
Inaugurando o bloco de textos “Política brasileira (1945-1964)”, o segundo da série Autorais Maria Victoria Benevides, publicamos o artigo “O suicídio de Getúlio e suas consequências a curto e longo prazo“, originalmente incluído no livro Getúlio Vargas e a economia contemporânea (2004), organizado por Tamás Szmrecsányi e Rui Granziera.
Publicado cinquenta anos após a morte de Getúlio Vargas, o texto de Benevides destaca como seu legado suscitou debates sobre momentos-chave da história política brasileira. Mostra a autora que as consequências do suicídio de Vargas, em 1954, manifestaram-se nas esferas política, econômica e social, com efeitos tanto imediatos quanto de longo prazo – entre eles, o fortalecimento da influência militar e o golpe de 1964. O episódio representou uma tentativa frustrada, liderada por forças conservadoras, de excluir o nacionalismo e o povo do regime político brasileiro.
Para conferir os textos anteriores da Autorais Maria Victoria Benevides, clique aqui. E não perca, quinzenalmente, sempre às quartas-feiras, novos textos desta série.
Boa leitura!
O suicídio de Getúlio e suas consequências a curto e longo prazo
Por Maria Victoria Benevides
Cinquenta anos depois de sua morte trágica, Getúlio Vargas e as “suas circunstâncias” – o homem, o mito e a “Era Vargas” – continuam a desafiar corações e mentes. A Revolução de 1930, o Estado Novo, a chamada República Populista (vigente de 1945 ao golpe militar de 1964) e o amplo processo de institucionalização social, política e econômica do país constituem, sem dúvida, o painel mais rico e sedutor de nossa história política contemporânea, para adversários ou aliados. Não admira, pois, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, querendo passar para a história como um grande estadista, tenha insistido em “derrubar o getulismo”. Afinal, nem ele, nem nenhum outro, poderia superar o gesto extremo de “quem sai da vida para entrar na história” com um tiro no peito.
A importância de serem discutidas as consequências do suicídio de Getúlio parece-me atual e desafiante. Considero que, embora sejam óbvias as interrelações entre consequências políticas, econômicas e sociais – porque é impossível isolar completamente o social do político e do econômico – gostaria de desatá-las separando, na medida do possível, o curto do longo prazo: os desdobramentos políticos, e aí incluo o sistema político e o papel dos militares; as consequências econômicas, caminhos e formulações da política econômica; os efeitos sociais no movimento sindical, por exemplo, e, também, na difusão da imagem do trabalhismo.
Vale lembrar, inicialmente, a carta-testamento de Getúlio, que investiu diretamente no suicídio como uma verdadeira arma política. Cheguei a procurar, na revista Esprit, um artigo muito interessante sobre “o suicídio como arma política”, mas não o encontrei. Retirei da carta-testamento uma frase que me parece muito reveladora da imagem de exploração e mitificação do suicídio, no sentido de se reforçar a bandeira do getulismo e do trabalhismo: “meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta; cada gota do meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência”. Relevando o peso da retórica, restam as perguntas: manterá unidos quem? E bandeira de luta, para quê? É claro que ele procurava, com isso, repetir o que fez durante todo o seu governo, inclusive no período ditatorial do Estado Novo, quando dirigia-se amplamente àquelas massas emergentes, aos trabalhadores, cuja participação na política – participação tutelada, dirigida e sem autonomia – que, enfim, tornava-os parceiros daquela história. Mas quem continua unido pela “chama imortal”, por aquela bandeira de luta e por aquela gota de sangue?
***
Pretendo separar as repercussões políticas, econômicas e sociais do suicídio de Getúlio. Na discussão das consequências, é crucial começar pela questão militar. O empurrão para o suicídio de Getúlio, em 1954, pode ser interpretado como um golpe parlamentar sob a liderança da UDN (radicalizada pela retórica golpista de Carlos Lacerda), empresários e militares, que teria sido a tentativa, freada pelo suicídio, de uma transformação do regime com a exclusão do “povo” e do nacionalismo. Esse período, do suicídio até 1964, representa, na verdade, um compasso de espera para a grande mudança, o grande golpe militar-empresarial de 1964.
A questão militar, sem dúvida, é a que teve efeitos mais abrangentes nas três áreas, mas que, pelo seu peso específico, deve ser destacada. Veremos, depois, que os grupos aparentemente antagônicos teriam os mesmos objetivos: os grupos militares e seus aliados na burguesia, ou seja, nas classes dominantes. No interregno do suicídio ao golpe de 64, houve recuos, alguns poucos avanços desesperados (quanto aos grupos militares que tentaram golpes contra as eleições e contra os candidatos), mas esse período representa, a meu ver, um compasso de espera para a grande mudança com o golpe empresarial-militar de 1964.
Outra intervenção militar, também em decorrência do suicídio e do temor do getulismo, é o chamado contragolpe de novembro de 1955. Os militares de então eram adversários (quase inimigos) dos que conspiraram em 1954, ou seja, daqueles que tanto pressionaram os políticos antigetulistas (as “vivandeiras dos quartéis”) e a opinião pública ilustrada para exigir a renúncia de Getúlio, o que resultou em levá-lo ao suicídio. No entanto, os objetivos dos dois grupos eram semelhantes. Na realidade, apesar de toda a interpretação feita até hoje em torno do legalismo das forças armadas, nessa ocasião, não era efetivamente o legalismo que estava em jogo. O objetivo do grupo de 54 e do grupo de 55, que permaneceram antagônicos durante o governo Kubitschek, era realmente a tomada do poder pelos militares. Assim, o golpe do 11 de novembro foi um “golpe-tampão” entre o de 54 e o de 64, um adiamento – ainda não “chegara a hora” –, porque não havia unidade entre eles. Os militares estavam conscientes de que, sem unidade, não venceriam o que consideravam sua nobre missão.
A trajetória do general Odílio Denys é exemplar dessa continuidade: foi o comandante, em 55, contra o golpe que militares aliados à UDN armavam para impedir a posse de Juscelino e Jango, considerados herdeiros de Getúlio. Denys foi, em seguida, o homem que, durante o governo de JK, ficou nos bastidores do ministro da Guerra, general Lott, sempre torpedeando os avanços nacionalistas deste. Denys, depois, ficou contra Lott e afastou, no governo de Jânio Quadros, todos os seus fiéis. Com a renúncia, permaneceu no comando, participando, depois, da conspiração de 64.
Outro dado que elucida a articulação 54-55 com 64, decorre do estilo tolerante de JK. Durante seu governo havia anistia para os militares revoltosos; em 64 não haveria mais perdão. Percebemos, então, que golpe ou contragolpe, o 11 de novembro marcou profundamente a história das forças armadas em decorrência do suicídio de Getúlio, reforçando a convicção de que a unidade era condição para seu projeto de poder político. A crise militar permaneceu durante todo o governo de Juscelino. Ouso concluir que o 24 de agosto e o 11 de novembro são faces da mesma moeda: é a lenta, gradual e seguríssima ascensão dos militares e sua ocupação do aparelho do Estado.
O 24 de agosto foi um momento mais homogêneo, pois o próprio Lott assinara o Memorial dos Generais pela renúncia de Getúlio; e o 11 de novembro, um momento de divisão. O golpe de 64 viria a dissolver as arestas entre os de 54 e os de 55 – acabou com a divisão entre os “nacionalistas” e os “entreguistas”; o anticomunismo passou a predominar, e a ideia de grande potência, de segurança com desenvolvimento, da necessária presença do capital estrangeiro na economia, juntaria o 24 de agosto com o 11 de novembro no 1º de abril. Da ideia de que as forças armadas podiam assumir certo “poder moderador”, na tradição brasileira, passou-se à ideia de que elas tinham de assumir o poder de fato. É claro que o temor frente aos rumos da Revolução Cubana e a predominância do acordo militar Brasil- Estados Unidos consolidaram essa situação.
Quanto às consequências econômicas, estas se manifestaram no dia seguinte ao suicídio, também fruto das contradições do segundo governo Vargas, já muito discutidas. O vice Café Filho – identificado com os udenistas, os militares e os mais submissos aos norte-americanos – nomeou um ministério arrasador em relação às políticas getulistas. O Ministro da Fazenda Eugênio Gudin, por exemplo, colocava sua inteligência privilegiada contra o nacionalismo e o desenvolvimento independente; monetarista ortodoxo, via a recessão como remédio para conter a inflação e apostava no incentivo prioritário à produção agrícola para exportação (conhecemos este filme, e ele não acaba bem); atuava contra o monopólio da Petrobrás, defendia a exploração do petróleo boliviano; e, também, era contra a Eletrobrás, contribuindo para que o projeto estacionasse de 1953 até 1960 na Câmara dos Deputados. (Lembro aqui um episódio da “pequena história”: Mário Bittencourt Sampaio, um tecnocrata da equipe inicial de Getúlio, encarregado dos recursos para os petroleiros e para o plano SALTE, foi pedir ajuda a Gudin; a briga foi feia e chegaram às vias de fato com a bofetada de Sampaio no ministro, registrada em foto! Claro, tudo acabou no “deixa disso”, mas o episódio revela a que ponto chegavam os conflitos entre a equipe de Gudin e a antiga equipe nacionalista de Getúlio).
Houve, também, uma importante reviravolta na incipiente política nuclear, com vários interesses em jogo, principalmente dos militares, representados pelo General Juarez Távora (tenente da Coluna Prestes, adversário derrotado por Juscelino nas eleições presidenciais). O ministro da Agricultura José Maria Whitaker reforçou o apoio à cafeicultura paulista, resultado de ampla discussão sobre as reformas cambiais. A escola de Gudin, enfim, considerava que o Brasil deveria continuar produtor privilegiado dos produtos agrícolas para exportação, e que seria impossível a expansão de nosso mercado interno. Um exemplo radical da oposição ao getulismo.
No governo Kubitschek não vingou a ortodoxia de Gudin. Juscelino tentou conciliar a velha máquina burocrática com uma “administração paralela”: manteve intacta a administração tradicional, criando grupos executivos e grupos de trabalho eficientes para seu ambicioso Plano de Metas. Dá-se, aí, a quebra de certa austeridade em relação à entrada do capital e da tecnologia estrangeiros, tão defendidos pela burguesia empresarial. Na análise sobre o movimento que levou ao golpe de 64, veremos que aqueles empresários que haviam sido beneficiados no governo JK-Jango (período notoriamente identificado com o getulismo), perceberam que seu interesse não estava nos organismos paralelos ao Estado, mas na associação com as multinacionais, inclusive para importação de tecnologia.
Portanto, a longo prazo, temos a tomada de consciência, por parte do grupo economicamente dominante, da necessidade de uma mudança no nível do poder do Estado. A administração de Getúlio Vargas tinha claramente um sentido burocrático, porque enfatizava a criação de institutos específicos para cada produção, por exemplo, Instituto do Açúcar e do Álcool, Instituto do Mate, Instituto do Pinho etc. Surgiu, depois de Getúlio, uma nova “direita”, mais moderna e mais jovem do que os setores tradicionais da burguesia, que passam a defender escancaradamente o tal “Estado mínimo”, apenas atuante nas áreas nas quais o capitalismo não poderia ou não queria entrar, como aço, energia, estrada de rodagem etc.
Quanto às consequências políticas: no curto prazo, a primeira foi o adiamento do confronto entre, grosso modo, conservadores e reformistas. Esse compasso de espera ficou claro na luta político-partidária. A longo prazo, a partir das derrotas depois de Getúlio, tanto a direita quanto a esquerda revolucionária passaram a desacreditar da chegada ao poder por via eleitoral. A direita, com recursos e eficiência, percebeu que era necessário mudar o regime, e não apenas o governo. Os partidos políticos começaram a ser superados, pelo lado da direita, por entidades como o IPES, o IBAD e, pelo lado da esquerda, pela emergência dos movimentos sociais e populares. Englobando tudo isso, a consequência a longo prazo mais debatida refere-se ao “colapso do populismo”. Não creio que se possa falar no fim do populismo como uma “morte enterrada”, pois ele pode continuar com um tipo de manipulação popular, por um lado, e um tipo de compromisso dentro do Estado, por outro.
Qual a situação dos principais partidos após o suicídio? Em termos gerais, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) adquire novo vigor, passando a desfrutar do prestígio de seu criador, aproveitando o conteúdo ideológico da “carta-testamento” e da bandeira anti-imperialista que lhe dava a simpatia dos comunistas no meio operário e intelectual. O PSD (Partido Social Democrático, também criado por Getúlio) na sua posição de centro conservador e “burguês”, vacila diante da nova diretriz do PTB, mas confia em sua influência sobre o eleitorado urbano e aceita seu apoio para a candidatura de Juscelino Kubitschek e João Goulart, apesar de levar à dissidência no interior do partido pela indecisão crescente quanto ao “radicalismo” de Jango. Em abril de 1955, já se consolida a aliança PSD/PTB em torno da chapa Juscelino-Jango para as eleições presidenciais de outubro.
A UDN (União Democrática Nacional) lidera a oposição (forças contra o getulismo em geral e o “radicalismo comunista”), mas, mesmo com apoio dos pequenos partidos, como o PDC (Partido Democrático Cristão) e o PL (Partido Libertador), encontra-se em situação fraca para enfrentar a aliança PSD/PTB. Seu trunfo seria a intervenção militar, da qual o veto à candidatura JK-Jango seria o primeiro passo, mas Juscelino enfrenta a oposição, lança-se em campanha e a frente militar é cindida graças ao apoio legalista do General Lott. A tática udenista para evitar a “restauração getulista” não obtém sucesso, e a aliança PSD/PTB sai vitoriosa nas eleições de 3 de outubro de 1955, passando a dominar a cena política.
Vale lembrar, embora pareça um paradoxo, o papel de Getúlio Vargas na criação dos partidos. Francisco Weffort insiste, com razão, que
(….) na realidade não foram os liberais que tomaram a iniciativa do processo de reorganização política do país, mas Getúlio Vargas […] para quem a questão essencial seria a de conservar o poder para presidir o processo de restabelecimento democrático, como na campanha “Constituinte com Getúlio”. Para os liberais, que se agrupavam na UDN, que já havia perdido a iniciativa em favor da democracia, tratava-se de encurtar, como fosse possível, o caminho para a chegada ao poder, como na campanha “Todo o poder ao Judiciário”, ou seja, a derrubada de Vargas (Weffort, 1974: 21).
As consequências sociais, ligadas, grosso modo, ao mundo do trabalho e do trabalhismo, entrelaçam-se com as outras. Temos, ao longo prazo, a superação, pelo menos em certos setores, do paternalismo social e do peleguismo sindical, com a denúncia daquela figura vista ao mesmo tempo como “o pai dos pobres” e “a mãe dos ricos” (como no “novo sindicalismo” e no PT). No curto prazo, João Goulart conseguiu apoio enquanto foi considerado herdeiro do “melhor Getúlio”. Na realidade, a pior consequência foi o sério abalo na crença otimista em um “Estado mediador acima das classes”. No entanto, apesar das contradições e dos favorecimentos aos grupos econômicos, é preciso levar em conta que a burguesia não percebeu que a política trabalhista de Getúlio também favorecia aos seus interesses. Vários testemunhos relatam que, quando da discussão das leis trabalhistas – e percebendo a grande resistência dos industriais – Getúlio retirou-se muito irritado, dizendo: “Estou querendo ajudar esses burgueses burros e eles não entendem”.
A crítica no plano social, que continua ainda hoje, não pode, no entanto, ignorar a política notável de Getúlio Vargas – que recusou a eterna “vocação agrícola” do país e projetou o maior desenvolvimento no país no século XX.
E o trabalhismo?
É claro que seria necessária outra discussão sobre o que se chama hoje (2004) de trabalhismo, dividido entre os extremos do mais descarado fisiologismo, no atual PTB – que, aqui em São Paulo, apoia Jânio Quadros –, ao chamado “socialismo moreno” de Brizola, que também não se sabe direito o que é. Aliás, na minha opinião, o que se critica como a grande ameaça do “socialismo moreno” não é tanto o socialismo democrático (aliás, poucos conhecem os exemplos europeus); o que se teme mesmo é o tal do “moreno”, porque significa o que sempre se temeu na história das elites brasileiras, que é a ascensão popular: o “moreno” significando o negro, o pobre, o oprimido, a “descida das favelas” (“o morro vai descer!” era ameaça que ouvia no Rio, então capital da República).
Mas, ao mesmo tempo que existe esse fascínio por querer entender esse trabalhismo, por querer apropriar-se dessa bandeira, da tal “chama imortal” do getulismo, há também um repúdio explícito, hoje, a tudo o que isso significou por uma parcela bastante expressiva do movimento sindical, da oposição democrática, onde eu situaria, especificamente, o novo sindicalismo e o Partido dos Trabalhadores. Ambos denunciam, no getulismo, nesse trabalhismo difuso, as contradições que propiciaram a manipulação da participação popular na política, a manutenção da tutela estatal sobre o sindicato e o privilegiamento do peleguismo, que ainda infesta o movimento sindical (estão, hoje, na direção de federações sindicais de São Paulo, “pelegos” sindicalistas ainda da época de Getúlio Vargas).
Em 1979, Darcy Ribeiro, com sua veemência habitual, indagava:
Hoje em dia alguém fala em reorganizar a UDN ou o PSD? Todos falam, e há até disputas, em reorganizar o PTB. A razão disto é que o povo trabalhador e vários setores das classes médias se identificaram, e ainda se identificam, com esta sigla como um partido que, apesar de todas as suas imperfeições, que eram muitas, foi o melhor que este país contou em toda sua história.
Nas eleições de 1982, vimos que o fascínio do getulismo e da bandeira do trabalhismo permaneceu – para ficarmos só com um exemplo – no Rio de Janeiro, em que todos os candidatos majoritários tinham uma referência explícita a Getúlio ou ao trabalhador. E isso quase trinta anos depois do suicídio! O candidato do PDS, que era o partido do governo por linhas de parentesco, associava-se à herança getulista. Lembro o apoio do então presidente Figueiredo, quando foi a um comício e chegou até a invocar os mortos ilustres para apoiar o candidato do PDS, dizendo que Getúlio estaria reconciliado com o seu pai, o general Euclydes Figueiredo, que sempre fora inimigo de Getúlio.
O candidato do PDT, Leonel Brizola, evidentemente reclamava do que considerava uma “apropriação indébita”, considerando-se o legítimo representante não apenas da herança direta de Getúlio e do trabalhismo, como da herança “mais autêntica”, explorando ao máximo a divisão da sigla, que perdeu na justiça eleitoral quando disputou com Ivete Varqas, ficando ela com o PTB e Brizola tendo de inventar a sigla PDT. O candidato do PMDB também apelava para o trabalhismo e disputava a bandeira de origem getulista. Até mesmo Sandra Cavalcanti, que era a candidata identificada como a antiga UDN – cuja razão de ser era o combate a Getúlio e a tudo o que ele significava –, pelo fato de candidatar-se pelo novo PTB, também era obrigada a se referir ao trabalhismo, à herança, à “parte boa” do Getúlio. Por tudo isso, não se trata apenas de um exercício acadêmico lembrarmos as consequências a longo prazo do suicídio de Getúlio que, de certa maneira, reforçou, como uma arma política, o que ele mesmo chamava de “bandeira de luta” e de “chama imortal”.
Considero que Leonel Brizola é o principal representante do trabalhismo getulista, democrático e desenvolvimentista. Escrevi, quando ele morreu (Folha de S. Paulo, junho 2004), um breve artigo – O último getulista? – traduzindo o que entendo por sua persona política, o que se segue:
A morte de Brizola deixa três orfandades: a do autêntico trabalhismo getulista, a do nacionalismo radical e a do “socialismo moreno”. Que pena. Tudo tão “fora de moda” nesses tempos do neoliberalismo (sic), da globalização predadora e da tal terceira via (?) que dá mesmo vontade de chorar. Por ele, pela nossa distante juventude nas lutas pelas “reformas de base” e contra o imperialismo ianque (apesar de burrinhos, tínhamos toda razão!), pelos nossos mortos e desaparecidos, vítimas do regime militar que o exilou, pela nossa utopia socialista, pela nossa fé no país desenvolvido e soberano, liberto daquilo que Brizola sempre denunciou como as “perdas internacionais” – e, por isso, foi tantas vezes ridicularizado.
Ora, sem dúvida Brizola estava “fora de moda”, no sentido oposto lembrado acima pelos antibrizolistas. Seu estilo de fazer política não acompanhou as principais características da democracia contemporânea, ou seja, ele permaneceu como uma grande liderança popular, mas que desconfiava das expressões autônomas dos movimentos sociais e populares, das formas mais modernas da democracia participativa. Foi sempre um líder paternalista, com aquela autoridade autoritária (perdoem a redundância), decorrente de sua firmeza moral, honestidade pessoal e política, mas também de uma exigência de lealdade de todos os seguidores, partidários e afilhados, que beirava certo tipo de “tirania senhorial”. Um gauchão à moda antiga, com um sentido de honra, dever e obediência de tempos imemoriais.
De sua longa e agitada vida pública, gostaria de destacar alguns momentos cruciais. Cena 1: Brizola lidera a reação ao golpe de 1961, quando Jânio renuncia e os militares não aceitam a posse constitucional do vice João Goulart, e acabam impondo um parlamentarismo de fachada. Cena 2: Brizola novamente defende a legalidade contra o golpe de 1964, pronto a comandar a marcha do sul. Cena 3: Brizola perde a sigla de seu combativo PTB para Ivete Vargas em São Paulo e rasga, em lágrimas, o documento (Ivete, apesar do sobrenome, não representava o antigo PTB e, ao que consta, estava enturmada com o projeto do general Golbery para a reforma partidária). Cena 4: Brizola participa dos comícios das Diretas Já e se aproxima de Lula e do PT. Cena 5: Brizola rompe com Lula e o PT, se isolando.
Desses momentos, escolhidos entre tantos outros, fica, no meu entender, a coerência do velho trabalhista getulista e do nacionalista que não pode aceitar a política de submissão ao FMI. Ao mesmo tempo, é o legalista “pela honra” na defesa do presidente eleito e do regime, mas que também achava que a Constituição não era “intocável’ (como bradavam os udenistas “carcomidos”), pois chegou a defender a reforma agrária “na lei ou na marra”.
Poucos líderes terão sido tão amados e odiados como Leonel Brizola. João Trajano Sento-Sé, cujo livro recomendo (Brizolismo: estetização da política e do carisma), discute o que chama de bildung brizolista, que compreenderia a universalização do ensino e um Estado forte, promotor do bem-estar social. Suas referências históricas são a Revolução de 30, a Carta Testamento de Vargas, a obra de Alberto Pasqualini e a Carta de Lisboa, esta do fim do exílio. Seus inimigos são as oligarquias e os agentes internos do imperialismo. Seu alvo privilegiado inclui as ditas minorias, de mulheres, negros e índios. Seus monumentos integradores são os CIEPs e o Sambódromo. Seu espaço de conscientização popular é a Brizolândia carioca. Para as elites, sempre foi um estorvo, demagogo, caudilho, arrivista, o subversivo manipulador das massas ordeiras e trabalhadoras (“com Brizola os morros vão descer e, aí, vai ser o caos”). Bem, digo eu, a ousadia do velho gaúcho de origem humilde foi querer “fazer parte do clube”. Getúlio e Jango tinham “legitimidade fidalga” para o mando, ele não. (um parêntese para associar com o preconceito que continua contra o presidente Lula).
Se tivesse que escolher o que mais admiro em Brizola, diria de pronto: sua paixão pela escola pública. O garoto pobre que conseguiu se formar em Engenharia e ser governador de dois estados importantes nunca esqueceu sua origem. Podemos divergir sobre suas escolhas e métodos, mas reconhecemos que colocar a educação como efetiva prioridade é o que queremos para a consolidação da nação e da democracia no Brasil. Daí, a jogada de mestre de Brizola em dar a Darcy Ribeiro a liberdade para construir, aos poucos e com aquela inteligência privilegiada, um projeto nacional de educação que ainda tem muito de utópico, mas deitou raízes.
P.S.: Permitam-me uma nota pessoal sobre a primeira vez que estive “ao vivo” com Brizola. Recém-chegado do exílio de 16 anos, veio à minha casa de surpresa, trazido por um amigo comum, meu vizinho, um padre basco e socialista. Eu chegava da feira, com o carrinho cheio de frutas e o gauchão se emocionou às lágrimas descobrindo as jabuticabas. Ali, em pé na cozinha, falando das saudades do Brasil, ia discursando sobre educação enquanto devorava meio quilo das “pretinhas”. E ainda levou o que sobrou “para a Neuza comer no hotel”.
Li, com muito interesse, o livro de Sento-Sé.
A discussão do que entendi como sendo o “brizolismo utópico” é a mais interessante, além de ser a que melhor retrata o discurso sobre o governador que abre os portões do palácio para o povão no dia da posse. É a utopia da integração, da inclusão dos excluídos. É a fundação da nação pela transformação da massa em povo, através de um intenso programa político-pedagógico (talvez inspirado no Emílio de Rousseau). É um projeto civilizador para a “criação de uma nação forte, autônoma, constituída por um povo sadio, educado e esclarecido, representada e assistida por um Estado nacional poderoso e capaz de fazer frente aos desafios impostos por concorrentes e adversários”.
É, para Brizola e seus mais próximos, a construção de um “futuro radioso”, radicado na relação com um passado fascinante, com a memória dos heróis fundadores e do próprio líder que “veio de longe” e realiza sua missão. É a opção preferencial pelos pobres e desvalidos, numa surpreendente associação entre as raízes cristãs (Brizola é filho de pastor) e o positivismo republicano, fonte do trabalhismo getulista. É a reinvenção do trabalhismo como o caminho brasileiro para o socialismo, que será não marxista, democrático, solidário e comunitário. “Bandeira de luta”, mesmo sem a “chama imortal e gotas de sangue.”
Referência
WEFFORT, Francisco. (1974). Partidos Sindicatos e Democracia; algumas questões para a história do período 1945-1964. São Paulo.
