
Em um momento político em que o autoritarismo e as ameaças à democracia continuam a nos rondar, o livro A literatura como arquivo da ditadura brasileira, de Eurídice Figueiredo, ganha sua segunda edição pela Editora 7Letras. Na resenha assinada por Bruno Lima (Uerj) que publicamos hoje, ele destaca como Eurídice articula literatura, história e testemunho para refletir sobre o papel da ficção na preservação da memória coletiva dos anos de chumbo. Ao mapear três fases da ficção sobre a ditadura, deter-se na análise de obras fundamentais — como K., de Bernardo Kucinski — e compartilhar um relato pessoal de sua militância e exílio, Eurídice mostra que narrar o passado é também resistir ao esquecimento.
Boa leitura!
A literatura como arquivo da ditadura brasileira
Por Bruno Lima (Uerj)
O Brasil, em sua breve trajetória como país independente, já atravessou mais de um período de governos autoritários, com consequências terríveis para a população. Desde 1985, vivemos novamente sob um regime democrático — embora, de forma assustadora, o flerte com a ditadura tenha retornado. Na ocasião do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, assistimos a manifestações, talvez ainda tímidas, ao menos em um primeiro momento, de pessoas saudosas da Ditadura Militar. Em abril de 2016, em plenário na Câmara dos Deputados, o então deputado federal Jair Bolsonaro, que viria a ser presidente do Brasil, pronunciou seu voto contra Dilma homenageando um torturador da ditadura. Com Bolsonaro na presidência, as manifestações populares favoráveis à ditadura ganharam força e perduram ainda hoje, já com Lula de volta ao poder. É importante mencionar a tentativa de golpe orquestrada por Bolsonaro para se manter no poder, bem como os pedidos de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023, que revelam como uma parcela significativa da população ainda reivindica o retorno dos militares. Foi no cenário de impeachment golpista da então presidenta que vem a lume A literatura como arquivo da ditadura brasileira, de Eurídice Figueiredo, que recebe, agora em 2025, uma segunda edição — muito merecida e necessária, pois, nas palavras da autora, “o livro tornara-se uma referência, devido ao mapeamento que propunha, considerando as mudanças ocorridas na forma das narrativas em diferentes temporalidades”, já que, “na redemocratização, o Brasil parecia querer esquecer o passado recente, de modo que perdurou o silêncio, associado à lei da anistia que não punia os torturadores e assassinos”. O tema da ditadura recebeu nova atenção da pesquisadora com o lançamento, em 2024, do livro Mulheres contra a ditadura: escrever é (também) uma forma de resistência, no qual, como o título indica, é a autoria feminina sobre o tema que ganha destaque.
Durante os anos de chumbo, os artistas que mais se destacaram na luta contra a Ditadura Militar foram os ligados à música e ao teatro — ou, ao menos, foram os que conquistaram maior visibilidade. Os autores literários, por sua vez, tinham pouca margem de ação, como aponta Flora Süssekind em Tal Brasil, qual romance?. Se, por diversas razões, o papel da literatura tornou-se secundário naquele momento de horror vivido pelo país, Eurídice Figueiredo alerta que “todo o trabalho de investigação e divulgação do que ocorreu nos porões da ditadura é um dever de memória em relação às vítimas, a seus familiares e à sociedade em geral” — e seu livro cumpre essa função de maneira exemplar. Em um contexto em que a democracia volta a ser ameaçada por estados de exceção, as reflexões de Eurídice sobre a literatura que tematiza a barbárie são especialmente bem-vindas, lançando luz, inclusive, sobre a própria literatura.
A primeira parte do livro, intitulada “Os arquivos do mal: memória, esquecimento e perdão”, propõe uma discussão teórica sobre o conceito de arquivamento e a importância da memória para a preservação da história. Além de revisitar autores como Agamben, Benjamin, Ricœur, entre outros, a autora destaca o papel essencial dos jornalistas, que atuaram diretamente com arquivos para revelar os segredos ocultos nos subterrâneos das iniquidades do regime militar.
Nessa primeira parte, a pesquisadora também discute, de forma instigante, o conceito de perdão e, como contraponto, menciona o exemplo da África do Sul, onde Nelson Mandela adotou uma estratégia que, se não plenamente justa, mostrou-se ao menos eficaz: conceder anistia a todos os criminosos que admitissem sua culpa e pedissem perdão às vítimas. Esse artifício pode parecer, à primeira vista, excessivamente moral, mas ao menos permitia a revelação da verdade histórica e a identificação pública dos criminosos. Como escreve Eurídice, “(…) não se buscava tanto punir, mas reconciliar, passando por esse exercício coletivo de memória, numa espécie de cerimônia de exorcismo e catarse que possibilitaria um recomeço na vida nacional”. No Brasil, contudo, isso não foi possível. Com a Lei da Anistia, nem a verdade veio à tona, nem os culpados por torturas e assassinatos foram expostos publicamente — não houve punição, tampouco apuração. A ironia é evidente quando se observa o recente pedido de anistia para os envolvidos na tentativa de golpe após a eleição de Lula. Sobre a anistia, Eurídice é categórica: ela equivale à amnésia.
Como pensar a literatura como corpus benéfico contra os males impostos pela Ditadura Militar brasileira? “Para haver cura, é preciso relembrar, reviver o trauma através da palavra, ou seja, da narrativa, nas sessões de psicanálise ou através da escrita”, responde a pesquisadora. Não nos esqueçamos do enorme sucesso do filme Ainda estou aqui, de Walter Salles, baseado em livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva. A literatura — como a arte em geral — tem a seu favor a capacidade de oferecer uma leitura menos árida do que a dos arquivos. A ficção mostra-se essencial para que mantenhamos viva a nossa história, por mais dolorosa que seja e, por isso mesmo, necessária.
“A literatura sobre a ditadura: estratégias de escrita” é o título da segunda parte do livro. Eurídice a inicia afirmando que ler textos, ficcionais ou não, produzidos durante ou sobre aquele momento de estado de exceção é uma forma de repensar o passado — algo fundamental tanto para novas interpretações do período quanto para a reelaboração dos traumas causados pela ditadura. A responsabilidade do escritor é grande, pois, queira ou não, ao escrever sobre esse período, imprime às páginas um teor inevitavelmente testemunhal. Mesmo os autores mais jovens, que não vivenciaram empiricamente aquele momento histórico, precisarão recorrer à pesquisa para fundamentar suas narrativas e conferir-lhes verossimilhança. Para Eurídice, embora textos jornalísticos e historiográficos tenham importância evidente, é apenas a literatura que tem o poder de “(…) recriar o ambiente de terror vivido por personagens afetados diretamente pela arbitrariedade, pela tortura, pela humilhação”, apoiando-se em Rancière para sustentar esse argumento. Pode-se ainda aproximar essa perspectiva à de Todorov, embora sob outro enfoque: para o autor búlgaro, a literatura oferece ao leitor a experiência da alteridade, permitindo-lhe identificar-se com as personagens e emocionar-se com suas vivências.
Percebe-se, em A literatura como arquivo da ditadura brasileira, que o autor literário, diferentemente do arquivista ou do historiador, oferece em sua narrativa um testemunho pessoal da história, afastando-se, assim, da pretensa objetividade que caracteriza a escrita historiográfica. Para efetivar a pesquisa, a autora leu cerca de sessenta livros, entre romances e autobiografias, dos quais pouco mais da metade foi analisada. Diante do número pouco expressivo de livros de ficção que abordam esse período histórico, é evidente como a pesquisa se mostra acurada. Lamentavelmente, no Brasil, é diminuto o número de obras e autores que tratam da Ditadura Militar sob o viés ficcional, diferentemente do que ocorre na Argentina, por exemplo. Essa é mais uma razão para a relevância da segunda edição do livro de Eurídice Figueiredo. Ela constata que a forma como se escreve sobre o tema na década de 1960 difere da maneira como o período é abordado nas décadas posteriores. Portanto, ela divide em três períodos sua análise. O primeiro abrange os anos de 1964 a 1979; o segundo, de 1980 a 2000; e o último concentra-se nos dias atuais.
Segundo a pesquisadora observou, o primeiro período contém obras cuja “(…) tônica é ora prospectiva e utópica, ora distópica diante do fracasso dos projetos revolucionários”; o segundo abarca as narrativas empíricas dos chamados ex-exilados, que, com a anistia, retornaram ao Brasil, como Fernando Gabeira, autor de O que é isso, companheiro?, que também fez sucesso no cinema; e finalmente o terceiro, que “(…) é retrospectivo, aborda o passado de pessoas reais ou fictícias, utilizando a forma do romance para transmutar o vivido através de um trato mais literário”. Fica o convite ao leitor para descobrir quais são as obras analisadas por Eurídice Figueiredo em cada uma dessas fases e o que cada uma delas acrescenta à memória brasileira dos anos de horror da ditadura.
A terceira parte é sobre K., romance de Bernardo Kucinski, autor cuja obra, que ficcionaliza o desaparecimento de sua irmã, presa e morta pela ditadura, impactou a pesquisadora. O título, lembra-nos Eurídice, faz com que o leitor imediatamente dialogue com O processo, de Kafka. A perplexidade e a atonia de Josef K. diante de uma prisão sem explicação correspondem à vivida pelo pai de Ana Rosa, irmã do autor. No caso do pai, a ditadura representa uma segunda grande iniquidade em sua trajetória, pois, emigrante, havia chegado ao Brasil fugindo do nazismo de Hitler. O fato de que a tortura e o assassinato de brasileiros e brasileiras inocentes possam, de alguma forma, remeter à Alemanha da Segunda Guerra Mundial — quando milhares de judeus foram exterminados de forma desumana — não apenas envergonha a história brasileira, como também torna ainda mais urgente o resgate da memória desse período, reforçando a relevância da pesquisa de Eurídice. Sua leitura do romance de Bernardo Kucinski é bastante interessante e explicita a crueldade militar, deixando-nos desejosos de que a política brasileira deixe de se assemelhar à civilização do espetáculo pensada por Mario Vargas Llosa, em que o povo comporta-se mais como telespectador basbaque diante do circo midiático e menos como cidadão preocupado com as propostas apresentadas pelos candidatos aos cargos públicos. Pensando na perplexidade, tanto em Kafka quanto em Kucinski, adicionamos a nossa quando um candidato à presidência é eleito mesmo com um discurso que apoia a tortura. Certamente o livro de Eurídice Figueiredo colaborará para uma maior e mais bem fundamentada noção de democracia a partir do resgate da nossa anamnese.
Para finalizar o livro, a parte mais bonita, em minha opinião, intitula-se “Minha terra tem palmeiras… e me expulsaram de lá (Geração 1968)”. Trata-se de um depoimento autobiográfico da pesquisadora sobre o período em que militava politicamente contra a Ditadura Militar e, por essa razão, precisou exilar-se na França, temendo pelo que poderia acontecer com sua vida. À pesquisadora soma-se a militante, que contribui para o resgate da memória dos anos de chumbo com sua própria experiência. Assim como muitos livros que abordam aquele período da história brasileira recorrem ao testemunho — conforme bem analisa a própria autora —, aqui é Eurídice Figueiredo quem oferece seu depoimento, sem se furtar a participar ativamente da preservação de nossa memória coletiva. Para ela,
Todo livro – ficção ou depoimento —, todo filme — documentário ou ficcional —, toda obra de arte ou projeto museológico que contribua para a reflexão sobre os anos de chumbo no Brasil tem um enorme valor porque não se pode esquecer o que foi perpetrado. É preciso render tributo àqueles que lutaram pela utopia de um país mais justo e mais democrático.
É a partir dos testemunhos alheios — cuidadosamente estudados por Eurídice Figueiredo — e também de seu próprio relato pessoal que A literatura como arquivo da ditadura brasileira ganha uma merecida segunda edição, reafirmando seu papel no resguardo da memória de um dos períodos mais nocivos à liberdade no Brasil.
Sobre o autor
Bruno Lima é doutor em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente é professor substituto da Uerj. Autor, dentre outros, de Bruxaria do início ao fim: o projeto filosófico-(meta)ficcional de Machado de Assis (EdUERJ, 2021) e Eu: itinerário para a autoficção (7 Letras, 2015).
