Ocupação Orgulho LGBTQIAPN+ | Do chumbo à pluma: uma breve trajetória literária do Orgulho, por Anderson Martins

Dando continuidade ao segundo dia da Ocupação Orgulho LGBTQIAPN+, publicamos os textos de Anderson Martins (UFJF) e Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ).

Martins, a partir dos romances Nadando no escuro (2024) e O quarto de Giovanni (1956), mostra como a literatura de minorias sexuais e étnico-raciais se ancora na realidade cultural e política. Ao ficcionalizá-la, desafia a separação entre forma e conteúdo e projeta vivências individuais que, ao serem desveladas, integram um processo coletivo de reconhecimento. Cunha, por outro lado, ao examinar os trabalhos do artista plástico Leonilson, ressalta como eles se conectam a uma subjetividade profunda, cuja vivência pessoal como homem gay imerso na intensidade da modernidade se manifesta na solidão, no vazio e no constante deslocamento presentes em suas criações, onde o espaço-tempo não determina sua representação.

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Boa leitura!


Do chumbo à pluma: uma breve trajetória literária do Orgulho

Por Anderson Martins (UFJF)

Este texto terá como base histórica a tumultuada década de 1980, mãe dos caçulas da geração X e dos mais velhos millenials, ou melhor, dos cinquentões e quarentões de hoje que viram seus mundos analógicos estilhaçados pela revolução internética iniciada na década seguinte. Posso estar esticando um pouco a corda cronológica que separa as duas gerações, mas o faço com o apoio da arbitrariedade dos números e da precariedade das demarcações censitárias.

O Brasil assistia ao movimento pela redemocratização e tudo o que isso implicou em termos de emancipação pessoal e coletiva. A Europa se via tomada pelas multidões que protestavam pelo fim dos regimes totalitários do eixo soviético, o que culminou na queda do Muro de Berlim em 1989 e no desmantelamento da URSS em 1991. Foi também na década de 1980 que o mundo descobriu a África, em grande parte através de eventos globais de arrecadação de recursos para combate à fome; posteriormente, o mundo descobriu quem eram os principais responsáveis pela miséria que ele buscava remediar através das doações de pequenas parcelas de seu patrimônio superavitário, mas isso já é outra história. Dos Estados Unidos, palco de grandes revoluções culturais nas décadas anteriores, chegavam notícias assustadoras de uma síndrome que atacava furiosamente o sistema imunológico de suas vítimas. Não demorou muito para o mundo concluir que se tratava de uma doença que acometia os homens gays promíscuos do Ocidente; também não demorou muito para que essa ilusão se desfizesse. Foi também nesse período que explodiu a primeira intifada palestina em reação à ocupação israelense de seu território. A década terminou com a Guerra do Golfo, iniciada em meados de 1990 e possivelmente o embrião do insondável que caracteriza o mundo contemporâneo.

Esse apanhado de alguns dos eventos mais marcantes do período que destaco tem o objetivo de lançar luz sobre a impossibilidade de nos debruçarmos sobre a história do Orgulho LGBT+, iniciada oficialmente em 1970, com a expectativa de encontrarmos aí uma cultura ou ideologia unificada.

As décadas finais do século passado também foram marcadas por grandes transformações no universo literário, em grande medida ocasionadas pelas revoluções sociais e culturais que ampliaram o espaço de visibilidade para narrativas não brancas, não masculinas e não heterossexuais capazes de lançar luz sobre trajetórias pessoais de sofrimento e exclusão no contexto de vários dos fatos marcantes mencionados acima. É do interior dessa nova biblioteca que nasce o romance Nadando no escuro, de Tomasz Jedrowski, jovem autor alemão de ascendência polonesa que escreve originalmente em inglês, situação cada vez mais típica das novas gerações de intelectuais. Nessa narrativa, ambientada em Varsóvia entre a década de 1970 e a queda do comunismo na Polônia em finais dos anos 1980, acompanhamos o despertar do garoto Ludwik para a sexualidade e para as forças políticas conservadoras de seu país que sufocam seu amor por Janusz, o homem que ele amou mas que escapou de suas mãos levado pelas correntes irresistíveis da ordem social estabelecida pela mão de ferro do Partido Comunista Polonês. Antes disso, Ludwik descobrira em si, na infância, o desejo inesperado por meninos, ao contrário da expectativa social, e também como essa mesma sociedade transformava a excitação e o magnetismo exercido sobre ele pelo amigo Beniek num sentimento paralisante e assustador.

Beniek e eu estávamos dançando em um grupo meio espalhado com os garotos de nosso quarto quando, sem aviso algum, as luzes foram apagadas. (…) Senti-me exultante, intoxicado de repente com as possibilidades da escuridão, e alguma barreira desconhecida se retraiu em minha mente. Eu enxergava a silhueta de Beniek perto de mim, e a necessidade de beijá-lo esgueirou-se para fora da noite como um lobo. Foi a primeira vez que, conscientemente, tive a vontade de trazer uma pessoa para junto de mim. O desejo me alcançou, como uma mensagem nítida, vinda de um lugar profundo dentro de mim (…). Seu corpo não mostrou resistência quando o puxei contra o meu e o abracei, sentindo a solidez de seus ossos, meu rosto pressionado no dele, o calor de sua respiração. Foi aí que as luzes foram acesas de novo. Nós encaramos um ao outro com o rosto cheio de medo, cientes das pessoas ao nosso redor, olhando em nossa direção. Nos afastamos. (…) Fui transportado para uma visão da minha vida, algo que me deixou tão desorientado que minha cabeça começou a girar. A vergonha, pesada e viva, havia se materializado, nascida de medos e desejos sufocados.

Naquela noite, fiquei deitado no escuro em minha cama (…) e tentei examinar essa vergonha. Era como um novo órgão que havia acabado de surgir, monstruoso, pulsante e, subitamente, parte de mim. (Jedrowski, 2024: 20-21)

Os dois destaques selecionados no trecho acima fazem referência ao encontro com duas pulsões constituintes do amor homossexual, uma de origem intrínseca ao sujeito – e constituinte de todas as formas de amor – e a outra de origem extrínseca ao sujeito e comumente presente na estrutura emocional dos amores extra-ordinários. A primeira pulsão é o desejo e a segunda delas a vergonha. Não é que o desejo seja impermeável a fatores externos ao desejante, mas ele é intrínseco no sentido de ser também inelutável. A vergonha, por sua vez, tem por fonte a organização microfísica do poder, tão bem teorizada por Michel Foucault (1999; 2000) e posteriormente detalhada por diversos outros estudiosos de fenômenos relacionados ao impacto do poder sobre a sexualidade e o gênero, como Judith Butler (2018), para ficar num único exemplo.

No caso de Ludwik, além das tradicionais instâncias responsáveis por incluir a vergonha em seu repertório pessoal de emoções, como a religião católica muito forte na Polônia – necessário lembrar a vergonha adâmica atenuada por uma folha de parreira –, a família e a escola, havia também o Partido, interessado em estabelecer a melhor versão de seus cidadãos cujas vidas estavam mergulhadas nas águas agitadas da Guerra Fria.

Interessante também observar que, em corroboração à noção esboçada acima de que o caldo de cultura e de política que as revoltas sociais dos anos 1980 nos legou não se deixa restringir em pautas unificadas, a Polônia de hoje foi governada até 2023 por um regime de extrema direita que representou grave ameaça aos direitos civis da comunidade LGBT+. Ainda que neste momento o país seja governado por uma coalizão mais progressista, ainda não há ali, por exemplo, o reconhecimento de casais formados por indivíduos do mesmo sexo. Recentemente, a eleição presidencial do país deu a vitória, por margem mínima, a um representante radical da extrema direita.

Retornando, porém, a Nadando no escuro, reencontramos Ludwik, agora mais velho e próximo de começar seus estudos universitários, absorvido pela leitura de O quarto de Giovanni, segundo romance de James Baldwin e um dos precursores da literatura gay contemporânea. Ele acaba de conhecer Janusz, um garoto de origens humildes e interioranas, a quem empresta o romance e que, inspirado por esse Cupido literário, convida-o para um acampamento a dois em uma região bucólica e isolada. Bem ao estilo de O segredo de Brokeback Mountain, a distância em relação às zonas de poder e repressão conduz os dois aos braços um do outro em cenas que atestam o inegável talento poético de Tomasz Jedrowski.

Seu cheiro era de água e pinheiros. Havia suavidade e também solidez. Eu sentia seu bronzeado sob a ponta dos meus dedos e, com suas mãos fortes e resistentes, você me redesenhou do zero, me criando, minha lombar, o interior das minhas coxas … e você. Suas costas, seu peitoral, seu abdômen, suas coxas, seu pau. (…) Nós nos movemos com fervor, com esforço. Havia tanta coisa de que eu não conseguia me fartar, tanto que jamais seria capaz de compreender e possuir, não importa o quanto tentasse. E eu tentei, nós tentamos. (…) A gente seguiu naquela batalha, sem fôlego e em êxtase, nossa cabeça leve, cheia e girando, até a exaustão, até nós alcançarmos o auge um no outro e adormecermos, emaranhados como ervas daninhas. (…) No decorrer daqueles dias, a vergonha dentro de mim derreteu como uma bala em minha boca, a dureza liberando doçura. (Jedrowski, 2024: 84-86)

A diluição do sentimento de vergonha é fundamental para a autoaceitação da homossexualidade, embora não baste para garantir a saúde emocional e sexual de um indivíduo. Na Polônia comunista retratada no romance, o Partido se interessava em saber sobre a orientação sexual de seus cidadãos com o objetivo claro de impedi-los de receber qualquer forma de benefício de um Estado que se tornara, paradoxalmente, a única forma de ascensão social ou de perspectivas de futuro para a população. Saber-se homossexual e perder a vergonha desse saber pode ser uma libertação pessoal, mas, no final, ser sabido homossexual equivalia a uma sentença de prisão e exclusão social. Incapaz de abrir mão das oportunidades de melhoria de vida que o governo lhe podia assegurar, Janusz renuncia ao amor de Ludwik em troca da estabilidade de uma relação heterossexual, ao passo que Ludwik, com a ajuda de uma amiga cujo pai ocupava um importante cargo nas esferas militares, consegue um visto de estudante e parte para cursar uma pós-graduação nos Estados Unidos enquanto adentra o universo da solidão gay hoje muito discutida por analistas da cultura LGBT+.

Antes de encaminhar este texto rumo à sua conclusão, faço um recuo no tempo para, em seguida, dar um salto na direção do momento presente. O quarto de Giovanni, publicado em 1956, narra o curto período em que David, um estadunidense residente em Paris, atormentado por desejos dos quais se envergonha e pelos quais procura uma compensação através de humilhações e do desprezo que lança sobre homens maduros gays com os quais convive, torna-se amante de Giovanni, garoto italiano pobre que faz uso do charme e da beleza física para encontrar proteção e alguma segurança financeira junto aos mesmos homens execrados pelo namorado. Ainda nos Estados Unidos, David tivera sua primeira experiência sexual com Joey, um companheiro de escola, e, mais tarde, quando decide fugir de si mesmo indo para a Europa, ele justifica a escolha nestes termos:

É disso que se tratava a minha decisão, tomada tanto tempo atrás na cama do Joey. Eu havia decidido não deixar qualquer espaço no universo para algo que me envergonhava e me assustava. Eu dei conta muito bem – não olhando para o universo, não olhando para mim mesmo, mantendo-me, de fato, em constante movimento. (Baldwin, 2001: 34)

Em Paris, David frequenta bares povoados de homens gays em busca de encontros fortuitos com garotos pobres que se colocam à venda. Esses bares compõem o submundo das práticas sexuais clandestinas e sigilosas entre homens e David observa a gama de gêneros e posturas que, décadas mais tarde, passaria a ser chamada de diversidade, mas que, aos seus olhos, apenas ampliava a sua vergonha e lhe causava sentimentos de mais puro desprezo e homofobia.

Eu sempre achava difícil acreditar que eles iam para a cama com quem quer que fosse, pois um homem que quisesse uma mulher certamente preferiria uma de verdade e um homem que quisesse um homem certamente não iria querer um deles. (Baldwin, 2001: 34)

Percebe-se que David está aprisionado dentro da lógica estética e psíquica da heteronormatividade binária que faz convergir sexo e gênero e, embora a “besta” – nome pelo qual ele denomina seu desejo homossexual – seja impossível de extrair de seu mundo interno, isso era tudo o que ele mais desejava, e tal impossibilidade apenas exacerbava seu ódio de si. A incongruência percebida entre homossexualidade e masculinidade, tão perturbadora para David, fica bem clara neste trecho, numa cena em que o jovem perambula por Paris e se sente fascinado pela aparição de um marinheiro à sua frente:

Eu o estava encarando, embora não o soubesse, e desejando ser quem ele era. Ele parecia – de alguma forma – mais jovem do que eu jamais havia sido, e mais louro e mais bonito, e ele portava sua masculinidade com a mesma segurança que portava sua própria pele. (Baldwin, 2001: 103)

A despeito da vergonha e da homofobia que o marcava, o amor secreto entre David e Giovanni tem a duração de alguns meses passados no quarto que dá título ao romance. O caos emocional que a sexualidade inesperada gerava em ambos, porém, não deixava espaço para outro desfecho. Ambos parecem ter desprezo pelas mulheres, mas encontram nelas o antídoto para a “besta” que vive neles e que desperta esporadicamente para assombrá-los. Ambos têm sede do amor entre homens, mas desprezam aquilo que identificam como um amesquinhamento da masculinidade quando vão para a cama com um. Ambos se vendem como objetos de satisfação sexual de idosos afeminados, mas entram em pânico diante da perspectiva de, no fundo, estarem destinados ao mesmo fim quando a juventude deles se esgotar. O que parece marcar a única diferença entre as vidas desesperadas de David, Giovanni, Janusz e Ludwik é a decisão que o último toma de não ceder aos ditames da ordem heteronormativa e se posicionar para o momento em que a vergonha começaria a ceder lugar ao orgulho. Quanto aos outros três, temos David rasgando as últimas lembranças de Giovanni na tentativa de exorcizar o quarto miserável onde haviam sido amantes felizes; Giovanni sendo guilhotinado pelo assassinato de Guillaume, o amante-protetor que ele menosprezava e Janusz optando pelo relacionamento heterossexual através do qual pôde escapar da pobreza de sua infância.

Segundo o relatório anual da organização Outright International para 2023, o mais recente publicado até o momento, em ao menos 101 países membros das Nações Unidas, houve alguma modalidade pública de eventos relacionados à visibilidade LGBT+, desde as Marchas do Orgulho até debates, exibições e mostras de audiovisual. Em ao menos 61 desses países, foram realizados eventos públicos diretamente relacionados ao Orgulho LGBT+, tanto nas capitais quanto em outras cidades, com destaque para as grandes marchas. No entanto, em outros 92 países, quase todos no Leste Europeu, na Ásia e na África, tais eventos são banidos do calendário de eventos públicos autorizados pela legislação local.

O retorno aos fatos históricos na conclusão deste texto tem por intenção destacar o quanto a literatura de minorias sexuais e étnico-raciais está ancorada na realidade da cultura e da política e, ao ficcionalizá-la, realiza o duplo gesto de recusar a separação clássica entre forma e conteúdo ainda hoje tema de debate entre críticos e teóricos da literatura, bem como lançar sobre essa realidade a luz de experiências individuais de personagens literários a braços com dilemas e desafios finalmente desinvizibilizados – palavra estranha mas importante por conter em si uma ideia de processo temporal e espacial – e compartilhados pela comunidade de leitores e estudiosos dessas obras. Partindo da autodestruição de David e Giovanni, incapazes de responder a pergunta “que tipo de vida dois homens podem ter juntos?” (Baldwin, 2001: 156), seguimos pelo colapso do amor entre Ludwik e Janusz, já despidos da vergonha que habitava suas sexualidades, mas aprisionados a um sistema político e cultural que as obliterava, e chegamos aos tempos atuais saturados das cores vivas do arco-íris da diversidade orgulhosa, embora igualmente das cores plúmbeas das iniciativas de uma extrema direita internacional, associada ao ressurgimento de vertentes religiosas cruzadistas, cujo objetivo declarado é reinaugurar a fórceps uma humanidade – esta, sim, irrevogavelmente fictícia – portadora da norma heterossexual edênica. O contraponto entre vergonha e decisão que estabeleci neste ensaio realça a verdadeira base da criação do orgulho, que não tem qualquer relação com arrogância ou autopromoção, mas com o esforço proativo da autoaceitação, seguida da autoinserção na comunidade e, posteriormente, do acolhimento aos que chegarem mais tarde. Em outros termos, marchar com Orgulho não se caracteriza como gesto de exibição, mas como ato político, resultante da decisão, primeiro pessoal, depois coletiva, de desmantelar as estruturas que sustentam a vergonha mutiladora das pessoas LGBT+.


Referências

BALDWIN, James. (2001). Giovanni’s room. Londres: Penguin Books.

BUTLER, Judith. (2018). Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

FOUCAULT, Michel. (1999). História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal.

FOUCAULT, Michel. (2000). Microfísica do poder. Organização e tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal.

JEDROWSKI, Tomasz. (2024). Nadando no escuro. São Paulo: Astra Cultural.

OUTRIGHT INTERNATIONAL. (2023). Beyond the Rainbows and Glitter: Pride Around the World in 2023. Disponível em: https://outrightinternational.org/our-work/human-rights-research/beyond-rainbows-and-glitter-pride-around-world-2023. Consultado em: 29/05/2025.

Anderson Martins é professor da Faculdade de Letras, Departamento de Letras Estrangeiras Modernas, Graduação em Inglês, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É, também, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras (Estudos Literários) da Universidade Federal de Juiz de Fora desde abril de 2018.