior segurança sobre os seus próprios valores (ainda não tão sólidos assim, mas já firmes devido à boa formação romântica e universal). Sem dúvida, há que reconhecer que o autodidata brasileiro se sai de maneira surpreendente do beco sem saída em que, parece, tinha entrado.

Se recorro ao meu vocabulário crítico, tomado a Nietzsche, acrescento que Machado de Assis, quando decide escrever a resenha de O primo Basílio, que comento no terceiro milênio, se autoafirma intempestivamente na literatura brasileira. Quer ser um singular e original em língua portuguesa. Intempestivamente, desconstrói a estética dominante naquele momento no Ocidente, a naturalista, para se reafirmar pela radicalidade das decisões artísticas tomadas durante a sua formação (ainda que de autodidata). Se recorro ao vocabulário crítico de T. S. Eliot: Machado de Assis é o talento individual que, ao se distanciar do mais novo, se associa organicamente à tradição, sem perder, portanto, os valores da singularidade experimental brasileira.

Não creio que seja produto do acaso, ou mero produto do ressentimento, a desmontagem estilística e composicional efetuada por Machado de Assis do primeiro romance eciano. Ele quer trazer à luz o mais obsessivo e certamente o mais original dos efeitos que busca retirar da erudição que o vem enriquecendo a duras penas. Não é fácil afinar a percepção crítica sem passar pela intenção de não-normalizar o lado negativo das situações já consolidadas no Brasil imperial. Tudo teria sido tão mais fácil. Em especial no Brasil, uma ex-colônia que, ao se emancipar, mantém o regime monárquico e escravagista. Normalizar o lado negativo das situações consolidades é uma benesse imperial. Apazigua as relações sociais, políticas e econômicas, deixando o cidadão em nada atormentado com a culpa que lhe cabe pela normalização do lado negativo.

Machado de Assis busca o lado negativo de uma situação consolidada (em Eça de Queirós) a fim de trabalhar sem espanto e com coragem, com a ingenuidade (traquinas, sem dúvida) da descoberta de um equívoco que é um equívoco, e, na verdade, é um defeito.[4] Por isso, decide transmutar o valor negativo em valor positivo. No seu estilo, a pobreza e até a miséria não se chafurdam na negatividade do estilo melancólico e deprimente. O criador leva a melancolia a encontrar a sua flor da retórica, a flor amarela, que será compartilhada em igualdade (ou até em superioridade) de condições com a alegria em nada grotesca, franca e aberta, do estilo risonho machadiano.

Nada como um exemplo relativamente simples para explicar um raciocínio pouco convencional. Encontro-o nas poucas palavras, devidamente anotadas na resenha de Machado de Assis, que descrevem em O primo Basílio uma carvoeira grávida, à porta da loja.

Machado foca primeiro o “defeito” estilístico evidente na opção por uma escrita literária brutal e humanamente mesquinha, que degrada ainda mais o ser humano já miserável. Se desprovida dessa impropriedade vocabular, desse defeito, já imagina o leitor, a vida-da-frase e a vida-da-mulher seriam mais perfeitas, mais belas e mais longas. A degradação do ser humano pelo estilo literário privilegiado pelo naturalismo ressalta uma mulher recoberta pelas manchas negras de carvão que é a razão do seu sustento, e faz ressaltar a gravidez. Um adjetivo como bestial, se acrescentado, apenas torna negativo o potencial de vida que a carvoeira traz no ventre. Cito Machado:

Quando o fato [visto/observado/narrado em O primo Basílio] lhe não parece bastante caracterizado com o termo próprio, o autor acrescenta-lhe outro impróprio. De uma carvoeira, à porta da loja, diz ele que apresentava a “gravidez bestial”. Bestial por quê? Naturalmente, porque o adjetivo [bestial] avoluma o substantivo [gravidez] e o autor não vê ali o sinal da maternidade humana; vê um fenômeno animal, nada mais.

A carvoeira não é caracterizada na sua imprevisível e riquíssima singularidade, mulher/pobre/grávida/solitária. Por isso, atrai os olhos do observador. Qualificá-la de bestial, como se fosse figura humana que é vista na sua generalidade, uma besta humana como tantas outras bestas humanas, é tratá-la como personagem escrito antes da invenção do romance no século XVIII, quando os personagens da trama são salientados pela sua individualização excepcional em termos de experiência humana (o marinheiro Robinson Crusoé, por exemplo). A singularidade – a diferença em termos de romance burguês europeu do século XIX – da carvoeira é perturbada pela impropriedade do adjetivo que a qualifica, bestial. Ele a minimiza e a desqualifica como mero animal em estado eterno de reprodução da espécie.

A sua dignidade – mulher/pobre/grávida/solitária – se alteia porque, sendo a figura observada em close da miséria humana, tem tudo para se apresentar pela negatividade da própria vida. Isso não é suficiente para apreendê-la no seu todo de criação literária. Ela também exala no corpo sofrido tomado pelo carvão que a sustenta a mais complexa e rica experiência feminina, a da procriação da espécie humana. A mãe dá ao mesmo tempo um Sim à dor do parto e outro Sim à nova vida que chega ao mundo. O adjetivo, impróprio e, além, excessivo, leva a carvoeira a perder a singularidade significante que ela esplende até na sua mais densa miséria. O escritor naturalista “não vê ali o sinal da maternidade humana”.

Não é, pois, o romance de Eça nem a nova corrente literária que ele divulga no Brasil que agradam a Machado de Assis. O romance e o estilo são up to date na Europa, e já ressoam no Brasil de José do Patrocínio e ressoará ainda mais forte nos romances de Aluísio Azevedo, mas não serve de bom modelo ao escritor brasileiro que ainda vive numa província que se emancipa dando força ao regime escravagista.

Eis um segundo detalhe da resenha que nos fascina. Se o modelo literário chega da Europa, Machado mais se interessa pelo seu mais que suspeito “lado negativo”. Isso percebe o olhar crítico cristalino do nocauteado romancista em tempos de repto. Num original europeu não se exibem às claras as possíveis diferenças que podem ser desenvolvidas numa cópia. Se o estilo estiver autoritariamente às claras no original – seja ele naturalista, surrealista ou dadá – preocupe-se pouco com ele. Procure o que está às escuras no original e que, por isso, demonstra um desconhecimento real dos fatos que deverão ser descritos pelo escritor brasileiro.

Trago outro detalhe como exemplo da resenha crítica, agora em transição para a leitura de O primo Basílio.

[…] a Luísa — força é dizê-lo — a Luísa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral. Repito, é um títere; não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência.

A apreciação da Luísa é menos a avaliação da pequeno-burguesa lisboeta e mais a autoavaliação das personagens femininas cariocas que o crítico veio criando como ficcionista nos quatro primeiros romances. Em palavras menos nuançadas: Machado enxerga os seus defeitos no defeito da criação da Luísa. Portanto, antes de ser crítica do trabalho ficcional de Eça, a análise machadiana é autocrítica, ou seja, endereça-se também aos seus romances já publicados. Já se lhe reabrem os olhos com vistas às experimentações que virão. Eis um terceiro detalhe fascinante.

De novo, um exemplo. Como Machado pode chegar a desentranhar a afirmação da Vida, que está recôndita e em potencial na futura Virgília, no lado negativo da antiga Luísa, o títere feminino a representar todas as Luísas que o cercam?

Não há por que recriar eternamente a viúva Lívia de Ressurreição, seu primeiro romance. É preciso tornar vivo o marido que transforma a mulher casada numa figura sem vida, desprovida do próprio corpo.

Não é recurso fácil desamparar a infidelidade feminina pela morte do marido?

Para que jogar para o Papai do Céu, para a ressurreição dos mortos, a decisão sobre quem é o legítimo amor entre os vários amores em vida? A infidelidade antes de ser uma traição assinala a emergência de um ato de soberania do corpo feminino. O corpo feminino se capacita a tomar as próprias decisões no cotidiano e por desejo próprio.

A futura Virgília não seria viúva nem títere. Seria uma cidadã casada, dona do próprio corpo e do próprio destino. Lobo Neves é o marido. Brás Cubas, o amante.


Notas

[1] A leitura desse conto foi recentemente republicada nesse blog. Para conferi-la, clique aqui.

[2] Nos anos de chumbo, fui convidado a escrever o prefácio da nova edição do relato de Patrocínio. Tentei atualizar a sua leitura, reinserindo-o no século do cinema, ou seja, aproximei o relato da série de filmes-de-tese como O direito de Matar, Nós somos todos assassinos etc., dirigidos por André Cayatte (1909-1989). Esses filmes tinham enorme sucesso por aqui e, esquecidos hoje, estão sem dúvida no alicerce dos filmes de, por exemplo, Glauber Rocha. Se houver curiosidade, o texto do ensaio, “Desvios da ficção”, se encontra em Vale quanto pesa (1982). Outro cineasta da época que precisa ser recuperado para a história do cinema novo brasileiro é o italiano Luciano Emmer (1918-2009), diretor de Domingo de agosto e Le ragazze di piazza di Spagna, entre outros. Lembro Nelson Pereira dos Santos.

[3] Já aqui faz sentido o que se passará em Dom Casmurro. Uma predileção de Machado de Assis por uma estética ascética jansenista, semelhante a que se encontram nos filmes de Robert Bresson, em oposição à suntuosidade e a luxúria da estética jesuítica. Nunca esquecer que Machado é leitor de Les Provinciales, de Blaise Pascal.

[4] A escolha da palavra é justa. Por três vezes Machado usa defeito na resenha dos romances de Eça.