
Trazemos hoje na Coluna Primeiros Escritos um comentário afiado de João Arthur Macieira (IESP-UERJ) sobre Na pista da verdade, volume recém-lançado com textos, discursos e entrevistas de Thomas Bernhard. Com estilo corrosivo e postura radical, Bernhard tensiona os limites entre literatura e política, individualidade e identidade nacional – especialmente a partir de sua relação conflituosa com a Áustria e de sua recusa em fazer concessões ao poder ou ao gosto público. Para Macieira, a obra de Bernhard parece falar diretamente a um mundo saturado por discursos performáticos e pela crise da verdade. Mais do que atual, Bernhard se revela incômodo e necessário.
Aproveitamos para lembrar que a Coluna Primeiros Escritos se volta para a publicação de textos de estudantes de pós-graduação. Para conhecer mais sobre a iniciativa, clique aqui.
Boa leitura!
Sobre o palco tem-se uma piada de mau gosto:
comentário sobre Na pista da verdade, de Thomas Bernhard
Por João Arthur Macieira (IESP-UERJ)
a prosa é a linguagem de todos os instantes, e há uma necessidade humana de que não somente se faça boa prosa como também de que nela se incorpore o tempo, e com isto se salve esse último.
Carlos Drummond de Andrade, Confissões de Minas
Quando publicaram em 2020 a tradução brasileira de O Presidente, peça de Thomas Bernhard, os responsáveis se perguntaram, bem na contracapa do livro: “O que uma peça escrita nos anos 1970, numa distante Áustria, pode dizer sobre o país de cá e de agora? A princípio nada, é o que poderíamos pensar. Será?”. A pergunta é retórica, mas já anuncia duas questões. A primeira é que não se trata de uma simples peça austríaca dos anos 1970, mas de uma obra que consegue nos atingir aqui – no Brasil – e agora, no século XXI. E daí? Por que a peça precisaria falar sobre o Brasil de agora? Não seria esse um dos nossos vícios, isto é, pensar nacionalmente tudo o que consumimos? Será que a leitura de O Presidente, as “divisões entre passado e presente e até mesmo entre Brasil e Áustria se confundem”, é a mesma em todo o Brasil? Isso pouco importa. Bastaria dizer que não é bem esse meu intuito, apesar de reconhecer em mim mesmo esse vício de tratar os textos sob uma (suposta) perspectiva nacional. Aliás, falando na relação Bernhard-Brasil, não faz mal comentar que o volume traz a divertidíssima carta de Bernhard no “capítulo” 70, na qual levanta suspeitas sobre o Estado austríaco, supostamente tramando contra sua pessoa, ao atrasar propositalmente o convite oficial da cidade do Rio de Janeiro ao escritor em 1987. Ao que parece, o escritor acabou não vindo. É uma carta que revela muito do seu entendimento da dimensão prática do Estado austríaco – uma instituição quase etérea, cujo único objetivo é, em última análise, prejudicá-lo no que puder. Essa paranoia performática encontrou, em mim, enquanto leitor brasileiro, também uma pontinha de dúvida: espero que o atraso e o estado da carta não se deva à nenhuma presepada brasileira, o que combinaria muito uma das facetas da arte e literatura brasileiras, a autoironia.
Segunda questão: se uma leitura nacional – o que esse livro ou autor estrangeiro tem a dizer sobre o Brasil? – não é necessária, como lê-lo? De uma perspectiva puramente individual, uma questão de gosto? Tampouco acredito nisso. Mas essa e outras tensões são justamente o esqueleto do livro recém-traduzido que acabei de ler: não há instante em que posições fixas não entrem em contradição, em que uma posição estabelecida não seja tensionada até o extremo – algumas vezes tornando o autor (assim como o narrador de seus romances) uma figura insuportável.
Mas o que significa ser insuportável? Acredito que justamente a maneira pela qual Bernhard se comporta nesse jogo entre pertencimento e representação que se configurou aparentemente entre escritores (e a escrita) e a vida nacional austríaca. Mas também como lida com a função social do escritor, com o problema da vida e da morte. São dezenas de afirmações polêmicas, quiçá centenas, atravessando o livro. Ainda assim, não se encontra uma posição militante, uma luta por reconhecimento para além da simples liberdade artística enquanto princípio absoluto, ainda que essa liberdade artística quando radicalizada leve a destruição: destruição de si, da sua nação e da sua vida.
Dá para dizer que Na pista da verdade, volume de discursos, cartas, entrevistas e artigos de Thomas Bernhard veio em boa hora. Não só porque encontramos, enquanto leitores e cidadãos do mundo, cada vez mais dificuldade em entender os sentidos e as categorias comunicativas do discurso, seja ele retórico ou poético, mas especialmente porque há uma evidente crise na relação entre a verdade e seus contrários no século XXI. Foi em 2016 que post-truth foi escolhida pelo Oxford Dictionary como a palavra do ano. Bernhard, neste volume em especial, aparece numa dimensão performática que, no século XXI, seria apropriada pelo discurso político. Bastaria olhar as figuras que hoje emergem no comando dos Estados na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina: eles beiram a mesma destruição que Bernhard se propõe em seus livros, ainda que a destruição possa servir a propósitos muito distintos quando é apropriada pela poética ou pela política. Ele, contudo, não parece ter recaído nos fundamentos da pós-verdade, essenciais para a composição do discurso político contemporâneo.
A dimensão discursiva da destruição na literatura de Bernhard reafirma um princípio literário moderno que, ao menos desde Baudelaire (mas que provavelmente lhe é anterior), reforça uma espécie de liberdade que parece extrapolar os limites da liberdade política nos moldes provindos da Revolução Francesa, ainda em consolidação no século XIX. Antes, levaram Baudelaire e Flaubert aos tribunais pelas Flores do Mal e Madame Bovary. Bernhard também vai se tornar um habitué dos tribunais austríacos. Curiosamente, a dimensão destrutiva da palavra política – a palavra podre, segundo a definição de Renato Lessa (2021) – não reafirma liberdade nenhuma, tem a destruição como fim-em-si, ainda que provavelmente compensada com uma perspectiva de redenção mística ou religiosa ao final. Veja-se, por exemplo, o pavoroso vídeo publicado pelo presidente dos Estados Unidos, fazendo chacota com a destruição total do território de Gaza e dos palestinos. Saído da boca – ou do perfil nas redes sociais – dos poderosos, absolutamente detestados por Bernhard, não se trata mais de liberdade artística, de trabalho literário genuíno; apenas revela a enorme perversidade da qual os administradores dos Estados contemporâneos são capazes. Nesse livro, ao não fazer concessões ao poder político, chegando mesmo a ofendê-lo, a revelar-lhe a pior face, temos um Bernhard de extrema coerência, um discurso poético que poderia soar absurdo no último século, mas que para nós pode até soar como uma descrição bastante realista da realidade.
O livro não peca em questões de estilo e podemos assistir a uma fala ou um discurso enquanto eles se metamorfoseiam num ensaio ou num fragmento de romance. Ele se torna uma espécie de personagem-autor, mas um bastante crível, já que Bernhardt não demonstra vontade de causar, de escândalo gratuito, muito menos de se tornar o porta-voz de uma geração ou identidade. Dá até para dizer que essa conduta pelo negativo remete a um tipo de comportamento pessimista, ermitão, uma espécie de autocelebração disfarçada de lamento – lamento por ter sido destinado a viver numa casa de campo isolada. Dá para dizer também que soa como Romantismo tardio e sua negação da realidade da literatura do século XXI. Na verdade, parece que Bernhardt entendeu muito bem o que estava fazendo. Daí que esse curioso escritor austríaco tenha algo a nos dizer: não apenas com a sua obra, mas especialmente através de sua postura.
Muitas vezes nos deixamos levar por posições políticas publicamente expressas, por detalhes da vida pessoal do escritor, por certas escolhas ideológicas ou para suas presenças nas redes sociais, esquecendo que a participação do escritor vem do texto publicado, circulando, moldando ideias e experiências estéticas, isto é, o escritor socialmente existe a partir de suas formas e estilos. Disso, ele parecia muito consciente quando afirmou que “O que eu quero é que meu trabalho seja impresso, que resulte num livro e, para mim, o assunto estará encerrado”, mas entende que os objetivos que o autor têm com isso são e devem ser puramente privados:
Ainda não sinto vontade nenhuma de abrir mão disso, do escrever e dos estados todos que ele me proporciona, porque me diverte bastante, porque não preciso de absolutamente mais nada e também porque tenho a sensação de estar fazendo algo que ninguém consegue imitar, nem aqui nem em lugar nenhum do mundo (Bernhard, 2025: 173).
Uma afirmação de liberdade radical, pode-se dizer, de agir em indiferença total a qualquer forma de vulgarização pela sociabilidade, ainda que, ao mesmo tempo, uma afirmação do próprio romantismo quase ingênuo que pode habitar essa posição.
Mas é justo dizer que, ao sairmos da dimensão estritamente literária, costumamos perceber uma obra a partir de dimensões que lhe são próprias, que estamos mais interessados, enquanto leitores, numa espécie de pertencimento social determinado a partir da noção de sermos público, de sermos um dos alvos do público alvo de uma meta publicitária, da confirmação de nossa identidade a partir desse encontro pacífico com a obra, indicada por algum algoritmo da Amazon ou do Instagram.
A postura de Bernhard – “Não penso em leitor nenhum, porque não me interessa nem um pouco quem vai ler… O que se quer é escrever melhor e mais refletidamente, isso é tudo, da mesma forma como um bailarino dança melhor, o que acaba acontecendo por si só” –, aparentemente desagradavelmente conservatória, acaba ganhando uma dimensão radicalizante, num sentido positivo.
“Sou um indivíduo insuportável”, é o que os textos deste volume dirão, mas demonstra igualmente a dedicação dispensada à arte e a compreensão que tem sobre literatura. Já que é difícil discordar, depois de atravessados esses textos, que Bernhardt tem muita clareza do seu próprio projeto literário. Parece sempre ter tido. Quanto mais velho, mais relutante foi ficando em admitir qualquer concessão a ser uma presença agradável, em busca de aceitação, reconhecimento e fama. Parece ter odiado a própria ideia de fama e a ideia de ter uma relação agradável com poderosos era suficiente para fazê-lo arrumar pequenos escândalos. Ao recusar simpatias, ele também aliava o lado oposto, normalmente um político. Enquanto eles normalmente não ultrapassam nenhum limite, Bernhardt devolvia radicalizando as situações.
Aliás, como é que se lida com um sujeito que diz, meio sério, meio ironizando, sobre um diretor de teatro que
ele não mais vai parar de encenar todos esses clássicos repugnantes, primitivos e ordinários, os ingleses, os franceses e os espanhóis, os conhecidos e famigerados Shakespeare, Molière, Lope de Vega etc., infelizmente impossíveis de aniquilar em seu primitivismo, em sua vulgaridade e em sua debilidade… esses escritores de peças terríveis envenenaram por completo os teatros de toda a Europa, e, na verdade, do mundo todo, e, aliás, tempo indeterminado, nunca mais se poderá livrá-los dessa epidemia de clássicos, infelizmente. Tchernóbil, essa besteirinha soviético-ortodoxa, não é nada perto de uma dessas peças de Shakespeare a ir pelos ares pelo menos uma vez por dia em algum lugar do mundo? (Bernhard, 2025: 287-288).
Essa espécie de Joseph K autoimposto, que diz
Quando, depois de anos de peregrinação, decidi-me a me fixar no campo, eu o fiz por conselho médico. ‘Se o senhor não mudar de vida’, ele me ameaçou, ‘vai se estrepar’. Embora a palavra estrepar tenha me fascinado, decidi-me pela tranquilidade. Mas não levou muito tempo para que eu reconhecesse o erro. No campo, todo mundo conhece todo mundo, é-se todo dia, querendo ou não, confrontado com o destino sob a forma de nascimentos e mortes. Tem muita indústria por aqui, e a cada passo topamos com vítimas, gente mutilada por máquinas. Com certeza, região muito estimulante para um escritor (Bernhard, 2025: 220).
Ou então, em 1982, onde se lê: “Eu e minha obra temos tantos inimigos quanto a Áustria habitantes, incluindo-se aí a Igreja, o governo na Ballhausplatz e o Parlamento no Ring. Afora algumas poucas exceções. Destas me alimento e existo”, isso para responder a uma “pergunta a um só tempo rude e delicada” de alguém. Quiçá: “Vá a qualquer restaurante em Salzburgo. À primeira vista, sua impressão será: só gente boa e honesta. Mas, se ouvir seus vizinhos de mesa, vai descobrir que sonham apenas com extermínio e câmaras de gás”. E para terminar: “Como 22 anos atrás fui idiota a ponto de divulgar meu endereço, não posso mais viver em Ohlsdorf. As pessoas ficam sentadas no muro. Logo de manhãzinha, quando vou até o portão, lá estão elas. Querem falar comigo, dizem. Ou aparecem nos fins de semana; da mesma forma como antes iam ver os macacos, agora vão ver escritores. Fica mais em conta” (Bernhard, 2025: 273). Mas, se Bernhard é Joseph K, compartilhamos com ele o mundo kafkiano, somos também os turistas da literatura indo até sua casa para “ir ver os escritores”.
Aliás, sua relação com Salzburgo toma conta do volume, porque parece causar escândalo não exatamente o fato de que Bernhard tenha com tanta constância ofendido Salzburgo, toda a Áustria e os austríacos, a história da arte e da cultura austríacas, mas que depois de fazê-lo ele seja o primeiro a dizer que tem a cidade e a pátria dentro de si, que não pode negar ser ele fruto desses lugares. Tenciona, assim, a contradição viva que lhe atravessa, mas também a noção do que é uma literatura nacional ou um escritor local, que pode significar muita coisa. Pode ser, por exemplo, uma espécie de contradição tensionada viva, como o Bernhardt que diz “Bom, eu sou de Salzburgo! Não sou? Minha relação com essa cidade é de pré-dileção” (Bernhard, 2025: 123).
Esse tensionamento é a afirmação de que sua arte é exatamente como os que pretendem odiá-la: tem uma obra de inegável valor e beleza, mas são verdadeiros monstros por baixo dessa carapaça, ainda que a superfície e o profundo façam igualmente parte da verdade. Bernhardt, porém, é uma espécie de monstro verbal e quase performático, aqueles que ele acusa, não. Valeria muito a pena ver se o romance brasileiro nas últimas décadas foi capaz de demonstrar isso também sobre a realidade nacional, quer dizer, como uma dualidade monstruosa.
Essa é uma postura de confronto absoluto, difícil de manter, ainda mais por décadas em seguida e que tem que resistir a sessões do tipo: “quando eu tinha nada mais que dezoito, o então superintendente do teatro de Salzburgo me processou, levou-me a um tribunal porque, como respeitável crítico de teatro da, na época, melhor revista austríaca de cultura e política, Die Zeit Furche.. expus minhas impressões sobre o teatro de Salzburgo. Escrevi que os atores não são atores, que o superintendente não era superintendente, e assim por diante. Autointitulava-se teatro, mas nada amais era do que imbecilidade e patifaria, nada além de uma lixeira pantomímica acéfala etc… Onde juntas a burrice e a arrogância abrem as cortinas”, diz Bernhard, “o teatro está morto” (Bernhard, 2025: 82). Por trás da postura insuportável do personagem-autor Thomas Bernhard, encontra-se uma potência para lutar pela própria literatura, mas numa dimensão quase cidadã da literatura, de uma espécie de liberdade que nenhum espectro ideológico da política parece ser capaz de oferecer. Um modo de ser quase pedagógico, ainda mais para nós aqui no Brasil; lembremos que o caso J.P. Cuenca não tem sequer cinco anos.

Referências
BERNHARD, Thomas. (2020). O presidente. Tradução de Ruth Bohunovski, Gisele Pacheco Eberspacher e Paulo Rogério Junior. Curitiba: Editora UFPR.
BERNHARD, Thomas. (2025). Na pista da verdade: Discursos, cartas, entrevistas e artigos. São Paulo: Todavia.
LESSA, Renato. (2021). A destruição. Bolsonaro, a palavra podre e a desfiguração da democracia. Revista Piauí, Edição 178, Julho 2021.
