
“Este vapor navega com literatura”, lamenta o modernista que almejava uma viagem bem distante das letras. Mas é inevitável: a literatura permeia até o simples balançar de um convés. Assim, Mário entrega-se ao ócio. Despersonaliza-se. Corpo, mente e meio deslizam umedecidos pela embriaguez e pela ventania oceânica. E eis que surge, adiante, aquela já familiar ânsia de caminhar sobre o infinito.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, teremos mais uma postagem de Lilia Schwarcz (USP). Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Atlântico (4 de Dezembro, 15 horas)

Me entrego a essa delicia angustiosa do semi-enjôo. Enjoar, não estou enjoado não, tenho fome e autoridade, porêm o “Manaos” com as duas mil toneladinhas dele é um barco de scenografia e balanga por demais. As sacudidelas dele ultrapassam a naturalidade e se tornaram uma expressão
Pelo menos foi essa a impressão que tive desde que êle principiou saltando. Falei pra mim: êste vapor navega com literatura. Isso me amolou bem porquê esta viagem eu queria que fosse bem antibrasileira, bem longe da literatura… Paciencia.
Mas de tanto mexe-que-mexe o facto é que me bateu uma tonteira engraçada, cuja manifestação mais veridica é a repugnancia da vertical. Minha cabeça triplicou a lei da atração e ondula no ar buscando no vento resistencias que a almofadem. Não acha e acaba descansando no meu braço sobre a mesa. Agora posso matutar milhor.
E que delicia! Uma indiferença vasta pelo mundo justifica eu ter vestido o mesmo brim de ontem, mais amarrotado que um morro de Guanabara. Perdoa até minha barba que ficou por fazer e está me enquisilando a consciencia. Tudo se humilha numa unanimidade perrepista. A personalidade se dissolve, perco caracter e penso com o corpo todo, que vastidão!…
Não tem dúvida que estou um bocado com vergonha de me entregar assim ás delicias refinadas da tonteira. Isto me desumanisa, e principalmente me desoperarisa. Perco essa parte de operario que tem em mim, tão e muito nobre — a milhor parte de mim. Fico eu, elegantisado pelo tedio, capaz até de wildismos subtis. Comprei duas maçãs e cheiro-as com lerdeza, que delicia… O cheiro desagregado pela ventania não consegue reagir contra a minha despersonalisação refinadissima, só consegue elegantisa-la inda mais. Estou numa bebedeira grave, sedol, alcol, maçãs. E imagino voluptuariamente, no milhar dos paraizos artificiais. O som de chuva das ondas me dá vontade de caminhar sem milagre por sobre a superficie do mar… No Rio chamam de “azeredo” o último banco dos ónibus, porquê joga muito… Atinjo venturar aritmeticas sublimes combinando a velocidade do meu pensamento com a velocidade do navio… Agora estou dormindo.
MÁRIO DE ANDRADE
