Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Atlântico (5 de Dezembro, 17 horas)

Delmiro Gouveia foi faroleiro, tirano e coronel. Cearense mão de ferro que fez do município de Pedra um relógio urbano, pagando com a vida pela disciplina do chicote. A bordo do Manaos, Mário de Andrade ouve as memórias de um senhor do Pará que conheceu de perto esse controverso “Antônio Conselheiro do trabalho”, enquanto o mar cinzento balança o navio e a própria história.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Atlântico (5 de Dezembro, 17 horas)

Delmiro Gouveia. Fotografia: Arquivo Nacional, Domínio público

Nem Abrolhos inda passâmos neste Manaos tardonho. O dia está feio, o mar balança mais que nós, cinzento. Um senhor do Pará conviveu muito com Delmiro Gouveia e conversamos sobre o grande cearense.

Delmiro Gouveia chegou em Pernambuco ainda curumim, se empregou na Great Western. Um ano depois era faroleiro. Costumava falar quejamais a consciencia da responsabilidade não se evidenciara tanto pra êle como nesse posto. Aliás é mesmo assim com todos… Quando botam nas mãos da gente uma bandeija com cristaes, só vendo o cuidado com que transportamos aquilo até a mesa. Mas uma hora depois a gente afirma tal verdade num jornal, assina um contracto, faz um filho com a mesma decisão bastarda com que almoça…

Pelo menos Delmiro Gouveia conservou no espêlho dos atos a imagem do faroleiro rapaz. Foi um dramatico movimentador de luzes, luzes verdes, luzes vermelhas dentro do noturno do caracter no Brasil. Por isso teve o fim que merecia: assassinaram-no. Nós não podiamos suportar êsse farol que feria os nossos olhos gostadores de illusões: a cidade da Pedra, em Alagoas.

Falaram que Delmiro Gouveia era perverso. Não era não. Meu companheiro me afirma que nunca êsse Antonio Conselheiro do trabalho não mandou matar ninguem. O que êle era mas era duma energia masculina, preestabelecida e não ocasional como entre nós inda é costume herdado do calor solar. Delmiro Gouveia costumava falar que brasileiro não andava sem sova e por sinal que sovou e mandou sovar gente sem couta.

Era um genio da disciplina. Pedra chegou a um esplendor de mecanismo urbano como jamais não teve outro nesta nossa terra. Delmiro Gouveia coronelava tudo com a mesma severidade. Si um menino falhava a aula, mandava chamar o pai pra saber o porquê. Chegou a despedir os pais que tiravam um dia de estudo dos filhos pra qualquer servicinho. A’s vezes com os meninos mandriões, reunia cinco ou seis e mandava um negrão chegar africanamente a palmatoria na bunda dos tais.

Dentro de casa não permitia ninguem com chapéu na cabeça. Ia pra casa e mandava multar o malcriado; chapéu comum: duzentos réis; chapéu de couro, quatrocentos.

A arma dele era principalmente o chicote que manejava como o que a gente aplaude no circo. E tinha birra de mulher fumante. Uma feira uma dessas cachimbava na porta da rua, muito acismando. Delmiro Gouveia não se incomodou, seguiu no trotinho descansado uns trinta metros mais, virou o animal de sopetão, veio na galopada e com um golpe justo do chicote arrancou o cachimbo da boca da dona. Que nunca mais fumou.

Tinha a religião da higiene e o ateísmo das esmolas religiosas. Não posso repetir os nomes com que brindava as operarias da fiação que iam pro trabalho sem lavar a cara, e os padres que apareciam em Pedra tirando esmolas pras coisas longinquas. Não recebia mal ninguem. Só uma feira, depois duma experiencia inda vida e dolorosa, expulsou nem bem chegado, um padre sírio que apareceu em Pedra com intenção de tirar esmola prá Terra Santa.

Entre nomes feios, Delmiro Gouveia gritava pro padre:

— Terra Santa é esta, seu…!

Se enganava. Agora Pedra vai morrendo pouco a pouco. Santo era êle, o grande cearense.

MÁRIO DE ANDRADE