
A caminho de Recife, Mário de Andrade narra um causo sucedido com um pernambucano no Rio de Janeiro. A história tem um pouco de tudo: briga, tiro, sangue, fuga… e mais a observação precisa sobre o conflito entre ser e estar. É o causo de um forasteiro que ainda não aprendeu a ser carioca. Justamente quando Mario está prestes a se tornar, também ele, um forasteiro em novos lugares.
Com lançamentos sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Rio de Janeiro (2 de Dezembro, 23 horas)

Os amigos pouco a pouco se confundiram com o caes, o caes se confundiu com a cidade, o Manaos partiu. A noite vai cinzando agua e ar. Entre os dois, quasi negra, a lingua crequenta e aspera da terra de Guanabara.
As luzes salpicam o negrume dos morros amarrotados. Quando sinão quando acorda mais uma. Junto do Hotel Gloria e no quarteirão Serrador, os reflexos formam brazeiros exatos. De repente as praias se colarisam de luzes, uma por uma praia, puf! puf! puf!… A noite é definitiva e chega até mim.
Estou meio desapontado. Tudo a gente desconhece neste primeiro contacto com a viagem, pessoas, corredores, decorações… Alem do mais, me sinto muito urbano, chapéu de palha na cabeça, gravata longa embandeirando no vento… Vou prá cabina, abro a mala, tiro o boné…
É extraordinario como as convenções gesticulam por nós. E indo falam que o hábito não faz o monge… Bastou botar o boné na cabeça, olhei no espêlho e era eu viajando. Fiquei facil. Andei com certeza pelos deques, pude compreender o sabor das passadeiras e as colorações de bordo. Os outros viajantes inda não conheço não, porêm viraram companheiros.
Facilitou enormemente a conversa futura o aparecimento duma grande mariposa. Era um exemplar lindissimo, por sinal, toda em pelucia parda com aplicações de renda de Veneza. Dessas eu já conhecia, aliás, porquê uma senhora, vizinha nossa na rua Lopes Chaves, possui um casal no jardim. E nas correrias pra pegar a mariposa ela nos apresentou uns aos outros e depois da janta nos ofereceu uma reunião ao ar-livre.
Agora viajam comigo várias donas e cavalheiros. A todos distingo pelo estilo e sensaboria um homem feito em casa, particularmente familiavel. Possui uma honestidade e uma estupidez de lar.
MÁRIO DE ANDRADE
