Ocupação Orgulho LGBTQIAPN+ | Te encontro de noite no Instagram, por Denilson Lopes

No segundo dia da Ocupação Orgulho LGBTQIAPN+, a BVPS publica os textos de Anna Paula Vencato (UFMG) e Denilson Lopes (UFRJ).

Vencato destaca a resiliência das drag queens marcadas pelo dinamismo de suas performances e pelo alto investimento em figurinos, além da transformação das categorias com que se definem ao longo do tempo, indicando a riqueza dos novos olhares e a constante mudança do cenário contemporâneo. Denilson, por sua vez, combinando experiência pessoal e análise cinematográfica, reflete sobre o esforço de grupos minoritários em contornar estigmas, enquanto manifesta exaustão diante do chamado cinema do cotidiano, caracterizado por clichês voltados à família e estéticas minimalistas. Para o autor, o desafio contemporâneo está em abordar o extraordinário e o excêntrico em lugar do trivial.

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Boa leitura!


Te encontro de noite no Instagram

Por Denilson Lopes (UFRJ)

Lendo um bom trabalho que revisita a noção de comunidade e o comum me dou conta de que cada vez o que me interessa não é o comum, nem a diferença, mas o incomum, o raro, o excepcional que vejo na arte, numa vida estética. Não mais personagens e encenações que se traduziram em poéticas do cotidiano (Ozu, De Sica, Bresson…), retomadas por filmes marcados por experiências de mulheres, LGBT…, negros, ameríndios. No contexto queer, me levou a pensar em outras casas, famílias, na amizade. Talvez kinhship não seja suficiente, mas algo que me ajude a pensar sobre ancestralidades e heranças afetivas, para além mesmo de gênero, raça, classe, idade.

Gustavo Vinagre volta ao seu melhor em Três Tristes Tigres, seu filme mais ambicioso e mais bem realizado desde Nova Dubai. Transitando de uma São Paulo pandêmica, ao mesmo tempo lírica e distópica, três jovens (a atuação, especialmente de Isabella Pereira, é um ponto fraco que felizmente não atrapalha por aparecer menos) encontram personagens mais velhos (Cida Moreira, Everaldo Pontes…) que recolocam a relação sexo, doença, desejo, morte que fica tanto mais interessante quando se dá pelos corpos (e não pelo discurso, pecado de vários filmes queer brasileiros contemporâneos) e excelente opção final de espécie de cabaré-orgia de vivos e mortos no fundo de uma espécie de antiquário e lugar de encontro.

O que é ser um professor gay? Sei que essa palavra nem é mais tão usada hoje em dia, mas há pouco mais de vinte anos publiquei um livro chamado O Homem que amava rapazes e outros ensaios e, pelo menos desde então, creio que essa palavra me foi associada publicamente. É verdade que talvez desde 1997 era comum dar uma aula sobre a experiência gay nos meus cursos para estudantes de primeiro semestre e já tinha publicado artigos a respeito, mas o livro foi uma marca mais forte, uma espécie de coming out acadêmico. Passados tantos anos, tendo estudado e dado cursos sobre os mais diferentes tópicos e abordagens teóricas, me pergunto o que pôde significar isso para estudantes e colegas. Posso apenas imaginar porque poucas vezes fui chamado assim. Me lembro de um colega que por também dar aulas sobre o tema esperava a qualquer momento a pergunta fatídica. Professor, o senhor é gay? Ele respondeu com uma outra pergunta. Algo assim: a resposta importa pra você? E vendo que a aluna ou o aluno ficou um pouco surpreso, surpresa: ele disse simplesmente: sou. E continuou a aula. Não lembro de nenhuma pergunta direta, mas me lembro de um fim de curso, um aluno, como se fizesse uma crítica, me disse que eu defendia muito minha causa em sala de aula. E eu perguntei qual era minha causa? Ele também ficou meio embaraçado. E eu perguntei se ele se referia à questão gay e disse que ela tinha sido só uma aula em trinta durante o semestre, mas talvez tivesse sido a que ele tivesse mais prestado a atenção. Alguns estudantes riram e seguimos a aula.

Me lembro, curiosamente, que quando dava essas aulas, garotos quase nunca participavam. Foi quando resolvi incluir alguma discussão sobre masculinidade e heterossexualidade. Me lembro também de um seminário sobre essa questão em que dois orientandos heterossexuais participavam da apresentação e depois vi escrito numa carteira o nome de um deles como líder gay da turma. Ele riu bastante. São algumas lembranças antigas. Ah, me lembro quando fui num programa popular de TV por conta do lançamento do livro e o apresentador falou que eu não parecia gay.  Curiosamente, fui chamado – indiretamente – como um dos dois professores negros da faculdade, numa discussão sobre quotas; numa mensagem de um estudante perguntando por que eu não discutia a questão racial e, bem mais tarde, quando fui convidado para uma banca de trabalho de conclusão curso de graduação porque a estudante achava que era importante ter um professor negro na banca. Por conta de um texto meu publicado em um site sobre pedofilia, um ou outro aluno comentava que estavam falando de mim na internet; aí descobri um texto que estava circulando em redes evangélicas e, mais recentemente, num comentário antigo e que desconhecia de Olavo Carvalho – aí a palavra não era gay… Fora um amigo, hoje também professor, que me disse que não conversava sobre esse assunto comigo porque eu não falava nada sobre isso com ele; não lembro de colegas perguntando a respeito. É como se fosse algo que não importava, que não fazia diferença, uma indiscrição, uma indelicadeza talvez. Em conversas informais em congressos, sim. Certamente como tema de discussão de papers e palestras que apresentei. Também, nunca dei certo como militante, e creio nunca ter começado uma fala que seria feita a partir de um ponto de vista de um homem gay ou qualquer outros termos próximos. Me lembro de uma mesa curiosa criada por mim e dois colegas num congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada que se chamava Vidas Viadas, Estéticas Bichas. Mas, diferente de gerações mais recentes de estudantes, não eram termos que eu tenha usado para se referir a mim. Nem tantos outros termos que vieram como queer, cuir, não-binário, trans etc. Enfim, não sei o que significa ser um professor gay, mas uma vez li num texto de uma revista norte-americana que aqueles que pertencem a grupos minoritários tinham uma espécie de ansiedade que os levava a se esforçar mais do que outros na escola ou no trabalho, como se fosse uma forma de compensar um estigma. Assim, durante a escola, não fui, tanto quanto eu saiba, o aluno gay, mas o aluno estudioso. E ainda me pergunto se a ansiedade que sinto até hoje é o que mais tem a ver com isso também nestes tempos em que sexo e até afetos voltam a ser algo a ser evitado quando expressos em primeira pessoa fora de clichês ativistas, conservadores, moralistas.

Terminando de ler em breve A sociedade de cansaço, de Byung-Chul Han, fico pensado que, se vivemos numa sociedade cada vez mais definida pelo trabalho contínuo, será que o cansaço vem como algo mais forte do que uma quebra de comportamento desejado, de uma expectativa a ser seguida, de uma lei implícita? Nos últimos anos, uma das palavras que mais falei para médicos e terapeutas foi exatamente cansaço, às vezes exaustão, para o qual um pacote me é recomendado e tenho dificuldade de o seguir. Se penso no que me dá satisfação, alegria e energia, nada melhor do que começar o dia lendo pelas manhãs, mas o cansaço, às vezes, já começa junto com o dia, às vezes no fim da manhã ele se torna forte e o que era desejo passa a ser uma luta para manter a concentração ou simplesmente os olhos abertos… Passam fins de semana, feriados, férias que nunca são completamente pausas; quando não são para cumprir prazos atrasados, ou simplesmente terminar de preparar aulas, são exatamente para que possa reagir às leituras através da escrita, como resultado da pesquisa em curso. Isso não era pesado mas tem se tornado. Às vezes comentam que trabalho demais. Penso que tenho trabalhado cada vez menos. Seria simplesmente uma mudança física decorrente da idade para a qual tenho que fazer cada vez mais escolhas em função de demandas que não parecem diminuir? Uma falta de não saber ouvir o que o cansaço, o tédio, a sensação de falta de energia trazem? Às vezes pensava: será que tenho que mudar de profissão ou mudar as atividades dentro da profissão? Sendo professor desde 1997, de forma quase contínua, descontados dois anos que tirei licença para pós-doutoramento e estágio sênior no exterior, este cansaço foi simultâneo a oito anos de cargos administrativos de chefia, para os quais não tenho vocação e espero ter forças para não assumir mais nenhum, somados aos pareceres da Faperj que nos últimos anos me facilitam recusar pareceres de periódicos e de bancas.

O contato com a pós-graduação e em cursos optativos tem se mantido prazerosos, mas também me dão a percepção de que o que me mais interessa e fascina não interessa tanto aos meus estudantes. Isso não é um problema, é um fato a se lidar. Prefiro ser fiel ao que considero ser uma contribuição mais pessoal do que àquilo que possa estar mais na moda ou nos debates públicos. Entre os tópicos dos quais julgo estar mais próximo, as questões queer e associadas à música pop parecem despertar mais interesse. Mas, cada vez mais, não que o cinema tenha algo a me dizer ou que eu tenha algo a dizer sobre filmes. Se tivesse mais tempo livre adoraria poder escrever sobre pinturas. Dentro do que é mais próximo da minha formação, a literatura volta a exercer seu fascínio. Seria o caso de dar aula em Letras em vez de na Comunicação? Parece que não, já que o desinteresse pela literatura atravessa diversos cursos, e autores contemporâneos também não chamam muito a minha atenção no momento. Além do mais, os caminhos da universidade e do país não parecem ser nem um pouco estimulantes… Está cada vez mais difícil seguir as referências midiáticas, culturais, artísticas das novas gerações que chegam à universidade para, ao menos, estabelecer algum diálogo em sala de aula. É triste, mas na verdade não me interessam ou só me interessam como uma informação sobre o que os governantes fizeram hoje, sobre o que não tenho vontade de conversar, nem tenho opinião relevante. Alguns anos de trabalho parecem me esperar antes da aposentadoria, pelo menos nove anos, se as regras não mudarem. Não consigo pensar agora que eu vá me reinventar e talvez não seja razoável pensar que o que me move volte a interessar. Tenho que me preparar para a velhice, para perdas mais do que ganhos, para viver com um mínimo de dignidade se possível. Se a arte me faltar será um grande desafio, algo que não consigo nem vislumbrar, algo equivalente a ficar catatônico numa cama. Sim, se sempre dei pouca importância ao descanso, também dei pouca importância ao corpo, a não ser quando ele incomoda. Gostaria de poder dizer que o futuro do mundo não é o meu futuro, mas infelizmente ele será.

Há muitas maneiras de começar uma insônia e não me lembro, pra variar, da maior parte delas, mas hoje foi uma crise de soluços. E depois voltei ao filme que comecei ontem e não consegui terminar quando o sono ajudado pelos remédios usuais me pegou. Não vi Sex and the City mas vi todos os capítulos de Queer as Folk das três versões. Mas este How to be single me encontrou não no Grand Canyon, como a protagonista no final, mas no velho quarto que faço de escritório desde 2007. Para além dos encontros e desencontros de mais uma comédia romântica com as paisagens de Nova York que tanto amo no cinema. Single de solteiro. Single de um momento único. Que outros filmes sobre ser single?

Para esquecer um cinema do cotidiano

Não me interesso por autores e obras dentro de uma tradição cinéfila. Me interesso mais por questões que sejam transversais e possam fazer dialogar diferentes obras artísticas e linguagens. Não sendo um especialista em Ozu, por que (re)ver Ozu hoje em dia? Não tanto talvez como a sombra marcada pelo autocontrole e disciplina, mas pela possibilidade de trazer um pouco de delicadeza em meio a um mundo de excessos de informação, falas, imagens e sons, por um desejo de uma vida mais comum, mas não menos bela. Uma questão que ainda nos fica e insiste a partir de Ozu é: como mostrar a casa diante da exploração máxima da intimidade, da espetacularização dos afetos e dos reality shows? Que casa é essa que pode nos acolher? O pudor que nos vem a partir de Ozu reaparece não como forma de silenciar e reprimir afetos, mas de revalorizar a sutileza e a invisibilidade dessa casa que começava a se dispersar nos seus filmes. Fica talvez ainda o desejo de reconstruir, reconquistar uma sensação de estar em casa no mundo.

O cotidiano foi considerado aqui na sua inserção no tecido social que se abre para toda uma história que não vê mais esse espaço como o da opressão, do isolamento ou da repetição do mesmo, mas, na esteira do feminismo, como espaço de resistência, espaço mesmo poético, sem perder de vista os contextos urbano, midiático, da intimidade e da afetividade. Mas esse cinema do cotidiano ainda tem futuro, ainda satisfaz? Assim como Ozu, ainda acho relevante defender o silêncio, a sutileza e a invisibilidade como alternativas aos ruidosos discursos ativistas, reativados pelas redes sociais.

A intimidade da casa aponta para a intimidade do mundo aceitando o desafio não só da casa de onde se veio, mas da casa a ser conquistada e construída, se a imagem da casa ainda tiver força, pensando naqueles de nós que nunca tiveram casas e famílias como espaços de acolhimento e que têm que inventar outras formas de pertencimento para sobreviver e viver juntos. Para esses, interessa mais o mal-estar do que os rituais de integração social em Ozu na formulação de famílias escolhidas (termo usado por Kathy Weston), famílias de amigos (expressão de Nan Golding), na amizade como modo de existência (proposta por Michel Foucault), para os quais os solteirões e solteironas se transformam em ancestrais.

Nem grandes utopias nem violências extremas, a aposta no cotidiano parece apontar para outros caminhos. Seriam formas conciliatórias exemplares, que estariam cada vez mais de acordo com públicos contemporâneos que buscam lições de moral, frases de efeito derivadas da autoajuda, dos coaches, de pensamentos positivos e da felicidade propagada pelas redes sociais, incapazes de lidar com fracassos e obstáculos, traduzidas em personagens heroicos, que não enfrentam incômodos, temas controversos, tabus?

Se os feminismos resgataram a intimidade e o privado como espaços políticos e como formas de contar outras histórias que não passavam necessariamente por grandes fatos, é curioso que cineastas brasileiros contemporâneos, notadamente negros, vejam no cotidiano familiar um campo alternativo a discursos ativistas muito explícitos.

Pensar a atualidade ou não de Ozu hoje teria como gancho só o interesse por um cinema do cotidiano? Ou haveria outras formas de rever sua obra que passem, por exemplo, por um cinema de gênero, como o melodrama e a comédia? Seria o cinema de Ozu apenas um monumento autoral realizado pela cinefilia moderna ou um cineasta dos valores tradicionais e morais da família? A ausência de uma problematização do sexo e da violência que autores da Nouvelle Vague japonesa enfrentaram, criticando Ozu por não tê-la feito, poderia ser uma alternativa à banalização midiática da violência e do sexo ao invés de uma fuga?

Seria Ozu um conservador? Tentando fugir de avaliações morais que tanto fazemos hoje em dia, a contenção formal em seus filmes nos ajuda a pensar, de outra forma, as ambivalências diante da família em mudança – a experiência daqueles que não querem se casar, mesmo quando casam; dos que tendo casado uma vez, não querem voltar a se casar; dos solteiros sobre os quais sempre incidiram a obrigatoriedade do casamento e de ter filhos, que talvez por isso são figuras queer, entre a solidão e a possibilidade da amizade? Talvez Ozu aponte uma possibilidade não centrada na família nuclear e no casal que vários de seus fãs e admiradores não conseguem ver.

Enfim, por que (re)ver Ozu hoje em dia? Para talvez resgatar o que D. W. Griffith disse em sua última em entrevista:

What the modern movie lacks is beauty, the beauty of moving wind in the trees, the little movement in a beautiful blowing on the blossoms in the trees. That they have forgotten entirely… In my arrogant belief, we have lost beauty.

Ou talvez a resposta esteja em algo mais modesto: no sorriso triste das personagem de Setsuko Hara em Era uma vez em Tóquio ao simplesmente confirmar que a vida é decepcionante.

Na oportunidade de rever os filmes de Ozu e seus diálogos na mostra 120 anos de Ozu em BH, sinto uma certa exaustão no que procurei investigar como cinema de cotidiano, na sua proliferação de clichês familialistas, poéticas minimalistas e de contenção. Pessoalmente, acho que o desafio hoje estaria mais no excepcional, no excêntrico do que no comum e no cotidiano.

Saí do Rio para tentar tirar férias, mudar de ares, descansar. Durante muito tempo, quando as aulas acabavam no fim de novembro, o cansaço parecia desaparecer logo na semana de Natal e eu voltava a ler ou a escrever a partir dos cursos que tinha dado naquele ano, recuperando as anotações que tinha feito sobre as novas leituras. Ler e escrever não eram descanso, mas me davam energia. Nas férias do ano passado, estava atrasado com as anotações de três cursos e consegui transformar as anotações em três ensaios dentro do meu projeto atual sobre Modernismo, melancolia e extrativismo. Quando cheguei em Lisboa, contente em fugir do verão, foi um prazer voltar a andar, em dias de luz cada vez mais clara, pela cidade, pelas ruas, parques, jardins, exposições, ver filmes e encontrar quem não via desde 2020, antes da pandemia. Voltei a escrever pela manhã sobre os diários de Lúcio Cardoso, de forma muito lenta; mal terminei de passar as notas do Diário 1 (1949-1951) e de outras leituras que fizemos no seminário sobre Diários Queer. Pensei que o que poderia unir as anotações eram algumas impossibilidades que apareceram no Diário: dos encontros apesar dos amigos, do amor apesar do desejo, da própria escrita de algo que julgasse relevante em meio ao tempo que passava. Dessas impossibilidades só os fragmentos do diário poderiam dizer algo. Da minha parte, as lentas reescritas de citações, os parcos comentários continuam dispersos, mal escritos, pouco desenvolvidos, inconclusos, em meio a um cansaço que não passa.

Sempre gostei mais de museus do que de saunas ou bares. Digo: para ver, encontrar. Calor e barulho me inibem para a conversa. Desconforto ao ficar suando, ao ter que falar alto para ser ouvido. Não saber como começar uma conversa em bares, em saunas, em festas. Não beber também não ajuda. Em museus sempre foi mais fácil, menos tenso começar uma conversa. Na minha adolescência, a excitação era saber quem estaria na mesma sala de cinema, mas era muito tímido para conversar com estranhos. Quando morei a primeira vez em Nova York, em 1995, assim que cheguei houve uma mostra de Marguerite Duras no MOMA. Lá conheci um rapaz chinês. Nunca tinha conversado com um antes. Ele estudava no Brooklyn College e trabalhava num restaurante. Quando soube que Kristeva ia dar uma palestra sobre Proust na Columbia, fomos juntos. Quando voltei de NY, lembro de uma conversa sobre arte numa sauna com um arquiteto de ascendência japonesa. Ou com um rapaz holandês na Tate que anotava coisas que dizia. Estudava história da arte. Falava um inglês pior que o meu. Não tinha me dado conta de quão jovem era. Só quando me disse que estava no primeiro ano da universidade. Lembro ainda de um rapaz inglês que gostava de samba num bar ou um outro que tirou minha blusa e ficou com ela. Houve encontros em vários lugares, mas os que duraram um pouco mais foram os que começaram nos museus. Tantos anos depois, olhares trocados, conversas fortuitas. Tudo isso lembrei por causa de FP que conheci na Pinacoteca em São Paulo. Há tempos que não vejo, não tenho notícias dele. Sumiu do Facebook. Acabei de mandar uma mensagem para um email que encontrei. Não sei se ele vai responder. Nomes somem. Rostos se apagam. Memórias diminuem. Mas a cada exposição um sorriso trocado já compensa o perdido, o que virá e o que não virá. Se estiver lendo o que estou escrevendo me diga como está. Se não puder. Se não quiser. Espero que esteja bem onde quer que esteja.


Denilson Lopes é professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-doutoramento na New York University (2005/6) e estágio sênior na Columbia University (2018/9). Tem formação em comunicação, literatura, cinema, sociologia da cultura e das artes. Tem interesse nas relações entre arte e cultura, vinculadas a uma estética da comunicação, para a qual abordagens provenientes dos estudos culturais, do pós-estruturalismo e da teoria queer são fundamentais.