
Há um ano, publicamos, pelo selo BVPS Coleção, o e-book Helô no Jornal do Brasil (1980-2005), em comemoração aos 85 anos de Heloisa Teixeira. O e-book reuniu, de forma inédita, uma seleção de artigos assinados por ela – ainda como Heloisa Buarque de Hollanda – em diferentes momentos de sua colaboração com o JB, o grande jornal carioca que marcou época. Helô ficou muito empolgada com o projeto e comentou, surpresa, o quanto havia lido para escrever aqueles artigos. Claro, fez sugestões e até implicou com a nossa capa, inspirada nos clássicos da editora Gallimard.
A compilação foi realizada durante a pesquisa para o livro Helô Teixeira: crítica como vida (Bazar do Tempo, 2024), que escrevemos a pedido de Helô e para ela. Foi uma vitória superar tantos desafios contra o tempo que nos corria. Helô teve a oportunidade de ler o livro, estranhar, descobrir, criticar. Pensando em amanhã, dia 26 de julho, quando celebraria mais um aniversário, relembramos essa coletânea única em sua obra e apresentamos uma breve análise desse material, que consideramos fundamental para compreender a cultura brasileira na passagem do século XX para o XXI.
No clima de festa que ela tanto gostava, celebramos a vida de Helô, sempre presente em tudo o que fazemos na BVPS.
– André Botelho e Caroline Tresoldi
Que a folha traga e traduz: Helô no Jornal do Brasil
Por André Botelho (UFRJ) &
Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ)
Durante muito tempo – tempo demais, talvez –, a participação dos intelectuais na imprensa brasileira foi considerada como uma particularidade da incipiente institucionalização da vida acadêmica no país e, até mesmo, excludente das tarefas que seriam próprias do scholar. Ao nos depararmos com um conjunto de textos publicados por Heloisa Teixeira – à época Heloisa Buarque de Hollanda – no Jornal do Brasil (JB) entre 1980 e 2005, observamos, entre outras coisas, como o exercício da vocação pública pela imprensa pode ser interpretado de outros modos. Mais especificamente, sugerimos que a atividade na imprensa não precisa ser considerada um índice de baixa institucionalização acadêmica, mas, ao contrário, uma forma de relacionar a universidade ao espaço público, articulando as inovações acadêmicas à formação de um público leitor mais amplo (Bastos & Botelho, 2010). Folha do jornal (depois tela do computador) e, sempre, a sala de aula pareciam integrar um contínuo em que se jogava, mutuamente, inovação, transmissão e consolidação intelectual.
No caso que estudamos aqui, precisamos esclarecer, antes de mais nada, que Heloisa tinha um perfil intelectual pouco convencional, sobretudo se considerarmos os parâmetros de especialização acadêmica das últimas décadas no país. Ela não só foi professora universitária e pesquisadora, ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) de 1964 até sua morte, em 2025, onde atuou tanto na Faculdade de Letras quanto na Escola de Comunicação. Heloisa também foi editora de livros, organizadora de antologias cults, colunista de jornal, curadora de exposições, diretora de documentários cinematográficos e televisivos, idealizadora da Universidade das Quebradas e muito mais. Sua trajetória foi marcada pelo constante empenho em construir pontes entre a academia e a sociedade, e vice-versa, e sua colaboração com a imprensa – uma frente talvez menos conhecida de sua atuação intelectual – é apenas um dos exemplos desse empenho.
Na década de 1970, Helô colaborou eventualmente com jornais alternativos que faziam oposição à ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). No jornal Opinião, por exemplo, ela escreveu sobre cinema, artes plásticas e registrou suas primeiras impressões sobre a chamada “poesia marginal”, manifestação poética que surgiu no país naquele momento e selaria seu destino intelectual. Essa manifestação, inclusive, foi um dos temas abordados em sua tese de doutorado em Literatura Brasileira, defendida em 1979 na UFRJ e publicada no ano seguinte com o título Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde (1960-1970). Mas é no final de 1980, apostando no “ensaio democrático” que se abria com a Lei da Anistia, sancionada no ano anterior, que Helô resolveu se arriscar na colaboração mais frequente com a grande imprensa. Em Escolhas, sua autobiografia intelectual, ela revela: “o momento era especialmente estimulante para o debate e para a pesquisa. A volta dos exilados, o processo de transição democrática, os primeiros sinais da vida na imprensa pós-68 (….). Não fossem os novos ventos, provavelmente, não teria me exposto tão publicamente” (Hollanda, 2009: 64).
Em 13 de dezembro de 1980, ela foi apresentada na primeira página do JB:
Heloisa Buarque de Hollanda, a partir de hoje, está uma vez por mês no JORNAL DO BRASIL, dividindo com Wilson Martins, José Guilherme Merquior e Mario Vargas Llosa espaço destinado à crítica de livros e ideias. Professora da UFRJ, Heloisa publicou várias obras, entre as quais 26 poetas hoje, Companheiros [sic] de Viagem e Patrulhas Ideológicas” (Jornal do Brasil, 1980: 1).
Mais adiante, no famoso suplemento “Caderno B”, que marcou e formou culturalmente gerações de leitoras e leitores, incluíram-se mais informações sobre a formação e as atividades profissionais da nova colaboradora, bem como sobre suas propostas para a coluna. Talvez Helô não precisasse de todas essas credenciais para ser apresentada ao público leitor do Caderno B. Seus livros, afinal, já vinham sendo divulgados naquelas páginas desde 1976, quando ela publicou a polêmica antologia 26 poetas hoje, que reuniu alguns nomes vinculados à poesia marginal – como Francisco Alvim, Cacaso, Chacal, Afonso Henriques Neto, Eudoro Augusto, Charles Peixoto, Waly Salomão, Ana Cristina Cesar, Roberto Schwarz, entre outros. Além do mais, Helô era requisitada por jornalistas para comentar questões que envolviam a cultura brasileira, especialmente quando o assunto era poesia.
Encontramos, por isso, um conjunto expressivo de matérias ao digitarmos “Heloisa Buarque de Hollanda” na caixa de busca da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional quando procurávamos seus textos no Jornal do Brasil. Localizá-los não foi uma tarefa simples, tamanha a recorrência de entradas com seu nome. Achamos 35 textos publicados no intervalo entre 1980 e 2005. Haverá outros? Talvez sim, mas esses textos que encontramos – breves artigos e algumas poucas entrevistas – já são bastante representativos das questões que a crítica levantou a um grande público, procurando promover, como ela sempre gostou de fazer, diálogos entre a produção acadêmica e a sociedade.
A leitura cerrada dos textos encontrados, aliada à análise da produção acadêmica de Heloisa no mesmo período, permite identificar que seus interesses de pesquisa e suas “paixões” intelectuais vinham à tona nas páginas do Jornal do Brasil. Para fins analíticos, podemos dividir os textos em dois grupos, que correspondem basicamente às duas fases em que Heloisa colaborou com o jornal carioca de circulação nacional. O primeiro grupo é composto por 24 artigos escritos para o Caderno B, publicados entre o final de 1980 e meados de 1983. O segundo grupo, por sua vez, é composto por 11 artigos, escritos espaçadamente entre 1990 e 2005, sendo mais concentrados nos anos de 1999 e 2000, momento em que Heloisa assinou brevemente outra coluna, dessa vez o Caderno Ideias, onde passou a revezar o espaço com Silviano Santiago, Flora Süssekind e Sérgio Paulo Rouanet.
A chave de leitura que desenvolvemos aqui é a de que, no espaço ocupado na imprensa, Helô promoveu modos inovadores de pensar a cultura contemporânea. Num primeiro momento, abordando questões sobre poesia, cultura e política no começo dos anos 1980, ela apostou numa nova visada para a crítica da cultura no país, aberta a novos temas, gêneros e sujeitos literários. Num segundo momento, ela utilizou o espaço do jornal para discutir o feminismo e os estudos culturais, debates com os quais teve contato nos Estados Unidos em meados da década de 1980. Nesse caso, não se tratava de atualizar o público leitor com as novidades que circulavam no centro do capitalismo, mas de refletir sobre como esses debates estavam reorganizando os modos de compreender a cultura contemporânea – inclusive desde as periferias, internacional e nacional.
Vistos em conjunto, os textos de Heloisa no JB permitem perceber a força da crítica cultural que ela performou no país nas últimas décadas e, não menos importante, como a imprensa pode ser um espaço que, simultaneamente, abre inovações intelectuais a um público leitor mais amplo e reforça-as junto à própria universidade, numa espécie de circulação tática do conhecimento, com efeito de reforço mútuo da inovação. Formulando em outros termos, talvez a comunicação pública da ciência possa ser interpretada também como momentos de inovação acadêmica, quando essa inovação passa a ser discutida e disputada dentro e fora da universidade. Neste texto, trazemos uma análise da “escrita pública”[1] de Helô nas páginas do JB, concentrando-nos sobretudo nos textos que compõem sua primeira fase de contribuição com o jornal.
***
Durante a ditadura civil-militar, especialmente nos anos pós-AI5, a repressão e a censura prévia impactaram o conteúdo veiculado nos grandes jornais, assim como a seleção dos colaboradores. No caso dos Suplementos Literários, Silviano Santiago (1982) lembra que eles passaram a ter um formato novo, no qual cabia apenas a resenha dos livros publicados pelo mercado editorial, sem muito espaço para reflexões mais amplas sobre cultura, política e sociedade. Havia espaço para algo a mais na virada para os anos 1980? Helô apostou que sim.
Seu primeiro artigo é sobre poesia. Na verdade, a poesia é assunto direto ou indireto da maioria dos textos que ela publicou em sua primeira fase como colunista do JB. Não à toa. A poesia era – e sempre foi – uma de suas obsessões, uma espécie de radar que ela utilizava para observar e interpretar uma época. Em Escolhas, por exemplo, ao escrever sobre sua compulsão em organizar antologias, ela afirma: “eu adoro poesia. Minha mídia é essa, é a poesia. Experimento a poesia de várias formas, lendo, lembrando, olhando” (Hollanda, 2009: 127). Esse gesto interessado, e também a aceitação de suas preferências estéticas e políticas no exercício crítico de confronto de linguagens, não parecia um problema para ela, sempre atenta, sobretudo, à experimentação das linguagens artísticas e ao seu potencial transformador da cultura.
Sendo a poesia sua “mídia”, nas páginas do Jornal do Brasil ela se perguntou, em diferentes artigos do começo dos anos 1980: onde foram parar os poetas marginais? Do “surto da poesia alternativa” dos anos 1970, “quem é que vai ficar”? Como a conquista de um espaço no mercado literário afeta os poetas marginais e a nova geração de poetas? Onde prolifera agora a “poesia independente”? Que tipo de poesia estaria sendo produzida nos circuitos alternativos? São perguntas importantes e também difíceis para quem havia participado do “lançamento” da poesia marginal.
Em “Depois do poemão”, seu primeiro artigo, ela sugere que haveria diversas formas de se pensar a poesia marginal dos anos 1970, mas reafirma a escolha feita na antologia 26 poetas hoje (1976) e em Impressões de viagem (1980):
Fico aqui com um de seus aspectos: um espaço de resistência cultural, um debate político. Em pleno vazio, os jovens – e os não tão jovens – põem em pauta os impasses gerados no quadro do Milagre e desconfiam progressivamente das linguagens institucionalizadas e legitimadas do Poder e do Saber. Simultaneamente, evidencia-se na produção novíssima a significativa reavaliação de um certo sentimento que informou o engajamento político e cultural pré-68. Instala-se a ênfase na importância das questões relativas à prática cotidiana, à dúvida e à descrença nos programas, no alcance do projeto revolucionário na arte e, por extensão, nas formas da militância política tal como foram encaminhadas pela geração anterior. À revelia das Academias, a literatura se impõe e se alastra de maneira surpreendente, numa hora em que o debate político e cultural, a muito custo, conseguia abrir brechas apenas nos chamados circuitos alternativos (Teixeira, 2024: 11).
Voltando a um dos assuntos de sua tese, a produção cultural alternativa durante os anos de chumbo, Heloisa procurava dar visibilidade à poesia marginal, mas agora para um público muito mais amplo, e, claro, continuava disputando interpretações sobre esse assunto, que ainda era espinhoso e bastante polêmico para a crítica literária especializada, que, via de regra, não considerava a “poesia marginal” como literatura[2]. Notemos, no trecho acima, a ousadia da crítica ao chamar a poesia marginal de “literatura” que, à revelia da academia, se impôs e se alastrou de modo surpreendente.
Ainda que os artigos de Helô sobre poesia tratem mais diretamente dos poetas marginais que emergiram sobretudo nos anos 1970, poetas que foram seus “companheiros de viagem” durante os anos mais sombrios da ditadura, ela também estava de olho no que era produzido em outros circuitos. Em “Depois do poemão”, por exemplo, anota a proliferação de uma “produção independente” feita em grupo entre os jovens da época. Sobre isso, pontua: “são os poetas de comunidade, de associações de bairro, de organizações, de periferia. Seu objetivo mais explícito: uma poesia popular, para ser lida e ouvida. O tipo de publicação mais recorrente: antologias” (Teixeira, 2024: 12). Seu olhar para outras formas de expressão poética que emergiam nos anos 1980 faz com que em seus artigos do Jornal do Brasil as categorias de “poesia alternativa”, “poesia independente”, “poesia nova”, “novíssimos” etc. se tornem instáveis e precisem ser problematizadas a cada contato com uma velha ou nova forma de expressão poética. Revelam também uma das características mais marcantes de Helô: a capacidade de antecipar tendências muito antes de outras pessoas perceberem seu caráter inovador e transformador. Vejam que, já no começo dos anos 1980, ela estava de olho na produção cultural das periferias urbanas, tema que se tornou central em sua agenda de pesquisa posteriormente.
Sobre esse primeiro artigo, vale pontuar ainda que Helô coloca em debate uma questão que reaparece direta ou indiretamente na primeira fase em que ela atuou como colunista do Jornal do Brasil: qual seria o papel dos intelectuais no começo dos anos 1980? Eles ficariam confinados na universidade? Olhariam para as ruas? Renovariam seus temas e problemas de pesquisa? Sua proposta para a coluna é bastante clara desde o início. Ela faz questão de enfatizar em sua apresentação como colunista que não iria “escrever crítica literária”, o que, sem dúvida, chama a atenção vindo de uma professora com formação e atuação acadêmica na área de letras. Helô diz que seu objetivo seria, antes, “apreender o que está no ar no debate cultural e dar as pistas. (…) defendo este meu jeito de trabalhar, de fazer um trabalho que alinhava pistas e confrontos, uma coisa, ao final, meio fragmentada” (Jornal do Brasil, 1980: 10, grifos nossos).
O comentário é interessante quando lemos seus artigos no JB em conjunto. Ele não deixa de apontar, de certo modo, a insatisfação de Heloisa com o estado da crítica literária universitária no país, ao mesmo tempo que afirma sua tomada de posição teórica: “apreender o que está no ar no debate cultural”. A insatisfação com a crítica literária tinha razão de ser. Seus trabalhos acadêmicos – mestrado e doutorado – foram considerados, no mínimo, incomuns para os parâmetros da época.
No mestrado em Literatura Brasileira, por exemplo, defendido em 1974 também na UFRJ, ela estudou Mário de Andrade e a transposição de sua obra maior, Macunaíma (1928), para o cinema de Joaquim Pedro de Andrade, num gesto ousado que cruzou as linguagens da literatura (modernista) e do cinema (novo) (Hollanda, 1978). A tese de doutorado, por sua vez, foi considerada pela banca um tanto “impressionista”, porque tratava em primeira pessoa de uma produção literária e cultural que ela tinha acompanhado de perto. Ou seja, sem o distanciamento que era considerado adequado no meio científico e que a crítica universitária vinha tentando afirmar desde os anos 1950, de modo a se afastar da chamada crítica de rodapé (Süssekind, 2003). Além disso, a crítica literária que ela considerava “tradicional”, por assim dizer, não tinha espaço para o tratamento dos objetos que ela privilegiava, estando mais interessada nos assuntos sobre a formação nacional, na investigação de estilos de época e dos grandes escritores, na pesquisa sobre movimentos de vanguardas históricos etc.
Talvez também por isso Heloisa aproveite esse novo espaço de atuação na grande imprensa para discutir, mais uma vez, os “assuntos menores”, marginalizados ou estigmatizados pela crítica literária universitária, como foram os poetas marginais – àquela altura dos anos 1980, alguns já não tão marginais assim. Ela escreve sobre antigas e novas publicações de Antonio Carlos de Brito (o Cacaso), Francisco Alvim, Ana Cristina Cesar, Waly Salomão, Ricardo Chacal e outros. Procura, em certo sentido, fazer uma avaliação da produção marginal dos anos 1970 e desses mesmos poetas em outro contexto – o da abertura política –, buscando esclarecer se e como o novo contexto político alterava formas e estilos.
No artigo “A hora e a vez do ‘capricho’”, de maio de 1981, Helô discute a publicação da “Coleção Capricho”, organizada por poetas marginais, e sugere que as características do “surto poético” dos anos 1970 estavam desaparecendo. Diz ela:
se em 1974, pleno “quadro do sufoco”, a descoberta de possibilidade de intervenção e de linguagem levavam a um frenesi, hoje, a perspectiva do poeta em relação a sua prática coloca em pauta a necessária questão do capricho. Capricho poético (uma indagação irônica sobre o fazer artístico?), capricho na poesia. Percebe-se um cuidado explícito, textos mais densos e mais extensos, um trabalho voltado claramente para a linguagem. Capricho esse que se estende ao projeto e à composição gráfica dos livros (Teixeira, 2024: 37).
A avaliação de algumas mudanças no trabalho com a linguagem de nomes ligados à poesia marginal e do material que agora publicavam – menos improvisado e artesanal – é acompanhada de uma bela cutucada naqueles que defendem a objetividade na avaliação crítica:
Confesso que venho tentando ser objetiva, como pedem as regras (ou os disfarces) mais elementares do comportamento crítico, mas desisto. Trata-se de um velho caso de amor. Em 1976, organizei uma antologia onde entravam quase todos os integrantes de capricho, fiz entrevistas, dei entrevistas, publiquei uma tese (na qual Chico Alvim é capa e prefaciador) e, principalmente, me acuso, com a maior alegria, de estar falando de amigos muito queridos e com os quais vivi uma longa viagem de 15 anos. O que vinha tornando esta matéria extremamente difícil de ser conduzida (o crítico é um fingidor). A objetividade me incomodando, tornando-se progressivamente supérflua. Será esse um problema teórico? Se as “afinidades eletivas” de meu velho mestre Lukács permitiram-lhe a apaixonada defesa de Thomas Mann, o que minha crítica tupiniquim não faria por esses noves? (Teixeira, 2024: 39-40).
Helô fecha o artigo se permitindo, mais uma vez, compilar alguns poemas dos autores que compõem a “Coleção Capricho”, formando a sua antologia no jornal com Francisco Alvim, Ana Cristina Cesar, Eudoro Augusto, Afonso Henriques Neto, Pedro Lage, Ledusha e Luiz Olavo Fontes. Como já ressaltamos, Heloisa nunca negou suas paixões e preferências, mas isso não significa a ausência de um exercício crítico de sua parte. Aliás, sua tese de doutoramento é um bom exemplo do seu compromisso com a crítica, na medida em que ela faz um ajuste de contas direto e radical com sua geração (e com ela mesma) ao analisar a produção cultural vinculada aos Centros Populares de Cultura. Em certo sentido, é a partir da radicalidade da autocrítica à sua geração que ela passa a examinar a emergência dos “novíssimos” (isto é, dos poetas marginais). O que está em jogo, então, é outra concepção de crítica literária e cultural, que não esconde suas paixões e se coloca aberta para o novo, para o contingente. É com essa mesma paixão que no espaço do Jornal do Brasil também escreve sobre velhos e novos “heróis”, como Antônio Callado e Glauber Rocha, entre os mais antigos, e Darcy Ribeiro, entre os mais novos.
A investigação do novo, do fragmentado, sempre é acompanhada de certos riscos analíticos, sem dúvida, mas principalmente de muitas inquietações, como Helô também não deixou de anotar nos seus artigos de imprensa. Dois deles, quase gêmeos, são bem interessantes sobretudo pelas questões que levantam. Ao ler a literatura que emergia sob a marca da anistia, que resgatava o espírito da “literatura de exílio” ou da “poesia na prisão”, Heloisa pergunta sobre qual “gênero” ela poderia ser associada. À primeira vista, diz que essa nova literatura que tomava o mercado editorial na virada dos anos 1980 não poderia ser tratada como autobiografia, nem como relato histórico, tampouco como uma narrativa ficcional jornalística (Teixeira, 2024: 18).
Em artigo de janeiro de 1981, “Um eu encoberto”, ao mencionar livros de autores como Fernando Gabeira (O que é isso, companheiro?, 1979), Alfredo Sirkis (Os Carbonários, 1980) e Alex Polari (Inventário de cicatrizes, 1978 e Camarim de prisioneiro, 1980), a crítica se pergunta se essa literatura não poderia ser pensada a partir de seu caráter contingente. Diz ela: “mais do que um empenho em denunciar o que não foi revelado, relatar organizadamente a história que nos foi omitida, ou ainda promover a autocrítica de suas formas de militância política, podemos reconhecer aqui a discussão da trajetória de uma causa geracional” (Teixeira, 2024: 19). Seria a nova literatura um depoimento de uma geração? Deixando a questão em aberto, e dizendo que ela merecia uma nova investida, um ano depois, em fevereiro de 1982, ela voltou ao assunto.
Em “A luta dos sufocados e o prazer dos retornados”, Helô aborda sobretudo três livros que, segundo ela, a tocaram de forma particular: Um romance de geração (1980), de Sérgio Sant’Anna; Um novo animal na floresta (1981), de José Carlos de Oliveira; e De fogo e sangue (1981), de Lia Monteiro. Sobre essas obras, observa: “[…] a ausência de soluções messiânicas e o sabor ácido da precária possibilidade de uma ação política efetiva pairam, como que suspensos no ar, e revelam o avesso, em alto contraste crítico, da fantasia romântica que orientou a ascensão e a queda da luta dos sufocados” (Teixeira, 2024: 94). Embora Heloisa chegue a arriscar uma definição, sugerindo que a literatura pós-anistia seria um “testemunho geracional”, não deixa de anotar suas dúvidas em torno do novo gênero literário, numa escrita dialógica, sempre reflexiva.
É bem verdade que alguns artigos de Helô no Jornal do Brasil também mostram um lado seu de “jornalista amadora”, revelado quando ela relata fatos e acontecimentos que acompanhava no dia a dia carioca. Podemos mencionar, por exemplo, um artigo de fevereiro de 1981, quando, algo assustada, refere-se às performances que vinham ocorrendo numa “Candelária lotada”, onde se assistia, ao que tudo indicava, à “emergência do poema pornô”; ou um artigo de setembro de 1981, quando ela escreve sobre o “I Encontro Estadual de Escritores Independentes do Rio de Janeiro”, ocorrido um mês antes na Academia Brasileira de Imprensa. Ou ainda quando ela traz informações, em outubro de 1981, sobre o “Núcleo de Atualidades Poéticas”, um espaço criado por Waly Salomão e Antônio Cícero, em parceria com a Oficina Afrânio Coutinho, para “dar a palavra ao poeta”.
No entanto, mesmo nesses artigos que descrevem alguns eventos que aconteciam em diferentes lugares do Rio de Janeiro, sob a perspectiva de alguém que tomou algumas notas e quer informar o público leitor sobre os acontecimentos, o lado de jornalista amadora de Helô é sempre informado por seu olhar aguçado de crítica da cultura. Ao falar sobre a tal manifestação da poesia pornô, ela não deixa de perguntar sobre as características dessa poesia, de registrar a preocupação dessa produção com a mobilização popular e de pensá-la no quadro mais amplo de manifestações culturais no contexto da abertura política. Também manifesta seu incômodo com “a ausência de escritores alternativos à mesa” ao relatar o encontro de escritores no Rio, e aproveita a deixa para comentar a “novíssima safra poética, situada agora, basicamente, na periferia carioca” (Teixeira, 2024: 68). Ou ainda de chamar a atenção para a diversidade de quem era lido no “Núcleo de Atualidades Poéticas”.
Ou seja, até mesmo em seus artigos de “jornalista amadora”, Heloisa provoca reflexões sobre o surgimento de novas manifestações literárias e promove questionamentos sobre quem estava sendo legitimado pela crítica, pelas instituições, pelos próprios escritores e poetas. Quais os parâmetros para as escolhas? O que fica de dentro e o que fica de fora dos circuitos de legitimação? Dando um passo atrás: afinal, o que é literatura? Quem são seus sujeitos? Para quem ela se destina? Essas são questões que estavam sendo pautadas na produção acadêmica de Heloisa nos anos 1970 e que ela passa a dividir, direta ou indiretamente, com seu público nas páginas do JB, indicando sua aposta no processo de renovação da crítica literária brasileira. As páginas do jornal aparecem, assim, também como espaço de autorreflexão da crítica.
Há um artigo de Helô no Jornal do Brasil bastante emblemático que registra esse momento de renovação a que estamos nos referindo. Silviano Santiago, que também dava passos contundentes nesse processo de renovação desde a publicação de Uma literatura nos trópicos (1978)[3], o menciona no ensaio “Democratização no Brasil, 1979-1981 (cultura versus arte)”, de 1998, no qual discute uma espécie de passagem da crítica literária mais estrita, voltada para o estudo da cultura de uma “minoria letrada”, para uma crítica da cultura interessada numa pluralidade de textos e manifestações culturais, ou, para sermos mais fiéis aos termos do autor, aborda alguns momentos que desestabilizaram “de maneira definitiva a concepção de Literatura, tal como configurada pelos teóricos dominantes nas Faculdades de Letras nacionais e estrangeiras” (Santiago, 2004: 138). Trata-se de um artigo publicado em junho de 1981, no qual Heloisa discute o livro Retrato de época: poesia marginal anos 70 (1981), do antropólogo Carlos Alberto Messeder Pereira.
Em “Bandeiras da imaginação antropológica”, Heloisa manifesta sua surpresa com o trabalho do antropólogo, vendo nele uma espécie de “nova abordagem” em curso que cruzava fronteiras disciplinares – da perspectiva antropológica, o autor estudava a poesia da “geração do mimeógrafo”. Segundo ela, Carlos Alberto trata em sua tese o literário como discurso equivalente ao material que coleta de informantes sobre a poesia marginal. Com isso, “o poema é tomado como um produto que fala sobre o que significa a literatura para um determinado grupo ou época” e “o material de entrevistas é trabalhado como um texto e não como informação de primeiro grau” (Teixeira, 2024: 46). Em vez de reivindicar a literatura como discurso específico da área de letras, como poderia se esperar de alguém com formação na área, Helô argumenta que o trabalho do antropólogo poderia oferecer, na verdade, uma grande contribuição à crítica literária: “a definição do espaço que a literatura marginal ocupa em relação com as outras áreas de produção simbólica da prática social cotidiana” (Teixeira, 2024: 46, grifos no original).
Mais adiante, ela afirma ainda que o tipo de abordagem que vinha sendo feito na antropologia urbana permitia a abertura para novos objetos, como “a mulher, o negro, o homossexualismo, a religião, a droga, o trabalho do psicanalista, a produção cultural independente, as organizações de periferia etc., ou seja, os temas considerados como rejeitados pelos esquemas gerais e abstratos” (Teixeira, 2024: 48-49). Segundo a crítica, este era o empenho de uma “nova geração” de pesquisadores, de jovens desconfiados dos grandes esquemas abstratos da sociologia em geral e da sociologia marxista em particular. Essa abordagem seria um novo caminho para os estudos teóricos no Brasil? Eis a questão de Heloisa. Questão fundamental, convenhamos, porque abre caminho para o estudo de novos temas e reconhece outras possibilidades teóricas e metodológicas em andamento em diferentes áreas.
Um dos novos temas que ela estava de olho no começo dos anos 1980 era a produção literária e cultural realizada por mulheres. Na primeira leva de artigos que ela escreveu para o Jornal do Brasil, trata lateralmente desse assunto em pelo menos três textos. Um deles, de abril de 1981, discute a obra da poeta carioca Ana Cristina Cesar; outro, de agosto do mesmo ano, aborda um livro de Yoko Ono que acabava de ser lançado no Brasil; o último, de dezembro de 1982, comenta o filme Das Tripas Coração (1982), dirigido por Ana Carolina Teixeira Soares, no qual ela colaborou com a cenografia.
O texto sobre Ana Cristina menciona a novidade editorial daquele momento, Luvas de Pelica (1980), e problematiza o lugar do feminino na produção poética desses anos. Em que pesem as diferenças individuais entre a literatura produzida por mulheres, Heloisa afirma ser possível perceber “sintomas de um discurso pós-feminista, um novo espaço para a reflexão sobre o poder da imaginação feminina. Uma revolta molecular, quase imperceptível no comportamento, na sexualidade, na relação com o corpo e com a palavra” (Teixeira, 2024: 33). Observa ainda que a obra recente de Ana Cristina seria um dos melhores exemplos desse sintoma: um livrinho cor-de-rosa só no projeto gráfico e no título, pois, sendo um relato de viagens, a poeta aborda o tema sob uma perspectiva inversa, mantendo um silêncio que se guia em direção a um estranho confinamento, podendo sinalizar algo sobre a condição feminina.
No artigo sobre Yoko Ono, ela pergunta já no título: “Quem tem medo de Mrs. Lennon?”. Heloisa comenta que, em vez de se debater a qualidade estética dos trabalhos de Yoko, perde-se muito tempo registrando seu suposto papel na dissolução da banda de rock de Liverpool. Ao ler com seriedade e atenção a produção de Yoko, Heloisa identifica em Grapefruit, o lançamento daquele momento, um tipo sensível de percepção feminina do mundo, bem como a formação de uma artista radical que batalhou para que novos caminhos se abrissem na arte dos anos 1960. Para ela, a pergunta que fica diante de produções como a de Yoko Ono é: “quem tem medo do feminino?”.
Já no artigo sobre Ana Carolina, com o delicioso título “Leia o filme e veja o texto”, que embaralha as linguagens do cinema e da literatura (cuja relação é uma velha conhecida sua, desde o mestrado sobre os Macunaímas de Mário de Andrade e Joaquim Pedro), Heloisa sugere que o filme é um ensaio sobre o feminino e o masculino que expõe a condição feminina em uma sociedade opressora. É um trabalho, diz ela, “feito por uma mulher para todas as mulheres e somente para alguns homens”, no qual emerge em pânico a voz masculina internalizada na alma feminina (Teixeira, 2024: 110).
Nesses três textos, Helô aborda a produção de mulheres e registra, de certo modo, a politização do privado que as reposicionou na vida pública. Vale ressaltar, porém, que eles não se mostram especialmente simpáticos ao feminismo. Quando discute o lançamento de Ana Cristina, por exemplo, sem se explicar muito, Heloisa observa que o discurso feminista supõe “algumas simplificações e certa incapacidade para lidar com seus fantasmas mais delicados”, já que, “na busca da igualdade, o discurso que informa as lutas feministas de certa maneira legitima os mitos que sustentam o modo de produção capitalista” (Teixeira, 2024: 32). Ela chega até mesmo a falar em “pós-feminismo”, termo utilizado na época com conotação um pouco negativa para indicar que as pautas feministas (acesso à educação, a diferentes tipos de emprego etc.) já tinham sido alcançadas, restando muito pouco para as feministas contestarem.
Seu receio em relação ao feminismo, nesses termos, desaparece quando ela volta a colaborar eventualmente com o Jornal do Brasil na década de 1990. Apesar de em menor volume, esses artigos são de grande interesse quando contrastados com a primeira leva que ela publicou nesse jornal. No lugar da obsessão pela poesia – que, por certo, nunca desapareceu de todo e é discutida numa entrevista de outubro de 2000 com Armando Freitas Filho –, surge, a partir dos anos 1990, a afirmação do feminismo como crítica da cultura e, nos textos dos anos 2000, uma aposta teórica nos estudos culturais.
Helô passa a tratar, em suma, de questões e temas que ganharam sua agenda de pesquisa, e de autores e autoras que se tornaram seus novos interlocutores teóricos, como Beatriz Sarlo, Alberto Moreiras, George Yúdice e Néstor García Canclini, intelectuais em maior ou menor medida vinculados aos estudos culturais na América Latina. No meio do caminho entre o que chamamos de uma fase e outra de Heloisa no Jornal do Brasil, há uma estadia de pós-doutoramento nos Estados Unidos decisiva, onde ela tomou contato com as teorias feministas e com os estudos culturais, principalmente por intermédio da crítica Jean Franco. A crítica da cultura assumida por Helô passa, assim, a ganhar novos sentidos e interlocuções.
***
Como não há inovações num vazio de relações sociais, os experimentos intensos de Heloisa Buarque de Hollanda no Jornal do Brasil, entre 1980 e 1983, também colaboraram para abrir caminhos para novas orientações intelectuais. Analisando em maior detalhe a primeira leva de textos que ela publicou na grande imprensa, vemos que a abordagem que faz da produção literária e cultural brasileira tensiona as noções mais tradicionais de literário e de autoria, em um gesto decisivo que pressiona o campo da cultura para sua democratização. No espaço do jornal, Helô não resenhou livros, como tinha se tornado habitual na imprensa durante a ditadura. Olhando para as novidades do debate cultural, sem restringir seu escopo aos objetos mais “nobres”, eruditos e já pertencentes a algum circuito de legitimação da crítica literária, ela afirmou outras possibilidades para a crítica da cultura. Também, claro, trabalhou na chave da promoção e legitimação de autorias – algumas novíssimas, outras menos. Dentro e fora da universidade, ela estava participando de um momento de renovação da crítica literária praticada no país.
Nesse sentido, a insistência de que não iria escrever sobre “crítica literária” no Jornal do Brasil parece, em nossa leitura, uma grande provocação de Helô para seu público leitor. Seus artigos trabalham com uma concepção bastante particular de crítica da cultura, que ela já vinha experimentando em seu mestrado e doutorado, em seus projetos de pesquisa e em sala de aula. É como se ela reivindicasse, a cada novo artigo publicado, uma crítica que não fugisse à investigação do novo, do fragmentado, do inacabado. Uma crítica que escolhesse lidar com o que lhe é contemporâneo – novos objetos e sujeitos literários – e que assumisse os desafios postos pelo tempo presente. Uma crítica que não se confinasse a debater a qualidade estética de uma obra literária, de um poema, e que olhasse também para o contexto em que as obras são produzidas, pois é o contexto que permite flagrar os conflitos que organizam o campo da cultura.
Como indicamos de passagem, novos lances da trajetória de Heloisa, que se cruza e ganha sentido sociológico em relação ao processo de democratização da cultura – tão mais complexo numa sociedade diversa e desigual como a brasileira –, representados pelas perspectivas feministas e pelos estudos culturais, poderão ser conhecidos adiante, noutras oportunidades. Mas, para finalizar, queremos deixar leitoras e leitores com dois exemplos de sua segunda fase no JB, que dão pistas do que estamos sugerindo sobre esse jogo sem soma zero e que continua em aberto no contemporâneo.
No artigo “O bug do feminismo”, publicado em janeiro de 2000, Helô coloca em pauta o pensamento e as lutas feministas. Sua defesa é contundente: o pensamento teórico feminista reorganizou a cultura no fim do século XX, discutindo as noções canônicas de identidade, interpelando a epistemologia iluminista, desconstruindo noções do pensamento hegemônico e defendendo o “direito de falar e representar-se nos mais diversos domínios políticos e intelectuais” (Teixeira, 2024: 168). Além da importância teórica do feminismo, ela destaca que o movimento feminista se tornou, no cenário pós-moderno de descrédito das ideologias, uma alternativa concreta para a prática política e para as estratégias de defesa da cidadania. Apesar de Heloisa apontar algumas conquistas feministas – os dados que ela cita indicavam que, na área do trabalho, as mulheres vinham ampliando crescentemente sua presença e, no âmbito da formação, teriam escolaridade mais elevada do que a dos homens –, ela alerta que o feminismo ainda teria um longo caminho de lutas pela frente. Não só as conquistas feministas não eram bem-vistas por certos setores da sociedade, como haveria uma desigualdade nas relações entre homens e mulheres de difícil resolução. Isso porque, em sua visão, a entrada das mulheres na esfera pública não significou a reorganização da vida doméstica. Ou seja, as mulheres transformaram sua posição em quase todos os setores da vida pública, mas não alteraram os papéis que lhes foram atribuídos socialmente. É aí que se instalaria o que ela chama de “bug do feminismo”: “Desagradável e de difícil inoculação, pode sobreviver no sistema por muito tempo na forma de um gosto ou obsessão, como no domestic bug, tipo de vírus que imobiliza a memória e que pode trazer sérios transtornos para as relações (ou interfaces) de gênero nessa entrada do Y2K” (Teixeira, 2024: 171, grifo no original). Lidas nesta terceira década do século XXI, após uma nova “explosão feminista”, suas observações mostram-se certeiras.
No caso dos estudos culturais, talvez um dos textos mais emblemáticos de sua aposta nesse campo seja “Instinto de latinidade”, publicado em julho de 2001. Nele, Heloisa continua uma discussão que já vinha promovendo em textos anteriores no Jornal do Brasil sobre os estudos culturais latino-americanos. Ela lembra, por exemplo, que, no surgimento dos estudos culturais na década de 1950-1960 na Inglaterra, estava colocado em debate o reconhecimento das culturas populares, oferecendo uma nova pauta de atuação para a academia: a incorporação das experiências dos grupos dominados pelo discurso do conhecimento. Acrescenta que o desenvolvimento dos estudos culturais nas décadas subsequentes, tanto na academia norte-americana quanto na latino-americana, concentrou-se na teorização sobre a diferença social e as identidades, mas, ao que tudo indicaria, eles chegaram a uma certa exaustão no contexto em que a diversidade se tornou estratégia preferencial da expansão e estímulo ao consumo globalizado. Diante desse cenário, ela defende que os estudos culturais latino-americanos – que teriam como marca diferencial uma análise da diferença e da heterogeneidade combinada com uma preocupação com as desigualdades sociais – poderiam examinar como sua abertura para a alteridade “modifica ou regula sua presença como produção de conhecimento”, podendo, assim, tornar-se um “promissor espaço teórico para o questionamento da força epistemológica da globalização” (Teixeira, 2024: 191). Mais do que uma área ou metodologia de pesquisa, os estudos culturais são pensados por ela como forma também de transformação social. Daí ela recuperar sua origem em terras inglesas, ligada à democratização da educação e da cultura, pela qual batalharam Raymond Williams, Richard Hoggart, Stuart Hall, entre outros.
Esses textos são apenas dois exemplos de por onde Helô continuou caminhando, renovando seu compromisso com a crítica da cultura e do presente. Rever sua trajetória intelectual é, assim, constatar sua contribuição para a inteligibilidade do novo, para a ampliação do campo da cultura no Brasil e para o reconhecimento de seus diferentes atores sociais. E também para a impossibilidade do literário como especialidade burguesa. Daí as múltiplas frentes e espaços heterodoxos em que a sua crítica da cultura foi se realizando: em sala de aula, em editoras, em sets de documentários cinematográficos e televisivos, em curadoria de exposições, nas páginas dos jornais.
“Luz do Sol/Que a folha traga e traduz/Em verde novo/
Em folha, em graça/Em vida, em força, em luz”
Luz do Sol – Caetano Veloso, 1983.
Notas
[1] Em sua análise sobre a atuação de José Leite Lopes, Botelho (2008) recusa a ideia de “divulgação científica” para se referir à presença do autor na imprensa, entre as décadas de 1950 e 1960, e prefere a noção de “escrita pública”, que expressa a ideia de um pacto coletivo em torno de algumas inovações da ciência. Retomamos essa expressão aqui para analisar o trabalho de Helô no jornal, ainda que em outro contexto.
[2] Desde o momento em que Heloisa começou a mapear os poetas marginais, percebeu uma enorme resistência da crítica especializada a esse tipo de poesia, que se colocava contra os valores literários em voga e à margem do mercado editorial, privilegiando a produção independente, muitas vezes artesanal, feita em mimeógrafos. A antologia 26 poetas hoje recebeu muitas críticas negativas que, de modo geral, apontavam que a antologista teria reunido uma poesia sem qualquer “valor estético” – no máximo, diziam alguns, seria um material com “valor sociológico”. Algumas polêmicas em torno da poesia marginal podem ser conferidas no segundo número da revista José, de 1976, que reproduz um debate entre Heloisa, alguns poetas marginais (como Ana Cristina Cesar e Eudoro Augusto) e críticos que participavam do comitê editorial da José, como Luiz Costa Lima. Em questão, estava a qualidade dos textos e a discussão sobre se a poesia marginal era ou não literatura.
[3] A título de referência, Silviano Santiago (1978) mobiliza, em alguns ensaios do livro, categorias como “superastro”, “curtição” e “desbunde” para capturar, na novidade, a verve do contemporâneo e descrever a efervescência cultural do Brasil sob a ditadura militar. São ensaios que afirmam uma posição teórica de abertura a uma multiplicidade de textos e sujeitos literários que emergiram nos anos 1960-1970 e se transformavam simultaneamente no circuito cultural e político mais amplo.
Referências
BASTOS, Elide Rugai & BOTELHO, André. (2010). Para uma sociologia dos intelectuais. Dados, v. 53, n. 4, p. 889-919.
BOTELHO, André. (2008). Ciência pelo desenvolvimento: a escrita pública de José Leite Lopes. In: BOTELHO, André. et al. (Orgs). O Moderno em questão: a década de 1950 no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks Editora, p. 271-310.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (1978). Macunaíma: da literatura ao cinema. Rio de Janeiro: José Olympio / Empresa Brasileira de Filmes.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (2004). Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde (1960/70). Rio de Janeiro: Aeroplano.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (2009). Escolhas: uma autobiografia intelectual. Recife; Rio de Janeiro: Carpe Diem; Língua Geral.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Entrevista. (2019). Onde é que eu estou? Heloisa Buarque de Hollanda 8.0. Organização de André Botelho, Cristiane Costa, Eduardo Coelho e Ilana Strozenberg. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, p. 9-59.
JORNAL DO BRASIL. (1980). Livro. Rio de Janeiro, ano XC, n. 249, 13 de dezembro de 1980, p.1.
JORNAL DO BRASIL. (1980). Tudo aqui que está no ar. Livro. Caderno B. Rio de Janeiro, ano XC, n. 249, 13 de dezembro de 1980, p.10.
REVISTA JOSÉ. (1976). Poesia hoje: debate. Rio de Janeiro, v. 2, ago. 1976.
SANTIAGO, Silviano. (1982). Entrevista. In: Vale quanto pesa: ensaios sobre questões político-culturais. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 193-200.
SANTIAGO, Silviano. (2004). Democratização no Brasil 1979-1981: cultura versus arte. In: O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, p. 134-156.
SANTIAGO, Silviano. (2019). Uma literatura nos trópicos. Recife: CEPE Editora.
SÜSSEKING, Flora. (2003). Papéis colados. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.
TEIXEIRA, Heloisa. (2024). Helô no Jornal do Brasil (1980-2005). Organização de André Botelho e Caroline Tresoldi. Rio de Janeiro: BVPS Coleção 002.
