
Após o lançamento de mais uma crônica do modernista Mário de Andrade nesta manhã, Rodrigo Jorge Neves (UFF) se junta à nova floração da Série Nordestes com o texto As notas da prisão e os limites da memória. Originalmente publicado como parte do posfácio “A literatura no subsolo: o livro da cadeia de Graciliano Ramos”, escrito para a edição deste ano de Memórias do cárcere pela Penguin/Companhia das Letras, o ensaio investiga a escrita de Graciliano como um gesto duplamente compositivo entre lembrança e esquecimento, voltado ao desvelamento do outro e da própria subjetividade. A análise sugere como a literatura opera nos subterrâneos do trauma e faz do esquecimento não uma falha, mas o motor da narrativa. Afinal, quais fronteiras separam, de fato, o Graciliano-memorialista do Graciliano-ficcionista? Como escreve o autor, Graciliano Ramos escreveu para não esquecer; e também para esquecer.
Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
As notas da prisão e os limites da memória[1]
Por Rodrigo Jorge Neves (UFF)
Graciliano Ramos tinha na literatura a sua liberdade de escrever e de escrever-se, pois o mesmo corpo supliciado pela prisão é o que toma a caneta, o papel e registra os acontecimentos. Embora tenha experienciado meses de tormento, sua vontade de anotar o que vivenciou e os personagens que conheceu o acompanhava desde o início. Ao sair da prisão, em 1937, ele tenta escrever sobre o que passou, mas não consegue ir adiante.[2] Apenas dez anos depois, dá início à narração dos eventos que o acompanharam naqueles meses de privação. Infelizmente a obra ficou inacabada, pois o memorialista faleceu em 1953, antes de concluir o último capítulo. A edição póstuma da obra, publicada em quatro volumes naquele mesmo ano pela José Olympio, com ilustrações de Santa Rosa, recebeu no lugar do capítulo restante uma “Explicação final” do filho, o escritor Ricardo Ramos.[3] Inclusive o título foi informado nessa explicação, já que no original datiloscrito[4] consta a palavra Cadeia riscada e substituída por Memórias do cárcere, com caligrafia diferente à do autor.

O livro é dividido em quatro partes: “Viagens”, “Pavilhão dos Primários”, “Colônia Correcional” e “Casa de Correção”. No primeiro capítulo de “Viagens”, espécie de “capítulo-prefácio”, Graciliano atesta a vantagem do esquecimento e da falta de vínculo ou especialização na escrita do livro: “Tendo exercido vários ofícios, esqueci todos, e assim posso mover-me sem nenhum constrangimento. Não me agarram métodos, nada me força a exames vagarosos”. A tensão entre os fatores ético e estético aqui é evidente, articulação, aliás, que percorre a concepção de qualquer livro de memórias. No caso de Graciliano, embora não prescinda de aspectos éticos, a dimensão compositiva do fator estético torna-se o campo de principal circunscrição narrativa, ou seja, o documental está a serviço do literário. Portanto, esquecer não é apenas a página em branco disponível, fresta ou lacuna a ser preenchida, mas elemento fundamental na tessitura narrativa das memórias. A lembrança é texto, o esquecimento também.

Depois de tanto tempo, Graciliano estava sobre o fio do risco, tanto o traço da letra inscrita no papel quanto o perigo que se interpõe diante dele pelas condições do imperativo ético de escrever um livro sobre “criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil”. A escrita do passado é também a escrita sobre a experiência do indivíduo nesse tempo. E assim como toda experiência, o discurso que pretende apreendê-la se constitui de frestas e tensões, pois a travessia do Eu nesse risco apenas se (in)completa no encontro com o outro: “Fiz o possível por entender aqueles homens, penetrar-lhes na alma, sentir as suas dores, admirar-lhes a relativa grandeza, enxergar nos seus defeitos a sombra dos meus defeitos”.
Graciliano Ramos se vê diante do impasse de escrever não apenas sobre as recordações dúbias ou difusas, meio turvas no horizonte de sua consciência, mas também sobre o que foi esquecido, tanto por ele quanto por aqueles que no livro aparecem figurados. Para o memorialista, interessa apenas o desvelamento do outro, este ser com quem sempre esteve em constante conflito, dificuldade de se aproximar e conhecer.

Em Infância (1945), as tensões entre escrita, memória e esquecimento se adensam, devido ao imenso lastro temporal que separa o narrador-escritor do narrador-personagem. Logo no capítulo-conto de abertura, “Nuvens”, o escritor parte de uma imagem aparentemente arbitrária para pôr em discussão os deslizamentos discursivos da evocação do passado: “A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta. Ignoro onde o vi, quando o vi, e se uma parte do caso remoto não desaguasse noutro posterior, julgá-lo-ia sonho” (Ramos, 2003: 4). O objeto recordado toma consistência apenas à medida que se inscreve dentro de uma reconfiguração narrativa do passado, ao “desaguar” em outra imagem ou evento, pouco importa que seja identificável dentro de uma dimensão física, que se configura a partir de categorias de espaço (“onde o vi”) e tempo (“quando o vi”).
No capítulo-prefácio de Memórias do cárcere, Graciliano destaca os impedimentos que teve para iniciar o relato. De certo modo, essas interrupções no processo de recordação surgem também como resultantes da tendência, em termos psicanalíticos, ao recalque (Verdrängung), ou “repressão”.[5] Por meio da escrita, o autor elabora o trauma vivido no período aprisionado, assim como a descrição dos próprios impedimentos para que ele se dedicasse ao trabalho. Se, por um lado, os obstáculos surgidos impelem o escritor a abandonar a escrita e reprimir a experiência vivida, por outro, eles também estimulam o trabalho de elaboração do passado ao conduzir Graciliano na busca por outros meios de expressão, pois o esquecimento dos eventos traumáticos é impossível e escrever sobre eles se impõe.
O primeiro impedimento apontado pelo escritor, sem prejuízo dos demais, contribui para pensarmos nas relações da escrita do livro de memórias com os processos psicológicos citados: a perda das notas. Em uma leitura simbólica, as anotações feitas por Graciliano durante a prisão seriam suas recordações, enquanto a perda dessas folhas seria o esquecimento. Não havia mais como consultar aquele material, fartamente rabiscado, reescrito, rasurado, emendado, com dados, nomes, itinerários, diálogos, descrições pormenorizadas dos lugares e pessoas que conheceu nos meses de privação e horror. Precisou se livrar daquelas recordações para não sofrer sanções ainda mais duras. O extravio das recordações, o esquecimento forçado pela repressão, torna-se, naquele instante, sua salvação. Esquecer é (sobre)viver, não apenas no sentido dado pela combinação com o morfema sobre-, mas também na relação deste elemento visto como preposição, pois esquecer é, inclusive, a respeito do viver. É nas lacunas da vida, nas suas brenhas, para tomar termo comum do léxico nordestino, que há muito a ser contado.

Na mitologia grega, o Lete, rio do Hades, conduz os mortos nas profundezas do submundo. Em suas águas, as almas dos mortos são mergulhadas no esquecimento, livrando-se dos “contornos duros da lembrança da realidade, e assim são liquidados” (Harald, 2001: 24). Neste sentido, para os gregos antigos, o esquecimento seria a completa extinção, o fim, a morte (Thánatos), enquanto a lembrança estaria ligada à existência, à atuação do indivíduo na realidade, à vida (Bíos). Por outro lado, na literatura ocidental a busca do esquecimento também pode ser tentativa de salvação ou de restauração. No romance O falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello, a suposta morte do personagem-título, motivada pela notícia de um suicida homônimo e pela possibilidade de se ver livre de uma avalanche de dívidas, precisa ser mantida pelas ficções criadas pela sua nova identidade, Adriano Meis. Mas, com o desenrolar da narrativa, o personagem chega a um ponto em que não existe na memória social, nem como Mattia Pascal, oficialmente falecido, nem como Adriano Meis, sem registro de dados pessoais. O impasse ocorre porque ele esquece (ironicamente) que a ficção, a identidade e a memória são componentes ativos da constituição da sociedade, ou seja, são procedimentos apenas efetivos na interação com o outro dentro de um sistema organizado (Harald, 2001). Neste caso o esquecimento se apresenta como possibilidade, mas com consequências nefastas para o esquecido.
Embora assumido também como possibilidade, Graciliano Ramos acolhe o esquecimento na perspectiva de outro importante memorialista da literatura brasileira, Pedro Nava: “Porque esquecer é fenômeno ativo e intencional – esquecer é capítulo da memória (assim como que seu tombo) e não sua função antagônica” (Nava, 2012). Esquecer, para o escritor alagoano, não era apenas possibilidade, consequência do largo intervalo entre os eventos e a escrita do relato, mas também espaço profícuo de criação e reconfiguração da realidade, a partir da escrita vincada no corpo, advinda da experiência, indissolúvel, e do campo inesgotável de signos e reinvenções que apenas a literatura é capaz de produzir. Escrever, portanto, é não esquecer as “impressões de realidade”, as marcas indeléveis da experiência no cárcere, mas escrever também é esquecer, percorrer os espaços em branco com os “malabarismos” do ficcionista.
Ainda no primeiro capítulo de “Viagens”, Graciliano faz dois elogios ao esquecimento, destacando aspectos centrais de sua estética da memória, norteadora dos demais capítulos e de sua concepção de literatura. O primeiro elogio vem da admissão de que o relato não havia sido feito porque ele esperava alguém mais “apto” para realizá-lo, contudo observou que, diferentemente dos seus companheiros de cadeia, ele seria, na verdade, o mais adequado para o ingrato serviço:
Realmente há entre os meus companheiros sujeitos de mérito, capazes de fazer sobre os sucessos a que vou referir-me obras valiosas. Mas são especialistas, eruditos, inteligências confinadas à escrupulosa análise do pormenor, olhos afeitos a investigações em profundidade. Há também narradores, e um já nos deu há tempo excelente reportagem, dessas em que é preciso dizer tudo com rapidez. Em relação a eles, acho-me por acaso em situação vantajosa. Tendo exercido vários ofícios, esqueci todos, e assim posso mover-me sem nenhum constrangimento. Não me agarram métodos, nada me força a exames vagarosos. Por outro lado, não me obrigo a reduzir um panorama, sujeitá-lo a dimensões regulares, atender ao paginador e ao horário do passageiro do bonde. Posso andar para a direita e para a esquerda como um vagabundo, deter-me em longas paradas, saltar passagens desprovidas de interesse, passear, correr, voltar a lugares conhecidos. Omitirei acontecimentos essenciais ou mencioná-los-ei de relance, como se os enxergasse pelos vidros pequenos de um binóculo; ampliarei insignificâncias, repeti-las-ei até cansar, se isto me parecer conveniente.
A liberdade de que goza o Graciliano-memorialista para reconstituir os eventos passados aproxima-o do Graciliano-ficcionista, de modo que os dois se entrelaçam no exercício da escrita. A passagem citada é fundamental para compreender o processo de criação do livro e do quanto esses dois “Gracilianos” estão inextricavelmente ligados. Para dar conta de uma galeria tão diversificada, embora confinada em um ambiente que insiste na sua amorfização, duas qualidades, muito bem destacadas pelo escritor, são decisivas: a liberdade e a “desespecialização” criativas. Evidentemente a segunda só é possível com a presença da primeira, portanto, como intelectual Graciliano deveria primar pela manutenção dessa liberdade para que sua atividade criativa não fosse cerceada, o que, de fato, fez tanto em sua atuação como membro do PCB quanto como presidente da ABDE (Associação Brasileira de Escritores). Sem prejuízo de outros fatores éticos, o compromisso do qual o escritor alagoano não admite abrir mão é a literatura. E a ausência de uma “especialização” em seu olhar de ficcionista é o que permite fazer uso de seus instrumentos de trabalho com a potência que eles oferecem, pois não estarão condicionados a “métodos”, “panoramas” ou “dimensões regulares”.
Outro elogio do esquecimento se refere à perda das notas escritas na prisão. Se, por um lado, elas fazem falta por registrarem com fidelidade os acontecimentos observados diariamente no calor da hora, por outro, sua ausência permite a atuação do ficcionista em sua plena liberdade criativa, além de permitir o distanciamento crítico e lúcido próprio de um memorialista:
Não resguardei os apontamentos obtidos em largos dias e meses de observação: num momento de aperto fui obrigado a atirá-los na água. Certamente me irão fazer falta, mas terá sido uma perda irreparável? Quase me inclino a supor que foi bom privar-me desse material. Se ele existisse, ver-me-ia propenso a consultá-lo a cada instante, mortificar-me-ia por dizer com rigor a hora exata de uma partida, quantas demoradas tristezas se aqueciam ao sol pálido, em manhã de bruma, a cor das folhas que tombavam das árvores, num pátio branco, a forma dos montes verdes, tintos de luz, frases autênticas, gestos, gritos, gemidos. Mas que significa isso? Essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis. E se esmoreceram, deixá-las no esquecimento: valiam pouco, pelo menos imagino que valiam pouco. Outras conservaram-se, cresceram, associaram-se, e é inevitável mencioná-las.
Ao longo de Memórias do cárcere, Graciliano reconstitui vestígios dessas notas perdidas. Nos primeiros capítulos, o esforço é maior, o que se percebe na busca por uma precisão cronológica, mencionando datas e horários mais ou menos definidos. Depois, o memorialista parece convencido de que não há como resgatar o material extraviado, limitando-se apenas a fazer referência aos apontamentos e seus objetivos, de produzir uma obra de ficção. Aliás, o capítulo inicial é também uma percuciente reflexão sobre a natureza da própria ficção, de suas condições e limites, mas, é importante atentarmos, de uma dada experiência, inscrita em um tempo e um lugar muito particulares, tendo como dispositivos os mecanismos da memória.
Outro ponto também digno de destaque é o movimento de abertura e contenção do processo criativo de Graciliano. Por um lado, temos um escritor que, embora reconheça a falta das notas, se vê livre e disponível para o exercício de sua prática ficcional e dos possíveis desvios resultantes de suas escolhas, isto é, fazer literatura é também se deixar ser (re)feito por ela; por outro, temos o escritor disciplinado e consciente da escolha de cada palavra e de cada divisão estrutural do livro, impondo também, assim como a gramática e a lei, os seus estreitos limites (“Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”). Apesar de afirmar que não há métodos aplicados na escrita do livro, de algum modo, o escritor faz uso de procedimentos determinados e com uma disciplina, como já dito, que conferem metodologia à construção da obra. A própria ideia de projeto, que permeia a escrita de Memórias do cárcere, é uma prática metodológica, com pressupostos muito bem delimitados.[6]

Ao sugerir a possibilidade de consulta às notas para escrever o livro, caso elas não estivessem perdidas, o escritor alagoano reúne uma série de elementos aparentemente arbitrários que intentam, em princípio, dar conta das possíveis observações feitas no papel e, além disso, se apresentam também como desordenado e fragmentado quadro de impressões. Sabemos do “pátio branco”, mas nada sabemos de sua extensão, se havia objetos, como uma fonte ou bancos de madeira, e onde exatamente ele se encontrava; assim como sabemos das “frases autênticas”, dos “gritos” e “gemidos”, mas não temos a menor ideia das palavras que estavam presentes nem do volume com que esses sons eram emitidos. Tudo o que temos é como um quadro cubista, uma sequência descontínua de eventos, estilhaços do tempo.
Logo após esse trecho, Graciliano traz um exemplo que nos remete também à ideia de fragmentação. O processo criativo de reconstituição de vestígios do passado seria como a produção de um boato, que se faz reunindo trechos, palavras e sons ouvidos em uma conversa no meio da rua, de passagem, sem se deter no texto integral do relato. Alguém pode questionar a pertinência do exemplo dado pelo Velho Graça e argumentar que o boato, em termos éticos, carece de legitimidade, uns podem ir mais além e atestar que, de modo geral, o disse-me-disse não tem contas a prestar com a “verdade”. Entretanto, a transmissão oral dos eventos insere o trabalho de memória em sua dimensão coletiva, pois nenhum passado é exclusivamente individual. Cada um, de certo modo, se vincula ao outro pela trama dos textos que compõem a sociedade e a qual todos nós também integramos.
Notas
[1] Fragmento do texto “A literatura no subsolo: o livro da cadeia de Graciliano Ramos”, posfácio à edição de Memórias do cárcere publicado este ano pela Penguin/Companhia das Letras.
[2] No Fundo Graciliano Ramos, mantido pelo Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), consta manuscrito com onze folhas dessa primeira tentativa. Código: GR-M-06.001.
[3] Autor do indispensável livro de memórias Graciliano: retrato fragmentado (1992).
[4] Mantido pelo Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, da Fundação Casa de Rui Barbosa.
[5] Tradução mais recente do conceito de Verdrängung, feita por Paulo César de Souza para a coleção Obras completas, de Sigmund Freud, da Companhia das Letras.
[6] Sobre a ideia de projeto que atravessa a concepção do livro póstumo de Graciliano Ramos, confira o livro Memórias do cárcere, literatura e testemunho (1998), de Hermenegildo Bastos, publicado pela Editora UnB.
Referências
HARALD, Weinrich. (2001). Lete: arte e crítica do esquecimento. Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
NAVA, Pedro. (2012). Baú de ossos. Apresentação de André Botelho; nota de Carlos Drummond de Andrade; posfácio de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras.
RAMOS, Graciliano. (2003). Infância. Rio de Janeiro: Record.
