
Neste dia triste em que nos despedimos de Heloisa Teixeira, uma das maiores intelectuais públicas do Brasil, cuja trajetória inspirou diversas gerações, trazemos uma breve nota de Beatriz Resende (UFRJ), que teve a alegria e o privilégio de ser, ao longo de mais de cinquenta anos, aluna, amiga e parceira de trabalho de Helô.
O velório de Heloisa será realizado amanhã, dia 29 de março, na Academia Brasileira de Letras (Avenida Presidente Wilson, 203, Rio de Janeiro), das 15h às 19h.
Helô
Por Beatriz Resende
Em 1967, entrei para o curso de Letras da antiga Faculdade Nacional de Filosofia e, no segundo ano, começavam as aulas de Literatura Brasileira. Era 1968, e não sabíamos que, apesar da ditadura, estávamos vivendo os melhores anos de nossas vidas.
No início das aulas, apresentou-se no auditório da combativa Faculdade de Filosofia toda a equipe da disciplina, cada professor dizendo o que iria tratar em suas aulas. Era o dream team de Afrânio Coutinho, que formara um grupo jovem trabalhando junto. Ficamos conhecendo Ivo Barbiere, Domício Proença Filho e duas jovens de minissaia: Clara Alvim e Heloisa Buarque de Hollanda — linda! Acabada a apresentação, seguimos para a sala de aula, cada um com o mestre que mais o fascinara. É nesse momento que vou atrás de Heloisa como se seguisse o Flautista de Hamelin, para não mais largar!!!
Durante o excelente curso de graduação, fiz todos os cursos possíveis com ela: muito Modernismo, muita poesia, literatura e cinema, e assim por diante. Lá pelo meio do trajeto, já na Avenida Chile, ela ofereceu um curso sobre Jorge Amado — apesar de romance não ser muito a sua praia. José Guilherme Merquior descera o cacete no autor baiano, a quem acusava de “esquematismo ideológico”. Walnice Nogueira Galvão, de São Paulo, não perdoava a popularidade do escritor. Inimiga do dogmatismo, Heloisa destrincha então romances que traziam mulheres como Dona Flor e Teresa Batista, seduzindo as protofeministas e amantes de novela — como seria a própria Heloisa. O curso foi depois levado para os Estados Unidos, com muito sucesso.
Acabada a graduação, fui para a Europa por quatro anos, e Helô foi criar a Escola de Comunicação. Na volta, continuo em Letras e, quando acabo o doutorado, nos reencontramos — e vou para a Coordenação Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos (CIEC), onde começo, de fato, a vida de pesquisadora. Juntas desenvolvemos projetos para o CNPq, preparamos com outros colegas os Quase-Catálogos, os Papéis Avulsos. Com foco no contemporâneo, começam as pesquisas sobre raça e gênero.
Mais adiante, criado o PACC/UFRJ, Heloisa acaba voltando para a Faculdade de Letras. No meio tempo, demos aulas juntas — as duas falando ao mesmo tempo, na mesma mesa, imaginam? Fizemos pesquisas e trabalhos diversos por muitos anos.
Conversávamos sobre tudo — experiência de vida! — e discutíamos toda a literatura: ela mais na poesia, eu na prosa. Quando discordava de mim, me chamava de conservadora!
Até que, levadas pelas novas escritoras mulheres, nos fixamos, recentemente, nos romances. Se uma descobria uma novidade, chamava a outra. Há três semanas, foi a Hang Kang com A vegetariana, segundo ela o romance mais feminista-raiz que já leu. Voltei para casa e reli o livro. Depois levei outro romance da coreana, e ela me disse que não estava conseguindo ler — a respiração difícil não deixava. Gelei.
Na outra quarta-feira, recebi, como a amiga tinha me pedido que fizesse, em seu nome, das mãos do Reitor e da Vice-Reitora da UFRJ, alta condecoração do Conselho de Eméritos da universidade. Quando falaram seu nome, os aplausos subiram vigorosos. A UFRJ, como outras instituições já fizeram, agradecia.
Hoje, 57 anos depois, nos despedimos.
