Entrevista | Fernando Santoro e Luisa Buarque falam sobre o “Dicionário dos Intraduzíveis”

Trazemos hoje uma entrevista com Fernando Santoro e Luisa Buarque, organizadores do Dicionário dos intraduzíveis: um vocabulário das filosofias, volume dois, lançado em 2024 pela Editora Autêntica. Com foco nas áreas do Direito, da Ética e da Política, esta nova edição dá continuidade ao projeto iniciado com a obra organizada por Barbara Cassin, Vocabulaire européen des philosophies: Dictionnaire des intraduisibles, aprofundando os deslocamentos conceituais e os desafios tradutórios que emergem quando o pensamento filosófico atravessa línguas, culturas e realidades distintas.

A entrevista, conduzida pela BVPS, apresenta os bastidores do projeto, discute os critérios de escolha dos tradutores e antecipa os próximos volumes, que abordarão áreas como Literatura, Psicanálise e Metafísica.

Para saber mais sobre o segundo volume do Dicionário dos Intraduzíveis, confira aqui uma resenha assinada por Verônica Filíppovna para esta BVPS.

Boa leitura!


A BVPS entrevista Fernando Santoro e Luisa Buarque, organizadores do Dicionário dos Intraduzíveis

Vocês acabaram de lançar o segundo volume do Dicionário dos Intraduzíveis. Qual a diferença em relação ao primeiro volume e também em relação ao original em francês?

Fernando Santoro e Luisa Buarque. A versão brasileira da obra produziu alguns deslocamentos em relação ao original. O primeiro de todos foi uma decisão de ordem editorial que possibilitou a realização da edição brasileira: dividir o volume único francês em 4 volumes temáticos. Além disso, houve uma forte adaptação dos verbetes para a nova língua de chegada – o português, que nem sempre se comporta como o francês da obra original –, assim como para a realidade do nosso país e a complexidade que o caracteriza no tocante à recepção e tradução das obras filosóficas e às questões que aqui ganham maior relevância. Junto com as adaptações, produzimos um material inédito, ou bem na forma de expansão dos verbetes já existentes, ou bem na forma de quadros cinzas (que são comentários no interior dos verbetes), ou ainda na forma de novas entradas que ampliassem o vocabulário original, quase exclusivamente focado na filosofia europeia. Essas novidades e intervenções precisaram obedecer à economia editorial, naturalmente, mas foram se consolidando ao longo do tempo e são encontradas em maior quantidade no segundo volume.

O primeiro volume brasileiro é mais teórico e transversal. Traz um prefácio longo, que de algum modo produz um diálogo entre a filosofia subjacente à obra original (o pensamento de Barbara Cassin) e a sua recepção em terras brasileiras. E apresenta traduções/adaptações de verbetes metalinguísticos ou relativos às filosofias em línguas europeias. Além disso, traz um verbete inédito intitulado “Brasil de muitas línguas” que discute questões ligadas à diversidade de línguas indígenas faladas no país – que recentemente têm ultrapassado fronteiras epistemológicas e adentrado o campo da produção de conteúdos filosóficos, tanto pela inovação de questões planetárias emergentes quanto pelo reconhecimento de suas tradições sapienciais.

O segundo volume traz verbetes das áreas do Direito, da Ética e da Política e se concentra em palavras específicas que compõem parte importante do vocabulário filosófico dessas grandes áreas. Ele realiza quase que uma aplicação prática da teoria apresentada no primeiro volume e das questões que o atravessam. Discute casos particulares em línguas específicas, mas que repercutem em situações de amplo alcance, por povoarem obras centrais para as discussões acadêmicas das áreas supracitadas. A partir de um mapeamento de palavras e conceitos que produziram equivocidades e dificuldades de tradução, e, portanto, variedade de soluções tradutórias, alguns dos temas centrais às áreas do Direito, da Ética e da Política são abordados e discutidos, sempre com atenção particular para os efeitos das línguas concretas sobre o pensamento e o discurso conceitual.

Quais os maiores desafios de coordenar um projeto de tradução como este?

FS & LB. O maior desafio é o volume de trabalho e o tamanho da equipe que precisamos coordenar. Uniformizar o material recebido também não costuma ser fácil. Por fim, nem sempre é simples decidir até que ponto devemos intervir no projeto original e até que ponto é interessante manter as suas características peculiares. Isso exige uma sensibilidade específica, particularmente com relação às obras que efetivamente foram traduzidas para o português e que apresentam os deslocamentos conceituais que nos interessam – os sintomas de fissura na idealização abstrata dos conceitos universais.

Qual o critério na escolha dos tradutores da edição brasileira? São todos da área de filosofia?

FS & LB. Os dois principais critérios para a distribuição das traduções são o conhecimento da língua francesa e certos conhecimentos técnicos especificamente ligados a cada verbete. Ou seja, se o termo da entrada pertencer à língua alemã, por exemplo, é interessante que o tradutor também conheça essa língua (além do francês no qual o verbete foi produzido e para cujo público-falante se dirige originalmente). Se a discussão estiver predominantemente ligada a algum/a pensador/a específico/a, é importante que o/a tradutor/a conheça a sua obra, esteja envolvido nas discussões a respeito de seu pensamento e conheça as traduções em uso. Mas nem sempre a pessoa escolhida para traduzir certo verbete é da área da filosofia. Os professores e professoras de filosofia prevalecem, sem dúvida, mas às vezes há tradutoras e tradutores ligadas aos campos das Letras e da Literatura, ou a áreas como a Música, o Direito etc. Por fim, vale mencionar que fizemos algum esforço no sentido de distribuir as traduções por pessoas atuantes (academica e intelectualmente) nas várias regiões do Brasil. Um esforço que nem sempre ficou em primeiro lugar, é verdade, e nesse quesito gostaríamos de nos aprimorar cada vez mais.

Como está sendo a recepção do Dicionário dos Intraduzíveis no Brasil? 

FS & LB. O Dicionário tem despertado o interesse de muitas pessoas no meio acadêmico, mas também tem seduzido diletantes e interessadas/os nos temas de língua e de tradução de um modo geral. Temos sido convidados a participar de mesas redondas e/ou debates em ambientes universitários e instituições acadêmicas, sobretudo com pessoas ligadas às áreas da Filosofia, das Letras, da Literatura (sempre praticantes e consumidoras de traduções), mas agora também do Direito e da Psicanálise.

Muitas dessas pessoas estão curiosas para conhecer melhor a noção de ‘intraduzível’ com a qual o Dicionário trabalha, que de modo algum denota uma impossibilidade de tradução, ao contrário: o que se realça é justamente a multiplicidade e os resultados criativos da equivocidade nas teorias filosóficas. O projeto da Barbara Cassin está assentado sobre uma espécie de aliança entre a Filosofia Antiga, a Sofística, a Psicanálise Lacaniana e as Teorias da Tradução. Esse entrelaçamento que a filósofa produziu desperta o interesse contemporâneo de um modo geral. Além disso, a versão brasileira, com suas características peculiares que já foram mencionadas, também tem sido objeto de interesse e tem promovido debates interessantes.

Já temos dois volumes publicados do Dicionário dos Intraduzíveis. Pelo que vocês adiantaram na primeira resposta, ainda vem novidades por ai…

FS & LB. Sim, muitas novidades. No próximo ano lançaremos o terceiro volume, contendo os verbetes dedicados aos seguintes temas: Estética, Literatura, Psicanálise e Subjetividade. Por fim, em cerca de dois anos lançaremos o quarto e último volume, contendo os verbetes ligados às áreas da Lógica, Linguagem, Metafísica e Objetividade.