Cenas de escrita para um diário íntimo | Coluna de Ítalo Moriconi

A morte de Heloisa Teixeira (ex-Buarque de Hollanda) movimenta afetos e memórias, e Ítalo Moriconi a transforma em matéria viva de reflexão sobre escrita, legado e intimidade. Em “De onde vem isso”, novo texto de sua coluna Cenas de escrita para um diário íntimo, Moriconi registra os dias que se seguiram à notícia do falecimento de Helô — das hesitações sobre ir ou não ao velório às anotações sobre o impacto dessa figura central da cultura e da crítica literária no Brasil. A escrita é íntima. Entrelaça o luto à história das gerações intelectuais, às tramas sobre nome e identidade: “Ítalo Jr. transforma-se agora em Sênior”. E também aborda os vínculos, como os que ligam Helô, Ana Cristina Cesar, Beatriz Resende e o próprio autor. Resta algo a ser dito? Um diário que se deixa atravessar pela despedida, sim; mas não hesita em escrever o que se move.

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De onde vem isso

Por Ítalo Moriconi

[28 de março]

Interessante observar as diferenças entre a cultura acadêmica universitária e a cultura midiática, dois dos recortes de cultura de que participo, como consumidor e produtor em ambos. Ontem, todos os jornalistas da Globonews repetiam o mantra de que se trata de momento inédito e histórico o Brasil levar a julgamento militares que tentaram dar um golpe contra o regime constitucional. Ninguém cita, porém, a autora original do mantra – a também jornalista (e romancista) Miriam Leitão.

Numa coluna de dias atrás, Elio Gaspari asseverava que teria sido Merval Pereira o primeiro a questionar publicamente a dosimetria aplicada em algumas penas do 8 de janeiro. Nananinanão! Antes dele, o togado maior Luiz Roberto Barroso já tinha feito isso e em mais de uma ocasião, há mais de ano, tendo dado ele próprio sentenças bem menores que as de Moraes.

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No espaço público atual, administra-se a questão da visibilidade pessoal como capital. Esta tem analogias com a do “impacto” na cultura acadêmica universitária e seus protocolos de referência a fontes. Sempre obrigatório indicar fonte na cultura universitária. Às vezes, basta isso para livrar-se de uma acusação de plágio. “Bota esse trecho todo entre aspas, baby”. (Um dia Elio Gaspari acusou Ana Cristina Cesar de ter plagiado sua orientadora Heloisa Buarque de Hollanda num trabalho acadêmico.) Há níveis de qualidade. É qualitativamente melhor indicar pelo menos uma das fontes remotas, clássicas, ao lado de indicações que mostrem uma boa varredura da produção dos últimos cinco anos pelo menos. Meu lado burocra. Buroca do Bem ou do Mal?

[29 de março]

Devo ir ao velório hoje?

Devo não ir ao velório hoje?

Morreu Heloisa Teixeira (ex-Buarque de Hollanda).

O desaparecimento.

Devo ir? Devo não ir?

Devo ir.

Devo dizer – morreu? Soa obsceno, cru, redutor dizer – “morreu”.

A passagem de Helô. O ausentar-se de Helô. Os sentimentos por Helô, disseminados por um recorte expressivo da comunidade intelectual carioca, brasileira.

Vamos a velórios para ver os vivos.

Não quero ver a máscara mortuária de Helô.

No velório de meu pai, a máscara me atraía a todo momento, magnetismo pétreo.

Eu tocava sua rigidez marmórea, versão fria, alva, de um corpo-calor tão próximo, sua italianidade moreno clara, tão ligado aos cheiros, toques, suores de infância e adolescência. E depois a diáspora, no despontar da juventude adulta. O cordão nunca totalmente cortado por imaginária parca, pois está no nome, que carrega Junior. Ítalo Jr. transforma-se agora em Sênior. Ítalo Sênior seria meu novo nome.

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Leio no Facebook, recebo no Instagram, explodem no WhatsApp tantas belas e tocantes mensagens de despedida de Helô. Escravos da técnica e do capital que somos. Literalmente tocantes; lê-los alimenta meu gosto pela escrita (auto)biográfica e pela história das gerações intelectuais. Hoje, a escrita autobiográfica, na prática, virou sinônimo de “literatura”, no sentido de apontar o que seria o dado evolutivo do momento. A moda (diria um antigo, ou um dândi) é escrita de si, o relato épico de alguma grande transformação pessoal vivida por quem escreve. Em contraste com a fabulação puramente imaginária, o simples contar uma história, que está na origem do conceito-raiz de literatura. Lição A do catecismo: literatura é arte da escrita e é o cânone pedagógico de uso social decorrente de sua história.

[30 de março]

Apontamentos sobre história de transformação no próprio corpo ou na grafia do próprio nome. Sua fé pública. Narrada em tantos depoimentos de saudade como intelectual mãe de todo um recorte geracional carioca nas áreas de Letras, Comunicação e Cultura, Helô buscou reescrever-se trocando o sobrenome do primeiro marido pelo de sua mãe. Substituiu o sobrenome do pai de seus filhos pelo sobrenome de uma mulher que, segundo ela, tinha permanecido na sombra, num canto obscuro de sua própria história.

Devo prosseguir? Este diário terá a coragem de ser realmente íntimo? Entro em terreno pantanoso. Estou diante da máscara, hierática, definitiva e inútil, exposta à visitação de seus tantos filhos e filhas. O fogo, a seguir. Cinzas e memória: o mais forte. Seiva.

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Vamos a velórios para inteirar-nos dos detalhes da morte, de como tudo aconteceu, a doença, os últimos dias. Encontro Silviano Santiago brevemente. Acaba de ter estampada no Blog da BVPS sua leitura do conto “A causa secreta”, de Machado de Assis, cujo desfecho revelador se dá numa cena de velório. Ao Machado de Assis ficcionista, dublê perverso do Machado das pequenas mortes epilépticas, interessam os velórios. Silviano ficcio-biografanalisa o Machado das pequenas mortes no seu belo romance sobre o Bruxo do Cosme Velho. Os velórios machadianos são fatos marcantes e constantes da vida social. Neles relampeja a verdade dos casamentos, como em “A causa secreta”.

Uma de minhas referências literárias mais fetiche é Dom Casmurro. Amo a cena do velório de Escobar, quando explode a verdade do ciúme de Bentinho. Ele deseja Escobar. Em suas recordações de colégio, revela-se o misto de atração e rivalidade inerente à paixão homoerótica masculina entre coetâneos, antes de sua seminormalização sentimental em nosso tempo, com namoros publicizados, casamentos gays, novos arranjos familiais. Era a dimensão violenta do desejo homossexual, a que se refere Ana Cristina Cesar num comentário sobre Katherine Mansfield, neste caso falando do desejo lésbico.

No velório, me contam que Helô padecia da mesma fraqueza pulmonar que seu pai e que foi o mal respiratório a causa imediata da morte de ambos. Se for verdade o relato, constato que a recuperação, em fé pública, do nome da mãe, nada pôde fazer contra a presença do pai no corpo de Helô. Algumas pessoas no velório mencionaram o fato de que o perfil de Helô, como grande professora, orientadora e mentora que era, contrabalançava a sedução acolhedora da mãe com a autoridade assertiva de um pai. A reescrita de si através do jogo de sobrenomes diz ambiguidade. Comigo também, contigo idem, ma chère. Nomes escritos e sobrescritos, sem a possibilidade da rasura. Erratas, erradas, errância? Helô Teixeira, Heloisa Buarque de Hollanda, Helô. Bentinho, Bento Santiago, Casmurro. Ítalo Moriconi Junior, Ítalo Moriconi, Ítalomóri. Rebelo-me contra o Sênior. Auto-estigmatizo-me.

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Se Helô foi mãe ou pai para mim, ela o foi por interposta pessoa.

Helô chegou a mim via Ana Cristina Cesar, com quem convivi, como relato em meu livro O sangue de uma poeta. Ela era uma heroína para Ana Cristina, nas práticas de vida literária, produção, publicação, mas ainda mais que isso por ser a mãe, a segunda mãe. Uma mulher pouco mais velha, mas já da geração 68, que geria uma casa e uma família. Ana Cristina adorava Helô por essa vida doméstica, os três filhos, a macarronada que ela servia para quem gostava. (Me faz lembrar a Giovanna, mulher do tio Roberto Moriconi, eles também serviam a macarronada gregária, no casarão de Santa Tereza). Nesse período, eu via Helô na praia, no posto 9. Era uma coisa de cumprimentos, de oi, passando, vou sentar ali, aliás, nem vou sentar, não aguento ficar horas sentado na praia, caminhar sim.

Vinte anos depois, tive como interposta pessoa Beatriz Resende, cujo depoimento na BVPS me tocou especularmente. A dimensão especular da escrita autobiográfica. Alguém conta uma coisa e dá vontade de contar algo de minha própria história. Só mesmo da cabeça corajosa da Beá, amiga e discípula de Helô, podia sair a ideia de sugerir ao editor Alberto Schprejer que fosse eu o encarregado de escrever sobre Ana Cristina Cesar para a coleção Perfis do Rio.

Como colegas na Faculdade da Cidade, testemunhei a coragem da Beá incluir poemas de Ana Cristina em seus programas de leitura, adotando pioneiramente na academia a poesia daquela nossa amiga comum que tinha partido tão cedo. Logo a imitei, quando me foi dada a felicidade de ministrar a Oficina de Criação na Faculdade.

Nessa época, início dos anos 1980, Helô já estava consagrada como crítica de poesia, de literatura e cinema, de cultura. Algum tempo depois, foi impactante sua volta do pós-doutorado nos Estados Unidos, mergulhada no empenho da crítica literária feminista, assumindo o perfil político de uma esquerda por assim dizer americanizada, que se tornava dominante, pelo menos na minha bolha das ciências humanas e letras. Foi o mergulho nos estudos culturais, na politização das questões identitárias, antirracismo, anti-homofobia, Act Up, luta contra o descaso do Estado no enfrentamento da Aids. Esse é o ambiente intelectual de minha bolha nos anos 1980, numa guinada de afastamento do “sovietismo” como discurso crível na academia.

Socialismo democrático, democracia da inclusão, consciência ambiental. Foi o momento da troca de Paris (que dirá Moscou!) pela universidade americana por parte do povo das humanas no Brasil, em busca de doutorados e pós-doutorados no exterior. Encontrava-se nos States uma universidade vibrante, progressista, tipo new left, e aliada aos movimentos de base na América Latina. Esta universidade que Trump agora está atacando, desfinanciando. Naquele momento, apareceu o PT, tão puramente sindical e social-democrata nos seus começos, desafiando um PCB rachado entre eurocomunistas e prestistas, fortes presenças, ambas no Rio, mais que em São Paulo: lá se fazia presente a tradição trotskista, petista desde o início.

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Há uma frase no texto de Beatriz Resende que posso adotar para mim, com a data trocada. A dela é 1968, a minha é 10 anos depois. A minha é assim: “Era 1978 e não sabíamos que, apesar da ditadura, estávamos vivendo os melhores anos de nossas vidas”.

Sempre digo que depois da campanha pelas diretas e da Constituição de 1988, entramos todos na sensaboria das vidas profissionais, enquanto aquela universidade selvagem e livre que vivemos nos 1970 e 1980 foi cada vez mais se burocratizando e virando uma máquina. Cada qual dessa geração de filhos da Helô, diretos ou por interposta pessoa, inseriu-se no esquemão com maior ou menor felicidade, maior ou menor prazer, tudo muito produtivo. Não tanto pelo produtivismo puro e simples, mas porque gostávamos de estudar, escrever e debater literatura, nas bancas e congressos, ainda mais conectada ao presente da política, da política na cultura. Foi o momento pós-moderno, a pitada de sal.

Nesse contexto, Helô era uma indisciplinadora institucional, como Beatriz Resende evoca na metáfora da derrubada das paredes. Ela quebrava os esquemas burocra da UFRJ, assim como amava reformar seus apartamentos. Adorava obra. Pode? Tinha alma de arquiteta, curadora da arte de suas paredes impactantes; estava sempre ligadíssima no design gráfico. Na ação universitária era uma designer de grupos. As alunas e as orientandas, fascinadas, instigadas por ela. A todas e todos e todes reservava seu acolhimento mandão, irredutível no vanguardismo.

Só fui mesmo ter uma convivência pessoal com Helô entre meados dos anos 1990 e inícios dos 2000, levado para um pós-doutorado experimental que ela estava montando com a colaboração de Silviano Santiago. Daí emergiu o atual pós-doc no PACC. Nessa época, fiquei totalmente desvanecido por ela ter incluído poemas meus na antologia Esse Poetas, dos anos 1990. Ninguém está mencionando essa antologia, mas ela existe. Meu algoritmo só me traz menções à 26 Poetas Hoje e à antologia As 29 Poetas Hoje. Foi também graças a ela que mergulhei na pesquisa e publicação da correspondência de Caio Fernando Abreu. Ela me passou o trabalho, que vinha sendo tocado por ela e Armando Freitas Filho. Outra relação especular – Caio Fernando Abreu. Para mim, ele é um “ser de papel”, na expressão de Roland Barthes. Embora fôssemos da mesma geração e eu um bom amigo de João Gilberto Noll, nunca cruzei com Caio pessoalmente, apesar de acompanhar e apreciar seus escritos. Foi pauleira, aquele trabalho.