
Ainda no deque do vapor Manaos, Mário de Andrade experimenta o bom tédio da travessia. O corpo mole, o vento quente, a música. Uma senhora estrangeira chama sua atenção, primeiro pelos pés, depois pela nacionalidade. Mas o que encanta mesmo o modernista é a Bahia que se aproxima, como uma nota sustentada ao longe, doce e monótona: mi, lá, lá, sol… Amanhã, São Salvador.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não deixe de conferir novo texto de Elide Rugai Bastos para a série. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Atlântico (6 de Dezembro, 10 horas)
Agua salgada que vai prá Bahia… Agua salgada que vai prá Bahia… A frase vai se repetindo em mim, lenta, feito um acalanto de africana… me sinto prodigiosamente feliz, neste tedio matinal… Lassitude gostosa de bordo… Companheiros inexistentes, incomparavelmente discretos, não gostando de mim… Deito no banco do deque ao queimar ventado do mormaço, num estado prodigioso de musicalidade, mi, la, la, sol… Firmata no sol. Esse tema está me absorvendo, se repete monotono entre frases mais longas, coleantes, executado por dois trombones. Me sugere indigenas numa vida vasta de mato. O cacique está de pé, nú e verdadeiro, e vai haver uma briga de morte com tribu vizinha, mi, la, la, soool!… Firmata apreensiva no sol. Como a música é boa!
Só a música dispara as scismas com inconcebível aceitação. Já estou a cem leguas dos indigenas e de novo deitado no deque do Manaos. Me agradam a bordo unicamente duas senhoras sozinhas. Talvez por estarem sozinhas… É possivel porquê uma delas é bem feita até. É inglesa ou norte-americana.
É um tipo bastante curioso e fatigante. Imagine-se uma senhora que principia pelos pés, é ela. Isso já fatiga bem porquê o olhar é sempre descendente. Iniciada pelos pés, essa dona obriga a gente a uma ascenção contínua do olhar e mostrar assim a pouca amabilidade da raça, pouco se amolando com a lassitude em que a gente está. Uns pés de genese, longos, indecisos, lentos, levando prá se formar dias que parecem seculos… Afinal as meias brancas se arredondam lisas e perfilam recurvas no ar, segurando o bote-salvavida n. 6.
D’aí prá cima ignoro a geografia da Inglaterra, confundo Edinburgo com Hindemburgo, e percebo no colo da moça, doirado pelo sol, uma esperança da Bahia. Me sinto bem como um beijo aceito e as minhas narinas arfam colhendo os cheiros do vento, mi, la, la, soool… Firmata molenga e bem sensual no sol. Fecho os olhos porquê não vale a pena subir mais na inspecção. Já sei de cor o que vem.
O curioso é que essa dona principia inglesa como já vimos e acaba norteamericana.
É fato: depois do pescoço magrinho aparece a protagonista, uma carinha girl etê, muito fotogenica e com assucar de Pernambuco: uma colherinha, pronto, assucarou demais nossa bebida. Aliás o que salva o mundo é isso mesmo: inda está prá nascer uma norteamericana sem assucar. Si nascesse uma, sem mel, extra dry, meu Deus, isso é que é amor e dêsse amor se morre!…
Atirei os violinos fatigantes no mar. As trompas com surdina retomam o tema de novo: mi, la, la, sol… Agua salgada que vai prá Bahia… Agua salgada que vai prá Bahia… Amanhã chego lá.
Agora estou dormindo.
MÁRIO DE ANDRADE
