Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Atlântico (8 de dezembro)

Se até ontem Mário de Andrade tinha a vista encantada pela cidade de Salvador, agora está de volta à nau, que segue devagar demais. Ele já se cansou até do próprio tédio. Escreve sobre o desgaste do que já foi prazer, sobre o tempo que se arrasta, a dificuldade de se relacionar – até mesmo com uma senhora piauiense mal-humorada e um menino curioso. E assim o modernista atravessa a calmaria, com vontade de naufrágio, ou de pelo menos um tubarão à vista. Maceió se aproxima.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Atlântico (8 de dezembro)

Positivamente isto não se atura mais, que monotonia!… Não é que a monotonia seja desagradavel, tem monotonias deliciosas, esta do Manaos é que virou intoleravel. Paulo Prado costuma repetir que uma das sensações mais gostosas que ha, é a gente, lavado, barbeado etc. sentar numa cadeira de deque viajando, e lembrar que não tem nada prá fazer, nenhuma obrigação, nem de ler, nem de ser intelligente, nem de dormir, nem de nada… Está certo. Isso é um gôso vasto, vegetal. Chupitar a inexistência propria feito um martelo de pinga, é delicioso.

Porëm já gosei isso á farta nos primeiros dias e êste lesma de vapor vai num atraso brasileiro que chega a irritar até a epiderme. Quatro dias prá chegar na Bahia, dois prá ir dela até o poeta Jorge Lima em Maceió, não se atura! E já me acostumei com o balango da nau. Não tem dúvida que apesar do mar de rosas, a nau sacoleja talqualmente a mão do barman, porëm até já passou aquele semi-enjôo de alma que me fascinou tanto nos primeiros dias… Estou completamente a pé.

Dos companheiros não tiro nada. Nem mesmo da senhora piauiense, a segunda das duas apontadas outro dia. Estava cantarolando ontem de noite, aproveitei o assunto prá entabolar conversação com ela hoje de manhã… Laura Moura me recebeu com duas pedras na mão, si então eu imaginava que no Piauí nem tinha canções populares, que em toda a parte do mundo morre boi e não é só no Piauí que o meu boi morreu… Meu deus, eu não caçoara nem perguntara nada disse não! só perguntara si ela podia me cantarolar alguma canção tipica da terra dela… Sebo! Me calei. Felizmente que chegou o filhinho dela, um piá sací temivel, que me chama de retratista por causa da codaque.

— Como é seu nome, heim?

— José Camargo Machado.

— Como é o nome de sua Mãi?

— Laura Moura.

— Ôh que nome bonito… e o de seu pai?

— Coronel Antonio Camargo Machado.

— Fique quieto, José!

O filho de Laura Moura jamais não saberá porquê não estava quieto no unico momento de quietude que tivera a bordo…

Que monotonia… Mar de rosas… Que fatigancia! como falara o mulato… Nenhum navio ao menos prá disfarçar a vista…

Nenhum tubarão, nenhum naufragio, nem pelo menos um incêndio a bordo…

Agora estou dormindo.

MÁRIO DE ANDRADE