Glossário Silviano Santiago | Grande sertão: veredas, por Gabriel Martins da Silva

No novo verbete do Glossário Silviano Santiago, Gabriel Martins da Silva (PPGLCC/PUC-Rio) revisita a leitura de Grande sertão: veredas proposta por Silviano Santiago, especialmente em Genealogia da ferocidade (2017), para destacar como o romance de Guimarães Rosa se contrapõe à estética modernista e desenvolvimentista da década de 1950, emergindo como um corpo estranho e intempestivo na vida cultural brasileira.

Segundo Silva, a leitura de Silviano se tornou uma referência incontornável da crítica rosiana recente porque, além de se debruçar sobre questões propriamente literárias do romance, o insere no centro da vida política brasileira. Diante dos impasses políticos da Nova República, Silviano mostra que Grande sertão permanece uma alegoria da nação, revelando suas feridas e contradições mais profundas.

Organizado por Mario Cámara, o Glossário Silviano Santiago é publicado às quintas-feiras, com versões simultâneas em português e espanhol.

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Grande sertão: veredas, romance e enclave

Por Gabriel Martins da Silva (PPGLCC/PUC-Rio)

Será sempre uma questão difícil de resolver esta de saber como se deve traduzir em francês um escritor alemão. Devemos podar aqui e ali pensamentos e imagens quando não atenderem o gosto civilizado dos franceses. E quando possam parecer-lhes um exagero desagradável ou mesmo ridículo? Ou devemos introduzir o alemão selvagem no belo mundo parisiense com toda sua originalidade de além-Reno, fantasticamente colorido e sobrecarregado de ornamentos tão românticos? Na minha opinião, não creio que devamos traduzir o selvagem alemão em francês domesticado, e eis que me apresento aqui em minha barbárie nativa, a exemplo dos Charruas, a quem destes, no verão passado, uma acolhida tão benévola. Eu também sou um guerreiro, como foi o grande Tacuabé.

― Heinrich Heine no prefácio à edição francesa (Tableaux de voyage, 1834) de Reisebilder[1]

Os traços retos da arquitetura moderna, a miudeza do banquinho e o violão da bossa nova, a poesia matematizada e econômica de João Cabral de Melo Neto, o construtivismo abstrato e geométrico de Ivan Serpa ou o concretismo de Max Bill, tudo isso se apresenta como cenário estético da segunda metade da década de 1950, que têm na construção de Brasília a sua expressão máxima: uma cidade erguida no coração selvagem do Brasil. No avesso da precisão matemática dessas formas culturais está Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, um objeto não identificado no universo literário brasileiro, um corpo estranho que penetra radicalmente o meio intelectual. A verborragia caudalosa e fluvial de sua prosa, seu gigantismo de nascença, um romance de mais de 500 páginas sem divisão capitular, com uma linguagem de difícil apreensão, parece se contrapor a tudo o que se fazia no campo da literatura e das artes daquele momento. “Como um monstro, ele [Grande sertão: veredas] emerge intempestivamente na discreta, ordeira e suficientemente autocentrada vida cultural brasileira, então em plena euforia político-desenvolvimentista” (Santiago, 2017: 11), escreve Silviano Santiago em Genealogia da ferocidade: ensaio sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa (2017).

O livro de Silviano foi inicialmente escrito para ser o prefácio da edição venezuelana da tradução em espanhol de Ángel Crespo de Grande sertão: veredas, que seria publicada pela Biblioteca Ayacucho, contando também com um ensaio da pesquisadora Marília Rothier Cardoso sobre a tradução e a correspondência de Rosa. Infelizmente, a edição venezuelana não aconteceu. Porém, o ensaio foi transformado em livro, no Brasil, em 2017 – e o texto de Marília Rothier Cardoso foi publicado apenas em espanhol, na edição chilena (Cardoso, 2018). Pensado primeiramente como um prefácio dedicado ao público estrangeiro – especialmente hispano-americano – o ensaio se tornou uma das referências incontornáveis da crítica rosiana contemporânea. Ele pretendia não só se debruçar sobre as questões formais e propriamente literárias do romance, mas também esboçar um balanço de sua recepção crítica. Não apenas isso, mas o texto de Silviano coloca Grande sertão no centro da vida pública brasileira, sublinhando sua condição intempestiva que parece nortear o impudor formal e monstruoso do livro, lembremos: “[…] Grande sertão: veredas é ácido, corrosivo e principalmente intempestivo” (Santiago, 2017: 23). É a partir dessa intempestividade própria à obra de Rosa que Silviano desenha seu itinerário crítico.

Em tom provocativo, no seu livro mais recente,[2] Silviano propõe uma tradição desafortunada[3] da literatura brasileira, cujos avatares estão entre Machado de Assis, Sousândrade, Clarice Lispector e, é claro, Guimarães Rosa (Santiago, 2024: 77 e 79). Autores estes que se distanciam do seu próprio enquadramento mais imediato, que são extemporâneos em suas respectivas embocaduras, que recusam certo nacionalismo dogmático que se alastra, de modo relativamente sistemático, desde pelo menos o século XIX. Não apenas isso, mas esses autores propositalmente borram os limites da nação e tocam os problemas caros à literatura dita “universal”. Dessa maneira, Silviano vai, aos poucos, montando o seu paideuma, cujo corpus literário soa sempre fora de lugar se comparado à paisagem contemporânea que o cerca. É por aí que Silviano chega a equiparar a recepção crítica de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, à domesticação de Grande sertão: veredas (Santiago, 2024: 110)[4], ambos os livros, cada um intempestivo ao seu modo, de difícil apreensão e que, indelevelmente, embaralham as coordenadas da crítica literária especializada. Assim, a wilderness dessas obras, seja Sousândrade, Machado, Rosa ou Lispector, oferecem ao cenário relativamente pacificado do território literário algo da selvageria das formas rebeldes, de uma dicção fora de seu tempo, que desagrada os leitores adestrados.

Importante salientar a coragem de Silviano em enfrentar a crítica consagrada do romance de Rosa, a partir da noção de domesticação. Isso quer dizer revisitar uma figura como Antonio Candido, que leu Grande sertão: veredas junto a’Os sertões, de Euclides da Cunha – hipótese que tem em Wille Bolle (2004) um dos seus mais importantes continuadores. Ou ainda a análise comparada de Roberto Schwarz (1965) do romance brasileiro e o mito fáustico goethiano de origem germânica, ou seja, o tema do pacto com o Diabo desdobrado por Thomas Mann em Doutor Fausto. A coragem também aparece na leitura original de Grande sertão como uma espécie de romance gay, na apreciação em close reading de passagens que revelam o caráter fálico, grosso e ereto, tanto do rio São Francisco quanto do buriti-grande, delicadamente abeirados à relação ambivalente de Riobaldo com a figura andrógina de Diadorim. A relação homofílica é perquirida junto à virilidade masculina do livro, ao conservadorismo patriarcal e secular brasileiro, de modo a avultar a maneira como esses agenciamentos produzem uma obra de compreensão laboriosa, dado que avaliza o tom ríspido de Silviano diante da primeira recepção do romance.

Seu estilo demolidor tem parentesco na filosofia alemã do século XIX. Estampado na epígrafe de Genealogia da ferocidade, a figura de Friedrich Nietzsche é chamada à baila para dar certo lastro à noção de ferocidade, remetendo a uma passagem de Ecce homo sobre Zaratustra. Não apenas isso, mas o próprio título do ensaio de Silviano nos remete ao Genealogia da moral, livro importante de Nietzsche, cuja proximidade parece estar na abolição sistemática tanto do primado da representação como do paradigma da verdade. É assim também que o ensaio se filia a toda uma tradição da filosofia francesa que encontra em Jacques Derrida um dos seus mais importantes personagens – a quem Silviano faz questão de expor sua dívida.

Portanto, de Nietzsche, a ferocidade para ler o romance de Rosa, que resvala na forma selvagem do livro, na sua monstruosidade contraposta ao clima da década de 1950: “A obra-prima de Guimarães Rosa, em virtude da ferocidade nela dramatizada com rigor barroco, suplementa a euforia desenvolvimentista do governo Juscelino Kubitschek” (Santiago, 2024: 110, grifos do autor). Quer dizer, “[…] Grande sertão: veredas é – ao contrário da nova capital federal – ribeirinho e verde, barrento e encardido, anárquico e selvagem” (Santiago, 2017: 21). É assim que o romance tece duras críticas ao progresso à brasileira, como diz Silviano em entrevista concedida à Folha de São Paulo sobre seu ensaio, mostrando como no Grande sertão existe “[…] uma alegoria da nação toda vez que ela passa por um movimento desenvolvimentista sem se preocupar com as questões humanas e sociais” (Meireles, 2017). Nesse sentido, ainda dentro do espírito nietzschiano, Grande sertão é extemporâneo, pois diz respeito a um anacronismo na leitura do texto literário, a certo descompasso da obra com seu tempo que, justamente por isso, permite que ela se abra diante do presente, das questões latentes do Brasil, dos seus enclaves: “Trata-se de um enclave arcaico, perdido por detrás da serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, a esbofetear a pseudomodernidade do pós-colonialismo no Brasil e na América Latina” (Santiago, 2017: 103).

O sociólogo Gabriel Feltran, em texto escrito para a Folha de São Paulo em 2023, reflete sobre os impasses do governo Lula no tema da segurança pública. Em tom ensaístico, Feltran visita os erros históricos das gestões anteriores e os desafios contemporâneos, como a escalada da violência no território amazônico, e faz uso da categoria de “jagunço” para pensar a nova estruturação do poder e a relação desses atores com a brutalidade estatal: “Os jagunços […] são, hoje, também vereadores, deputados estaduais, senadores e governadores de extrema direita. São empresários da segurança privada. Controlam ainda as armas do Estado. […] O inimigo de Lula, que vemos chegando pelas notícias, é esse totalitarismo que brota da acumulação ilegal, da corrupção, dessa politização dos jagunços e das facções, dessas armas” (Feltran, 2023).

Hoje, a categoria de “jagunço” parece mobilizar algo já desenhado na crítica à modernização conservadora no romance de Rosa aos olhos de Silviano, um impulso irascível da massa remediada e a dificuldade de domesticar a força anti-institucional da jagunçagem. As linhas que parecem nortear a crítica de Silviano ganham certo rendimento se nos deparamos com os dilemas e enclaves da Nova República, com seu esgotamento e seus limites internos.

Genealogia da ferocidade estica o enclave à política nacional em 2017, quer dizer, consciente do terrível cenário que se desenhava no horizonte, após o golpe de 2016, que retirou a presidenta Dilma Rousseff, e com o recrudescimento da política de austeridade econômica que se concretizava com a PEC do teto de gastos, a reforma da previdência e o novo ensino médio, Silviano não poderia prever o que se aproximava, no ano seguinte, com a eleição do mal[5], em 2018. Já em 2019, embebido do caos político que tomava conta dos noticiários com o desmonte das políticas públicas conquistadas a duras penas pelos movimentos sociais nas décadas anteriores, temos uma reedição memorável do romance de Rosa, feita pela Companhia das Letras e resenhada por Silviano no Suplemento Pernambuco. Nesse novo episódio, o enclave arcaico do romance é acionado novamente para pensar a extemporaneidade do livro: “Quanto mais a narrativa de Grande sertão: veredas se volta para o passado, mais e mais ela se afirma no nosso presente sob a forma de inevitável e atual apocalipse” (Santiago, 2019b: 28).

Ainda em 2019, lemos em artigo de Silviano para o Estadão: “Em tempos de Carandiru, quisemos armar sistema de controle de enclaves, afinado com o moderno saber das ciências sociais, e nos tornamos tão ou mais irascíveis que Zé Bebelo” (Santiago, 2019a), assim, a irascibilidade é retomada da economia interna de Grande sertão, para a leitura dos mecanismos de “pacificação” dos enclaves, tópos que se repete na história brasileira. No mesmo ano, lemos também no encarte de uma das montagens do Grande sertão para o teatro de Bia Lessa um texto de Silviano: “O esforço positivo da modernização é localizado, centrado e privilegia. Nas margens, cria enclaves de párias – bairros miseráveis, favelas, prisões, manicômios etc. − onde violentas forças antagônicas se defrontam e se afirmam pela ferocidade da sobrevivência a qualquer custo, acirrando a irascibilidade do controle e do mando”. É por aí que o romance se torna contemporâneo, por mirar no passado e acertar nosso presente.

Notas

[1] Lido por André Vallias no episódio “Não tem tradução?”, da Rádio Letras UFF (Universidade Federal Fluminense).

[2] Trata-se de um projeto comparativo entre Machado de Assis e Marcel Proust intitulado O grande relógio: A que hora o mundo recomeça, cujo primeiro volume foi publicado no segundo semestre de 2024 pela editora Nós.

[3] O contraponto, aqui, é Afrânio Coutinho e a tradição afortunada da literatura brasileira.

[4] O tema da domesticação também aparece em coletânea recentemente publicada de ensaios do crítico, especificamente para ler a recepção da obra de Machado de Assis e outros autores como Sousândrade (Santiago, 2023: 59-60).

[5] Para a discussão sobre a política brasileira, a metafísica e o problema do mal, delineada pelo pensamento estético-político de Rosa, ver o recente “Ensaio sobre o mal (Dilma, Rosa)”, de João Camillo Penna (2024).

Referências

BOLLE, Willi. (2004). grandesertão.br. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34.

CARDOSO, Marília Rothier. (2018). La traducción española de Gran sertón: veredas. In: SANTIAGO, Silviano. Genealogía de la ferocidad. Ensayos sobre Gran sertón-veredas, de Guimarães Rosa; Edición y traducción de Mary Luz Estupilán. Santiago de Chile: Mímeses, p. 127-150.

FELTRAN, Gabriel. (2003). Lula ainda não despertou para a contrarrevolução dos jagunços. Ilustríssima; Folha de São Paulo, 16/03/2023.

HEINE, Heinrich. (1865). Préface In: Reisebilder / Tableaux de voyage. Paris: La Librairie Nouvelle, p. 1-5.

MEIRELES, Maurício. (2017). Crítica tentou domesticar ‘Grande Sertão: Veredas’, diz Silviano Santiago. Folha de São Paulo, 25/03/2017.

PENNA, João Camillo Barros de Oliveira. (2024). Ensaio sobre o mal (Dilma, Rosa). Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 63, n. 2, p. 291-305.

SANTIAGO, Silviano. (2017). Genealogia da ferocidade: ensaio sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Recife: Cepe.

SANTIAGO, Silviano. (2023). Grafias de vida — a morte. São Paulo: Companhia das Letras.

SANTIAGO, Silviano. (2024). O grande relógio: A que hora o mundo recomeça – Caderno em andamento 1. São Paulo: Editora Nós.

SANTIAGO, Silviano. (2019a). Análise: ‘Grande Sertão: Veredas’ continua tão moderno como outro clássico nacional, ‘Os Sertões’. Estadão, 25/10/2019.

SANTIAGO, Silviano. (2019b). O apocalipse que permanece no relevo de Rosa”. Suplemento Pernambuco, Edição 156, fevereiro de 2019.

SCHWARZ, Roberto. (1965). Grande-Sertão e Dr. Faustus. In: A sereia e o desconfiado: ensaios críticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 28-36.

Sobre o autor

Gabriel Martins da Silva é sociólogo e doutorando em Letras pela PUC-Rio.


Grande sertão: veredas, novela y enclave

Siempre va a ser una cuestión difícil de resolver cómo se debe traducir al francés a un escritor alemán. ¿Hay que podar acá y allá pensamientos e imágenes cuando no se ajustan al gusto civilizado de los franceses? ¿Y cuándo puedan parecerles un exceso desagradable o incluso ridículo? ¿O hay que introducir al alemán salvaje en el bello mundo parisino con toda su originalidad del otro lado del Rin, fantásticamente colorido y recargado de adornos tan románticos? En mi opinión, no creo que haya que traducir al alemán salvaje en un francés domesticado, y es por eso que me presento acá con mi barbarie nativa, como los charrúas, a quienes ustedes les dieron, el verano pasado, una acogida tan benévola. Yo también soy un guerrero, como lo fue el gran Tacuabé.

—Heinrich Heine, en el prefacio a la edición francesa (Tableaux de voyage, 1834) de Reisebilder[1]

Los trazos rectos de la arquitectura moderna, el tamaño diminuto del banquito y la guitarra de la bossa nova, la poesía matematizada y económica de João Cabral de Melo Neto, el constructivismo abstracto y geométrico de Ivan Serpa o el concretismo de Max Bill, todo eso aparece como el escenario estético de la segunda mitad de la década del cincuenta, cuya expresión máxima es la construcción de Brasilia: una ciudad erigida en el corazón salvaje de Brasil. En el reverso de la precisión matemática de esas formas culturales está Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, un objeto no identificado dentro del universo literario brasileño, un cuerpo extraño que irrumpe de forma radical en el medio intelectual. La verborragia caudalosa y fluvial de su prosa, su gigantismo de nacimiento – una novela de más de 500 páginas sin división en capítulos, con un lenguaje de difícil captación – parece contradecir todo lo que se venía haciendo en el campo de la literatura y de las artes de aquel momento. “Como un monstruo, Grande sertão: veredas emerge intempestivamente en la discreta, ordenada y suficientemente autocentrada vida cultural brasileña, entonces en plena euforia político-desarrollista” (Santiago, 2017: 11), escribe Silviano Santiago en Genealogia da ferocidade: ensaio sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa (2017).

El libro de Silviano fue escrito inicialmente como prefacio para la edición venezolana de la traducción al español de Grande sertão: veredas realizada por Ángel Crespo, que iba a ser publicada por la Biblioteca Ayacucho, y que contaría además con un ensayo de la investigadora Marília Rothier Cardoso sobre la traducción y la correspondencia de Rosa. Lamentablemente, esa edición venezolana no se concretó, pero el ensayo fue transformado en libro, en Brasil, en 2017 – y el texto de Marília Rothier Cardoso fue publicado únicamente en español, en la edición chilena (Cardoso, 2018). Pensado inicialmente como un prefacio dirigido al público extranjero – especialmente hispanoamericano – se convirtió en una de las referencias ineludibles de la crítica rosiana contemporánea, un ensayo que pretendía no solo abordar las cuestiones formales y literarias propiamente dichas de la novela, sino también esbozar un balance de su recepción crítica. No solo eso: el texto de Silviano sitúa a Grande sertão en el centro de la vida pública brasileña, subrayando su carácter intempestivo, que parece guiar el impudor formal y monstruoso del libro. Recordemos: “Grande sertão: veredas es ácido, corrosivo y sobre todo intempestivo” (Santiago, 2017: 23). Es a partir de esa condición intempestiva propia de la obra de Rosa que Silviano traza su itinerario crítico.

Con un tono provocador[2], en su libro más reciente, Silviano propone una tradición desafortunada[3] de la literatura brasileña, cuyos avatares son Machado de Assis, Sousândrade, Clarice Lispector y, por supuesto, Guimarães Rosa (Santiago, 2024: 77 y 79). Autores que se distancian de sus propios contextos inmediatos, que son extemporáneos en sus respectivas escrituras, que rechazan cierto nacionalismo dogmático que se disemina, de modo relativamente sistemático, desde por lo menos el siglo XIX. Y no solo eso: estos autores desdibujan deliberadamente los límites de la nación y abordan problemas fundamentales de la literatura llamada “universal”. De esa manera, Silviano va armando poco a poco su paideuma, cuyo corpus literario siempre suena fuera de lugar si se lo compara con el paisaje contemporáneo que lo rodea. Por esa vía, Silviano llega incluso a equiparar la recepción crítica de Memorias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, con la domesticación de Grande sertão: veredas (Santiago, 2024: 110)[4]: ambos libros, cada uno intempestivo a su modo, difíciles de aprehender y que, de forma indeleble, desordenan las coordenadas de la crítica literaria especializada. Así, la wilderness de esas obras – ya se trate de Sousândrade, Machado, Rosa o Lispector – ofrece al escenario relativamente pacificado del territorio literario algo de la salvajería de las formas rebeldes, una dicción fuera de época, que incomoda a los lectores entrenados.

Cabe destacar la valentía de Silviano al enfrentarse con la crítica consagrada de la novela de Rosa, a partir de la noción de domesticación. Eso implica revisar figuras como la de Antonio Candido, quien leyó Grande sertão: veredas junto a Os sertões, de Euclides da Cunha – una hipótesis que tuvo en Willi Bolle (2004) a uno de sus continuadores más importantes. O incluso el análisis comparado de Roberto Schwarz (1965) entre la novela brasileña y el mito fáustico goetheano de origen germánico, es decir, el tema del pacto con el Diablo, tal como fue retomado por Thomas Mann en Doctor Fausto. También se destaca la audacia de Silviano en su lectura original de Grande sertão como una especie de novela gay, a través del análisis minucioso de pasajes que revelan el carácter fálico, grueso y erecto tanto del río São Francisco como del buriti-grande, delicadamente puestos en relación con el vínculo ambivalente de Riobaldo con la figura andrógina de Diadorim. Esa relación homofílica es examinada en diálogo con la virilidad masculina del libro, con el conservadurismo patriarcal y secular brasileño, lo que permite iluminar la forma en que esos agenciamientos producen una obra de comprensión laboriosa, lo que da sustento al tono severo de Silviano frente a la primera recepción de la novela.

Su estilo demoledor entronca con la filosofía alemana del siglo XIX. Estampada en el epígrafe de Genealogia da ferocidade, la figura de Friedrich Nietzsche aparece invocada para darle un cierto respaldo a la noción de ferocidad, remitiendo a un pasaje de Ecce homo sobre Zaratustra. Y no solo eso: el propio título del ensayo de Silviano remite a Genealogía de la moral, libro clave de Nietzsche, cuya cercanía parece estar en la abolición sistemática tanto del primado de la representación como del paradigma de la verdad. De este modo, el ensayo se filia a toda una tradición de la filosofía francesa que encuentra en Jacques Derrida a uno de sus protagonistas más importantes – a quien Silviano no deja de reconocerle su deuda.

De Nietzsche, entonces, la ferocidad para leer la novela de Rosa, que roza con la forma salvaje del libro, con su monstruosidad enfrentada al clima de la década del cincuenta: “La obra maestra de Guimarães Rosa, en virtud de la ferocidad dramatizada en ella con rigor barroco, suplementa la euforia desarrollista del gobierno de Juscelino Kubitschek” (Santiago, 2024: 110, destacados del autor). Es decir, “Grande sertão: veredas es – al contrario de la nueva capital federal – ribereño y verde, barroso y manchado, anárquico y salvaje” (Santiago, 2017: 21). De ese modo, la novela teje duras críticas al progreso a la brasileña, como afirma Silviano en una entrevista concedida al diario Folha de São Paulo sobre su ensayo, mostrando cómo en Grande sertão se plantea “[…] una alegoría de la nación cada vez que atraviesa un movimiento desarrollista sin preocuparse por las cuestiones humanas y sociales” (Meireles, 2017). En ese sentido, aún dentro del espíritu nietzscheano, Grande sertão es extemporáneo, porque implica un anacronismo en la lectura del texto literario, un cierto desfasaje de la obra con su tiempo que, justamente por eso, permite que se abra al presente, a las cuestiones latentes del Brasil, a sus enclaves: “Se trata de un enclave arcaico, perdido detrás de la sierra de Mantiqueira, en Minas Gerais, que abofetea la pseudomodernidad del poscolonialismo en Brasil y en América Latina” (Santiago, 2017: 103).

El sociólogo Gabriel Feltran, en un texto escrito para Folha de São Paulo en 2023, reflexiona sobre las encrucijadas del gobierno de Lula en materia de seguridad pública. Con un tono ensayístico, Feltran repasa los errores históricos de las gestiones anteriores y los desafíos contemporáneos – como la escalada de la violencia en el territorio amazónico – y recurre a la categoría de jagunço para pensar la nueva estructuración del poder y la relación de esos actores con la brutalidad estatal: “Los jagunços […] son, hoy, también concejales, diputados provinciales, senadores y gobernadores de extrema derecha. Son empresarios de la seguridad privada. Siguen controlando las armas del Estado. […] El enemigo de Lula, el que vemos llegar por las noticias, es ese totalitarismo que brota de la acumulación ilegal, de la corrupción, de esta politización de los jagunços y las facciones, de esas armas” (Feltran, 2023).

Hoy en día, la categoría de jagunço parece movilizar algo ya anticipado en la crítica a la modernización conservadora de la novela de Rosa en la lectura de Silviano: un impulso irascible de las masas precarizadas y la dificultad para domesticar la fuerza antiinstitucional del jagunçaje. Las líneas que parecen guiar la crítica de Silviano adquieren cierta eficacia si las ponemos en diálogo con los dilemas y enclaves de la Nueva República, con su agotamiento y sus límites internos.

Genealogia da ferocidade extiende la noción de enclave a la política nacional de 2017, es decir, en plena conciencia del escenario ominoso que se perfilaba en el horizonte tras el golpe de 2016 que destituyó a la presidenta Dilma Rousseff, y con el recrudecimiento de una política de austeridad económica que se consolidaba con la enmienda constitucional del techo de gastos, la reforma previsional y la reforma del nivel medio. Silviano no podía prever lo que se avecinaba al año siguiente, con la elección del mal[5] en 2018. Ya en 2019, inmerso en el caos político que invadía los noticieros con el desmantelamiento de las políticas públicas conquistadas con esfuerzo por los movimientos sociales en décadas anteriores, se publica una reedición memorable de la novela de Rosa, realizada por la editorial Companhia das Letras y reseñada por Silviano en el Suplemento Pernambuco. En ese nuevo episodio, el enclave arcaico del romance vuelve a ser activado para pensar la extemporaneidad del libro: “Cuanto más la narrativa de Grande sertão: veredas se vuelca al pasado, más y más se afirma en nuestro presente bajo la forma de un inevitable y actual apocalipsis” (Santiago, 2019b: 28).

También en 2019, leemos en un artículo de Silviano publicado en el Estadão: “En tiempos de Carandiru, quisimos armar un sistema de control de enclaves, afinado con el saber moderno de las ciencias sociales, y nos volvimos tan o más irascibles que Zé Bebelo” (Santiago, 2019a). Así, la irascibilidad es retomada desde la economía interna de Grande sertão para leer los mecanismos de “pacificación” de los enclaves, un tópos que se repite a lo largo de la historia brasileña. Ese mismo año, leemos también, en el programa de una de las puestas teatrales de Grande sertão dirigidas por Bia Lessa, un texto de Silviano: “El esfuerzo positivo de la modernización está localizado, centrado y privilegia. En los márgenes, crea enclaves de parias – barrios miserables, favelas, cárceles, manicomios etc.– donde fuerzas violentas y antagónicas se enfrentan y se afirman mediante la ferocidad de la supervivencia a cualquier costo, intensificando la irascibilidad del control y del mando”. Es por esa vía que la novela se vuelve contemporánea: por apuntar al pasado y dar de lleno en nuestro presente.

Notas

[1] Leído por André Vallias en el episodio “¿No tiene traducción?”, de Radio Letras UFF (Universidad Federal Fluminense).

[2] Se trata de un proyecto comparativo entre Machado de Assis y Marcel Proust titulado O grande relógio: A que hora o mundo recomeça, cuyo primer volumen fue publicado en el segundo semestre de 2024 por la editorial Nós.

[3] El contrapunto, acá, es Afrânio Coutinho y la tradición afortunada de la literatura brasileña.

[4] El tema de la domesticación también aparece en una recopilación de ensayos recientemente publicada por el crítico, específicamente para analizar la recepción de la obra de Machado de Assis y de otros autores como Sousândrade (Santiago, 2023: 59-60).

[5] Para la discusión sobre la política brasileña, la metafísica y el problema del mal, delineada por el pensamiento estético-político de Rosa, véase el reciente “Ensaio sobre o mal (Dilma, Rosa)”, de João Camillo Penna (2024).

Referencias

BOLLE, Willi. (2004). grandesertão.br. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34.

CARDOSO, Marília Rothier. (2018). La traducción española de Gran sertón: veredas. In: SANTIAGO, Silviano. Genealogía de la ferocidad. Ensayos sobre Gran sertón-veredas, de Guimarães Rosa; Edición y traducción de Mary Luz Estupilán. Santiago de Chile: Mímeses, p. 127-150.

FELTRAN, Gabriel. (2003). Lula ainda não despertou para a contrarrevolução dos jagunços. Ilustríssima; Folha de São Paulo, 16/03/2023.

HEINE, Heinrich. (1865). Préface In: Reisebilder / Tableaux de voyage. Paris: La Librairie Nouvelle, p. 1-5.

MEIRELES, Maurício. (2017). Crítica tentou domesticar ‘Grande Sertão: Veredas’, diz Silviano Santiago. Folha de São Paulo, 25/03/2017.

PENNA, João Camillo Barros de Oliveira. (2024). Ensaio sobre o mal (Dilma, Rosa). Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 63, n. 2, p. 291-305.

SANTIAGO, Silviano. (2017). Genealogia da ferocidade: ensaio sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Recife: Cepe.

SANTIAGO, Silviano. (2023). Grafias de vida — a morte. São Paulo: Companhia das Letras.

SANTIAGO, Silviano. (2024). O grande relógio: A que hora o mundo recomeça – Caderno em andamento 1. São Paulo: Editora Nós.

SANTIAGO, Silviano. (2019a). Análise: ‘Grande Sertão: Veredas’ continua tão moderno como outro clássico nacional, ‘Os Sertões’. Estadão, 25/10/2019.

SANTIAGO, Silviano. (2019b). O apocalipse que permanece no relevo de Rosa”. Suplemento Pernambuco, Edição 156, fevereiro de 2019.

SCHWARZ, Roberto. (1965). Grande-Sertão e Dr. Faustus. In: A sereia e o desconfiado: ensaios críticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 28-36.

Sobre el autor

Gabriel Martins da Silva es sociólogo y doctorando en Letras por la PUC-Rio.