Série especial | “Finanças Nacionais” e o “Problema Econômico”: que diferença faz 100 anos?, por Alexandre de Freitas Barbosa

Em mais uma rodada da série preparatória para o seminário A outra crise do liberalismo? À margem da história da República (1924), publicamos textos de Gabriela Nunes Ferreira (Unifesp) e Alexandre de Freitas Barbosa (IEB/USP).

Nunes Ferreira escreve sobre José Antônio Nogueira, que via a formação da consciência nacional como a principal obra de “regeneração” da República, a ser conduzida por uma elite intelectual com senso de missão. Já Barbosa discute o texto de Nuno Pinheiro. Ao se questionar sobre o que mudou na política econômica brasileira em cem anos, seu ensaio revela continuidades desconcertantes entre a Primeira República e o presente.

Curada por Christian Lynch, André Botelho e Rennan Pimentel, os textos dessa série especial da BVPS Edições comentam os capítulos da coletânea À margem da história da República. Confira aqui outros textos da série.

Boa leitura!


“Finanças Nacionais” e o “Problema Econômico”: que diferença faz 100 anos?

Por Alexandre de Freitas Barbosa (IEB/USP)[1]

A política orçamentária do Brasil deve ser orientada com vigor e decisão inflexível, para obtenção do “equilíbrio orçamentário”, sem o qual nada poderemos edificar de sólido e durável. O déficit é o monstro de nossas finanças. Precisamos matá-lo e ter a fortaleza de sonhar com a miragem de “saldos orçamentários” em alguns anos seguidos (Pinheiro, [1924] 1979: 99).

“Estamos num baita problema fiscal. Reconhecemos o enorme esforço do ministro [da Fazenda, Fernando Haddad], do governo, mas o arcabouço fiscal que foi criado, com o teto de crescimento real da despesa de 2,5%, não é suficiente para nos levar a uma trajetória pela qual possamos enxergar quando a dívida pública do Brasil vai parar de crescer. Enquanto não pudermos responder a essa pergunta, a chance de recuperarmos o grau de investimento é de praticamente zero”, afirma Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro. A dívida pública, diz, terminou 2022 em 71,7% do PIB e atualmente é de 76,5% do PIB. Até o fim do atual mandato deve chegar a 83% do PIB, estima o banco (Valor Econômico, 25 de março de 2025).

Introdução

Coube a mim, quiçá o único economista deste seleto grupo de “pensadores do pensamento brasileiro”, a tarefa de discorrer sobre o texto de Nuno Pinheiro publicado na coletânea À margem da história da República, organizada por Vicente Licínio Cardoso, obra que completa 100 anos. “Finanças nacionais” é também o único texto da coletânea a se incumbir do “problema econômico”. Quando Monteiro Lobato (1959: 246) escreve em 1931 que “nosso problema não é político, nem racial, nem climatérico, mas pura e simplesmente econômico”, ele parece pregar no deserto. Cem anos depois, boa parte das avaliações sobre o destino do país tendem a começar com um arrazoado sobre a economia.

Quem é Nuno Pinheiro de Andrade, bem menos conhecido que os seus colegas de coletânea, e também o primeiro a sair de cena, em 1927? Estamos diante de um jurista formado numa das faculdades livres de Direito do Distrito Federal e especializado em temas econômicos (Venâncio Filho, 1979: 6). Seu conhecimento deriva do exercício de função pública na administração do Ministério da Fazenda e também como funcionário do Tesouro e diretor do Banco do Brasil. E do estudo em sua vasta biblioteca econômica, conforme descrição de Otávio Gouvêa de Bulhões (1989: 2-17), seu sobrinho. Como percebemos no texto, a Economia, por ele denominada “ciência das finanças”, lhe permite acessar as “verdades simples e claras” (Pinheiro, 1979: 98).

O que me interessa no texto de Nuno Pinheiro é, sobretudo, o contraponto que se pode estabelecer, por meio dele, com o cenário atual de um Brasil dominado pelos economistas e seus saberes “financistas”[2]. E com o contexto de uma outra “Nova República” (Pinheiro, 1979: 86), também carregada de utopias e possibilidades, na sequência de uma Constituição que não entregou tudo o que se esperava dela, inclusive por conta do esquartejamento sofrido por obra dos financistas do nosso presente.

O problema econômico, em 1924, ainda ocupava uma espécie de sótão do pensamento e era acessado por advogados com formação positivista. Cem anos depois, o econômico se insurgiu, tomou a casa e fez dos demais aposentos suas dependências. Seus praticantes, agora formados numa Ciência dita Econômica – os seus quadros de maior prestígio possuem diplomas em universidades dos Estados Unidos – estão disseminados pelos espaços públicos e privados, onde ostentam seus jargões e frases feitas.

Daí o choque do contraste. Separados por um século, os discursos retirados de suas temporalidades e colados um abaixo do outro – como se depreende nas epígrafes que abrem o texto – revelam uma semelhança acachapante. Se transportado fosse para as páginas do grande periódico de economia do país, o Valor Econômico, Nuno Pinheiro leria as colunas de opinião e as entrevistas dos autores consagrados pelo “mercado” com facilidade.

Um curso intensivo sobre os fatos financeiros do país – isto é, depois da maré intempestiva do “nacional-desenvolvimentismo”, com foco no Plano Real e na “normalidade” financeira daí em diante, apenas conspurcada pelas intervenções estatais corriqueiras e arroubos “populistas” à esquerda e à direita – seria o suficiente para que circulasse com desenvoltura pelos bate-papos sobre economia dos diletos endinheirados no Brasil das primeiras décadas do século XXI.

O artigo de Nuno Pinheiro e a finança dos “bacharéis práticos”

Nuno Pinheiro propõe-se a investigar a economia do país durante a República a partir da taxa cambial, que fornece um “termômetro” do “estado orgânico” do paciente, ao indicar a “normalidade” ou os “graus extraordinários de uma situação mórbida” (Pinheiro, 1979: 83).

Os momentos de queda do câmbio (desvalorização)[3] demonstram a saúde precária do paciente, que depois de sofrer uma forte crise na primeira década republicana, recupera-se entre os anos 1905 e 1912, oscilando negativamente em 1915, melhorando em 1919, e voltando para um quadro sofrível no início da década de 1920.

Ao longo do texto, o autor demonstra sua capacidade de tecer relações entre o câmbio – o elemento orquestrador de sua análise –, as dívidas externa e interna, o meio circulante, as finanças públicas e o comércio exterior.

Não vou me deter aqui nas políticas econômicas dos vários governos da Primeira República, algumas das quais são analisadas com conhecimento de causa. O que me importa é onde ele põe relevo e de que forma. E como ele tece as relações entre o câmbio e as demais variáveis econômicas.

O autor confere destaque ao primeiro funding loan de 1898, executado pelo ministro da Fazenda Joaquim Murtinho do Governo Campos Salles e ao segundo funding loan de 1914. Por meio desses empréstimos externos de consolidação, assegura-se o pagamento dos juros da dívida externa com a emissão de novos títulos e a prorrogação das amortizações. O risco era – como de fato ocorreu em 1931 na sequência da crise de 1929 – que fosse contraído um terceiro empréstimo de consolidação (Annibal Villela & Wilson Suzigan, 1973).

Na avaliação de Nuno Pinheiro, o primeiro se justificava pela “grave crise interna”, “eram as feridas da revolução e da mudança das instituições políticas, que estavam a sangrar”. Quando ao segundo, “não deveríamos tê-lo renovado” ou teria “sido impotente para nos abrir os olhos” (Pinheiro, 1979: 85-87). Os renovados funding loans – os quais poderiam também ser justificados pelos “desmantelos financeiros” da primeira década republicana e pela grande crise externa e mundial (Primeira Guerra Mundial) – “abalam o nosso crédito no exterior”. Dessa feita, “urge a aplicação de um enérgico programa financeiro”, tendo por meta retomar o país o pagamento das amortizações da dívida externa, previsto para 1927, “porque desejamos sincera e patrioticamente levantar o nome do Brasil no exterior” (Pinheiro, 1979: 87).

A dívida externa alta se entrosa com o problema cambial, identificado como um “tormento” para o país, pois temos que efetuar os pagamentos com moeda desvalorizada. Também a dívida pública interna é identificada como um problema premente. Em citação que poderia aparecer nos jornais dessa outra Nova República, “o governo cessa de apelar pela confiança da praça, surda às suas solicitações”, a menos que sejam realizadas novas emissões com juros maiores. Assim, “a emissão de títulos tentadores é arma contra o próprio governo emitente” (Pinheiro, 1979: 89).

Se o ministro Joaquim Murtinho, do governo Campos Salles, ocupa um papel heroico em sua narrativa, é por ter trazido o câmbio e o país de volta à “normalidade”, resgatando seu valor de face perante a comunidade internacional.

Neste sentido, a política financeira que leva à redução do meio circulante e à criação de saltos orçamentários é também “uma política de salvação nacional e redenção econômica” (Pinheiro, 1979: 93). Qualquer política fora desse figurino apenas contribui para piorar o estado do paciente. Assim como somos bombardeados, em pleno século XXI, pela racionalidade econômica, supostamente científica por estar descolada da sociedade e da história. O que ontem aparecia como novidade, hoje se torna asfixia.       

As informações que Nuno Pinheiro traz ao leitor, inclusive familiarizando-o ao mundo das finanças e à sua ciência, por vezes de forma entusiástica – como no caso da defesa de legislação para regular os empréstimos externos de estados e municípios, “em benefício da grandeza nacional” (1979: 98) – caminham todas para o mesmo desenlace, tal como no conto de fadas dos nossos economistas liberais.

Existe um problema grave e ele reside no Estado. O déficit é uma espécie de mal congênito, que precisa de um lento processo de purga até a conquista da “miragem” de saldos orçamentários. O indicador contemporâneo é a razão dívida pública/PIB, número mágico, hoje próximo à casa dos 80%.

Como devem se comportar os “homens de Estado”, encarregados de levar o país para a “normalidade”? Devem “fechar os olhos e sacrificar-se contando com os louros da posteridade”, executando o programa “com mão-de-ferro, patrioticamente, sabiamente, inflexivelmente” (Pinheiro, 1979: 99). Uma orgia de austeridade a render dividendos para o resto de suas vidas, como no caso dos futuros banqueiros do Plano Real, a celebrar o 1º de julho sempre com a máxima de que “povo” é a âncora da moeda.

A leitura de Nuno Pinheiro nos revela outro cacoete dos nossos cientistas das finanças – ou “para as finanças”, pois se tornaram os seus intelectuais orgânicos. Os princípios fundamentais da “ciência das finanças”, como ele vaticina, “são comezinhos e populares”. Isso decorre das “verdades eternas, simples e claras”. “Uma degeneração do gosto”, eis o que representam “os amantes de novidades bem viçosas ou de coisas complicadas” (Pinheiro, 1979: 98). Portanto, a ciência das finanças também cede a um apelo estético clean.

Creio ter coberto o essencial do texto, do seu conteúdo e estilo. Cabe ainda uma menção à defesa da estatística – “sem o facho da estatística não pode haver governo orientado” (Pinheiro, 1979: 96) –, no momento em que se realizava o Recenseamento Geral do país em 1920.

Concluo a resenha do texto ressaltando sua principal lacuna, como de resto é típico de sua linhagem intelectual: falta a “economia real”, feita de produção e trabalho, sem a qual as finanças não existem, e que fornece inclusive os elementos para se entender a posição do Brasil no sistema internacional, geralmente abstraída dos seus modelos.

Aqui, tal como no caso de seus bisnetos economistas diplomados no exterior, há no máximo menções passageiras e vagas, módicas se comparadas às minuciosas passagens sobre o câmbio e a política fiscal e monetária. Até mesmo o comércio exterior aparece como sequência de curvas desprovidas de realidade tangível.

Destaco o seguinte trecho: “somos um grande país de matérias-primas, e de produtos agrícolas. É pela exportação que temos de consolidar o nosso lugar ao sol, na fase presente do nosso desenvolvimento histórico e econômico” (Pinheiro, 1979: 98). Há ainda um qualificativo revelador sobre os motivos da nossa pujança econômica: os “maravilhosos” “bandeirantes” de antanho e de hoje com as exportações do café que respondiam por 2/3 das exportações do país.

Portanto, o essencial é lacunar e lido pela chave da cultura, uma vez que o café, transmutado em obra bandeirante, aparece como um maná caído do céu, conferindo ao país um “lugar ao sol” na doutrina das vantagens comparativas. Fica devendo o autor uma qualificação sobre “a fase presente do nosso desenvolvimento histórico e econômico”. O próprio termo “desenvolvimento” sente-se pouco à vontade na armadura de princípios que compõem o texto, até porque era então de escasso uso à época. Parece destoar do quadro.

Celso Furtado nos fornece uma chave de leitura para inserir o autor de “Finanças Nacionais” no seu contexto. Em sua obra clássica, ele nos mostra como a transição para o trabalho assalariado tornava mais difícil a adaptação da economia periférica à baixa do ciclo detonada a partir do centro. A desvalorização da moeda é a forma encontrada para se manter a dinâmica do investimento no setor dinâmico, o café. Os prejuízos são distribuídos para o conjunto da coletividade. Inflação e desequilíbrio externo passam a fazer parte do novo funcionamento do sistema econômico.

Neste quadro, o homem público brasileiro interpreta por “analogia” os problemas do país com o que ocorria na Europa. A inconversibilidade da moeda brasileira é sinônimo de “patologia social”, tal como os economistas “práticos” formados em Direito leem no “corpo de doutrina” que lhes chega de fora. Trata-se de “enorme esforço de mimetismo”, que apenas se sustenta quando são abstraídas as condições de funcionamento do sistema internacional e as transformações por que passa a economia brasileira no período (Furtado, 1989). Não à toa, Nuno Pinheiro recorre ao “jeca” do Monteiro Lobato de 1918, ainda não o economista, como metáfora-síntese da paralisia econômica (Pinheiro, 1979: 97).

Conforme o trabalho exaustivo de Vilella e Suzigan (1973), depreende-se uma racionalidade na política econômica da Primeira República: as fases de desvalorização da moeda, relacionadas à crise dos preços do café, são sucedidas pelos empréstimos de consolidação, políticas de valorização do café (1906, 1917 e 1921) e de valorização da moeda, com o ingresso de novos empréstimos e investimentos externos, até que sobrevenha a nova crise da rubiácea, com desvalorização, inflação e empréstimos de consolidação. Até a crise de 1929, quando tem início a industrialização e a lenta desagregação da economia colonial, ocorrem tão somente surtos industriais.

Monteiro Lobato, Manuel Bonfim e o “problema econômico” nos anos 1920

Finalizo esse ensaio trazendo dois autores que trataram do “problema econômico” nos anos 1920, e que figuram como antípodas de um debate que não ocorreu de forma explícita, até porque a Economia não havia se tornado um campo autônomo de reflexão [4].

O contraponto entre Monteiro Lobato e Manuel Bonfim – o primeiro escrevendo crônicas humorísticas e pondo em cena o astuto inglês Mr. Slang e o segundo apresentando uma análise política e histórica sobre o Brasil Nação – permite ampliar o foco do texto de Nuno Pinheiro de Andrade.

Mr. Slang, súdito da S. M. britânica, fez estudos em Cambridge e esteve na Índia, na Nova Zelândia e em outras “inconcebíveis terras de gente de cor de pinhão”, antes de “encalhar por quarenta anos no mais lindo bangalô do Alto da Boa Vista”. É esse personagem caricato que nos permite flagrar o economista Lobato, de perfil liberal, conhecedor da “ciência das finanças”, antes da emergência das suas campanhas do ferro e do petróleo, quando ele abraça, já nos anos 1930, o “idealismo do progresso material” (Prado Júnior, 1959: ix-x).

Uma das primeiras crônicas do livro, de 1927, refere-se à Caixa de Estabilização[5], que teve o objetivo de assegurar uma nova paridade ouro para a moeda nacional, e que acabou contendo a valorização da moeda em curso. Em vez de se fiar nas ideias alheias, como fazem os brasileiros, o método de trabalho mental de Mr. Slang exige a observação dos fatos e a penetração na sua lógica interna. Daí a recomendação de colocar no Ministério da Fazenda um simples “caixeiro de venda”, em vez dos technical experts pretensamente capazes de resolver a “eterna balbúrdia financeira” do país (Lobato, 2008: 29-32).

Novamente, tal como em Nuno Pinheiro, o câmbio entra como o valor de referência, devendo ser invariável como o quilo que o vendeiro usar para pesar as batatas. Enfim, o Brasil precisa ter “condições de prestar”, e isso não se consegue sem a fixidez da medida do valor, a moeda (Lobato, 2008: 40-42).

Em texto de título sugestivo, José Murilo de Carvalho (1999) estabelece paralelos entre o Plano Real e a experiência de estabilização com valorização cambial de Campos Salles. Em 1902, o presidente paulista, que recebera telegrama de congratulações dos banqueiros Rothschild, seria escoltado pela cavalaria ao banquete do fim do governo em virtude da insatisfação popular. Prestar para quem? – seria o caso de acrescentar.

No caso do escritor, há algum espaço para a economia real, que aparece nas enormes reservas inexploradas, faltando apenas capital (de preferência estrangeiro) para movimentá-las. Entretanto, “o país não passa de um Monte Carlo” e “o capital procura negócios, não casas de jogo” (Lobato, 2008: 44-45). O caráter especulativo aqui é reforçado pela oscilação do câmbio, oriunda da incapacidade do governo para perseguir uma política de saneamento financeiro e paridade cambial.

Portanto, o problema, mais uma vez, reside no Estado. Ao “monstruoso parasitismo burocrático”, deve se agregar o protecionismo, que não protege a indústria, mas “apenas a incapacidade industrial” (Lobato, 2008: 68-69).

Boa parte das crônicas de Lobato giram em torno da moléstia do parasitismo, cuja expressão máxima é Estado enorme e ineficiente. O sistema tributário funciona para sustentar uma estrutura cujo fim é parasitar a economia e a sociedade. A principal referência teórica de Lobato é Henry Ford, de quem ele empresta a noção de divisão do trabalho e eficiência do setor privado, potencializada pelo sistema de transporte, condição para o desenvolvimento do país (Lobato, 2008: 85, 87-88, 97-99, 104).

Em síntese, o país vive de empréstimos, a hipotecar tudo quanto possui, gastando o que recebe de forma perdulária. Neste sentido, o funding loan foi “um acordo imposto pelo devedor relapso” (Lobato, 2008: 108-109). Como se a finança internacional fosse o elo frágil e não ganhasse com o cassino, uma vez que o governo assegura altas taxas de remuneração aos empréstimos e investimentos externos.

Ao final do livro, fugindo do tom sarcástico, o inglês, agora como alter ego do escritor, professa a existência de “uma elite moral”, à margem e à espera de ser chamada para cumprir a sua “função orgânica” (Lobato, 2008: 128).

Bem diferente é a perspectiva adotada por Manoel Bonfim. Em vez do mimetismo das elites, há a constatação logo ao início de sua obra da crise do Ocidente no pós-Primeira Guerra: “condutor da ascensão humana, parece nem mais saber conduzir-se” (Bonfim, 2008: 38). Por trás das crises políticas do Brasil independente, ele procura as “crises sociais” nos “retardamentos e anquiloses das classes dominantes, incapazes de abrir caminho para “novas formas de vida”.

O seu objetivo é flagrar a inépcia moral dos governantes, especialmente da Primeira República, a serviço da “ganância capitalizante” (Bonfim, 2008: 40). Em síntese, a República representou “a decomposição no autocracismo”. Encontraram os dirigentes na federação a forma de renovar o “feitorismo que lhe estava na alma”. Substitui-se a Casa de Bragança pelo PRP ajustado ao PRM, evoluindo a política para o “abjeto oligarquismo”, sem consonância com as necessidades do país “em termos de justiça ou progresso social” (Bonfim, 2008: 493-495).

“Autocracismo”, “feitorismo”, “oligarquismo” se somam a outro ismo, pois o “financismo” é a solda que os articula e que, a partir da presidência Campos Salles, encontra uma fórmula que saqueia o Brasil e inviabiliza a República (Bonfim, 2008: 500-501). Um país de 36 milhões de habitantes, composta de apenas 1 milhão de eleitores, em que a massa da população é tiranizada por cerca de 10 mil dirigentes. “Ingerência bacharelesca” que “parasita” as energias vitais do país. Basta olhar para “o padrão de existência do brasileiro numa nação que se diz soberana” (Bonfim, 2008: 514-517). Uma “nação sem povo”, que “se mostra na única atividade que lhe é deixada, o cangaceirismo”.

Manoel Bonfim também possui a sua interpretação do parasitismo. De onde ele provém? “Das finanças dos bacharéis, ignorantes de tudo que faz base à economia política, elas se qualificam em déficits, empréstimos, suspensão de pagamentos”. Quem se beneficia desta “caranguejola financista”? – o intelectual sergipano se pergunta. E ele apresenta a sequência: “Convênio de Taubaté, Caixa de Conversão, tréguas à degringolada …, até que a grande guerra dá o pretexto de nova suspensão de pagamentos, e novos empréstimos” (Bonfim, 2008: 520-523). Os empréstimos estrangeiros são consumidos como receita ordinária, a dívida suspensa e depois consolidada a juros altos.

À depreciação da moeda durante a primeira década republicana, sucedem-se períodos em que se acredita que a estabilidade do câmbio se faz por decreto, algo impraticável numa nação que não dispõe de reservas, uma vez que o Estado não é “senhor da economia nacional”. Alternando momentos de alta e de baixa no câmbio, “no materialismo de receita e riqueza” vivem “os patuscos estadistas da República” (Bonfim, 2008: 524-525).

O Estado se converteu numa “multiplicada manjedoura” em que “todo provento é forragem” para as transações financeiras. Em síntese, “apodrecemos, antes de feitos”, já que apesar de não contarmos com “uma potente acumulação de capitais”, já sofremos “as mazelas que formam atmosfera do capitalismo”, como se percebe nas “arquipotentes empresas estrangeiras” de infraestrutura. Um “Estado dentro do Estado”, operando o dreno da economia nacional, além da “finançaria” que empobrece o Estado à medida que este se endivida e estiola a nação com impostos (Bonfim, 2008: 525).

Na sua leitura alternativa do parasitismo, portanto, Bonfim não vê o Estado como o culpado, mas antes como o espaço em que se aglutinam os interesses do “imperialismo”, por meio dos empréstimos e investimentos externos com garantia de juros, dos negócios de valorização do café e da finançaria interna relacionada ao financiamento dos recorrentes déficits, que tanto criticam os técnicos juristas (Bonfim, 2008: 584), e graças aos juros altos, de que tanto se beneficiam.

Num ponto a herança positivista dos três autores se irmana, uma vez que a solução está nas elites. Em Bonfim, cabe a uma minoria, aos “apóstolos da revolução”, “transformar o sofrimento em redenção”, pois ao povo ainda não foi revelada a “legítima liberdade” (Bonfim, 2008: 576).

Entretanto, no seu contraponto a Nuno Pinheiro e Monteiro Lobato – é nosso intuito simular esse debate – a situação financeira aparece como o “avesso da economia nacional” (Bonfim, 2008: 584), na medida em que não existe como uma realidade em si mesma, apartada das forças produtivas e das relações de produção. O discurso (e a prática) do saneamento financeiro como o fim último está na raiz da sangria das nossas potencialidades de desenvolvimento. Ontem, como hoje?

Ontem, um país recém-saído da escravidão, em que 70% dos trabalhadores “ocupados” estavam inseridos em atividades agrícolas, onde o assalariamento pleno ainda pouco se destacava – pois as formas não capitalistas predominavam –, com apenas 3% de operários assalariados na indústria e outros 5% nos serviços produtivos, e onde, portanto, boa parte da força de trabalho não existia para um mercado (Barbosa, 2024: 310-313); e hoje um país urbanizado, integrado aos padrões de consumo modernos e dotado de um mercado de trabalho “nacionalizado”, embora marcado pelas  desigualdades de classe, regionais e de raça e gênero, em que mais de 50% da população economicamente ativa sobrevive à base de empregos precários e baixos níveis de renda, como assalariados ou trabalhadores autônomos, com acesso limitado a serviços públicos e direitos sociais e vivendo em espaços cada vez mais segregados.

Os 100 anos fazem muita diferença, mas o problema – que não é só econômico – parece residir, ontem como hoje, em como desarmar a caranguejola financeira.


Notas

[1] Alexandre de Freitas Barbosa é Professor de História Econômica e Economia Brasileira do Instituto de Estudos Brasileiros da Unidade de São Paulo (IEB/USP), coordenador do núcleo temático “Repensando o Desenvolvimento” do LabIEB e bolsista produtividade do CNPq. Publicou recentemente, junto com Alexandre Macchione Saes, o livro Celso Furtado: trajetória, pensamento e método (Editora Autêntica, 2025).

[2] Manoel Bonfim (1996: 500) refere-se em obra de 1931 ao “financismo” da Primeira República.

[3] Para o leitor não familiarizado com economia, a queda do câmbio para 4 em 1923, mencionada pelo autor, significa uma cotação de 4 pence de libra (ou 4 dinheiros, como também se dizia à época) por mil-réis, ou seja, quando a cotação cai, a moeda nacional compra menos da moeda forte e, portanto, encontra-se desvalorizada.

[4] O nascimento da economia política como um corpo autônomo de reflexão sobre o problema econômico tem suas origens no debate travado entre Roberto Simonsen e Eugênio Gudin, dois engenheiros de formação, nos anos de 1944 e 1945. Ver Simonsen & Gudin (2010).

[5] A sua concepção foi muito semelhante à Caixa de Conversão que vigorou entre 1906 e 1914 (Villela & Suzigan, 1973).

Referências

BARBOSA, Alexandre de Freitas. (2024). A formação do mercado de trabalho no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Alameda, 2024.

BONFIM, Manoel. [1931] (1996). O Brasil nação: realidade da soberania nacional. 2ª. Edição. Rio de Janeiro: Topbooks.

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LOBATO, Monteiro. (1959). O escândalo do petróleo e do ferro. São Paulo: Editora Brasiliense.

LOBATO, Monteiro. (2008). Mister Slang e o Brasil. São Paulo: Editora Globo.

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PINHEIRO, Nuno. (1979). Finanças Nacionais. In: CARDOSO, Vicente Licínio (org.). Brasília: Editora da UNB.

SIMONSEN, Roberto & GUDIN, Eugenio (2010). A controvérsia do planejamento na economia brasileira. 3ª. Edição, Brasília: IPEA.

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VENÂNCIO FILHO, Alberto (1979). Introdução. In: CARDOSO, Vicente Licínio (org.). Brasília: Editora da UNB.

VILLELLA, Annibal & SUZIGAN, Wilson (1973). Política de governo e crescimento da economia brasileira. Rio de Janeiro: IPEA/INPES.