A Sociologia saiu no jornal: imprensa e debate público ontem e hoje, por Ricardo Maciel

Publicamos hoje texto de Ricardo Maciel (UFJF) com reflexões em torno da construção do curta-metragem Vale pra hoje: a sociologia na imprensa carioca, realizado em parceria com Antonio Brasil Jr. (UFRJ) e premiado com menção honrosa na primeira edição do Edital de Seleção de Vídeos Memória da Sociologia no Brasil, lançado durante o 22º Congresso Brasileiro de Sociologia.

O curta-metragem revisita a história da sociologia produzida no Rio de Janeiro em meados do século XX, a partir de sua inserção na imprensa. Por meio de entrevistas com Lúcia Lippi Oliveira, Glaucia Villas Bôas, André Botelho, João Marcelo Maia e os próprios autores, Vale pra hoje mostra como a sociologia colaborou, nesse período, para a construção de um repertório de intervenção pública. Segundo Maciel, mais do que reconstruir a trajetória da disciplina, o curta convida à reflexão sobre os desafios contemporâneos enfrentados pela sociologia enquanto disciplina pública.

Confira abaixo o texto e o curta-metragem.


A Sociologia saiu no jornal: imprensa e debate público ontem e hoje

Por Ricardo Maciel (UFJF)

O edital “Seleção de Vídeos sobre a História da Sociologia no Brasil”, que teve sua primeira edição em 2025, integra o projeto SBS Memória (edição 2023-2025) e teve como objetivo fortalecer a divulgação de profissionais, produções intelectuais e centros de ensino e pesquisa que contribuíram para a construção da história da sociologia brasileira. Ao incentivar a criação de vídeos sobre essa temática, o edital buscou promover o reconhecimento das contribuições regionais, fortalecendo uma visão mais ampla e inclusiva da história intelectual e das trajetórias que delinearam os estudos sociológicos.

Reconhecendo a importância dessa proposta e também as potencialidades específicas das produções audiovisuais no mundo contemporâneo, nosso objetivo foi recontar um pouco da história da sociologia feita no Rio de Janeiro a partir de sua presença na imprensa diária. O resultado, apresentado no último congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia e agora na BVPS, é o filme Vale para hoje: a Sociologia na imprensa carioca, produzido por mim e Antonio Brasil Junior. Além de retomar uma história, o curta-metragem propõe uma reflexão sobre os desafios contemporâneos da disciplina e os modos de apropriação da fortuna crítica da sociologia dos anos 1950, período marcado por uma atuação relevante dos cientistas sociais nos debates públicos e enfrentamentos dos problemas da sociedade brasileira.

A narrativa apresentada no filme se estrutura em torno de entrevistas realizadas com importantes pesquisadores(as), professoras e professores da sociologia brasileira: Lúcia Lippi Oliveira (CPDOC-FGV), Glaucia Villas Bôas (UFRJ), André Botelho (UFRJ), Antonio Brasil Jr. (UFRJ) e João Marcelo Maia (CPDOC-FGV).[1] Eles foram convidados a refletir sobre o cenário institucional da sociologia carioca em meados do século XX, analisando a participação dos sociólogos nos debates públicos daquele contexto e buscando compreender os modos pelos quais essa herança pode ser apropriada hoje. Na sequência, apresentamos as questões que perpassam o documentário e convidamos todos e todas a assistirem o filme.

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Entre as décadas de 1940 e 1960, o Brasil atravessou um período de crescimento econômico e intensas transformações sociais. Nesse contexto, a sociologia brasileira consolidava-se como uma ferramenta essencial para o entendimento e avaliação crítica das mudanças em curso, ao mesmo tempo em que definia seus contornos institucionais e disciplinares. Nos centros universitários e institutos de pesquisa, os primeiros estudos sistemáticos surgiam sob a marca de um saber especializado, atento aos dilemas nacionais e engajado na democratização da sociedade.

A emergência de uma sociologia voltada para o enfrentamento das questões sociais do país renovava a identidade da disciplina e ampliava seu repertório crítico. Esse processo, contudo, não se deu de maneira uniforme. No Rio de Janeiro, em parte devido à menor presença de espaços consolidados na academia, muitos sociólogos atuaram em outras frentes — como a burocracia estatal, organizações católicas, partidos políticos e a imprensa. Essa inserção em esferas não acadêmicas permitiu que a “sociologia científica” dialogasse com diferentes públicos e contextos, redefinindo tanto as trajetórias individuais de seus praticantes quanto o papel social da disciplina.

Embora a expansão da sociologia como campo acadêmico tenha se dado de forma significativa nesse período, é importante destacar que boa parte de sua produção circulou fora dos espaços universitários, com grande destaque para os jornais diários. A imprensa periódica, especialmente os suplementos literários de jornais de grande circulação, como A Manhã, Diário de Notícias, Diário Carioca e O Estado de S. Paulo, constituiu uma das principais plataformas de expressão dos cientistas sociais da época (Maciel, 2024; Brasil Jr. 2017).

A imprensa também passava por uma revolução, tanto em sua estrutura quanto em seus formatos editoriais. Pequenos jornais se transformavam em grandes empresas com maior alcance, o que ampliava a presença do jornalismo no debate público. A reforma da imprensa abriu espaço para uma inserção especial das ciências sociais no debate público. Os jornais diários ajudavam a suprir a necessidade de circulação do pensamento sociológico, permitindo que um público mais amplo tivesse acesso a essas ideias. A escassez de publicações especializadas tornava os jornais ainda mais estratégicos para dar visibilidade ao pensamento sociológico. Os periódicos, com ampla circulação, tornaram-se peças-chave nessa dinâmica, contribuindo para uma sociologia engajada com os dilemas urgentes do país.

Essa presença na imprensa, no entanto, exigia ajustes. A linguagem sociológica precisava ser mais acessível, mais literária, ou seja, mais adaptada ao público amplo dos jornais. Era necessário negociar com os limites e expectativas do jornalismo e com o lugar tradicionalmente reservado aos “escritores”, designação geral para os diferentes tipos de intelectual. Nesse sentido, Charles Tilly (2008), com seu par “repertório-performance”, permite compreender a participação dos sociólogos na imprensa de forma mais flexível, contingente e historicamente situada. Para o autor, as ações coletivas não ocorrem de forma aleatória, mas dentro de um repertório limitado de práticas historicamente disponíveis. Os grupos escolhem suas performances com base no que consideram mais eficaz, avaliando as respostas esperadas da audiência e a viabilidade no contexto social e político.

A partir dessa abordagem, podemos assumir que os cientistas sociais operariam na esfera pública dentro do repertório disponível, atuando, incrementalmente, na ampliação dos formatos e suportes, de modo a expandir suas possibilidades de intervenção. Em certo sentido, os sociólogos daquele período estavam jogando um jogo cujas regras não haviam criado, mas isso não os impediu de expandir seus limites. Aos poucos, trouxeram para o debate público novos temas, novos conceitos, novas formas de pensar a sociedade.

Michael Burawoy (2005), no bojo de suas considerações sobre a “sociologia pública”, argumenta que a opção da sociologia norte-americana, no pós-guerra, de se afastar da esfera pública refletia uma estratégia de afirmação do status profissional da disciplina que buscava colocar-se “acima” das questões pedestres. Como efeito, ele avalia que o distanciamento do discurso público, em nome da cientificidade, comprometeu a capacidade da sociologia de comunicar sua relevância aos próprios grupos sociais dos quais dependia para obter apoio.

No Brasil, por outro lado, vemos que a sociologia dos anos 1950 foi construída em profunda relação com as questões públicas. Tanto seu corpo conceitual quanto sua temática e seu espaço de atuação estiveram ligados aos problemas da sociedade brasileira, conformando desde o início uma sociologia com forte interesse nas questões públicas. Perlatto e Maia (2012) reforçam essa percepção ao sustentarem que o contexto brasileiro é marcado pela prevalência de argumentos sociológicos mais gerais, disseminados em diversos circuitos intelectuais e não apenas nos ambientes universitários próprios do que seria a sociologia “profissional”.

O largo uso da imprensa feita pelos cientistas sociais da metade do século XX reafirma esse forte engajamento com os dilemas históricos e sociais do país. Longe de ser um espaço marginal ou de mera divulgação, a participação na imprensa constituiu-se como uma via estratégica de atuação intelectual, conformando, ao lado dos espaços institucionais, um circuito relevante de produção e circulação de ideias, que impactou diretamente o próprio processo de sistematização da disciplina (Maciel, 2024).[2]

Em nosso filme, mais do que reconstruir a história da disciplina a partir de sua inserção nos jornais cariocas, buscamos refletir sobre o legado daquela geração de sociólogos e o que ela pode nos ensinar sobre o fortalecimento do papel público da sociologia hoje — um momento que tem desafiado enfaticamente sociólogas e sociólogos. Nesse sentido, a comparação entre as falas dos(as) entrevistados(as) revela muitas convergências, mas também ênfases distintas sobre o legado da sociologia dos anos 1950 e as possibilidades de atuação pública no presente. Dentre as convergências, destacam-se a persistência dos problemas estruturais da sociedade brasileira, a importância do legado crítico do passado, a necessidade de uma apropriação seletiva e crítica dessa herança, e a identificação de mudanças radicais nos meios de comunicação e nas formas de atuação. As divergências, por sua vez, manifestam-se sobretudo nas avaliações sobre o alcance das explicações formuladas pela sociologia para compreender o presente e nos diagnósticos acerca da disseminação ou fragmentação do discurso sociológico.

A desigualdade, o racismo e a concentração de poder permanecem como desafios centrais da sociedade brasileira, exigindo o compromisso ativo da disciplina com a realidade social. Há também um reconhecimento da reconfiguração da esfera pública: o declínio da imprensa impressa e a ascensão de mídias digitais criaram desafios para a atuação dos cientistas sociais. Hoje, sociólogos(as) precisam reinventar suas formas de comunicação, dialogando com diferentes públicos em plataformas como redes sociais, podcasts e blogs.

A produção sociológica brasileira dos anos 1950 desenvolveu uma reflexão consistente tanto sobre a compreensão que os próprios sociólogos tinham de si mesmos quanto sobre as tarefas atribuídas à disciplina (Villas Bôas, 2007). Mannheim (2004) afirma que a marca do intelectual moderno reside na busca por identificações e na participação nas tensões e polaridades de sua sociedade. Segundo o autor, a consciência de um grupo social surge a partir do esforço em avaliar sua posição diante de uma nova conjuntura. Para os sociólogos brasileiros dos anos 1950, cuja identidade profissional ainda estava em construção, afirmar sua posição em uma nova estrutura do campo científico era uma tarefa imperativa.

Em conformidade com essa visão, a análise dos artigos publicados na imprensa mostra uma preocupação recorrente em apresentar ao público a especificidade do olhar sociológico (Maciel, 2024). Não por acaso, as ideias de Mannheim encontraram ampla recepção entre os sociólogos brasileiros (Villas Bôas, 2006). No projeto formulado por Guerreiro Ramos, por exemplo, a dimensão científica articulava-se diretamente com a história e com a ação política. Para o autor, era fundamental o engajamento do sociólogo nas tarefas do desenvolvimento nacional, contribuindo assim para acelerar os processos de transformação social (Ramos, 1995, 1996).[3]

Buscando evitar uma visão positivista sobre o valor da ciência, e sem assumir pretensões normativas, arrisco afirmar que o fortalecimento da sociologia no debate público passa pelo resgate dessa preocupação presente nos anos 1950 em explicitar sua diferença em relação a outros campos do saber, destacando sua contribuição específica. Nesse sentido, os muitos artigos publicados sobre a própria disciplina nos jornais podem ser pensados dentro de uma retórica de convencimento sobre a relevância daquele conhecimento.

Essa atuação, contudo, em que pese a necessidade de estar ancorada na tradição teórica e metodológica da disciplina, deve estar ajustada às condições atuais da sociedade. Os jornais perderam seu papel central, sendo hoje apenas mais um entre os muitos espaços de circulação de ideias. Esse novo cenário se caracteriza pela fragmentação e pela competição permanente por atenção em ambientes saturados de informações, memes e conteúdos efêmeros. Essa transformação coloca desafios enormes para a atuação pública da sociologia. Embora os jornais tradicionais tenham perdido espaço, os(as) cientistas sociais ganharam novas formas de inserção por meio de uma sociologia disseminada, que transborda os limites acadêmicos e se articula com saberes locais e práticas políticas.

Uma abordagem para o problema pode ser dada pela ideia das ciências sociais como um movimento científico-intelectual, proposta que parte das formulações de Frickel e Gross (2005), que concebem os intelectuais como parte de uma rede descentralizada e conectada de modo contingente. A articulação desse movimento não depende do consenso em torno de práticas científicas ou posições teóricas, mas da convergência em certos objetivos comuns. Podemos pensar, portanto, que os(as) cientistas sociais, apesar de sua heterogeneidade, ganhariam relevância ao se articularem em torno de um movimento que tem o objetivo comum de restaurar a importância das ciências sociais no debate público. Tal perspectiva permite enquadrar, analiticamente, o processo de mobilização de recursos simbólicos e materiais que, de maneira conflitiva e em constante negociação com diferentes agentes, sustenta a construção de um espaço para as ciências sociais no debate público.

Nesse sentido, iniciativas como o edital de vídeos da SBS são especialmente bem-vindas. Trata-se de um esforço que valoriza o audiovisual como linguagem de memória, pesquisa, ensino e difusão científica, cujo impacto se amplifica por meio de veículos como o blog e demais iniciativas da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS) — espaço que, ao congregar uma produção relevante, ajuda a tornar visível o que poderia passar despercebido em um mundo saturado de estímulos e conteúdos. São essas redes que contribuem para renovar a tradição da sociologia pública, conectando diferentes tradições, gerações, linguagens e públicos.

Notas

[1] Gostaria de fazer um agradecimento especial aos entrevistados(as) pela disponibilidade, gentileza e entusiasmo com que atenderam ao convite.

[2] A presença dos cientistas sociais na imprensa pode ser apreendida dentro de um processo mais amplo de sistematização da disciplina. Inspirando-nos na noção de “sistema literário” proposta por Antonio Candido (2006; 2007), assumimos que a sociologia, tal como a literatura, constrói-se como uma totalidade estruturada por obras, autores, instituições, leitores e formas específicas de interlocução, formando um sistema intelectual cujas regras de funcionamento foram sendo elaboradas em meio a práticas discursivas heterogêneas — entre elas a escrita para a imprensa (Maciel, 2024).

[3] Segundo Maia (2011, 2012), o caso de Guerreiro evidencia a relevância de se repensar questões clássicas da sociologia dos intelectuais com base em referências mais variadas e plurais. A relação entre intelectuais e vida pública, segundo ele, pode ser apreendida com base na existência de tradições culturais singulares, que produziram modos específicos de intervenção.

Referências

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CANDIDO, Antonio. (2006). Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul.

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